quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Clone de O pragmatismo de Dilma e o auto-engano na blogosfera


JB Costa no www.luisnassif.com.br


Um dos fatos mais marcantes, porque trágico tal qual uma peça do teatro grego, da história política brasileira foi, sem nenhuma dúvida, o caso Olga Benário.
Em resumo: presa pela ditadura de Getúlio Vargas e esperando um filho de Luís Carlos Prestes, então Secretário geral do OCB e ícone da esquerda brasileira, Olga, judia, foi deportada por conta de um pedido de extradição da Alemanha Nazista. Encarcerada num campo de concentração acabou sendo executada em 1942.
Bem, qual o destino dos dois personagens principais da tragédia? O que o destino, ou, a face mais pragmática da política, os levou? Nada de ressentimentos, de revanche: em 1950 Prestes subiu no mesmo palanque de Getúlio e o ajudou na retomada do Poder, agora pela via do voto.
A ida de Dilma à Folha longe está da magnitude do que foi a "rendição" de Prestes a realpolitik. Além dos aspectos institucionais (liturgia do cargo, relacionamentos institucionais etc) houve o sentido político. Os gestos dos que limitam nessa arte são, não raro, muito mais reveladores que palavras ou discursos, estes sempre envoltos em tergiversações e simulações.
A meu ver, a alternativa mais danosa seria a presidenta ter-se negado ao convite. Tal gesto passaria, tanto para a mídia, como para a própria população, espírito de revanche, de vingança. Seria plausível, institucional e politicamente, uma ação dessas de um governante em início de governo? Que ainda busca firmar-se porque ainda à sombra de um político da dimensão do Lula?
Entendo perfeitamente o desencanto e desalento dos que votaram na coligação vitoriosa. O Eduardo Guimarães, pessoa íntegra e que sempre esteve à frente dos embates por conta dos desvios da mídia, repassa todo o sentimento de frustração pelo gesto da Dilma. Sua integridade moral -inquestionável - o levará certamente a uma leitura menos emotiva e mais contextualizada desse evento. O mesmo pode ocorrer com alguns frequentadores do blog, cuja sinceridade é inquestionável.
Não tenho a pretensão de querer anular, ou avaliar como ilegítimas ou equivocadas essas visões do "ensarilhar armas". Chamo a atenção apenas para um aspecto: o institucional; detalhe que passa despercebido pelo jornalista Leandro Fortes no seu artigo "Dilma na cova dos leões", na última edição (nº 634) da Carta Capital.
A imprensa é uma instituição. A criação de qualquer acrônimo depreciativo nunca modificará esse fato. E as instituições são um dos resultados do processo civilizatório. Pode-se, aliás, deve-se, colocar em xeque sua credibilidade, sua honestidade, falta de ética, partidarismo, e tudo o mais. Mas nunca a sua própria liberdade e existência, desde que no âmbito das leis vigentes.
Nesse sentido, como se costuma dizer, as pessoas passam e as instituições ficam. Dilma, pelo viés protocolar, foi prestar reverência à instituição imprensa, não a Tavinho ou tavão. Pela leitura política, estabelecer uma trégua num embate que só prejuízos acarretam para a sociedade e, de quebra, inserir uma cunha, não por rendição, mas por estratégia junto ao eleitorado mais conservador, cujo nicho maior sempre foi São Paulo.
A blogosfera não pode deixar-se apossar pelo auto-engano do galo chantecler, aquele que pensava que o Sol despontava todas as manhãs pelo seu belo canto. Não vejo amplitude nem força nos blogs para uma eventual influência ativa e incisiva nos rumos da macro política. No varejo, talvez.
Esse é o maior dissabor do auto-engano: quando a realidade se impõe o sentimento é de total desolação. Bate o desespero. Nesses momentos, vale recorrer a leitura do velho Maquiavel que há quinhentos anos nos ensina que a política é da seara dos homens imperfeitos.
E para o futuro é bom nos resguardar. Novas emoções virão.



Os suspensórios do Otavinho



Por Eduardo Guimarães no www.blogdacidadania
A primeira coisa em que pensei ao saber que a presidenta Dilma iria à comemoração dos 90 anos da Folha de São Paulo foi na comemoração dos 80 anos do jornal, para a qual convidou este que até então era apenas um leitor que, segundo o ombudsman da época, Bernardo Ajzemberg, chegou a ser o que teve mais cartas publicadas naquele veículo.
Era o penúltimo ano do governo Fernando Henrique Cardoso. Este blogueiro ainda acreditava em que era possível manter um diálogo civilizado com a imprensa conservadora, de maneira que interagia com colunistas daquele jornal como Eliane Cantanhêde e Clóvis Rossi – primeiro, por e-mail, e depois, pessoalmente, em eventos para os quais passei a ser convidado.
Esse lambe daqui, lambe dali durou até 2005, quando estourou o escândalo do mensalão e o jornal não aceitou bem as minhas críticas ao que me pareceu uma legítima tentativa de derrubar o governo Lula. Dali em diante, fui me tornando persona non grata, deixei de receber convites e de ter as minhas cartas publicadas.
Dois anos e meio depois, convoquei os leitores deste blog para o primeiro de quatro atos públicos de protesto que promoveria diante daquele jornal, com destaque para o da ditabranda, em 2009.
Aquele primeiro ato público, explique-se, derivou de afirmação do ministro do Supremo Ricardo Lewandowski de que a Corte que integrava aceitara o inquérito do mensalão porque a imprensa lhe teria colocado a “faca no pescoço”, o que me pareceu uma ameaça ao Estado de Direito, pois a Justiça processar pessoas com base em pressão da imprensa era – e continua sendo – assustador.
A segunda coisa em que pensei foi em tudo que fez a Folha de São Paulo ontem e hoje – no apoio que deu à ditadura militar, na ficha policial falsa da mulher que ali estava para prestigiar seu carrasco e na matéria em que permitiu que um sem-vergonha qualquer acusasse Lula de ter tentado estuprar um adolescente.
Senti engulhos.
Contrariado e um tanto quanto chocado, desliguei o computador, abri uma garrafa de vinho e fui para diante da tevê ver um filme. Em dado momento, não resisti e sintonizei a NBR (canal de TV da Presidência da República). Eis que entra Gilberto Kassab em minha sala, obviamente bajulando a Folha em discurso. Em seguida, vem Geraldo Alckmin também para bajular.
Dilma foi a última a discursar. Mesmo pela tevê era possível quase tocar o constrangimento que pairava na Sala São Paulo, anfiteatro pomposo do centro velho de São Paulo em que também ocorreu a comemoração de dez anos antes. Àquela altura, Dilma, seus ministros e aliados já pareciam perceber o choque que foi a presença dela no coração da imprensa golpista.
Ao assistir ao discurso da presidenta – e não sei se por conta do que aquela situação encerrava de patético –, ela já foi explicando que sua presença ali se tratava de um gesto simbólico de respeito à liberdade de imprensa e de convivência democrática.
Muito diplomaticamente, Dilma aludiu ao momento “especial” em que disse estar a imprensa escrita diante do que a internet está gerando em termos de relações dela com seus leitores – uma fala cheia de simbolismo, sobretudo no que se refere à blogosfera. E disse ainda ter “certeza” de que os jornalistas daquele veiculo saberiam “conviver” com as críticas de seus leitores…
Doce ilusão.
Todavia, em vez de rendição, passei a entender o gesto de Dilma como uma homenagem à democracia, à liberdade de imprensa e de opinião. Uma retórica cheia de menções à mesma ditadura que a Folha pediu e sustentou até quase o seu fim, quando abandonou o barco dos ditadores e passou a trabalhar pelas diretas já.
Ainda assim, não consegui engolir que um governo supostamente popular, nascido da luta do ex-presidente Lula, que sempre lembra que em seus oito anos jamais precisou almoçar com dono de jornal, tenha ido em peso prestigiar um jornal com um histórico como o da Folha só para provar que não quer censurar ninguém.
Até porque, não sei a quem a presidenta quis provar isso – se ao país ou aos barões da imprensa.
Até o momento em que vou concluindo este texto, a cena tétrica em que não paro de pensar é a seguinte: a presidenta papeando com o Otavinho no convescote até que, em dado momento, elogia os seus suspensórios. Não paro de pensar naqueles suspensórios ridículos a poucos centímetros daquela em quem depositei tanta confiança.
PS: refiro-me a suspensórios conceituais

Nenhum comentário:

Postar um comentário