terça-feira, 16 de agosto de 2011
E o Brasil, o que temos a oferecer?
Por Heloisa Villela, de Washington
Originalmente publicado no blog Viomundo.com.br
Excelente o artigo do Roger Cohen publicado no New York Times (logo abaixo, nota do editor do blog) e traduzido para o português aqui pelo Viomundo. Se a hora é do Sul e do Leste, se a Alemanha tem idéias que parecem estar funcionando para a sociedade deles, eu me pergunto: e o Brasil, o que tem a oferecer neste momento crítico? Neste que parece ser o ápice de uma mudança global que começou com o fim da dualidade imposta pela Guerra Fria?
Acho que o Brasil pode oferecer muito quando olhamos para as iniciativas na área externa. Na busca do diálogo e do engajamento como formas de enfrentar conflitos. Na luta pelo fim da fome e da miséria no mundo. Até aí, vamos bem. Adotamos e seguimos uma linha que me parece bastante necessária e enriquecedora para o planeta, não fosse a missão no Haiti onde, me parece, fazemos o “trabalho sujo” para os americanos.
O que me preocupa mais é o que acontece dentro de casa. Talvez a distância me dificulte focar e ver melhor. Mas ainda não consegui enxergar um projeto que proponha alternativa de modelo, de valores, de buscas menos pautadas em algo que está ruindo. Explico-me: em vários setores da vida brasileira, tenho notado um movimento de tentar se “parecer” cada vez mais com os americanos.
A sede da nova classe média brasileira em visitar e comprar tudo que pode nos Estados Unidos é apenas um sintoma. Compreensível que um desejo de consumo tanto tempo reprimido esteja se espraiando em Miami, Nova York, etc. Mas não fica apenas nisso. A cada viagem de volta ao Brasil, me espanta a multiplicação de letreiros, cartazes, nomes de lojas, tudo em inglês. É o chique, o que dá charme e significa status.
Dona Marisa, nossa ex-primeira dama, foi firme nesse ponto. Escolheu roupas com rendas feitas no Brasil. Coisa nossa, muito nossa. Por isso mesmo, muita gente achava cafona. Bonito é usar os terninhos a la Hillary Clinton ou os modelitos Sarah Palin. Será possível? Não é só no projeto econômico e na política externa que se podem oferecer alternativas. É na cultura, na forma de se expressar e se apresentar ao mundo também.
Mas tenho a impressão, cada vez mais forte, de que estamos copiando a cultura americana em muitas e tantas coisas…
Não falo apenas nas roupas, nos programas de TV, na valorização do consumismo. Vejo isso até mesmo na adoção de modelos de diagnóstico e tratamento das chamadas doenças mentais, por exemplo. Em particular, a que mais tem me interessada, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Pois nessa, aplica-se um questionário formulado por psiquiatras americanos para diagnosticar. E receitam-se os remédios fabricados nos Estados Unidos para tratar. Fica faltando discutir se essa é a melhor maneira de olhar para o comportamento das crianças no alvo de tudo isso, como fazem os franceses.
Não sou saudosista nem pessimista. Preocupo-me. Mas também vejo, no Brasil, muitas discussões arejadas, ricas e interessantes na internet. Entre pessoas de várias idades. Nesse debate e nessa troca eu levo fé. Mas há de haver uma maneira de amplificar o que se passa neste universo. Isso, sim, pode dar um samba. Um dos bons. Daqueles que a gente vai gostar de apresentar ao mundo.
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