“Devo
lembrar... que os de Tal, família composta de párias, de marginais, constituem
uma das mais antigas estirpes do Brasil. Suas origens datam do tempo do
Descobrimento. Os de Tal são brasileiros de quinhentos anos”.
Este pequeno fragmento do livro “Incidente
em Antares” do escritor gaúcho, Érico Veríssimo (Dezembro 17, 1905 –
Novembro 28, 1975) parece traduzir os acontecimentos ocorridos em nossa
maltrapilha Queimadas nas últimas 24 horas.
Claro que a relação é apenas simbólica. Afinal,
no livro de Verissimo os coveiros
entram em greve e os mortos, não sepultados, adquirem “vida” e passam a vasculhar
a vida de parentes e amigos revelando a podridão moral da sociedade.
No livro, Veríssimo se vale de um mosaico,(os insepultos vivos) que vai da veneranda matriarca (D. Quitéria),
ao pingunço Pudim de Cachaça; do advogado Cícero Branco ao sapateiro José Ruiz
Barcelona; da prostituta Erotildes ao subversivo João Paz, morto sob tortura, e,
finalmente, ao pianista e professor Menandro para retratar a sociedade da
pequena cidade de Antares.
Em Queimadas, se incorporássemos o espírito criativo
de Veríssimo, as metáforas e questões tão bem expostas em “Incidente em Antares” teriam
uma abordagem levemente diferente. Claro que a depender do ponto de vista de
cada observador mais atento ou desatento.
Outra diferença: todos os insepultos estão bem
vivos, se bem que alguns partidários insistem em usar panos embebedados com
perfume para suportar o, digamos assim, aroma não tão agradável quando se reúnem.
Já os personagens,,não necessariamente, obedeceriam ao quantitativo de Veríssimo
(sete). Pode ser menor ou maior, a depender de cada situação, mas com certeza sofreriam
pequenas adaptações.
Por exemplo, a de não seguir a questão de genero:
A Matriarca, sim, a Matriarca, porque não? Com leves retoques, aí teríamos
a representação do velho coronelismo e, com certeza se sairia muitíssimo bem no
papel do Coronel Tibério”. Ou seria a do advogado que defenderia qualquer
trapaça do Coronel? E o Filho? Lhe cairia bem o papel do sapateiro José Ruiz
Barcelona?
Acredito que não. Ele, o Filho estaria melhor no
papel do sapateiro “Mestre Amaro” (um dos personagens mais repulsivos do livro “Fogo
Morto” do escritor José Lins do Rego), com aquela cor amarelada, mas
não de cheirar cola, mas de “pitar” o seu “bode” mais fedorento do
que os mortos insepultos.
E a Filha, seria a D. Quitéria, mulher
inteligente, carinhosa, lúcida, bem informada sobre política estadual, nacional
e internacional, que vai à missa, confessa todas as semanas e faz caridades? Ou
lhe cairia melhor o papel do professor Menandro que reservei para um dos secretários
do saber?
E o Líder,
seria o João Paz, o subversivo, o que chegou para ficar, com aspirações que seu
próprio peso por certo não suportaria? Enfim, deixo para os leitores o prazer
de encaixar cada qual no perfil que mais acredita se adequar ao seu ideal.
Vamos aos fatos, que é o que nos interessa e, a partir deles, cada um faça o “Jogo
da Velha”. Encaixem três perfis corretos e será o vencedor. Aos fatos,
portanto.
“Se algo pode dar errado, dará”. Este adágio muito comum por todo o Brasil
deriva do que se conhece como a Lei de Murphy: “Qualquer coisa que possa correr
mal, então vai correr mal”. Ontem, numa estranha coincidencia, que pode
ser coisa do destino para quem acredita, alguns membros do poder político de
Queimadas se ausentaram do município e pousaram em Salvador, em momentos
diferentes.
Três horas após, ou menos ainda à chegada dos personagens
à capital baiana, Queimadas fervilhava de boatos e certezas espalhadas por membros
do staff
do poder constituído: estavam reunidos em Salvador, possivelmente com advogados
e munidos de uma mala de documentos comprometedores para abrirem um processo e
uma CPI com o intuito de derrubar o atual alcaide.
A notícia explodiu como uma bomba. De imediato
demissões foram anunciadas. De moto, um personagem que poderia ser o Coronel
Tibério ou o advogado Cícero Branco, em desespero, cabelos esvoaçando ao vento
na garupa de uma motocicleta, desabafava: “Meu amigo, você é a minha testemunha de que
nunca, jamais, tirei qualquer coisa da prefeitura.
E no seu vai e vem, rua abaixo, rua acima,
afirmava: “Eu sabia. Sabia que havia alguma coisa errada. Ele não é amigo de
Pininho (vice-prefeito Agripino dos Santos), mas agora vive na casa dele.
Porque o almoço? Porque o almoço”? perguntava a ninguém e complementava: “E
o pior, é que ele foi para Salvador com uma mala de documentos. O que ele tem
contra nós?
Na esquina do posto de combustível recém
inaugurado, transformado em “point” do poder, a grita era uma só: “Isso
não pode ficar assim. O prefeito tem que demitir os traidores”,
esbanjava saúde o subversivo João Paz. “Esta é a hora do prefeito dar a volta por
cima fazendo uma cirurgia completa extirpando os tumores malignos”,
pontuava o professor Menandro.
O dia amanheceu cinzento pros lado da antiga “Pousada
de Carioca”, mas já sem o alvoroço e as reuniões que se sucederam
durante a noite. Com o passar das horas a tensão diminuiu e, acredita este
escriba que tudo não passou de fantasia. Talvez não deles e daqueles, mas deste
escriba que, sem nada por fazer, cria esta obra (que obra?) de ficção.
Para os amigos que adoram uma ficção não deixem
de ler este livro de Érico veríssimo. É fantástico e quão semelhanças entre
Antares e Queimadas. Se deliciem com estas frases pinçadas na WEB:
"Às vezes nesse mundo é preciso mais coragem para continuar
vivendo do que para morrer."
"A progressão social repousa essencialmente
sobre a morte. Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos."
"...morrer não é apenas uma fatalidade biológica, como também uma espécie de obrigação social."
"Quando muito moço, eu me sentia como uma
personagem que tinha entrado por engano numa peça a cujo elenco não pertencia.
Eu me movia num palco estranho sem ter idéia do meu papel, e tudo ao meu redor
parecia impreciso, absurdo e relativo."
"...morrer não é apenas uma fatalidade biológica, como também uma espécie de obrigação social."
Nenhum comentário:
Postar um comentário