sexta-feira, 19 de março de 2010

Joel Suingue

Diante daqueles pequenos olhos marejados de lágrimas passam histórias e estórias de nove décadas de vida (completa 90 anos em setembro). Sentado, no passeio em frente a sua casa, mas observando atentamente ao que se passa ao seu redor (cuidados com o bisneto, por exemplo), Joel, (que tem a bossa no nome) Suingue não se parece em nada com aquele tradicional político interiorano.
Não possui a arrogância dos velhos coronéis ou mesmo a sabedoria corrupta e nefasta de boa parte dos atuais políticos que há 20 anos são os senhores absolutos do poder em Queimadas. Mas não se enganem. É o político com o maior número de mandatos de vereador (7) no município.
Com a mesma simplicidade com que relembra a entrada de Lampião em Queimadas, quando tinha apenas nove anos (1929) e de como, por educação, apanhou e entregou a Corisco o Mosquetão que este havia deixado cair no chão, relembra da chegada do então interventor da Bahia, Juracy Magalhães à residência dos Lantyer. “Um jovem tenente de apenas 25 anos”, lembra ainda admirado, em que pese, anos depois, “e por todo o sempre” ter sido oposição.
Muito há que se dizer e falar deste nobre descendente de africanos que nunca se calou perante os poderosos de seu tempo e que viveu e ainda vive serenamente ciente de que cumpriu o destino que as forças (do bem, é claro), traçaram para seu périplo terreno.
Eu, pessoalmente, tenho uma gratidão que não pode ser medida em palavras ou gestos, como este de falar sobre esta figura que deveria servir de exemplo para as novas gerações e, sobretudo, para esta gentalha atualmente no poder. Gratidão por ter sido amigo, companheiro, escudeiro e marechal, desde a infância de outro homem que honrou, com sua atitude de vida, esta terra: Analdino Brito de Andrade.
Eis aí dois homens que nunca se separaram. Que atravessaram décadas de convívio, desde os folguedos de criança, passando pelos excessos da juventude, até a maturidade e o alvorecer de um novo tempo em outro plano espiritual (no caso de Analdino), irmanados pelo amor fraterno e pelo mesmo ideal: a busca permanente por um porvir melhor para queimadas e para seu povo.
É esta gratidão que não consegue calar um coração que se culpa por dedicar tão pouco tempo a este imortal queimadense. Sinto inveja, do meu amigo “Legal” quando o vejo quase que, diariamente, sentado ao lado de Joel ouvindo seus causos, casos e história sobre tudo o que se relaciona a Queimadas e a seu povo.
E me questiono a todo o momento: Porque eu, que compartilho de seus ideais e que o consagro como um dos grandes queimadense (vivos ou mortos) dedico-me tão pouco a enaltece-lo? Se eu que assisto ao silencio e ao descaso dos novos mandachuvas a essas figuras ímpares, também me calo, o que sobrará para servir de exemplo para as novas gerações de homens que honraram e enobreceram nossa história?
Espero que este libelo seja o primeiro de uma série de outros que levantarei em defesa desses homens que honraram nossa história e que lutaram durante uma vida inteira em defesa de nossa gente. Para isso, conto com a participação dos nossos companheiros nesta jornada para lembrar que Joel Suinge e Analdino Brito não foram solitários nesta luta. Outros existiram, mas são e estão tão esquecidos quanto estes dois.
Peço aos companheiros, aos professores e alunos que levantem a biografia e a história de vida de tantos homens e mulheres que construíram com honradez e dignidade nosso rincão. Queimadas tem uma tradição cultural rica, mas, infelizmente, está jogada nos porões do esquecimento. Já estamos perdendo nosso patrimonio (caso da Estação da Leste, da Pedra o Juazeiro). Vamos lutar para que não enterrem nossos homens de bem.

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