sábado, 17 de outubro de 2009

O São Francisco

"Olha lá vai passando a procissão"... Pouco antes de Gilberto Gil cantar a primeira estrofe desta música que retrata tão bem a agonia do nordestino ao enfrentar a tragédia da seca, um coro de mulheres, bem ao longe, reza em súplica a São José uma ladainha (Meu Divino São José, estou aqui a vossos pés).
Ao assistir as poucas imagens (boicote da Mídia Corporativa) do nosso presidente Lula a caminhar pelo solo ressequido do sertão para mostrar que a previsão do Santo Conselheiro dos miseráveis pode vir a acontecer e finalmente o sertão virar mar (se bem que o mar pode não virar sertão) fui remetido à minha infancia às margens do Rio Itapicuru na cidade de Queimadas.
Não mais tenho certeza se o ano era 1957 ou 1959 ou se antes ou depois, tantos foram os ciclos de estiagem que atingiram o sertão e ainda hoje o atingem. Lembro-me, apenas, das procissões e das cantorias (rezas) de mulheres e homens a caminhar sobre as areais escaldantes do Itapicuru no trecho que vai do Chalé, passando pelo Bevé e encerrando na Igreja de Santo Antonio, no alto que leva seu nome.
Nos ombros, aqueles devotos abandonados carregavam a imagem de São José. O canto, mais parecido com as dores dos negros escravizados transportados em navios negreiros tão bem retratados pelo poeta maior, Castro Alves, era o canto dos desesperados a implorar pelas chuvas que teimavam em não cair. Podia ser novembro, como bem podia ser março.
Podiam-se perceber neste trecho as dezenas de cacimbas escavadas no leito de areia do Itapicuru para a retirada da pouca água salobra que ainda brotava. Era uma visão estarrecedora, Mesmo para uma criança que pouco ou nada entendia de seca, de miséria e, sobretudo, de política. Era uma manada de pedintes a deslizar como uma cobra a suplicar, não aos governantes porque deles nunca receberam nada, mas a Deus a sua misericórdia.
Se as procissões a São José acabaram, não sei dizer. Sei que as súplicas continuam porque a estiagem com toda a sua força de desagregação e de mortandade continua a ceifar as esperanças deste povo que um dia o fora chamado de "antes de tudo um forte". E o deve ser, porque resiste à insensibilidade do sul e Sudeste, ao desprezo dos governantes de lá e de cá e a sempre e implacável ira de Deus ou da natureza, como queiram,
Fomos amaldiçoados e devemos pagar pelo pecado do mundo? A mídia prefere falar (e deve) dos desastres naturais que de vez em quando se abate sobre o Sul e Sudeste. Mas se esquece que a seca nunca foi embora e se perpetua porque assim o querem aqueles que veem o Nordeste como um apendice de tudo o que é de ruim que existe no Brasil. Portanto, melhor ignorá-lo.
Mesmo a seca que mais uma vez assola todos os estados nordestinos não é motivo para sensibilizar a imprensa do Sul e Sudeste para a importancia da obra que Lula está realizando: A Transposição das águas do São Francisco. Esperneia e afirma ser um absurdo o governo federal gastar bilhões de dólares numa obra para atender pessoas miseráveis, gente subnutrida, analfabeta e ignorante. Brada que estes recursos deveriam e seriam mais bem aplicados nos Estados mais ricos, onde ele foi gerado com a cobrança de impostos.
Nós, e não eles somos os sanguessugas. Não a toa a Mídia Corporativa esculhamba (esta é a palavra correta) o presidente retirante, o nordestino semi-analfabeto de quatro dedos que teve a ousadia de virar presidente. E mais agora de realizar uma obra que está no imaginário desta nação há 200 anos.
Gostaria que o governador da Bahia, Jacques Wagner tivesse a mesma visão social do presidente Lula. Se assim o tivesse teria lutado para que a transposição beneficiasse a Bahia por meio de canais que transformassem rios como o Itapicuru e o Vaza Barris em rios permanentes dada a importancia que ambos teem no semi-árido baiano.
Sei que a maior responsabilidade é do ex-governador Antonio Carlos Magalhães e sua trupe, como o ex-governador Paulo Souto que lutou contra a transposição. Mas, ainda há tempo. Afinal, a obra está apenas começando.

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