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terça-feira, 14 de outubro de 2014

“Liberdade” da Folha só vale para o Reinaldo. É o jornal da piada pronta.




Por Fernando Brito, no Tijolaço




A demissão de Xico Sá da Folha, por se ver impedido de declarar sua opção eleitoral por Dilma em sua coluna no jornal é uma honra para o jornalismo brasileiro.

O veto à publicação da declaração de seu voto na coluna que mantinha há anos no jornal – onde militou muito tempo, talvez alguns não saibam, como repórter político, antes de se dedicar às crônicas de futebol e de costumes – só poderia ser aceito por quem fosse desprovido de um mínimo de dignidade, o que sobra a Xico.

O grande público que acompanhou sua participação do programaExtraordinários, durante a Copa do Mundo, sabe que ele, com bom humor e tolerância, jamais se calou diante da absurda tentativa de transformar os “coxismos” em “manifestação popular” e, já ali, dava seus trancos nas manifestações anti-nordestinos que, vemos agora, se tornaram um dos motes da direita.

Uma atitude destas, vinda de um jornal que traz para o lugar de colunista – como colunista é Xico – um energúmeno como Reinaldo Azevedo, é mais que uma hipócrita censura, é uma piada mórbida.

Porque é só assim que se pode ler a explicação do jornal de que os colunistas “”devem evitar fazer proselitismo eleitoral em seus textos”.

Os textos de Reinaldo Azevedo são o quê?

Fico com medo pelo emprego do José Simão, porque a direção da Folha parece ser adepta da “piada pronta”, bordão de seu simpático Macaco.

E olhem que, como ressalva o próprio Xico, em seu Facebook, “é bem melhor em se comparando aos outros jornalões, vide grande revelação do aeroporto privado de Aécio e o mínimo questionamento do choque de gestão nas Gerais, esse fetiche econômico insustentável até para a Velhinha de Taubaté do meu amigo Veríssimo. ”

Parabéns ao Xico, que mostrou que ainda existe o que em outros tempos sobrava no jornalismo: coragem e decência pessoal.

E que é capaz de definir, bem sucinto, o que se tem na mídia hoje: “É muito desequilíbrio. É praticamente jornalismo de campanha. Não cobertura.”.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Pra entender o nível da imprensa brasileira nos atualmente





Do Objetivando Disponibilizar

Por Madrasta do Texto Ruim


Amanhã este post completa um ano de publicado. Mas ele está atualíssimo, aliás, ele conseguiu a proeza de estar mais atual agora do que há um ano.

Eu aproveitei as manchetes de vários jornais mundo afora versus manchete do site da Veja para dar uma amostra do comportamento vil e asqueroso da imprensa nacional.

Como Dilma Vana tá voltando hoje a Nova Iorque pra abrir o boteco da ONU, republico-o.

(E querem apostar como a imagem que ilustra este post também vai ser atualizada? Valendo!)

***************************************

Eu venho desenvolvendo essa tese há algum tempo aqui nos meus miolos. Hoje acabei de vê-la desenhada. Então, já que tenho ilustração, vou discorrer sobre. Não sem antes agradecer à dileta amiga Lucianna Carvalho, por me dar o lindo passe que resultou nesse gol.

Para que todos entendam de linhas editorias deste ou daquele veículo jornalístico, vamos fazer um exerciciozinho técnico de “encontre a notícia”.

Para isso, vamos usar como exemplo uma passagem bíblica: Jesus caminha por sobre as águas do lago. Copio a citada aquihttp://www.bibliaon.com/joao_6/ (Jo 6, 16-24 ou Evangelho Segundo São João, capítulo 6, versículos 16 a 24):


16 Ao anoitecer seus discípulos desceram para o mar,
17 entraram num barco e começaram a travessia para Cafarnaum. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha ido até onde eles estavam.
18 Soprava um vento forte, e as águas estavam agitadas.
19 Depois de terem remado cerca de cinco ou seis quilômetros, viram Jesus aproximando-se do barco, andando sobre o mar, e ficaram aterrorizados.
20 Mas ele lhes disse: “Sou eu! Não tenham medo!”
21 Então resolveram recebê-lo no barco, e logo chegaram à praia para a qual se dirigiam.
22 No dia seguinte, a multidão que tinha ficado no outro lado do mar percebeu que apenas um barco estivera ali, e que Jesus não havia entrado nele com os seus discípulos, mas que eles tinham partido sozinhos.
23 Então alguns barcos de Tiberíades aproximaram-se do lugar onde o povo tinha comido o pão após o Senhor ter dado graças.
24 Quando a multidão percebeu que nem Jesus nem os discípulos estavam ali, entrou nos barcos e foi para Cafarnaum em busca de Jesus



Agora me ajudem. Vamos fazer de conta que:

– Jesus existiu (pra você que não acredita nele)

– Há fotos de Jesus caminhando por sobre as águas. Portanto, devemos todos partir do princípio de que esstrem aconteceu de fato – e você acredita nisso.

– A imprensa inteira noticiou o feito

– Jesus é do PT (calma, calma, calma! Deixa eu defender minha tese!)

Então, com essas premissas aí todas pacificadas, vamos analisar a coisa: qual é a notícia, o grande fato que transforma essa travessia de barco da história diferente de todas as outras? Ou, como gostam de dizer os editores (ô, raça!), qual o inusitado da história?

Acertou quem respondeu Jesus andou por sobre as águas do mar de Tiberíades (sim, o texto fala em mar. Mas dá um desconto. A Wikipedia –http://pt.wikipedia.org/wiki/Mar_da_Galileia – chama esstrem de Mar de Tiberíades ou Lago de Genesaré – além de ele ser também o mar da Galileia. Considerando o nível de confusão praquelas bandas, não saber se um monte d’água é mar ou lago é o menor dos problemas deles. E isso nem vem ao caso!)

Mas enfim. Deixamos Jesus andando por sobre as águas. Então, como deveria ser a manchete neutra, que traz a informação livre deste ou daquele viés político?


Jesus caminha por sobre as águas do mar de Tiberíades

É a notícia, ele fez isso mesmo (você me prometeu lá em cima que iria acreditar na história! Num estressa!) e lembrem-se: a manchete é uma frase única, de preferência com uma única oração, que traz uma unica ideia. Tem que ser uma linha sintética, simples, pá-pum.

Mas não é bem assim que a banda toca por estas bandas de cá, né? Vamos ver como os vários veículos de comunicação que pululam por este Brasil dariam a notícia.

Primeiro, aqueles que ficaram conhecidos como os blogprog. Há quem diga que esse povo recebe do governo pra fazer o que fazem. Eu duvido – não porque o governo não seja capaz de uma coisa dessas, mas porque eu me recuso a acreditar que o governo, qualquer que seja ele, consiga remunerar um troço tão mal feito! Porque, se eles tivessem que dar essa notícia, sairia marromeno assim:

Jesus Inácio Lula da Silva realiza feito histórico e caminha por sobre as águas do mar da Galileia
“Nunca antes na história deste país alguém ousou caminhar por sobre essas águas revoltas, mas nosso país está mudando”, Declarou Jesus Inácio

Vou evitar discorrer sobre o ridículo da frase acima pois creio que ele seja autoexplicativo. E eu não estou aqui para redundâncias. Então, vamos ver como a imensa maioria da imprensa brasileira daria a manchete:


Jesus caminha por sobre as águas, mas expõe apóstolos a possíveis afogamentos

Reparem na construção da frase acima. Observem que há duas orações coordenativas adversativas. Traduzindo pra quem não se lembra mais das aulas de sintaxe: são duas orações coordenadas, ou seja, duas orações que são independentes uma da outra – cada uma, sozinha, faz sentido, se basta. Mas elas se ligaram por coordenação. E essa ligação se deu com uma conjunção que imprime uma adversidade aos dois enunciados:

Jesus caminha por sobre as águas = legal, positivo, maneiro;
Jesus expõe os apóstolos a possíveis afogamentos = mau, negativo, feio, isso não se faz.

Daí que a regra básica da manchete (uma frase, uma ideia, uma oração) foi quebrada. Entraram em campo duas orações – a primeira positiva; a segunda (que vai permanecer mais tempo nazideia), negativa. Pode reparar que esse é o tipo de manchete usada por Folha, Globo e Estadão. <– observe o ponto, por favor. Citei apenas esses três, fazfavô!

Agora pensem na quantidade incomum de manchetes compostas de “vírgula-mas” (http://www.meionorte.com/noticias/geral/brasileiro-vive-mais-mas-em-condicoes-precarias-58595.html) que vocês leram nos últimos dez anos (http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/privatizacao/o-brasileiro-esta-vivendo-mais-e-isso-e-otimo-mas-e-a-previdencia-social/) – principalmente as referentes às melhorias de qualidade de vida dos brasileiros.)

Eu poderia (e pretendo) discorrer sobre esse tema com mais ponderações e orientações. O fato é que é possível analisar esse tipo de manchete tanto pelo lado negativo, como eu acabei de fazer, como pelo lado positivo: apesar de imprimir um viés editorial à notícia, que abandonou menina isenção e deixou Jesus Cristo meio antipático, a manchete informou o fato em si. quem leu esse título ficou sabendo que Jesus caminhou por sobre as águas – ponto. (mas o gostinho do fel ficou na boca.)

Mas a coisa pode ficar pior. O viés ideológico e a opinião rasteira, daquela que destrói todos os princípios do bom jornalismo, podem se fazer presentes de forma ainda mais grotesca. Imagine se, após o feito do trecho bíblico, alguns veículos estampassem em suas manchetes:


“Jesus não sabe nadar” ?

Antes de tachá-lo de ridículo, cabe avisar aqui que o título acima não satisfaz o pré-requisito de informar sobre o fato em si. (Pronto, agora podemos chamar de ridículo. Ou, ainda, de recalque. Mas essa análise recalque é muito 2013, quero deixá-la atemporal).

Ah, Bruxa, ninguém faz isso, não! Fica muito ridículo!

Pois eu digo que o grupo Cisneros, na Venezuela, fazia isso direto com o ex-presidente Hugo Chávez; o grupo Clarín faz isso direto com a presidenta Cristina Kirchner; e aqui no Brasil, que é useira e vezeira nesse tipo de construção é a Veja.

Querem ver?

Infográfico roubartilhado do Facebook do Laerte Gurgel

Vamos analisar o fato em si:

Dilma foi à ONU fazer o discurso de abertura da Sessão deste ano da entidade internacional. O trem que tá pegando: a espionagem escancarada dos Estados Unidos em cima do pré-sal e das comunicações do altíssimo escalão do governo federal.

O que que Dilma fez no discurso? Condenou o ato.

Como a imprensa internacional noticiou?

- The Guardian: [espionagem é] uma brecha ao Direito Internacional

- Le Monde: espionagem é afronta

- El País: Rousseff condena práticas de espionagem

- Veja: Dilma critica EUA

E eu paro por aqui. Não vou falar das fotos, não vou falar de 2014, não vou falar de mais nada.

Só peço que vocês reparem que a manchete da Veja é composta por duas orações coordenadas. Observem também que essas orações são ADITIVAS. Ou seja: uma é negativa, a outra também.

Em resumo: você assina Veja? Troque por Chico Bento. Leitura de altíssima qualidade, leve e estimulante. e, se bobear, tem mais informação que o hebdomadário abriliano.

(E este post foi incluído na categoria “PORRA, FOLHA!” por osmose.)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O “cala a boca” dos donos ectoplasmas do jatinho fantasma






Por Fernando Brito, no Tijolaço

A Folha de hoje publica matéria que é uma espécie de “Prêmio Esso” da hipocrisia jornalística.

Anuncia que “advogados” dos empresários João Paulo Lyra e Apolo Vieira Santana estariam procurando os proprietários dos imóveis destruídos ou danificados pela queda do avião para fazer acordos de indenização ex-judiciais.

Naturalmente, claro, com “cláusula de confidencialidade” e renúncia a pedidos outros na Justiça, como faria qualquer advogado.

O famoso “cala a boca”, que aquelas famílias – sem casa e com prejuízos imensos para quem tem muito pouco- talvez não tenham mesmo como recusar.

Que o papel de ambos os empresários, um punido por omissão de transações cambiais e outro processado por contrabando, seja este, paciência.

Mas não o do jornal.

Como é que a Folha conversa com o advogado dos dois e não manifesta o interesse em ouvi-los pessoalmente, nem que seja para ouvir uma recusa?

“A Folha pediu ao advogado para conversar com os donos do avião, mas ele recusou-se a fazer o contato com os empresários”.

Era o mínimo de satisfação aos leitores.

Até porque a empresa de Apolo, a Bandeirantes de Pneus, divulgou nota oficial dizendo que o avião não era seu.

Transcrição literal da página de Jamildo Mello, editor de política do Jornal do Commercio, o mais importante de Pernambuco:

“A Bandeirantes Companhia de Pneus S.A. teve interesse na aquisição da aeronave PR-AFA, de propriedade da Cessna Finance Corporation, arrendado pela A.F. Andrade. A operação não se realizou porque estava condicionada à aprovação pela Cessna do cadastro da Bandeirantes, o que não ocorreu até a data do lamentável acidente com o avião.

Bandeirantes Companhia de Pneus S.A.”., diz o texto.

Em uma nota de esclarecimento complementar, a Bandeirantes Companhia de Pneus S.A. negou também que em algum momento tenha pago parcela de leasing da aeronave PR-AFA, de propriedade da Cessna Finance Corporation, bem como de qualquer outra despesa da aeronave, como combustível, tripulação, etc.

Agora, assume o pagamento de indenizações, diz a matéria, por ”razão humanitária”, disse o advogado ao jornal.

Adiante, o jornal publica que “não está nos planos dos empresários indenizar familiares dos pilotos e passageiros do jato”.

- ”Essa responsabilidade será apurada em momento posterior”.

Se for na linha do comportamento exibido pelo PSB em suas contas, o posterior será bem depois das eleições, não é?

Novamente não está presente a pergunta obvia: os pilotos eram contratados dos empresários, de suas empresas, de quem?

“A Folha quis saber se o piloto e o co-piloto eram contratados ou prestavam serviços aos empresários, mas o advogado recusou-se a dar informações”

“A Folha procurou os familiares do piloto e do co-piloto, mas ninguém quis dar informações”.

Que nada!

A imprensa brasileira cobriu-se de indignação quando um bobalhão usou a rede do Governo para criticar Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardemberg na Wikipédia, exigindo apuração total nos arquivos de logcom centenas de milhares de acessos . Uma bobagem, mas aí está o cidadão – aliás, funcionário de carreira – identificado e punido com a perda de gratificação e um inquérito administrativo.

Mas num acidente que matou sete seres humanos e mudou o rumo da sucessão presidencial no país, nossa indignada imprensa aceita que algo simples, como dizer se é ou não é dos empresários o avião, como foi comprado e se os dois pilotos eram seus contratados, isso “será apurado num momento posterior”…

Não posso crer que um repórter se conforme com algo precário assim.

Prefiro acreditar que ele também é prisioneiro de uma teia de cumplicidades que esconde a verdade do povo brasileiro, sobre um acontecimento que, em hipótese nenhuma, merece o nome de privado.

Há sete mortes pelas quais responder e se da investigação das causas do acidente dependem as responsabilizações criminais, as cíveis não dependem originalmente.

E há, sobretudo, 200 milhões de pessoas cujas decisões que tomarão em 20 dias precisam ter como fundamento a verdade sobre em que condições se realizava um ato de campanha que tornou-se um evento dramático para os destinos do país.

O jornalismo tem muito menos – e assim deve ser – limites e constrangimentos legais para informar, apurar, revelar do que as instituições policiais e judiciais.

Mas três empresários (os dois e Eduardo Ventola, que repassou R$ 700 mil para a compra) ricos e poderosos – sim, porque dono de botequim não compra jatinho – vagam há um mês como ectoplasmas pelas ruas do Recife, sem que haja um repórter que os aborde, que os indague, que lhes peça explicações.

Aliás, deve ser o primeiro caso na história que a imprensa, mansamente, aceita e se contenta em falar com advogado de fantasmas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Alteração de perfil: Dilma, Lula, Petrobrás








"Não faltam clássicos do jornalismo meliante a incriminar Lula, sangrar o PT, indispor Dilma e a falir a Petrobrás". De MG, no twitter:



Por Saul Leblon da Carta Maior, extraído do Conversa Afiada:




Vamos falar de bullying ideológico? Não faltam clássicos do jornalismo meliante a incriminar Lula, sangrar o PT, indispor Dilma e a falir a Petrobrás.



Alteração de perfil: Picasso, Lula, Dilma e Petrobrás

Não se sabe ainda se foi um surto de megalomania ou de desespero.

Quem sabe as duas coisas juntas.

O fato é que jornalistas do maior oligopólio de comunicação do país, cujos perfis foram alterados na Wikipédia com uso do sinal de Wi-Fi do Planalto, declararam-se vítimas de uma política oficial de bullying ideológico.

Promovida pelo ‘governo do PT’.

Claro.

Não importa que a trama careça de lógica. Manchetes faiscantes selaram o enredo.

É preciso paciência. Vamos lá.

Personagens autoexplicativos, que vivem de reafirmar o que são, cujas assinaturas se confundem com um timbre do que representam, demandariam alguma conceituação adicional?

E do governo?

De um governo que investe a maior verba publicitária destinada à tevê justamente no grupo ao qual os dois ofendidos pertencem?

E o faz a contrapelo de uma audiência crepuscular dos beneficiados –atacaria assim?

Pela… Wikipédia?

De dentro do Planalto?

Carta Maior nasceu e se propõe a ser um espaço de reflexão da esquerda que não renuncia à interdependência entre socialismo e democracia.

Sua isenção consiste em produzir jornalismo –com modestíssimos recursos– a partir desse mirante histórico.

A opção não dispensa, ao contrário, pressupõe um ambiente de pluralidade informativa para afrontar o denso nevoeiro da crise civilizatória do nosso tempo, da qual o vale tudo do capitalismo é uma síntese robusta.

Os dias que correm demonstram: isso não é retórica.

Os referidos donos dos ‘perfis alterados’, no entanto, habitam um universo de comunicação isento de dúvidas. E avesso ao contraditório.

Desse minarete blindado sentenciam projetos, programas, lideranças, movimentos, governos e reputações à fogueira purgativa de um capitalismo entregue à sua própria lógica.

Ai dos que teimam.

Um metalúrgico teimou e chegou onde não devia, em 2003, enfiando-se em uma faixa presidencial .

Sujeito sem termo, de jejuna experiência administrativa, o monoglota pouco afeito aos bons modos, veio cercado de gente da mesma cepa e ungido por malta de instintos equivalentes aos seus.

A elite e o dinheiro reagiram e reagem inconformados.

Vamos falar de bullying ideológico? De sistemática falsificação no perfil? De onipresente e martelante adulteração de imagem?

Por exemplo.

Na edição da Folha de São Paulo –um braço dessa engrenagem– desta 2ª feira (11/08), pequena nota corrige erro aparentemente desprovido de maiores consequências, cometido no alvorecer do ciclo de governos petistas.

Só aparentemente.

Na edição dominical de 07 de março de 2004, o jornal alimentara o sentimento de menosprezo dos seus leitores pela coisa pública, oferecendo-lhes um contundente exemplo da incompetência estatal, ademais do despreparo do novo governo, para lidar com o próprio patrimônio.

Sob o título “Decoração burocrata –Desenho do pintor espanhol, que divide moldura com restos de insetos, foi descoberto por historiador”, uma foto gigantesca na 1ª página da Folha mostrava o que seria um autentico Picasso (1881-1973), pendurado em uma das salas da direção do INSS, em Brasília.

“Uma mulher desenhada por Pablo Picasso”, dizia o texto, “passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição (…) Pendurada desde o final do ano passado numa das salas da diretoria do instituto próxima de uma fotografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a mulher de Picasso ainda aguarda um destino melhor… ” (Marta Salomon; Folha de SP (07/03/2004)


Como então, uma gente que não consegue dar destino melhor a um tesouro artístico do que ombreá-lo a um pôster de Lula, pode se propor a comandar o país?

Era a mensagem.

A intenção verdadeira.

Tão falsa quanto a originalidade da obra.

O tesouro, agora se admite, era apenas uma reprodução de desenho do pintor de Guernica.

A confissão do bullying veio nesta 2ª feira.

Com uma década de atraso.

Ainda assim porque a barriga foi resgatada pelo cineasta Jorge Furtado, que argui o padrão Frias de qualidade em seu recém lançado filme, ‘Mercado de Notícias’
A real dimensão do que estava em jogo remete a um processo bem mais amplo de ‘alteração de perfil’ que ainda não terminou.

Empossado há um ano e três meses, o então Presidente Luís Inácio Lula da Silva era alvo de um agressivo terceiro turno por parte de um dispositivo midiático disposto a vingar a derrota do seu eterno delfim, o tucano José Serra.

O ataque era humilhante e implacável. Não raro grosseiro.

Três meses depois do Picasso, a mesma Folha e de novo na edição nobre dominical ( 13/06/2004), estampava nova foto sugestiva na primeira página.

Maior que a anterior, vinha encimada de manchete capciosa e deselegante. A composição cuidava de cevar o ódio da classe média, fidelizando-a no menosprezo e na desqualificação ao novo governo e ao seu principal expoente.

Uma ração matinal para as famílias se enojarem da política e dos políticos –sobretudo os do PT.

Na imagem, Lula toca um berrante numa angulação que dá sentido dúbio ao seu gesto. A intenção ostensivamente buscada se explicita na manchete garrafal a emoldurar o conjunto:

‘25% dos filhos da elite bebem demais’(http://acervo.folha.com.br/fsp/2004/06/13/2/)

O texto reitera a visada: “ (…) à noite, houve uma festa junina para marcar os 30 anos de casamento do presidente (…) O carro de boi estava carregado de comidas típicas, como carne seca, paçoca e biscoito de polvilho, além de três litros de cachaça…”(Folha de S Paulo; 13/06/2004)

Isso é alteração de perfil ou jornalismo isento?

É coincidência ou ‘alguém deu ordem para isso’ –como afirmou um dos personagens do ‘escândalo da wikipédia’?
Em dúvida, convém reler o texto da então colunista do jornal , Danuza Leão, publicado dois dias depois do arraial na Granja do Torto, na terça-feira,15/06/2004.

Com o título descolado, ‘Fala sério, Lula!’, a socialite completa o serviço iniciado no domingo.

Estamos falando de uma virtuose na arte de adicionar preconceito de classe ao antipetismo. Quem não se lembra do seu libelo contra os porteiros da era Lula, que agora também andam de avião? (http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Daslu-Danuza-e-Da-o-fora-/30012).

Em 2004, ela já era boa nisso.

Trechos: ‘‘O Brasil tem tantos regionalismos bacanas (…) e o presidente e dona Marisa Letícia vão escolher logo uma caipirada dessas? Foi um desastre desde o começo: o tema da festa, o carro de boi chegando cheio de paçoca e cachaça (…) Sempre se soube que a saudade de Fernando Henrique e dona Ruth Cardoso ia ser grande, mas não dava para imaginar que fosse ser tão grande. O arraiá foi de uma breguice difícil de ser superada, mas não vamos perder as esperanças: até o fim do mandato eles talvez consigam” (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1506200413.htm)

Não seria o auge.

Eles se superam.

Um clássico do gênero coube à edição da mesma Folha de S. Paulo, de 30 de setembro de 2006, véspera do 1º turno da eleição presidencial daquele ano.

Um jato da Gol havia se chocado no ar com outro avião. Morreriam 155 pessoas.

A tragédia, de longe, era o destaque do dia. Mas a Folha, a mesma que agora se retrata com uma década de atraso em relação ao falso Picasso, descolaria outra obra de arte no gênero ‘falsificação de perfil’.

Virou um ‘case’ do jornalismo meliante.

A manchete em seis colunas (‘Fotos mostram dinheiro do dossiê’) faiscava sobre a imagem de uma montanha de notas, supostamente para a compra de um dossiê contra Serra –que havia abandonado a prefeitura para disputar o governo do Estado.

Logo abaixo da pilha de dinheiro, a imagem de Lula, encapuzado com um impermeável de chuva que cobria o seu rosto.

Dois homens ladeavam o presidente e candidato à reeleição contra o tucano Geraldo Alckmin.

Seguravam o seu ombro. http://acervo.folha.com.br/fsp/2006/09/30/2/

Coisa de profissional.

O conjunto compunha a cena típica do bandido capturado por policiais: Lula reduzido à imagem de um marginal, emoldurado por dinheiro suspeito e manchetes criminalizando o PT.

A caminho da urna. Ou do xadrez?

Foi assim a marretada no seu perfil público naquele sábado, véspera da votação do 1º turno das eleições presidenciais de 2006.

Hors concours?

Nunca se sabe.

Como esquecer a peça de 17 de dezembro de 1989?

Sequestrado por ex-militantes políticos chilenos, o empresário Abílio Diniz seria libertado do cativeiro naquele dia.

Presos, os sequestradores seriam fotografados e filmados pela Globo & Cia usando camisetas do PT.

Isso aconteceu exatamente no dia da votação do segundo turno da disputa presidencial, vencida por Collor.

Acabou?

Em 2010 teve a ficha da Dilma.

Em 2012, a decisão do relator Joaquim Barbosa de calibrar o julgamento do chamado mensalão, de modo a sentenciar o ex-ministro José Dirceu à boca da urna das eleições municipais…

Assim por diante.

Como será a primeira página da Folha e assemelhados no dia 4 de setembro, véspera do 1º turno das eleições presidenciais deste ano?

Não se pode alimentar ilusões.

Tome-se a fuzilaria contra a Petrobrás nos dias que correm.

O alvo é duplo: derrubar a estatal no colo da candidatura Dilma.

A empresa criada por Getúlio em 1953, fechou 2013 como a petroleira que mais investe no mundo: mais de US$ 40 bilhões/ano; o dobro da média mundial.
Ademais, é a campeã mundial no decisivo quesito de prospecção de novas reservas.

Este ano, 36 novos poços já entraram em operação.

O pré-sal já produz 480 mil barris/dia.

Em quatro anos, a Petrobras estará extraindo 1 milhão de barris/dia da Bacia de Campos.

Até 2017, investirá US$ 237 bilhões; 62% em exploração e produção.

Em 2020, só o pré-sal adicionará 2,1 milhões de barris/dia à oferta brasileira.

Praticamente dobrando para 4 milhões de barris/dia a produção nacional.

O bullying contra a empresa mal disfarça seus propósitos.

Seu empenho, neste momento, é sequestrar a Petrobras para o palanque da campanha sombria: o ‘Brasil que não deu certo’.

Os números retrucam. O pré-sal mudou o tamanho geopolítico da nossa economia.

O mais difícil foi feito.

O novo marco regulador transfere à Petrobras a responsabilidade soberana de harmonizar duas variáveis básicas: o ritmo da extração e o do refino.

Ambos associados à capacidade brasileira de atender à demanda por plataformas, máquinas, barcos, sondas etc.

Se a exploração corresse livre, todo o efeito multiplicador do pré-sal vazaria em importações e geração de empregos lá fora.

Para internalizar as rendas do refino, cinco plantas estão sendo construídas, simultaneamente.

A Abreu de Lima, a maior de todas, entra em operação em novembro.

O conjunto causa erupções cutâneas na pátria dos dividendos, que prefere embolsar lucros rápidos, com o embarque predatório de óleo bruto.

Causa arrepios no conservadorismo igualmente: o êxito do pré-sal é a derrota da agenda privatista.

O parque tecnológico de ponta que está nascendo na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, com laboratórios de todo o mundo, é uma vitória da luta pelo desenvolvimento soberano.

Um berçário da reindustrialização que se preconiza para o país.

Dali sairão inovações e tecnologias que vão irradiar saltos de eficiência e produtividade em toda a rede de fornecedores nacionais do pré-sal.

É desse amplo arcabouço de medidas e salvaguardas que poderão jorrar os recursos do fundo soberano para erradicar as grandes iniquidades que ainda afligem a população brasileira.

Da carência na saúde, às deficiências na educação pública, por exemplo.

Tudo isso é sabido. Mas passa hoje por um corredor polonês de falsificação de perfil destinado a triturar a reputação da estatal, de seus dirigentes, de seu potencial econômico e de seu significado para a autoestima nacional.

Desqualificá-la é um requisito para reverter a blindagem em torno de uma riqueza, da qual as petroleiras internacionais e o privatismo de bico longo ainda não desistiram.

A Petrobrás passa por ajustes compreensíveis depois do gigantesco estirão desencadeado pelas descobertas do pré-sal. E do sacrifício –justificado– de anos vendendo gasolina 20% abaixo do valor importado.

Com a inflação há quatro meses em queda, o preço do combustível será corrigido agora, sem risco de descontrole.

A gasolina, porém, é só o lastro oportunista de um pavio permanentemente aceso contra a empresa.

A verdadeira intenção do bullying é outra.

Trata-se de promover uma alteração de perfil no discernimento da própria sociedade.

Para convencê-la da natureza prejudicial da presença do Estado na luta pelo desenvolvimento.

E a rejeitar, junto, quem a defende: Dilma, favorita nas urnas de outubro, quando a Petrobrás completa 61 anos de vida.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

ideologia do fracasso



Celso Vicenzi, no Obervatório da Imprensa


A Folha e a ideologia do fracasso, por Celso Vicenzi


Manchete da Folha de S.Paulo de domingo (29/6), após a vitória brasileira nos pênaltis contra o Chile: “Júlio César e trave salvam Brasil de vexame em casa”.

Há muito tempo – mas cada vez mais – os maiores veículos de comunicação do país têm feito escolhas editoriais que procuram menosprezar os avanços sociais e criar um sentimento de derrota, em todas as áreas. Tentaram de tudo para transformar a Copa do Mundo num pesadelo nacional e não pouparam más notícias. Algumas catastróficas (caos aéreo, imobilidade urbana, violência etc.).

A Copa não foi um primor de organização, mas está longe de comprometer o espetáculo. Pelo contrário: os estádios estão cheios, os turistas e torcedores – exceções à parte – só têm elogios para o clima de alegria e fraternidade. Os imprevistos são aqueles comuns a qualquer grande evento em qualquer lugar do mundo. Os gastos com estádios, que pareciam fora da realidade, revelaram-se bem menos exorbitantes do que a imprensa tentou incutir entre os brasileiros. Segundo a própria Folha, o equivalente a uma semana do que se investe em educação no país. E parte do dinheiro investido é empréstimo e retornará aos cofres públicos.

Quase nenhuma reportagem abordou as vantagens de sediar a Copa, os empregos gerados, os investimentos realizados na infraestrutura, que irão permanecer. E mais do que tudo: quanto vale uma imagem positiva do país, como esta que parece que os turistas e as seleções que aqui estiveram estão levando a seus países? Quanto vale ser o centro da atenção do mundo por 30 dias? Quanto vale mexer com a autoestima de um país? E, aqui, não me refiro ao desempenho da seleção, mas à alegria de receber elogios à nossa hospitalidade, às belezas do país, às virtudes de nosso povo.

Resquícios de uma nação colonizada

Vale muito. E é por isso que a Folha – aqui apenas como exemplo, pois representa o pensamento de boa parte da nossa mídia – exagera e tenta criar na população brasileira, em contraponto à autoestima que vive neste momento, um clima de menosprezo ao seu país.

Perder um jogo, ainda mais em Copa do Mundo, desde que não seja por um placar elástico, nunca foi nem nunca será um vexame. Temos a mania de achar que, sobretudo no futebol, qualquer adversário é fácil de ser batido. Mais do que isso: não basta vencer, é preciso dar show, é preciso dar olé. Nas derrotas, dificilmente o brasileiro reconhece as qualidades do time adversário, preferindo encontrar culpados: o treinador, o goleiro, um ou mais jogadores.

Nesta Copa, o último campeão – a Espanha – não passou da primeira fase e foi fragorosamente derrotado por 5 a 1 na estreia. Depois de vencer a Copa de 1998, no mundial seguinte, a França também não passou da primeira fase, perdendo dois jogos e empatando um. Saiu do mundial sem ter feito um único gol. Imaginem se fosse o Brasil! A seleção brasileira não tem a obrigação de vencer a Copa porque joga em casa. É apenas um dos favoritos. Das 19 Copas já realizadas, em apenas seis o campeão foi o país sede: Uruguai em 1930, Itália em 1934, Inglaterra em 1966, Alemanha Ocidental em 1974, Argentina em 1978 e França em 1998. Ou seja, ganhar em casa é exceção.

A disseminação do espírito “vira-lata”, como bem o definiu o escritor Nelson Rodrigues, do país que nunca faz nada certo, o exagerado endeusamento de outros países, resquícios de uma nação que foi colonizada, tudo isso ganha amplitude em boa parte da mídia brasileira. A crítica é fundamental, mas a manipulação de fatos com interesses políticos e econômicos torna-se evidente, em milhares de exemplos no cotidiano de boa parte de nossas emissoras de rádio e TV, revistas e jornais – agora também em portais mantidos pelos principais veículos de comunicação.

O apadrinhamento das relações

Temos grandes problemas a resolver no país, entre eles a necessidade de democratizar os meios de comunicação – o que tendenciosamente a mídia traduz por censura, omitindo que vários países democráticos impedem tamanha concentração da propriedade dos meios de comunicação e impõem regras que levam em consideração muito mais o interesse da população do que o dos donos desses veículos.

A ideologia do fracasso, do “vira-latismo” – já quase uma ciência! – gera na população a falsa ideia de que tudo de pior que acontece no mundo ocorre com mais intensidade no Brasil. No entanto, não somos o país mais corrupto, embora sejamos um dos mais desiguais. Segundo a ONG Transparência Internacional, o Brasil ocupa a 72ª posição entre 177 países. Apesar de ser a sétima economia do planeta, é o 12º com maior desigualdade – o quarto na América Latina. E quando se instituem programas como o Bolsa Família, elogiado pela ONU como exemplo no combate à miséria, a desinformação e a omissão da mídia levam boa parte da população a considerá-lo apenas um programa eleitoreiro ou um gasto desnecessário e sem resultado.

Embora não se diga, setores poderosos da economia e da política brasileira, da nossa elite, têm muito a ganhar com a corrupção. A honestidade tem um custo que nem todos estão dispostos a pagar. Gostamos de alardear a meritocracia num país que se notabiliza pelo apadrinhamento das relações, já amplamente estudado por vários sociólogos e intelectuais.

Sem ufanismo e sem catastrofismo

Por vias tortas, o Brasil vive um momento peculiar da sua história, marcada até aqui principalmente por um passado colonialista, escravocrata e ditatorial. Vivemos o mais longo período democrático e estamos aprendendo a enxergar o que de fato impede a criação de um país mais justo e com melhor qualidade de vida. Durante séculos, tentaram culpar o povo – miscigenado, analfabeto, ignorante, malandro – pelo “atraso”. Hoje, está mais claro que nos falta uma elite disposta a empoderar o povo, libertá-lo da opressão e da exclusão em que vive, derrubar privilégios entre os mais ricos e dividir a riqueza para que alcancemos o desejado patamar de um país com mais justiça social, melhores serviços públicos, mais qualidade de vida e menos violência (sem esquecer que a desigualdade social é a maior de todas as violências).

Contra a ideologia do fracasso, das frases feitas do tipo “aqui nada dá certo”, “o Brasil é assim mesmo”, “o governo não faz nada”, “o brasileiro não trabalha”, “o povo não sabe votar” e outros chavões, há que se disseminar um sentimento de construção, de valorização do que temos de melhor, de crítica ao que precisamos mudar, mas, sobretudo, de responsabilidade pelo país que somos.

Sem ufanismo, mas também sem catastrofismo. Para isso, ajuda muito um bom jornalismo.

***

Celso Vicenzi é jornalista

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Jornalista da Folha conclama colegas a conhecer o Brasil




Por  Miguel do Rosário, no Cafezinho


É tão raro, mas tão raro, encontrar na imprensa alguma referência positiva a programas sociais do governo federal, que levei até um susto quando topei com esse artigo de Vinicius Torres Freire. Na verdade, é difícil encontrar até mesmo alguma referência, positiva ou negativa, aos programas. No entanto, são eles que explicam as vitórias petistas nas últimas disputas presidenciais, com chance de outra em 2014.

Freire revela que, ao fazer uma viagem pelo interior do país, se surpreendeu ao se deparar com programas sociais de qualidade.

O jornalista então lembra que os programas sociais federais vão muito além do bolsa família. Há programas para ajudar no transporte escolar, programas de microcrédito para pequenos empreendedores, financiamento para agricultura familiar, e cursos profissionalizantes, como o Pronatec. Alguns já existiam antes de 2003, mas com valores irrisórios. Foi o PT quem lhes deu escala, em quantidade e qualidade.

O papel de Dilma Rousseff tem sido extremamente importante neste sentido, porque o seu governo, pese todos os inúmeros problemas que enfrenta, ampliou de maneira formidável os investimentos em programas sociais.




Lá no Brasil invisível

Por Vinicius Torres Freire, na Folha


Em uma viagem pelo interior mais pobrezinho do Nordeste, este jornalista deu com uma cena que então parecia meio exótica. Crianças alimentadas, numa barulheira alegre, lotavam um ônibus escolar amarelo como aqueles de filme americano, mas estalando de novo.

De onde saíra aquilo? Na lataria, estava escrito: “Programa Caminho da Escola – Governo Federal”. O jornalista confessa com vergonha que até este ano jamais ouvira falar do “Caminho da Escola”. Além do mais, tende a desconfiar de que alguns desses programas com nomes marqueteiros sejam ficções, que existam apenas naquelas cerimônias cafonas de anúncios oficiais.

O “Caminho da Escola”, porém, financiou quase 26 mil ônibus desde 2009, em mais de 4.700 cidades. Digamos que os ônibus carreguem 40 crianças cada um (deve ser mais). Dá mais de 1 milhão de crianças. Conhecendo a falta de dinheiro e as distâncias das escolas nos fundões do país, isso faz uma diferença enorme.

Daqui do centro rico de São Paulo, o Brasil, esse país longínquo, e muitas ações do governo parecem invisíveis. Quase ninguém “daqui” dá muita bola para programas populares dos governos do PT até que o povo miúdo apareça satisfeito em pesquisas eleitorais.

Juntos, tais programas afetam a vida de dezenas de milhões de pessoas, tanto faz a qualidade dessas políticas, umas melhores, outras nem tanto, embora nenhuma delas seja nem de longe tão ruim quanto a política econômica.

Quem “daqui” conhece o Programa Crescer (Programa Nacional de Microcrédito)? Existia desde 2005, foi reformado por Dilma Rousseff em 2011, quando passou a contar com crédito direcionado e juro baixo, ora negativo (5%, abaixo da inflação).

O Crescer já financiou o negociozinho de 3,5 milhões de pessoas, um terço delas recipientes de Bolsa Família. Tem uma versão rural, mais antiga, mas vitaminada nos governos do PT, o Pronaf, que ofereceu crédito a juro real ainda mais baixo a 2,2 milhões de agricultores pequenos na safra 2012/13.

O Pronatec já é mais falado, mas pouco conhecido (até mesmo pelo governo, que só agora começou a fazer uma avaliação de resultados). Irmão mais novo e em geral grátis do universitário Prouni, trata-se de um conjunto variadíssimo de ações que procura oferecer cursos profissionalizantes e técnicos (ensino médio).

Desde sua criação, foram mais de 5 milhões de matrículas (há evidências esparsas de grande evasão, de uns 20%, mas ainda falta estatística séria). A maioria das vagas é reservada para os mais deserdados dos brasileiros.

Reportagem desta Folha mostrou que os 13 mil médicos do Mais Médicos devem estar ao alcance de cerca de 46 milhões de pessoas no ano que vem. Não é uma política ampla de saúde, está claro. Mas, outra vez, vai resolver muito problema de muita gente deserdada desta terra.

O Minha Casa, Minha Vida já entregou 1,32 milhão de casas; tem mais 1,6 milhão contratadas. Beneficia 4,6 milhões de pessoas.

Junte-se a isso tudo as já manjadas transferências sociais, em dinheiro, crescentes em valor e cobertura. É muita gente “de lá” beneficiada. Goste-se ou não do conjunto da obra, o efeito social e político é enorme.

A gente “daqui” precisa visitar mais o Brasil.

* Vinicius Torres Freire está na Folha desde 1991. Foi secretário de Redação, editor de ‘Dinheiro’, ‘Opinião’, ‘Ciência’, ‘Educação’ e correspondente em Paris. Em sua coluna, aborda temas políticos e econômicos. Escreve de terça a sexta e aos domingos.

PS: Pois é, Vinicius. Enquanto seus editores dos cadernos de política estão ocupados em humilhar José Genoíno, as políticas sociais sempre defendidas por Genoíno continuam a beneficiar o povo humilde.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Folha sabota trabalho de Dirceu


Carro da FSP atacado por transportar presos da ditadura


Por Altamiro Borges, no blog do Miro

A assessoria de imprensa de José Dirceu acaba de divulgar uma nota condenando a decisão da Justiça, tomada nesta sexta-feira (24), de rejeitar o pedido de trabalho do ex-ministro e ex-presidente do PT. A decisão, mais uma vez arbitrária e vingativa, foi adotada com base numa denúncia falsa do jornal Folha de S.Paulo, de que o condenado no midiático julgamento do “mensalão” teria usado celular no presídio da Papuda, em Brasília. Reproduzo abaixo a nota e, na sequência, faço alguns comentários: 

Nota à imprensa

A decisão da Vara de Execuções Penais (VEP) do Distrito Federal de suspender por 30 dias o pedido de trabalho do ex-ministro José Dirceu e pedir a reabertura da investigação sobre o suposto uso de celular dentro do presídio da Papuda não tem fundamento jurídico e presta-se apenas para protelar a regularização do regime semiaberto.

“A investigação é descabida”, afirma o advogado José Luis Oliveira Lima. “A VEP não tem competência legal para determinar sindicância contra o meu cliente, mas sim o diretor do presídio que determinou a investigação e concluiu pela improcedência dos fatos. Na segunda-feira vou ao STF contra essa decisão desprovida de fundamento jurídico”.

A investigação conduzida pela Secretaria de Segurança Pública do DF concluiu que o suposto telefonema entre o ex-ministro e o secretário da Indústria, Comércio e Mineração da Bahia, James Correia, nunca ocorreu. De acordo com o diretor do Centro de Internamento e Reeducação (CIR), onde José Dirceu está preso, o fato é “inverídico”.

Na semana passada, a informação já havia sido negada enfaticamente pelo ex-ministro por meio de seu advogado. Em nota, o secretário James Correia também negou o conteúdo da reportagem do jornal Folha de S. Paulo. Segundo Correia, ele foi mal interpretado por um repórter da Bahia enquanto conversava, por telefone, durante um evento público, com um amigo em comum com José Dirceu que planejava visitá-lo no presídio. Em nenhum momento, ressaltou o secretário, ele teve qualquer contato com o ex-ministro depois da prisão em 15 de novembro.

Assessoria de imprensa do ex-ministro José Dirceu

A Folha tucana parece que se transformou no principal carrasco de José Dirceu. Todos os dias o jornal planta alguma futrica para prejudicar o ex-ministro. A tal “nota” sobre o uso do celular no interior da Papuda já foi contestada pelos envolvidos e negada pela própria direção do presídio. No mesmo dia do factoide, José Luis Oliveira Lima, advogado de José Dirceu, rejeitou a “notícia” e até ameaçou processar o jornal:

“Em resposta às notas publicadas pela coluna Painel, da Folha de S. Paulo, desta sexta-feira (17.01), o ex-ministro José Dirceu nega enfaticamente que tenha conversado por telefone celular na semana passada com James Correia, secretário da Indústria, Comércio e Mineração do governo da Bahia. Meu cliente afirma também que tampouco recebeu qualquer visita que tenha usado o telefone celular em sua presença no interior da Papuda, o que violaria as regras para visitas no presídio, e que estuda tomar medidas judiciais cabíveis para reparação da verdade no caso”.

Outro envolvido neste sinistro episódio, James Correia, também contestou a futrica maldosa da Folha em nota oficial:

“O secretário da Indústria, Comércio e Mineração da Bahia, James Correia, esclarece que não manteve nenhum contato telefônico, via celular, com o ex-ministro José Dirceu. No último dia 6 de janeiro, James estava em um evento público quando falou ao telefone com um amigo comum que iria visitar Dirceu. A confusão começou quando um repórter de um jornal baiano presenciou parte da ligação e entendeu, erroneamente, que a conversa era diretamente com o ex-chefe da Casa Civil. No dia seguinte, 7 de janeiro, James Correia já havia desmentido a conversa”.

A própria direção do Centro de Internamento e Reeducação (CIR) investigou a denúncia e decidiu arquivar o caso. O diretor da unidade prisional concluiu que o fato era “inverídico”. Mesmo assim, o juiz Bruno Ribeiro, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, deu guarita à falsa acusação da Folha e ordenou a abertura de nova investigação. Vale lembrar que o tal juiz é filho de Raimundo Ribeiro, ex-dirigente do PSDB.

Ele foi nomeado às pressas pelo ministro Joaquim Barbosa, em novembro passado, no lugar de Ademar Silva Vasconcelos, acusado pelo “supremo” presidente do STF de ter sido benevolente com os condenados do “mensalão”. A substituição foi duramente criticada por outros juristas de renome.

A Folha tucana - a mesma que apoiou o golpe militar de 1964, que cedeu suas peruas para transportar presos políticos e que até hoje insiste em tratar a sanguinária ditadura de “ditabranda” – serviu de base para mais esta injustiça.

Até agora ela não corrigiu sua falsa acusação e deve estar soltando rojões com a decisão da Vara de Execuções Penais (VEP) do Distrito Federal de suspender por 30 dias da análise do pedido de trabalho externo de José Dirceu. A assessoria do ex-ministro deveria cumprir a sua palavra e ingressar de imediato com um processo contra este jornal asqueroso!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A volta do terrorismo financeiro


Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

A manchete principal da Folha de S. Paulo de ontem é importante menos pelas conclusões – incorretas – mais por demonstrar os riscos para a economia dos velhos vícios da cobertura jornalística, de politizar de forma acrítica os temas financeiros.

A manchete principal, bombástica, tratava da elevação do dólar. 

Foi uma alta pontual, de 1,95%, refletindo um movimento internacional de valorização do dólar em função da divulgação de indicadores da economia norte-americana. Um fato interno adicionou um pouco de caldo à especulação: artigo do ex-Ministro Delfim Netto alertando para os riscos de um rebaixamento na classificação do Brasil pelas agências de risco.

Foi apenas um alerta endereçado aos senadores sobre a temeridade de aprovar o orçamento impositivo – pelo qual o governo seria obrigado a honras todas as emendas parlamentares.

A manchete da Folha, no entanto, colocava em xeque a credibilidade de toda política econômica: “Desconfiança no governo Dilma faz dólar ter forte alta”. Na matéria interna, falava-se em “disparada” do dólar e dizia-se que era a maior alta desde... 6 de setembro – período de tempo ridículo.

No mesmo dia, o jornal “Valor Econômico”, na matéria “Menos é Mais” com gestores de fundos, informava que nenhum se arrisca a apostar no dólar. Perderam muito nos últimos meses com a reversão da alta do dólar. “O primeiro baque para os multimercados, diz, veio em maio, com a quebra da expectativa de que o governo seria mais leniente com a inflação”.

Principal porta-voz do Mercado, Armínio Fraga recuou na exposição ao dólar: “A Gávea optou por reduzir o tamanho das posições e diversificar bem a alocação nas três principais classes de ativos que compõem a carteira (moedas, juros e bolsa), em função das incertezas no curto prazo”.

Ora, a gestão fiscal do governo tem produzido curtos-circuitos, sim. A presidente Dilma Rousseff mantem em postos-chave – na Fazenda e na Secretaria do Tesouro – pessoas tecnicamente fracas. Tem-se, em ambos, um prato cheio para críticas consistentes. São fracos, mas não são temerários. Quando o calo aperta, recuam, como todo ser racional.

Tome-se o informe econômico do Banco Itaú, divulgado ontem, sobre a política fiscal.

Constata que o mero risco de piora da classificação de risco do País já produziu ajustes de rumo.

Por isso mesmo, o Itaú aumentou sua previsão de superávit fiscal primário em 2014 de 1,1% para 1,3% do PIB; projetou menor crescimento das despesas de custeio para os próximos anos, manteve a projeção de taxa de câmbio de R$ 2,35 para o final de 2013 e de R$ 2,45 para 2014; constatou a gradual recuperação das receitas tributárias, a desaceleração dos estímulos para fiscais e dos aportes de recursos do Tesouro aos bancos oficiais.

Se o maior banco privado brasileiro aposta em recomposição fiscal, que “mercado” é esse ao qual a Folha se refere?

A intenção clara de parte da imprensa é apostar tudo ou nada no caos, única circunstância capaz de viabilizar a candidatura moribunda de José Serra – visto por alguns veículos como tábua de salvação.

Trata-se de um caso clássico de marcha da insensatez.