segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Renatinho, Dilma e a vida pela frente

17-08-2009

Por Haroldo Aquilles

O artigo abaixo escrito pelo jornalista Luis Nassif pegou-me desprevenido no emocional. Desde a morte de minha mãe (por aneurisma - uma surpresa que abalou minhas convicções, inclusive da bondade divina), a morte passou a ser uma convidada constante em meus momentos de solidão (as tenho muito, sobretudo no silencio de meu sítio).

Não digo que não a temo, mas deixei de ter medo do desconhecido e a morte de meu pai veio como uma luz para resignar-me e ter a certeza de que somos insignificantes perante a vida e que a morte nada mais é do que uma passagem. Mas alerto que isso não é conformismo, porque amo a vida com todas as forças e, como meu pai, quero e preciso chegar o mais longe possível, desde que com a mente sã.

Hoje, ao ler o artigo de Nassif foi como um bálsamo para o espírito. Desde o meio dia de sábado estava inquieto, triste, meio que revoltado com a vida. Precisava buscar explicações. Mas me faltava a solidão do sítio enquanto sobrava alegria pela presença física com minha mulher e filhos.

É aquela alegria que sentimos sem que saibamos o porquê. É o estar de bem com a vida sem olharmos o que se passa ao redor com outros familiares e amigos. Foram 48 horas, incluindo um domingo amargo. O pior, é que estava satisfeito comigo mesmo, pois visitara no sábado dois amigos que se recuperam de problemas graves.

Mas era exatamente nisso que residia aquela amargura ou tristeza inexplicável. Foi o artigo de Nassif que clareou meus sentimentos e permitiu entender o que se passava: fora a visita que fiz a Renato Martins, nosso amigo Renatinho no "Retiro de São Francisco" onde se recupera de uma cirurgia de retirada de um cancer brutal e inesperado e a Vivaldino Moura (Vivá), no Hospital Aliança, este para felicidade da família só esperando a alta após 90 dias de dura prova física e emocional..

Foi sua imagem serena, confiante na vitória que por certo virá, que havia acabado com meu sossego. Renatinho, como eu, é um sonhador, um idealista de mensagens e um ouvinte da solidão perscrutada nas noites escuras de seu sítio, a "Fazenda Sobradinho" onde se recolheu como um monge do saber tempos atrás.

Sei que a sua solidão é mais doce do que a minha, pois a divide com a sua companheira (lívia) e seus gatos. Mas sei que gosta do silencio, de ouvir seus pensamentos nas noites e de buscas por identidades, como diriam os poetas.

Pois foi esta imagem de Renatinho que perturbou a minha paz e a alegria após a visita. Não pelo seu estado físico, debilitado pela doença e por tres cirurgias em menos de dois meses. Mas por perceber o quanto a vida é tenue e como ele se agarra a ela.

Cerca de tres meses atrás encontramo-nos no monumento em homenagem ao Vaqueiro Nordestino e conversamos sobre a úlcera que o levara a Salvador para tratamento. Fomos interrompidos pelo Sargento Haroldo Oliveira a contar-nos com um sorriso generoso de que o cancer de intestino que operara menos de um ano atrás voltara e já estava com sete centímetros.

Despedimo-nos com a certeza de que Haroldo voltaria a sala de cirurgia e Renatinho continuaria seu tratamento contra a úlcera, deixando de lado, provisoriamente, as generosas doses de "umburana" antes do almoço e ao entardecer.

Vim ter com Renatinho neste sábado tres meses após nossa conversa e de passar por tres cirurgias para a retirada de um tumor no intestino grosso. Mas lá estava ele, como sempre sorridente e com idéias a mil para enfrentarmos a seca em Queimadas e ainda oferecendo seus préstimos (do seu vaqueiro) para qualquer necessidade que tivesse em meu sítio).

Sai de lá deixando meu amigo aos cuidados dos seus familiares (irmã e a mãe de 91 anos) já traçando planos pra uma nova mudança de ares: um apartamento alugado pela mãe para enfrentar o longo percurso de tratamento e recuperação.

E cá eu fiquei com aquela agonia, desaparecida agora com a janela aberta pelo artigo de Nassif. Força meu amigo. Da vida só temos uma certeza, que não é como muitos imaginam, a morte, mas o que deixamos como legado. Daqui a dois, tres ou quatro meses, tomaremos aquela "umburana" feita por Lívia e continuaremos a sonhar na solidão dos nossos sítios.

Nenhum comentário:

Postar um comentário