sexta-feira, 26 de março de 2010

Um certo padre italiano

No início dos anos 70 cá estava eu morando em Queimadas depois de uma década ausente, primeiramente em Senhor do Bonfim, interno no Colégio dos Irmãos Maristas, e, posteriormente, em Salvador. Foi um período duro. Primeiro, porque me sentia confinado porque viera por preocupação. Eram os anos duro da ditadura militar e um colega do Colégio Central fora preso quando fazíamos pichação comemorando uma data festiva do PCdoB.
E prisão podia significar delação (que não houve), mas um irmão deste colega havia me procurado para saber se eu sabia do seu paradeiro motivo suficiente para assustar qualquer pessoa minimamente engajada no movimento político estudantil. Queimadas era a solução e por aqui fiquei por longos dois anos até retornar, fazer o vestibular para jornalismo na Universidade Federal da Bahia.
Segundo, porque minhas referencias estavam todas em Salvador (mãe, amigos, colegas, irmãos e primos). Dos amigos de infância poucos restaram e, mesmo destes já estava distanciado pelo tempo. Afinal, parti na Maria Fumaça para Senhor do Bonfim aos 14 anos e já estava aos 23. Foram duros estes dois anos, mas também cheio de prazeres e novas descobertas.
O tempo livre ou ocioso proporcionado por uma cidade interiorana e pequena abriu-me os olhos pra a leitura. Devorava livros com o mesmo ímpeto que um prato de feijão para saciar a fome. Da coleção de livros de meu avô, todos, sem exceção de Plínio Salgado (afinal fora integralista), à Machado de Assis, Jorge Amado, e Érico Veríssimo, José Lins do Rego e Adonias Filho foram meus melhores companheiros deste período.
Mas havia mais. As caçadas de codornas ao entardecer com um dos poucos companheiros de infância (Ademar Moura e Silva) no Campo de Aviação, com seu inseparável cachorro se não estou enganado de nome “Uique”, e que degustávamos (matava-se apenas duas) logo depois no Bar de Bento, na Praça da Feira.
No entanto, à época o que mais me marcou e acredito à população de uma forma geral fora um padre italiano que mal falava o português e era o pároco do município. Principalmente para as pessoas idosas e as de minha idade que foram catequizadas quando a Igreja estava sob o comando do Padre Zacarias um religioso rígido que não dispensava a batina preta e parava a missa, a qualquer tempo, para chamar a atenção das crianças que ficavam à frente conversando em voz alta.
Rivalizar com o Padre Zacarias só o Monsenhor Berenguer, de Monte Santo que jamais permitiu que o último dia de Carnaval ultrapasse, um segundo sequer, as doze badaladas da meia noite. A quarta-feira para ele era santa, merecedora de respeito. Era a entrada da Quaresma, tempo de penitencia, jejum e muita reza para os católicos.
E porque este tempo foi tão marcante? Pelo simples fato de que este era um padre diferente, pouco afeito à batina (mas a usava de cor clara) e que andava de baixo para cima em manga de camisa dirigindo um trator com um reboque cheio de sisal desfibrado na antiga Granja. Um padre que, no início de seu reinado pastoral que durou longos 15 anos em Queimadas raramente a homilia fazia parte da missa e quando fazia poucos entendiam tal a dificuldade inicial com o português.
Ao ponto do meu avô, um beato assumido, em determinado momento (mas revogado depois) se recusar ir à Igreja aos domingos reagindo contra a rapidez com que era celebrado o ato litúrgico e, ainda por cima, sem a homilia. Com o tempo meu avô se harmonizou com a Igreja e o Padre Carlos Gabanelli, este o seu nome que marcou e ainda marca profundamente o trabalho social da Paróquia de Queimadas, com o português.
Um homem bom ou um homem santo. Qualquer adjetivo cai perfeitamente nesta figura emblemática, singela, às vezes grosseira na defesa daquilo que queria. Mas foi com o seu senso para o ineditismo, com a sua coragem com que enfrentava o conservadorismo que, pela primeira vez, tomei conhecimento do jornalismo.
Primeiro, com um programa de música clássica na rádio da paróquia (altos falantes) que passei a fazer por um período sempre após as 18 horas (por pouco tempo, é verdade), e, segundo, pelo mimeógrafo que adquirira para a Igreja que, acredito, tenha sido o primeiro a chegar no município.
E foi com ele que fizemos um jornalzinho que deu muito que falar enquanto durou. Não sei se rodamos cinco edições. Mas uma coisa é certa quebrou a mesmice em que a cidade vivia.
Chegou, inclusive, a abalar os alicerces do velho e saudoso Recreio Clube com as críticas que fizemos aos diretores da época e ao apoio direto e claro que o jornal prestou a candidatura, se não estou enganado, do empresário Deraldo Dias que pregava uma revolução na forma de dirigir um clube.
Não me recordo se Deraldo Dias venceu as eleições. Mas lembro que o jornal, tal a pressão que os senhores mandachuvas à época fizeram, fechou. Ali estava um padre que não gostava de política, mas a fazia no dia a dia tanto no campo social como na formação dos jovens à época. Talvez ainda não saibamos a dimensão do que representou e ainda representa o Padre Carlos para Queimadas.
Mais uma coisa é certa: seu apostolado entre nós ainda não acabou. E mesmo quando parti (que espero ainda demore bastante) para um novo apostolado em outro campo da vida, seu trabalho continuará dando os bons frutos. Talvez, aí, sim, Queimadas desperte para prestar as homenagens que este grande homem merece. Nós é que não o merecemos e por isso, de antemão e com humildade peço-lhe desculpas e que perdoe aqueles que enxergam apenas com os olhos, mas não vêem com o coração.

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