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domingo, 11 de maio de 2014

Por que eles são contra a copa?



Por Emir Sader: no sítio Carta Maior










Está correta a posição de João Pedro Stedile e de Lula de considerarem negativo o aproveitamento oportunista da Copa para terem o brilhareco de 15 segundos.


O sentido politico de qualquer fenômeno – uma greve, uma eleição, uma mobilização popular – só é possível de ser captado pela sua inserção na totalidade que o encerra. Até a própria análise da trajetória de um partido – segundo as indicações do Gramsci -  não é dado por sua vida interna – que seria uma visão sectária, auto referente -, mas pela relação que esse partido tem com a totalidade da realidade social em que ele está inserido.

Quantas vezes uma reivindicação – justa em si mesma – desata um tipo de conflito que acaba tendo um significado que a transcende totalmente, chegando às vezes a ter o efeito oposto ao desejado originalmente. No final do governo da Luiza Erundina, por exemplo, depois da prefeitura ter perdido a luta para implementar uma reforma tributária socialmente justa, o governo ficou com recursos limitados. Naquele momento se desatou uma luta reivindicativa dos trabalhadores do setor de transporte publico. (Havia ainda a CMTC como empresa pública de transporte).

Os trabalhadores desse setor tinham o melhor salário do Brasil e sabiam que, para aumentá-lo, seria necessário elevar o preço das tarifas, o que penalizaria grande parte da população mais pobre da cidade. Mas a greve foi desatada, a Força Sindical e a CUT a levaram adiante, nenhuma das duas querendo aparecer como comprometida com o governo municipal.

Foi uma greve violenta, que quebrou centenas de ônibus da empresa pública de transporte. Era o ultimo ano do mandato da Erundina. O Maluf se aproveitou do clima criado e aprofundou sua campanha contra o PT, vencendo as eleições. Uma de suas primeiras medidas foi a privatização da CMTC, desaparecendo a principal empresa de transporte público de São Paulo.

Mobilizações atuais em torno da Copa tem que ser analisadas na sua inserção nas lutas politicas mais gerais, para que seja possível entender o seu conteúdo. Podem ter surgido a partir de reivindicações justas – melhoria da saúde e da educação no pais -  ainda que de forma equivocada e demagógica, ao passar a ideia de que os investimentos da Copa prejudicavam aqueles das politicas sociais do governo.

Quando passou seu impulso inicial, movimentos que buscam enfrentamentos violentos, sem nenhum compromisso com os avanços que o Brasil vive,  passaram a protagonizar o cenário das mobilizações, já com a ideia de que haveria que inviabilizar ou prejudicar ao máximo a Copa no Brasil. As mobilizações ficaram reduzidas a um numero mínimo de participantes, basicamente os que buscavam o enfrentamento violento com a Policia – sempre violenta.

Continuaram a ter espaços na mídia, seja pelas cenas que protagonizavam junto com a policia, seja pelas cenas de destruição de lojas, bancos, bancas de jornais, sinais de paradas de ônibus, entre outros, seja também pelo interesse da oposição de desgastar o governo.

É preciso inserir essas mobilizações nos dois marcos gerais que dão o seu sentido. Primeiro, a campanha eleitoral, em que a oposição – midiática e partidária – joga suas fichas nas possibilidades de desgaste na imagem do governo como reflexo de nova onda de enfrentamentos durante a Copa. A oposição apoia – por editoriais, destaques na mídia,  colunistas inefáveis da direita e da extrema direita – as manifestações, consciente de que não se trata de apoiar as reivindicações. Ao contrario, os candidatos da oposição acenam com duros ajustes contra os recursos para politicas sociais, caso chegassem a ganhar. Mas apostam no desgaste do governo no processo eleitoral. Esse o primeiro sentido das manifestações atualmente: favorecer as candidaturas da direita contra o governo. 

O segundo marco em que devem ser inseridas as manifestações é  a campanha internacional contra o Brasil. Não é contra o Brasil das injustiças e das desigualdades sociais. Ao contrário, é uma campanha contra o Brasil do Lula, do governo que lançou o maior programa de combate às injustiças e às desigualdades sociais no Brasil. 

Não por acaso essa campanha é protagonizada pelos órgãos mais renomados da direita internacional – Financial Times, The Economist, El Pais -, justamente os que sentiram incomodados pela imagem que foi projetada no Brasil recente – o de país que luta contra a miséria, a pobreza, a exclusão social e que lança ao mundo o desafio de terminar com a fome. A de país que, ao invés de se somar às politicas imperiais dos EUA, trabalha pela integração regional e intensifica os intercâmbios Sul-Sul no mundo.  A de um país que reagiu frente à crise no centro do capitalismo não como a Europa fez mas, ao contrário, dando o exemplo de que é possível resistir a ela, com a ativação do papel do Estado e da distribuição de renda.

É este o país que é atacado sistematicamente na mídia internacional  – e reproduzido aqui pela mídia subserviente -, com mentiras como a do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha, de afirmar que somos  “um país de alto risco”, contrastando com a realidade concreta e com a expansão dos investimentos de empresas desse país no Brasil. 

Ou com calúnias puras e simples como a desaparição de crianças em Fortaleza como forma de limpeza social para a Copa ou a da noticia de que 25 das policias dos 27 estados brasileiros estariam em greve e ameaçariam parar durante a Copa. Ou mentiras ainda mais deslavadas, que só tem a finalidade de desconstruir a imagem – incomoda para o neoliberalismo e para a politica norte-americana no mundo – de que o Brasil se soma aos países que lutam pela construção de uma alternativa ao neoliberalismo e por um mundo multipolar, de resolução pacifica e politica dos conflitos, ao invés das intervenções militares.

É nesse marco geral – das eleições brasileiras e do interesse dos candidatos de direita e da campanha contra a imagem do Brasil do Lula – que se inserem as manifestações programadas durante a Copa. Basta algumas dezenas de pessoas com formas de armamento e a atitude violenta da polícia, para que os enfrentamentos existam e contarão com o beneplácito da mídia internacional, com suas câmaras e maquinas fotográficas atentas.

Por essa razão que está correta a posição do João Pedro Stedile e do Lula, entre outros, de considerarem negativo o aproveitamento oportunista da Copa para terem o brilhareco de 15 segundos, que tem um sentido político geral negativo e não leva a nada, tanto assim que, passada a Copa, os efeitos s’p podem ser um eventual desgaste do governo favorecendo os candidatos da direita e um eventual enfraquecimento da imagem positiva que o Lula projetou no mundo, favorecendo as forças internacionais de direita. O sentido politico das manifestações é esse.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

“Veja” é a barbárie: jornalismo justiceiro




“A “Veja” é a barbárie. A “Veja” – se pudesse – prenderia o pescoço do povo brasileiro no poste. Mas não vai conseguir. Vai perder – de novo.”

Por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador

Nas redes sociais, tarde da noite de sexta-feira, jornalistas afinados com o tucanato e militantes da esquerda extremada se esparramavam em elogios à capa da “Veja”. Eu, que procuro manter distância sanitária da revista, aproximei-me da capa. E só consegui enxergar um gesto de oportunismo barato.

A “Veja” expõe a imagem – chocante, lamentável, triste – do rapaz preso pelo pescoço num poste na zona sul carioca, e aproveita a cena não para refletir sobre a tradição oligárquica brasileira, não para pensar sobre nossa história de 300 anos de escravidão, ou sobre nossa elite que reclama de pobres nos aviões e clama sempre pela resposta fácil do liberalismo de araque e da violência de capatazes. Não. “Veja” usa a foto terrível em mais uma tentativa para desgastar a imagem do Brasil; e também – que surpresa – para culpar o “governo”. Que governo? Ah, não é preciso ser muito esperto pra descobrir…

Emoldurando a foto triste, “Veja” berra em letras garrafais: “Civilização” e “Barbárie”. E depois acrescenta a legenda malandra, velhaca: “A volta dos justiceiros, criminosos impunes, colapso no transporte, caos aéreo. Onde está o Brasil equilibrado, rico em petróleo, educado e viável que só o governo enxerga”.

Certamente, o Brasil “equilibrado” não está nessa revista. “Veja” pratica o jornalismo da barbárie, um jornalismo que escreve “estado” assim – com “E” minúsculo – numa espécie de bravata liberal fora de época. “Veja” envenena o país todos os dias, com blogueiros obtusos, asquerosos, que falam para um Brasil pretensamente senhorial, como se ainda estivéssemos antes da Revolução de 30.

Curioso, também, ver a “Veja” falar em “barbárie” e em “criminosos impunes”. Logo essa revista, tão próxima do bicheiro Cachoeira, pautada pelo bicheiro, amiga do bicheiro. A tabelinha com Cachoeira é – sim – um exemplo perfeito desse Brasil de criminosos impunes.

A “Veja”, que tenta pegar carona na imagem do rapaz preso pelo pescoço, pratica um jornalismo justiceiro – que invade quartos de hotel, “julga” e “condena” sem provas, inventa fatos, publica grampos sem áudio, alardeia contas no exterior e dólares em caixa de whisky. Tudo falso, falsificado. Um jornalismo que acredita em boimate e Gilmar Mendes.

A revista não tem moral para falar contra a “barbárie”, nem contra os “justiceiros”. E não tem, precisamente, por praticar um jornalismo que é a própria encarnação da barbárie, da falta de escrúpulos, um jornalismo justiceiro.

O Brasil do lulismo tem muitos problemas. Isso é evidente. Mas não venha a “Veja” querer apresentar a receita de “Civilização” ao Brasil. A receita da “Veja” é a mesma que os EUA oferecem à Ucrânia.

Está claro, por essa capa oportunista e velhaca, qual é a pauta dos setores que não aceitam o Brasil um pouquinho mais avançado dos últimos anos: é jogar tudo no “caos”, na “barbárie”, na insegurança. O Brasil é a jóia da coroa na América Latina em 2014. Tão importante quanto a Ucrânia no leste europeu, tão estratégico quanto a Síria no Oriente Médio.

Não sejamos ingênuos. A velha imprensa brasileira – que se reúne com embaixadores dos EUA às escondidas (isso desde 64, mas também em 2010 – como nos revelou o Wikileaks) – é parte decisiva no jogo pesado que veremos em 2014.

A oposição brasileira não tem programa. A economia não afunda como gostariam os urubulinos. Portanto, é preciso produzir a pauta do caos. Esse é o caldo de cultura em que podem prosperar candidaturas “justiceiras” que a “Veja”, os mervais e outros quetais estão prontos a lançar.

Para retomar o Estado brasileiro, eles pouco se lixam se o preço a pagar for a ebulição social. Aécio e Eduardo não darão conta dessa pauta da “ordem contra a barbárie”. A pauta do caos e do Brasil “inviável” (que está na capa da “Veja”) é boa para aventuras autoritárias – semelhantes ao janismo de 1960.

Quem pode encarnar esse figurino? Quem? O terreno vai sendo preparado…

Não creio que o povo brasileiro – equilibrado, sim! E que trabalha duro para construir um país “viável”, sim – não creio que a maioria de nosso povo embarque na aventura da “ordem contra a barbárie” – proposta pela revista. Mas a direita asquerosa e velhaca vai tentar. 

O roteiro está claro. É preciso estar atento. E não cair na esparrela de acreditar que a “Veja” – de repente – converteu-se à “Civilização”.

A “Veja” é a barbárie. No jornalismo, na política, na vida do brasileiro comum.

A “Veja” – se pudesse – prenderia o pescoço do povo brasileiro no poste. Mas não vai conseguir. Vai perder – de novo.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Oposição: procura-se





A crítica competente é fundamental para o desempenho de qualquer governo. Quanto a isso, estamos à míngua. A oposição brasileira é rústica como oposição.

Por Wanderley Guilherme dos Santos no sítio Cartamaior


Se depender da oposição o País não vai andar. A infantilidade de seus protestos explica o agônico socorro que está pedindo à descabelada desordem urbana. De seu próprio ventre, nada. Criticar a autoridade fiscal, por exemplo, por ter usado tributos e dotações dos leilões para fechar as contas equivale a desancar o quitandeiro porque equilibra o livro-caixa recebendo o que lhe devem.

É curial que o governo troca tributação por serviços, administração e projetos. Lá uma vez ou outra parte dos impostos se transforma em subsídios diretos e indiretos ao consumo e às despesas dos grupos vulneráveis. Chama-se redistribuição de renda e vem ocorrendo há pouco mais de dez anos no Brasil. É isso que provoca espuma na garganta oposicionista e a faz perder o senso de ridículo.

Nenhuma oposição que se preze tenta condenar um governo por fazer uma parada técnica voltando de longa viagem. Aliás, nem mesmo se fosse para simples recuperação física, independente de considerações meteorológicas ou de segurança de vôo. Pois este foi um dos brados de guerra, sem eco, da semana oposicionista. 

Desdobrar desembolsos no tempo é uma espécie de versão macroeconômica da compra a crédito, o uso calculado da renda e do gasto futuros. A dívida das pessoas deve ser compatível com a proporção comprometida da renda esperada face ao dispêndio incompressível que virá a ter. Trata-se de uma questão de ser ou não leviano em relação à própria economia.

E é preciso muita leviandade para que eventuais desmandos, ou desvairada presunção, conduzam à falência. Desde a redemocratização de 1945 foram necessárias décadas dos mais variados governos, inclusive ditatoriais, até que os livrescos sábios do PSDB conseguissem a proeza de quebrar a economia brasileira três vezes em não mais do que oito anos.

Quando as mesmas vozes do passado esgoelam-se em advertências sobre a dívida pública, bruta ou como proporção do produto interno, com que diabos de autoridade pensam estar falando? Não possuem nenhuma imaginação ou criatividade e o bolor das receitas sugeridas tem um só resultado, se aviadas: desemprego.

Existe uma crônica morbidez no pensamento conservador que o faz recuar diante da saúde e saudar os sintomas patológicos de vida social. Talvez por isso aplauda a proliferação dos micróbios (pequenos grupos de desordeiros, em geral), sem se dar conta de que estes são a hiperbólica evidência do fracasso oposicionista, ele mesmo.

Mas a pantomima máxima revela-se na busca de recordes. Os furos pelos quais compete a grande imprensa foram transferidos das páginas de esportes e da previsão do tempo para as manchetes, mas com significados distintos.

Excepcionais desempenhos em natação, maratona e salto a distância refletem o aprimoramento físico da espécie, o apuro no treino e a perseverança nos treinos. Já os indicadores de temperatura nos explicam o bem estar ou seu contrário em condições de exacerbado calor ou frio. Por isso comparam números de hoje com os de ontem ou de há dez anos conforme o caso. Mas as manchetes das primeiras páginas são pândegas.

Títulos chamativos advertem que aumentou a ameaça inflacionária enquanto o texto explica que houve uma variação para mais no quarto dígito depois da vírgula, algo que não acontecia há dezoito, vinte e três ou não sei lá quantas semanas. Ou seja, o furo jornalístico não quer dizer absolutamente nada.

Pelo andar da carruagem é de se esperar escândalos informando que o desemprego na tarde de quarta feira passada foi o maior já registrado em tardes de quartas-feiras de anos bissextos. Ao anunciá-los os apresentadores de noticiários televisivos farão cara de fralda de bebê, suja.

Enquanto o País muda a pele, subverte rotinas, enfrenta e experimenta uma realidade inédita – a liquidação da miséria extrema – e veloz reestruturação de seus contingentes sociais, o reduto oposicionista balbucia indignações esfarrapadas. E a crítica competente é fundamental para o desempenho de qualquer governo. Quanto a isso, estamos à míngua. A oposição brasileira é rústica como oposição, não está preparada para governar.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Oposição tenta manipular os rolezinhos




Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Vários leitores escrevem para fazer de sua preocupação com o rolezinho. Não. Não são pessoas preconceituosas, que querem impedir a entrada de jovens da periferia nos palácios do consumo de elite que chamamos de shoping centers. São democratas, que reconhecem os direitos de todos e já se mostraram capazes de lutar por eles. 

Temem a manipulação dos rolezinhos no ano eleitoral de 2014, quando a oposição fará o possível manipular todo tipo de mobilização para atingir o governo. Vamos combinar que essa estratégia já está clara e não é segredo para ninguém.

Claro que, no plano da realidade, os adversários do governo Lula e de Dilma não tem o que dizer a respeito dos direitos da população pobre e dos jovens negros. A pavorosa distribuição de renda brasileira é produto de seu principal mito ideológico, a economia do mercado e o país do Estado mínimo. 

Seus intelectuais orgânicos fizeram uma campanha aberta contra a criação das cotas nas universidades. Debocharam de toda iniciativa nessa direção e tentaram convencer os brasileiros de que não podemos negar as vantagens da meritocracia.

Recuperaram a lenda da democracia racial, uma construção ideológica destinada a fingir que a cultura brasileira não admitia o preconceito de raça.

Sem respeitar a obra integral de Gilberto Freyre, que tinha uma tendência a embelezar o colonialismo português, ignoravam que nem ele deixou de apontar a brutalidade e a violência contra a população negra, registrando inclusive o sadismo de crianças brancas contra negros da mesma idade. 

Os dados do instituto Data Popular mostram um grande progresso dos brasileiros negros a partir de 2003. Situados nas camadas mais altas da pirâmide de renda, os brancos tiveram um acréscimo médio de 26% em seus rendimentos. O rendimento dos negros, que partiram de baixo, subiu mais. Passou de 105% em dez anos. 

Sem deixar de considerar que a distancia segue enorme, cabe registrar essa melhoria foi obtida pela derrota dos adversários das cotas e de todas medidas de ação afirmativa.

O Bolsa Família - outro alvo da oposição, que gostava de apresentá-lo como simples truque eleitoral - também tem muito a ver com isso, na medida em que chega as camadas mais pobres, onde os negros são maioria. 

Em resumo: as mudanças só ocorreram quando se decidiu usar os poderes do Estado para produzir melhorias que o mercado não tornava possível. 

Num país onde a memória política tem consistência, é difícil imaginar o que essa turma teria para dizer num ano eleitoral. 

Vai sair as ruas com faixas em defesa da " democracia racial"? 

Vai pedir respeito "pela meritocracia?"

Vai denunciar o Bolsa Família?

Claro que não. Tentarão, claro, denunciar a Copa do Mundo.

Tentarão alimentar e ampliar um descontentamento compreensível - apesar dos progressos recentes, o país está longe de oferecer condições civilizadas para a maioria de sua população - e esconder sua contribuição histórica, decisiva, para o atraso e a desigualdade.

O grave é que essa operação mágica pode dar certo.

Isso porque o país assiste, hoje, a um debate político definido por meios de comunicação engajados de forma radical no esforço para derrotar o governo em 2014.

Capazes de monopolizar o debate e lhe dar uma direção única, criou-se um ambiente onde a notícia boa vira média, a média vira ruim, a que era ruim vira péssima.

Até a criação de 700.000 empregos em 2013 é apresentada como pouca coisa - numa economia que vive um dos mais altos níveis de emprego de sua história, o que já torna difícil, por si só, a criação de tantas vagas no mercado de trabalho. A inflação segue abaixo da meta, mas segue sendo tratada em tom de alarme.

O consumo cresce, a inadimplência é baixa, o mercado de varejo - termômetro do consumo de massas - nunca esteve tão bem. Mas é porrada, porrada, porrada. O monopólio autoriza até momentos constrangedores de ignorância explícita. 

Davi Rousset, um dos muitos heróis anônimos do século XX, cunhou uma frase adequada para o momento:

"As pessoas normais não sabem que tudo é possível."

Militante trotskista na França dos anos 30, Rousset foi preso, torturado e deportado para campos de concentração nazista.

No fim da guerra, Rousset também foi perseguido pela máquina stalinista.

Suas memórias serviram de matéria prima aos principais estudos teóricos a respeito, como reconhece a própria Hanna Arendt, que escolheu a frase como epígrafe de um de seus livros.

Rousset queria dizer que em ambientes onde não há democracia, não há um debate plural nem um confronto de opiniões, onde vigora um discurso dirigido a partir de verdades convenientes, tudo se torna possível - em especial a manipulação de consciências. 

O governo tem uma herança positiva a apresentar. Resta saber se conseguirá defender o que fez. Esta é a questão.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Caracas passa longe daqui



Clóvis Rossi na Folha

Pessimismo exacerbado leva a comparações absurdas entre o Brasil e a Argentina ou a Venezuela

Foi só tocar no surto de pessimismo exagerado que assola boa parte do empresariado tapuia (http://folha.com/no1394121) para que caísse uma catarata de e-mails com cenas explícitas de alarmismo ainda mais exagerado.

O que mais me surpreendeu foram reiteradas menções à possibilidade de que o Brasil se tornasse uma gigantesca Argentina ou, pior ainda, uma Venezuela.

Nada contra críticas à política econômica (ou a qualquer outra política). São muitas vezes justas e sempre necessárias. Mas crítica tem que ter algum parentesco com a razão, como o faz, por exemplo, Vinicius Torres Freire. Não pode ser feita com o fígado --e a comparação com Venezuela/Argentina é pura bílis ou, pior, terrorismo.

Como monitoro diariamente a conjuntura venezuelana e a argentina, achei, a princípio, que não seria necessário contestar a comparação. Depois, no entanto, veio a desagradável sensação de que terrorismo pode pegar entre os que não têm a obrigação de acompanhar os vizinhos.

Vamos, então, a uns poucos dados que desmontam a comparação.

1 - Inflação. Tanto a Venezuela (56%) como a Argentina (20 e poucos por cento) perderam o controle sobre ela. O Brasil perdeu só o centro da meta. Não é para festejar, mas tampouco é para entrar em pânico.

Pior, no caso argentino: as estatísticas foram desmoralizadas por instituições internacionais, a ponto de o FMI ter adotado o passo inédito de cobrar que elas fossem, digamos, normalizadas. No Brasil, até a revista "The Economist", que acha que a economia está moribunda, acredita nos dados oficiais.

No caso da Venezuela, exatamente pelo descontrole inflacionário (e pelo desabastecimento), o governo decidiu tabelar o lucro, delírio que não cabe no capitalismo. Isso sim é intervencionismo, não as medidas que o governo Dilma tem tomado.

2 - Câmbio - Nos dois países, vigoram um câmbio oficial e um paralelo, que é, na Argentina, quase o dobro do oficial, e, na Venezuela, umas dez vezes maior.

O Brasil já teve um duplo câmbio, mas faz tanto tempo que pouca gente ainda lembra. Não está no horizonte no Brasil uma distorção como essa, que sempre acaba mal, como aprendemos até que o Plano Real estabilizasse a economia.

Não vale nem a pena entrar a falar dos aspectos políticos e institucionais, tão diferentes são o chavismo, o kirchnerismo e o lulismo/dilmismo. Basta lembrar que os dois primeiros buscam permanentemente o confronto, como forma de afirmação, ao passo que o lulismo e o dilmismo buscam a acomodação (para o meu gosto, até excessiva).

A economia brasileira pode ou até tende, segundo os críticos razoáveis, à mediocridade, mas não ao dramatismo que acompanha a Venezuela, principalmente, e a Argentina.

Logo, quem espera que o pessimismo derrube a candidatura Dilma fique sabendo que, enquanto houver pleno emprego e aumento da renda, é uma esperança vã.

A menos que algum candidato descubra um sonho a oferecer às ruas que cobram mudanças, mas não se comoveram com as críticas dos oposicionistas.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Perde-Perde ou o Ganha-Ganha na política


Por Luis Nassif no seu blog www.luisnassif.com.br


Fato 1ninguém ganhou e ninguém pode se prevalecer oportunisticamente da crise. Portanto, tirar casquinha da crise é dar tiro no pé.
  • O governo Dilma afastou-se do PT, dos movimentos populares, dos sindicatos, da blogosfera, sem conseguir a aliança com os partidos conservadores e com a mídia.
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  • O PT perdeu o sentimento das ruas, dos movimentos sociais, burocratizou-se e deixou de se reinventar. Quando atira em Dilma, acerta no próprio pé. Mas atira em off, porque sabe que qualquer cobrança em relação a Dilma suscitará cobranças em relação às lideranças do próprio partido.
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  • A oposição também não pode tirar sua casquinha. É mais refratária a colaborações externas do que o próprio governo federal ou o próprio PT. Nos três principais estados do país, os governadores saíram igualmente desgastados no enfrentamento das manifestações de rua. O grupo de oposição que conta – Aécio, Eduardo e FHC – age com cautela, mas não tem sido propositivo: limita-se a criticar o que vem do Executivo. O que não conta – Serra e afluentes -, não conta.
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  • Os jornais envelheceram tanto quanto as instituições e as emissoras de TV têm sido alvos de represálias de manifestantes. Interessa aos grupos de mídia derrotar Dilma nas próximas eleições, mas não provocar a tomada de Bastilha.
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  • A representação empresarial e sindical também está em xeque. O presidente da maior Federação de Indústrias do país a utiliza como plataforma política pessoal; o mesmo ocorre com o presidente da segunda maior central sindical, a Força Sindical.
Fato 2 caiu a ficha de todos de que, em caso de incêndio, queimam-se todos. O caos só interessa aos provocadores e golpistas e aos políticos que estão definitivamente fora do jogo. Não interessa ao governo, aos partidos políticos, aos sindicatos, às empresas, ao cidadão e aos ativistas digitais.

Fato 3 – No quadro atual, as demandas políticas estão postas à mesa. Não dá mais para explorar o sentimento de insatisfação com demandas pontuais, confiando na fragilidade dos governantes. Mais fragilidade não resultará em mais concessões, mas em crise.
Por tudo isso, o momento é baixar a fervura e dar tempo aos governos – Federal, estaduais, municipais -, aos demais poderes, aos movimentos online e de rua, para sentarem e planejar os novos tempos.
Qualquer governante com um mínimo de lucidez já se deu conta da importância da transparência, da criação de modelos de prestação de contas online, da abertura para as redes sociais e para maior participação.
Que se lhes dê para mostrar o novo estilo. Haverá possibilidades de sobra para punir os que não entenderam os novos tempos nas eleições de 2014.

Governo Dilmaterá que mostrar os instrumentos institucionais e o novo estilo para se abrir ao diálogo com a sociedade, a reforma ministerial e as iniciativas na área digital.

PT – Terá que se reinventar, recuperar a interlocução com os governos federal e de São Paulo, mostrar capacidade de superar o aparelhamento do Estado, extirpar as práticas negativas na prefeitura e de trazer novas ideias políticas.

Oposiçãoterá que mostrar que não quer colocar lenha na fogueira e acelerar a apresentação de propostas, além de providenciar mudanças no modo de gestão dos estados  que governa. Tem que se apresentar para um pacto nacional, como comprovação de responsabilidade.

Demais poderes  - STF, PGR e demais poderes têm que vir a público mostrar sua contribuição não apenas ao tema da reforma política, como também na questão da transparência interna.

Centrais sindicaisqual a lógica da greve de segunda? Não sei. Há dois caminhos para as centrais: apresentarem-se como interlocutoras do governo, sabendo que, mais do que nunca, Dilma terá que refazer sua base de apoio político e popular; ou colocar lenha na fogueira para alimentar uma situação em que nada tem a ganhar.

Em suma, há dois caminhos pela frente: o Jogo do Perde-Perde, em que todas as instituições organizadas trocam tiros entre si; ou o Jogo do Ganha-Ganha, em que se fecha um pacto, tácito que seja, para que todos eles se preparem para os novos tempos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Dilma e a revolução dos coxinhas




Por Miguel do Rosário em O Cafezinho

 

Dessa vez eles chegaram bem perto. A estratégia foi genial. Usaram um grupinho político da USP que tinha uma proposta simpática, a defesa do passe livre, e, com ajuda da brutalidade da polícia paulista, transformaram um protesto local num delírio jovem de magnitude nacional. Ainda vai demorar para sabermos a extensão da influência dos grupos “anonynomous” na organização virtual dos protestos. Mas as névoas estão começando a se dissipar. Depois do apoio dos Clubes Militares aos “protestos de rua”, as coisas vão ficando mais claras. 


É um fenômeno que vem se repetindo nos últimos anos, e cada vez emerge mais forte. As novas investidas da direita tem se dado através da juventude da classe média. Pega-se uma bandeira ou candidato simpáticos, untados com antigovernissmo, agressividade política, cobertura midiática favorável, um bocado de esquerdismo utópico e infantil, e pronto, eis uma causa capaz de reunir milhares de jovens. A estratégia de usar a juventude, e símbolos da esquerda, para lançar uma candidatura conservadora, é um excelente cavalo de Tróia para dividir e confundir o eleitorado progressista. Em 2008, fizeram com Gabeira, símbolo de rebeldia, nas eleições municipais do Rio de Janeiro. Começou como queridinho dos jovens e terminou, como agora, com apoio do Clube Militar. Dois anos depois, Gabeira seria o candidato-fantoche do PSDB no estado do Rio, disputando uma eleição apenas para dar palanque à José Serra, e hoje o ex-guerrilheiro assina uma coluna udenista no Estadão.
Eu estive no protesto de Brasília. Observei os jovens segurando cartazes artesanais, individuais, com todo o tipo de platitude, como: “tanta coisa pra protestar que não cabe num cartaz”.
No dia seguinte, olhando a capa do Correio Braziliense, todavia, algo me chamou a atenção. A presença de uma faixa gigantesca. Tão grande que os próprios manifestantes deviam ter dificuldade de assimilar o conteúdo. Só dava para ser lida do alto do helicóptero da Rede Globo. A frase dizia: Prisão já para os Mensaleiros.
Num movimento não organizado por partidos, sindicatos ou movimentos sociais, a característica principal dos cartazes era a sua simplicidade, adorovelmente simplória e criativa. Aquela faixa era coisa de profissional. Deve ter custado uma fortuna, muito longe da realidade dos jovens manifestantes, apesar da minha impressão, ao observar seus rostos, que nenhum deles jamais perdeu uma noite de sono por causa de uma dívida.
As madames organizadas que fracassaram em levar adiante seus protestos contra “tudo o que está aí” assistiram, emocionadas, seus filhos assumindo seu lugar.
As pesquisas apontam que os protestos vistos nos últimos dias foram protagonizados principalmente por jovens universitários de classe média, que logo se viram acompanhados por elementos do chamado “lúmpem”, ou seja, camadas desorganizadas dos estratos mais pobres. Os elementos radicais de ambos os grupos praticaram um assombroso vandalismo, fazendo com que os protestos fossem os mais violentos de que se tem notícia em nossa história recente.
A insistência da mídia em falar que apenas “uma pequena minoria” praticou vandalismo tornou-se ridícula. Se os dez mil manifestantes de Brasília se pusessem a depredar o Itamaray, aí não era manifestação, e sim um ato de guerra civil antinacional, e eu mesmo iria à capital lutar em defesa do meu país, distribuindo uns tabefes nos irresponsáveis.
Congresso e Executivo tentam dar uma resposta política às manifestações, porque é tradição nacional procurar uma saída pacífica e conciliadora. Mas não podemos nos cegar para a emergência de um perigoso neofascismo playboy. No Rio, já vimos isso durante a candidatura de Marcelo Freixo, com o surgimento de uma legião de jovens absolutamente sectários, com a mesma visão messiânica, voluntarista e impaciente da política.
Mas a coisa é pior. Freixo ao menos tinha um programa, e pertencia a um partido. As manifestações de hoje não tem agenda, não tem foco, apenas um sentimento em comum: a impaciência, que na verdade reflete o voluntarismo arrogante de uma classe. Queremos mudanças já! Agora! Não temos paciência para o jogo democrático! Não temos paciência para esperar as eleições de ano que vem e eleger novos deputados estaduais, novos governadores e um novo presidente!
O rechaço à representatitividade política, por sua vez, tão edulcorado pelos pós-modernos, é na verdade um rechaço à democracia. Porque a democracia não é um governo dos melhores e sim da maioria. O representante político não chega lá por concurso público. Não é o mais ético. Ele ganha uma eleição porque soube articular melhor, se organizar junto a um grupo, arrumar dinheiro para campanha. Os jovens voluntaristas não aceitam que seus representantes políticos sejam eleitos pela massa ignara, que não sabe diferenciar corruptos de não-corruptos, que vota em evangélicos, em fisiológicos, em petistas. Querem ganhar no grito.
As madames, revoltadas com o súbito aumento no custo das empregadas domésticas, indignadas com a invasão de pobres nos aeroportos, devem ter cortado a mesada dos filhos, que saíram às ruas em protesto contra essa situação. O passe livre significa que a patroa não precisará mais pagar a passagem de sua empregada doméstica. Sim, porque a legislação brasileira obriga o empregador a pagar o transporte do funcionário. E o autônomo tem se beneficiado, por sua vez, de uma forte disparada no preço dos serviços que presta. Os vinte centavos a mais na passagem, conforme os próprios manifestantes admitiram, nunca foram o cerne dos protestos.
A questão da mobilidade urbana deve ser monitorada de perto pelos cidadãos. Se os protestos fossem, especificamente, para melhorar a qualidade do transporte público, maravilha. Mas botar 300 mil pessoas na rua, sem agenda, protestando por protestar, é algo sinistro. Um alemão com quem conversei longamente em Brasília, falou assim mesmo: “It’s scaring”. É assustador. Eles – alemães – já viram esse filme antes e não guardam boas lembranças.
É a revolução dos “coxinhas” ou “almofadinhas”, apoiados por neohippies de butique, desmiolados, indignados úteis, ingênuos, e toda espécie de malucos e idiotas políticos, que agora ganharam a companhia dos apopléticos dos clubes militares e das madames cansadas do Leblon.
Enquanto isso, Joaquim Barbosa, candidato preferido dos manifestantes, dá longas entrevistas à Globonews, defendendo o voto distrital e a possibilidade do povo “revogar” seu voto através de um “recall”. Detalhe: o voto distrital é o sonho da direita, porque seria a maneira maneira rápida de matar o sindicalismo e, por consequência, todos os partidos de esquerda.
A proposta de Dilma Rousseff de fazer um plebiscito popular para decidirmos se devemos ou não eleger uma constituinte, para levar adiante a reforma política, dá o foco que o Brasil precisava. As acusações da oposição de que seria um golpe apenas confirma a sua inapatência política. A verdadeira oposição, ou seja, aquela que hoje se encarna no cidadão Joaquim Barbosa, que tem se mostrado muito mais inteligente e articulado que um Aécio Neves, apoia o plebiscito, porque entende que ele consiste, na verdade, numa jogada de risco para a presidenta. E uma oportunidade de ouro para a oposição ao PT. Uma constituinte poderia introduzir o voto distrital tão sonhado por Joaquim Barbosa.
Mas um plebiscito também significa o aprofundamento da democracia. Vocês, manifestantes, querem promover uma ruptura no ritmo com o qual o Brasil vem mudando? Querem uma bebida mais forte? Ok, mas primeiro temos que perguntar ao povo se ele concorda.
A eleição de uma Constituinte para discutir a reforma política, por sua vez, é um gesto de deferência à rejeição vista nos protestos contra a classe política tradicional. É uma chance dos manifestantes provarem que seus protestos são consequentes e irem às ruas fazerem campanha para seus representantes preferidos. É uma oportunidade e tanto para sonháticos, barbosianos, éticos midiáticos, e independentes de todo o tipo.
Eu nem sei se defendo este plebiscito, essa constituinte, essa reforma política. O que eu sei é que se está oferecendo ao povo a oportunidade de decidir, e uma bandeira branca aos manifestantes. Ok, vocês venceram, vamos consultar o povo. Agora deixemos o Brasil trabalhar e funcionar, porque sem estabilidade econômica e política todo mundo sai perdendo, a começar pelo mais pobre.
Os protestos de rua conquistaram algumas vitórias, mas a um preço talvez excessivo: introduzimos o vírus da truculência na política brasileira. Acho um tanto alarmante que tanta gente ache “lindo” ver o povo destruindo pontes, ônibus, monumentos, lojas, restaurantes, rodoviárias. E tudo pra que? Por um mundo melhor?
A coisa perdeu todo o sentido porque é chocantemente absurdo ver um jovem socialista marchando ao lado de um defensor da ditadura. De um defensor do aborto ombreando com um que prega o contrário. O nível de esquizofrenia dos protestos, aliado à condescendência da mídia, atingiu um ponto crítico.
Quanto ao governo, a grande lição é o fracasso retumbante de sua política de comunicação, e a derrota na batalha pelo coração da classe média. Acabaram-se as tertúlias no programa da Ana Maria Braga, acabou-se o mito da faxineira da ética, da gestora séria e competente. Dilma se viu obrigada a fazer política. A ir para TV. A convocar movimentos sociais, governadores e prefeitos. A ouvir as centrais sindicais. Agora não pode mais parar. Dilma tem de achar uma outra Dilma para si, para gerenciar o país, e tem que mergulhar de vez na agenda política. Participar mais do debate, ajudando aprovar suas reformas do Congresso, a defender seu governo nos meios de comunicação.
No meio da crise, com protestos comendo soltos em todo país, e ninguém sabendo direito onde aquilo ia dar, o blog da Dilma, uma ferramenta extraordinária para apagar incêndios, permaneceu parado. Twitter da Dilma, parado. Facebook da Dilma, idem. Um garoto do subúrbio carioca faz um trabalho melhor de comunicação para a presidenta, com o perfil Dilma Bolada, do que todo o pesado staff da presidência da república e da Secom.
A comunicação da presidenta é dominada pelo pensamento publicitário, pela mídia 1.0, onde tudo é pensado em termos de milhões de reais. Qual o custo em atualizar um blog, em escrever uns tuitezinhos por dia? Nenhum. Mas a presidência, sequestrada pela lógica pesada da Secom, prefere torrar milhões numa agência de publicidade, para fazer um novo pronunciamento na TV. Por que não fazer um tweetcam semanal com jovens e internautas? Porque não inovar na comunicação, interagir diretamente com a população, sem intermediação de Globo, Veja, Folha, Estadão?
Há um lado positivo em tudo isso, que é a aceleração da História. Assim como uma manifestação pode começar pela esquerda e terminar pela direita, como é o que aconteceu, ela pode tender à esquerda novamente. Mesmo uma guinada à esquerda, porém, só seria positiva se viesse no bojo de um forte apoio do povo e dos estratos mais progressistas da classe média. Um neochavismo sem base popular, sem comunicação, turbulento, isolacionista e mal ajambrado, apenas abriria espaço para uma vitória conservadora em 2014.
Por isso é tão necessário desenvolver uma estratégia de comunicação mais agressiva, mais jovem e mais dinâmica. O povo quer falar contigo, Dilma. Não apenas através de um plebiscito onde diremos sim ou não. Não através da Globonews. Quer falar contigo diretamente, olho no olho. Mas não pela TV, que tem um lado só. Tem que ser pela internet, onde podemos interagir. Talvez aí, nesse diálogo direto, veremos emergir uma surpreendente criatividade.