O início desta série o blog publicou na semana passada.
Salve Jorge e as crianças de Monte Santo
seg, 06/05/2013 - 07:00
Por Luis Nassif
No dia 14 de outubro de 2012, uma reportagem do Fantástico sacudiu o país. Denunciava uma quadrilha de traficantes de bebês, formada por mães paulistas da região de Campinas, em cumplicidade com juízes da região. Oito dias depois, em 22 de outubro, estreou a novela Salve Jorge, abordando tema semelhante.
As duas iniciativas foram importantes, por abordar tema dos mais relevantes do crime organizado internacional: o tráfico de pessoas.
A apresentação da novela era assim:
“O início da trama conta a história de Morena (Nanda Costa). Ela tenta fugir da Capadócia depois de ser leiloada para homens do local. Em meio a pedidos de socorro da garota, a história retrocede oito meses e começa a mostrar a vida dela, que é moradora do Complexo do Alemão. Morena batalha para cuidar do filho e foge de tiros no morro. A mãe da garota fica desesperada e vai atrás da filha”.
Era uma trama envolvente, centrada na mãe humilde que enfrenta o mundo para recuperar a filha.
Havia, no entanto, mais interessante amarrando a atenção de milhões de brasileiros por vários meses: a história da mãe humilde que teve os cinco filhos arrancados do seu convívio por uma organização criminosa envolvendo autoridades locais e mulheres da região de Campinas.
Assim ficou o texto do programa:
"“Há quase um ano e meio a família sofre com a ausência das crianças. Silvânia Maria da Silva, a mãe, ainda tentou impedir que os filhos fossem levados pelos policiais que tinham uma ordem judicial.
'[Os policiais disseram que] se nóis impedisse, nóis iria preso, eu mais o pai (sic)', relata, emocionada, a mãe. Sem ouvir os pais, os avós, nenhum parente, nem o Ministério Público – segundo o Fantástico -, o então juiz de Monte Santo, Vitor Manoel Bizerra, decidiu, de um dia para o outro, entregar as crianças a quatro casais paulistas. Desesperado, Jerôncio, o pai, passou a procurar o conselho tutelar da cidade. Mas acabou preso por desacato.
Para soltar Jerôncio, a polícia exigiu uma fiança de R$ 5 mil, valor muito acima das condições financeiras da família. Mas, no desespero, os pais dele venderam a casa onde moravam, a única que tinham. Foi derrubada logo depois pelo comprador para evitar a anulação do negócio. Hoje eles moram de favor e sofrem com a ausência dos netos.
Das cinco crianças, duas moram em Campinas, São Paulo. As outras três, na vizinhaIndaiatuba. Tentamos conversar com os casais que têm a guarda provisória dos meninos, mas ninguém quer falar.
(...) [Segundo] o atual juiz de Monte Santo, Luiz Roberto Cappio, há uma lista de irregularidades nos processos. (...)
O juiz Vitor Manoel, que decidiu conceder a guarda provisória das crianças, hoje trabalha na cidade de Barra, a mais de mil quilômetros de Monte Santo. Ele não foi encontrado na cidade.
O Conselho Nacional de Justiça está investigando a atuação do juiz.”
Entrevistados ouvidos pelo programa valeram-se do condicional para disparar suspeitas e acusações.
“Se ficar comprovado que houve má fé por parte dos magistrados, a corregedoria agirá com mão de ferro”, garantiu o ministro Francisco Falcão, corregedor nacional de Justiça.” Emitiu um pré-julgamento, falando sob hipóteses, que seria repetido no recozido do caso, no domingo passado.
Mais taxativa foi a Ministra-Chefe da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, sugerindo a entrada da Polícia Federal no caso:
“Tudo indica que exista uma quadrilha traficando e, lamentavelmente, com apoio de alguém de dentro do próprio sistema de Justiça”, acredita.
Antes de entrar nesse terreno espinhoso, é necessário conhecer melhor os embates ideológicos em torno do tema adoção.
Veja o depoimento ao JornalGGN da médica Letícia Fernandes, A mãe afetiva que foi transformada em traficante
Veja as matérias veiculadas pelo Fantástico e pelo Jornal Nacional em As reportagens veiculadas pelo Fantástico e pelo Jornal Nacional.
As reportagens sobre as crianças adotadas na Bahia
seg, 06/05/2013 - 07:00
No dia 14 de outubro passado, o Fantástico levou ao ar uma reportagem do repórter José Raimundo, denunciando uma suposta quadrilha que teria tirado crianças de família humilde para dá-las em adoção a famílias paulistas.
O tema é relevante e foi saudado por instituições do Brasil e do exterior que combatem o tráfico de pessoas,.
No dia seguinte, o Jornal Nacional repercutiu a matéria. "Polícia Federal vai investigar adoções suspeitas denunciadas no Fantástico", era a chamada da notícia. Quem deu o mote para a chamada foi a Ministra Chefe da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Maria do Rosário, que se aliou à Globo. "Há quase um ano e meio, a família sofre com a ausência das crianças. Silvânia Maria da Silva, a mãe, ainda tentou impedir que os filhos fossem levados pelos policiais que tinham uma ordem judicial", diz a chamada da notícia.
Na edição do dia 21, um dia antes, portanto, do início da novela, o Fantástico dá destaque para outra matéria sobre a suposta quadrilha que traficaria bebês na Bahia. A chamada da matéria é "Mães de famíias pobres são alvo de quadrilha que atua no tráfico de crianças", uma reportagem de José Raimundo. O resumo da notícia, no site da Globo, diz que "a região de Monte Santo foi escolhida por uma quadrilha que há mais de cinco anos atua no tráfico de crianças. Mulheres foram enganadas por agenciadores e nunca mais viram os filhos".
Uma semana depois, no dia 28/10, o Fantástico volta à carga com a matéria "Golpistas realizam adoções irregulares no sertão da Bahia". O resumo da matéria, no site da Globo, é o seguinte: "Membros de quadrilha agem em quatro municípios do sertão baiano. Eles influenciam famílias carentes por dinheiro e fazem tráfico irregular de crianças".
Na semana seguinte, em 4 de novembro, o Fantástico faz matéria contra o juiz Vitor Manuel Xavier Bizerra, que conduziu as adoções dos filhos de Silvânia e Gerôncio. "Fantástico continua em busca do juiz que liberou a adoção ilegal em Monte Santo, na Bahia", diz a chamada, informando que há cinco semanas o Fantástico tenta falar com o juiz.
Dois dias depois (6/11), o Jornal Nacional divulga matéria informando que Bizerra prestou depoimento à CPI do Tráfico de Pessoas, em Brasília.
No dia 11/11, o Fantástico recozinha a matéria ("Juiz que autorizou retirada dos cinco filhos da Bahia para adoção em São Paulo é ouvido em CPI").
No dia 18 de novembro, o programa dominical da TV Globo generaliza: “Prática de adoção ilegal no Sertão da Bahia já dura mais de dez anos” é a chamada da matéria.
No dia seguinte (19/12), a Globo anunciou: “Crianças retiradas em Monte Santo devem voltar para casa nesta quarta”.
No domingo, dia 23/12, o Fantástico noticia a volta das crianças adotadas às famílias de origem (“Crianças retiradas de casa por ordem da Justiça voltam para a família).
A política brasileira de adoção e seus muitos tons de cinza
seg, 29/04/2013 - 19:10
Por Luis Nassif
A adoção é tema espinhoso.

Junta pais biológicos, na maioria das vezes em situação de miséria, crianças em situação de vulnerabilidade e candidatos a pais afetivos cobertos das melhores intenções. E, como pano de fundo, um duplo preconceito, tanto contra os pais miseráveis como contra os candidatos à adoção.
É situação que exige enorme sensibilidade, porque não envolve bandidos ou interesses menores, mas famílias em situação vulnerável e famílias dispostas a acolher crianças não apenas no seu lar mas no seu universo afetivo.
Os problemas decorrem da implementação da Lei de Adoção.
Há enormes problemas burocráticos a ponto de, mesmo candidatos a pais que não impõem nenhuma pré-condição, esperarem por anos na fila de adoção. Essas dificuldades, mais a falta de transparência do Cadastro de Adoção, acabaram criando problemas estruturais e, com eles, uma zona cinzenta.
Nesse espaço cinza convivem pessoas de boa vontade – os chamados “facilitadores”, colocando casais que querem filhos com mães que querem doar -, autoridades bem intencionadas e esquemas clandestinos de comercialização de crianças para adoção.
Foi nesse terreno movediço, com tantos tons de cinza e, portanto, pouco adequado a atuações maniqueístas, que se procedeu à escandalização das adoções em Monte Santo, alimentada por dois interesses distintos: o ideológico e o comercial.
Sobre o comercial, já falamos. Vamos entender, agora, o jogo ideológico.
O jogo ideológico
A adoção é um problema eminentemente social e que tem como foco primordial a criança.
Hoje em dia, o sistema de adoção passa por um conjunto de instituições, do Ministério da Justiça à Secretaria de Direitos Humanos, do Ministério Público e Poder Judiciário aos Conselhos Tutelares municipais.
O Conselho Tutelar é um belíssimo projeto, com enormes problemas de implementação. São conselhos municipais, compostos por membros da comunidade, eleitos, e recebendo salários, incumbidos de trabalhar o problema da infância.
A remuneração dos conselheiros acabou se tornando um mal. Convivem nos Conselhos desde cidadãos dedicados até pessoas pessimamente qualificadas, que o utilizam como cabide de emprego.
E coexistem, igualmente, duas espécies de preconceitos ideológicos.
De um lado, os conselheiros que acham que pobreza é condição suficiente para tirar o chamado pátrio poder. Do outro lado, os que consideram que, em qualquer hipótese, a criança deve ficar com a família biológica, até nos casos em que a incapacidade de cuidar das crianças vai além dos problemas econômicos.
São dois agrupamentos, muitas vezes compostos por xiitas capazes de colocar sua postura ideológica acima dos interesses das próprias crianças.
Esse embate ocorreu no Congresso, por ocasião da votação da chamada Lei da Adoção - Lei 12.010, sancionada no dia 3 de agosto de 2009, reformulando a antiga Lei da Adoção de 1990. A relatora da nova lei foi a então deputada, atual Secretária de Direitos Humanos, Maria do Rosário.
O grupo liderado por Maria do Rosário entendia que, em qualquer hipótese, a criança deveria ficar com a família biológica. Na impossibilidade imediata, deveria ficar em abrigos até a família ser reestruturada, recuperada de dependência química, com garantia de não mais maltratar as crianças.
O sistema de adoção passou a conviver com a Lei de Adoção e com o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária
Alguns princípios ficaram consolidados.
O primeiro deles, o pressuposto de que a primeira solução é a própria família. Se a família não tiver condições, que a comunidade trate de provê-las.
Só que a adequação da família demanda tempo. E há casos em que a incompatibilidade é absoluta, como a dependência química dos pais, espancamento de crianças, ameaças à saúde, abuso sexual. Não é o fato de serem pobres ou classe média que torna pais mais ou menos virtuos.
Daí a necessidade de um período provisório, no qual as crianças sairiam da situação de risco sem perder o vínculo familiar, dando tempo para que as famílias se reabilitassem. E, caso não se reabilitassem, que as crianças fossem encaminhadas para adoção.
O Plano definiu algumas saídas, como o de deixar provisoriamente as crianças em casas de outras famílias, até mediante pagamento, se fosse o caso. Ou coloca-las em abrigos.
Os abrigos tornaram-se um tormento. Em muitos casos, as crianças permaneciam no abrigo até a maioridade.
A Lei da Adoção significou um avanço, ao propor o prazo máximo para as crianças ficarem abrigadas. Os movimentos pró-adoção propuseram um ano. O grupo de Maria do Rosário resistiu. Acabaram chegando a um acordo de dois anos, um avanço, mas que não resolveu as diferenças ideológicas, que acabaram se radicalizando quando Maria do Rosário assumiu a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.
Ela empreendeu uma ação destinada a mudar a estrutura dos Conselhos Tutelares.
Seus assessores garantem que a intenção foi retirar deles os vícios decorrentes da estratificação e da falta de capacitação dos conselheiros tutelares. E, realmente, essa é uma realidade disseminada pelos diversos conselhos.
Seus adversários sustentam que a intenção foi aparelhar os conselhos, impondo-lhes uma cultura radicalmente anti-adoção.
Foi nesse caldeirão explosivo, onde se misturaram embates ideológicos e objetivos comerciais da maior rede de televisão do país, que explodiu o caso das crianças de Monte Santo.
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