quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um amigo de Queimadas

O tom laranja avermelhado dominou por alguns minutos os dois horizontes que, na minha forma de entender a vida terrena, representam o nascer e o morrer. O sol, em um dos lados, se escondia ou partia nas dobras da terra, majestoso e imponente levando consigo a luz.
No outro extremo, uma lua ainda sob os efeitos deste anoitecer esmaecido ascendia e, lentamente, impunha seus raios de tom prateado anunciando mais uma noite no sertão.
Foi este cenário sem retoques que a Mãe Natureza presenteou nosso amigo Renatinho fechando o seu ciclo de vida. Mas eu tenho certeza absoluta que, de lá da varanda na casa sede da Fazenda Sobradinho, com seu inseparável cigarro à mão, ele contemplava os últimos raios do sol refletido nas flores amarelo ouro desta árvore símbolo do sertão queimadense e que, às dezenas emolduram as curvas do Rio Jacurici: as Caraibeiras, o Ipê amarelo do sertão.
As décadas passam e só percebemos nosso entardecer quando amigos próximos começam a nos deixar sem nos avisar, indo embora antes do combinado como costuma dizer o poeta da música caipira, Rolando Boldrin. É uma parte da gente que se vai deixando aquele amargo recordar de que poderíamos ter convivido mais tempo juntos enquanto pudemos desfrutar desta vida.
Recordo as poucas vezes que estive na Fazenda Sobradinho, ainda sob o domínio do velho Renato Martins, quando este trazia seus dois filhos para curtir o que a beleza deu-lhes de presente: o encontro dos Rios Itapicuru e Jacurici. A casa, no alto da colina, permitia a eles e aos amigos que os visitavam sentir todo o esplendor oferecido pela estação das flores.
Muito provavelmente esta paisagem tenha fincado em seu coração o amor por Queimadas fazendo com que anos mais tarde, homem formado já pai de dois filhos encontrasse um novo amor e escolhesse este cenário para viver seus últimos tempos nesta vida terrena.
Foi-se um queimadense de cepa com ascendência em Salvador e Cruz das Almas. Poucos aqui tem o amor que ele transbordava por esta terra sem nada lhe pedir a não ser a permanência daquele cenário que o cercava. Indignava-se facilmente com o desmando, com a corrupção e com a total falta de amor dos nossos políticos e gestores. Mas não perdia a esperança.
Foi-se um homem, um filho, um pai, um avo, um amante, um amigo sem que lhe perguntassem se queria partir. Sei que não queria. Sei que amava a vida do jeito que escolheu para viver. Não era homem de arrependimentos.
Na última vez que estivemos juntos (e não faz tanto tempo assim) tivemos pouco tempo para conversar. Ele, magro, mas cheio de vida mostrava o guerreiro que foi. Lutava como um general estrategista para vencer a sua Waterloo. Ele próprio com aquela generosidade, disposição e vontade de permanecer entre nós pesou o gado que levei para vender.
Ingenuamente pensei que a batalha estava a ser vencida por ele. Menosprezei a estratégia deste adversário terrível e implacável e Renatinho partiu. Deixa-nos Lívia, sua companheira e grande guerreira provada de todas as lutas enfrentadas por ambos, sem que precisasse, nesta guerra que durou tão pouco tempo. A esta amiga toda a força do amor que os verdadeiros amigos dedicavam a Renatinho.
Um até breve, meu amigo. Sei que meu alvorecer se aproxima. Espero que se alongue. Mas não podemos esquecer que vivemos com a absoluta certeza de que a morte é a única garantia de um outro reviver. É o que nos move.

Um comentário:

  1. O Passarinho do bar do Osvaldo ficou mudo, não fala mais nada sobre a administraçao a qual vc faz parte, e nenhuma nota sobre a reprovação de contas e desvios de Serginho?

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