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segunda-feira, 9 de março de 2015

'Olha o velhinho!'

Veríssimo!

No blog de Anna Dutra


Feliz do país que conta com a verve e a consciência de cidadãos desta qualidade... E de muitos, muitos outros: anônimos mas atentos! 

de O Globo
Coluna do Verissimo


‘Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente’, afirma Bresser Pereira
Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres. O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar. Economistas liberais recomeçaram a pregar abertura comercial absoluta e a dizer que os empresários brasileiros são incompetentes e superprotegidos, quando a verdade é que têm uma desvantagem competitiva enorme.

O país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores e setores da baixa classe média, contra os rentistas, o setor financeiro e interesses estrangeiros. Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo. É ódio. Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou. Continuou defendendo os pobres contra os ricos.

O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas. Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita. Dilma chamou o Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem o poder. A divisão que ocorreu nos dois últimos anos foi violenta. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho. E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.

Nada do que está escrito no parágrafo anterior foi dito por um petista renitente ou por um radical de esquerda. São trechos de uma entrevista dada à “Folha de São Paulo” pelo economista Luiz Carlos Bresser Pereira, que, a não ser que tenha levado uma vida secreta todos estes anos, não é exatamente um carbonário. Para quem não se lembra, Bresser Pereira foi ministro do Sarney e do Fernando Henrique.

A entrevista à “Folha” foi dada por ocasião do lançamento do seu novo livro “A construção politica do Brasil” e suas opiniões, mesmo partindo de um tucano, não chegam a surpreender: ele foi sempre um desenvolvimentista nacionalista neokeynesiano. Mas confesso que até eu, que, como o Antônio Prata, sou meio intelectual, meio de esquerda, me senti, lendo o que ele disse sobre a luta de classes mal abafada que se trava no Brasil e o ódio ao PT que impele o golpismo, um pouco como se visse meu avô dançando seminu no meio do salão — um misto de choque (“Olha o velhinho!”) e de terna admiração. Às vezes, as melhores definições de onde nós estamos e do que está nos acontecendo vem de onde menos se espera.

Outro trecho da entrevista: “Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de desenvolvimento crítica do imperialismo, crítica do processo de entrega de boa parte do nosso excedente a estrangeiros. Tudo vai para o consumo. É o paraíso da não nação.”

sábado, 26 de outubro de 2013

Obra de ficção? Talvez, sim, talvez, não



Devo lembrar... que os de Tal, família composta de párias, de marginais, constituem uma das mais antigas estirpes do Brasil. Suas origens datam do tempo do Descobrimento. Os de Tal são brasileiros de quinhentos anos”.

Este pequeno fragmento do livro “Incidente em Antares” do escritor gaúcho, Érico Veríssimo (Dezembro 17, 1905 – Novembro 28, 1975) parece traduzir os acontecimentos ocorridos em nossa maltrapilha Queimadas nas últimas 24 horas.

Claro que a relação é apenas simbólica. Afinal, no livro de Verissimo os coveiros entram em greve e os mortos, não sepultados, adquirem “vida” e passam a vasculhar a vida de parentes e amigos revelando a podridão moral da sociedade.

No livro, Veríssimo se vale de um mosaico,(os insepultos vivos) que vai da veneranda matriarca (D. Quitéria), ao pingunço Pudim de Cachaça; do advogado Cícero Branco ao sapateiro José Ruiz Barcelona; da prostituta Erotildes ao subversivo João Paz, morto sob tortura, e, finalmente, ao pianista e professor Menandro para retratar a sociedade da pequena cidade de Antares.

Em Queimadas, se incorporássemos o espírito criativo de Veríssimo, as metáforas e questões tão bem expostas em “Incidente em Antares” teriam uma abordagem levemente diferente. Claro que a depender do ponto de vista de cada observador mais atento ou desatento.

Outra diferença: todos os insepultos estão bem vivos, se bem que alguns partidários insistem em usar panos embebedados com perfume para suportar o, digamos assim, aroma não tão agradável quando se reúnem. Já os personagens,,não necessariamente, obedeceriam ao quantitativo de Veríssimo (sete). Pode ser menor ou maior, a depender de cada situação, mas com certeza sofreriam pequenas adaptações.

Por exemplo, a de não seguir a questão de genero: A Matriarca, sim, a Matriarca, porque não? Com leves retoques, aí teríamos a representação do velho coronelismo e, com certeza se sairia muitíssimo bem no papel do Coronel Tibério”. Ou seria a do advogado que defenderia qualquer trapaça do Coronel? E o Filho? Lhe cairia bem o papel do sapateiro José Ruiz Barcelona?

Acredito que não. Ele, o Filho estaria melhor no papel do sapateiro “Mestre Amaro” (um dos personagens mais repulsivos do livro “Fogo Morto” do escritor José Lins do Rego), com aquela cor amarelada, mas não de cheirar cola, mas de “pitar” o seu “bode” mais fedorento do que os mortos insepultos.

E a Filha, seria a D. Quitéria, mulher inteligente, carinhosa, lúcida, bem informada sobre política estadual, nacional e internacional, que vai à missa, confessa todas as semanas e faz caridades? Ou lhe cairia melhor o papel  do professor Menandro que reservei para um dos secretários do saber?

 E o Líder, seria o João Paz, o subversivo, o que chegou para ficar, com aspirações que seu próprio peso por certo não suportaria? Enfim, deixo para os leitores o prazer de encaixar cada qual no perfil que mais acredita se adequar ao seu ideal. Vamos aos fatos, que é o que nos interessa e, a partir deles, cada um faça o “Jogo da Velha”. Encaixem três perfis corretos e será o vencedor. Aos fatos, portanto.

“Se algo pode dar errado, dará”. Este adágio muito comum por todo o Brasil deriva do que se conhece como a Lei de Murphy: “Qualquer coisa que possa correr mal, então vai correr mal”. Ontem, numa estranha coincidencia, que pode ser coisa do destino para quem acredita, alguns membros do poder político de Queimadas se ausentaram do município e pousaram em Salvador, em momentos diferentes.

Três horas após, ou menos ainda à chegada dos personagens à capital baiana, Queimadas fervilhava de boatos e certezas espalhadas por membros do staff do poder constituído: estavam reunidos em Salvador, possivelmente com advogados e munidos de uma mala de documentos comprometedores para abrirem um processo e uma CPI com o intuito de derrubar o atual alcaide.

A notícia explodiu como uma bomba. De imediato demissões foram anunciadas. De moto, um personagem que poderia ser o Coronel Tibério ou o advogado Cícero Branco, em desespero, cabelos esvoaçando ao vento na garupa de uma motocicleta, desabafava: “Meu amigo, você é a minha testemunha de que nunca, jamais, tirei qualquer coisa da prefeitura. 

E no seu vai e vem, rua abaixo, rua acima, afirmava: “Eu sabia. Sabia que havia alguma coisa errada. Ele não é amigo de Pininho (vice-prefeito Agripino dos Santos), mas agora vive na casa dele. Porque o almoço? Porque o almoço”? perguntava a ninguém e complementava: “E o pior, é que ele foi para Salvador com uma mala de documentos. O que ele tem contra nós?

Na esquina do posto de combustível recém inaugurado, transformado em “point” do poder, a grita era uma só: “Isso não pode ficar assim. O prefeito tem que demitir os traidores”, esbanjava saúde o subversivo João Paz. “Esta é a hora do prefeito dar a volta por cima fazendo uma cirurgia completa extirpando os tumores malignos”, pontuava o professor Menandro.

O dia amanheceu cinzento pros lado da antiga “Pousada de Carioca”, mas já sem o alvoroço e as reuniões que se sucederam durante a noite. Com o passar das horas a tensão diminuiu e, acredita este escriba que tudo não passou de fantasia. Talvez não deles e daqueles, mas deste escriba que, sem nada por fazer, cria esta obra (que obra?) de ficção.

Para os amigos que adoram uma ficção não deixem de ler este livro de Érico veríssimo. É fantástico e quão semelhanças entre Antares e Queimadas. Se deliciem com estas frases pinçadas na WEB:

"Às vezes nesse mundo é preciso mais coragem para continuar vivendo do que para morrer." 


"A progressão social repousa essencialmente sobre a morte. Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos."

"...morrer não é apenas uma fatalidade biológica, como também uma espécie de obrigação social." 



"Quando muito moço, eu me sentia como uma personagem que tinha entrado por engano numa peça a cujo elenco não pertencia. Eu me movia num palco estranho sem ter idéia do meu papel, e tudo ao meu redor parecia impreciso, absurdo e relativo."