Charge de Vitor
Teixeira, via Facebook
O “déjà vu” sírio
Tudo parece indicar que os EUA
bombardearão a Síria nos próximos dias. É o que a mídia e a diplomacia
denominam eufemisticamente como “intervenção”.
Para começar, devemos esclarecer que
temos a humildade de reconhecer que, embora pareça indiscutível que houve um
massacre por armas químicas, não sabemos quem foram os responsáveis.
É por isso que a ONU enviou inspetores
à região. Ignorado isto, podemos apresentar
algumas deduções lógicas. A primeira delas é o princípio
estabelecido no Direito Romano e utilizado em criminalística de “cui prodest”
(quem se beneficia?). Há semanas que na agenda das potências
ocidentais e de seus subordinados árabes estão as acusações contra o governo
sírio pelo uso de armas proibidas.
O mais absurdo que poderia fazer esse
governo seria assassinar um milhar de civis, incluindo crianças, num bairro que
não faz parte da frente de combate e, assim, pôr na bandeja a justificativa
para uma intervenção militar dos EUA ou da OTAN. Ou seja, a resposta de “quem se
beneficia” com o massacre por agentes químicos aponta os partidários dessa
intervenção militar contra a Síria.
O que comprovamos a seguir foi a rápida
difusão da notícia assinalando a autoria do governo sírio. Tão rápida que já no dia 21 a mídia
internacional estava informando sobre um massacre de 650 pessoas cometido pelo
exército sírio utilizando como fonte informativa um tuíte da oposição síria,
nada mais! Não me vem à cabeça nenhum agente social
que possa conseguir ser manchete mundial com apenas um tuíte.
Imediatamente, os governos que vêm
externando seu apoio aos rebeldes sírios começaram a exigir a presença dos
inspetores na zona para confirmar o ataque e determinar seus responsáveis, e
acusaram o governo sírio de não colaborar. No entanto, quatro dias depois, esse
governo estava autorizando a presença dos inspetores e dotando-os de escolta
para seu deslocamento à zona.
Ao se dirigirem ao terreno, estes
inspetores sofrem um tiroteio. Novamente, o governo é acusado da
responsabilidade dos disparos de franco-atiradores sobre a comitiva. Seria uma coisa curiosa que um dos
lados escolte alguns inspetores da ONU e, ao mesmo tempo, dispare contra eles. À continuação, os mesmos que exigiam a
presença de inspetores dizem que já é tarde, que não precisam dos inspetores.
Sem esperar as conclusões da equipe de
investigadores das Nações Unidas, o secretário de Defesa estadunidense, Chuck
Hagel, diz que já têm a informação de inteligência que demonstrará que “não
foram os rebeldes e que o governo sírio foi o responsável”. Não adianta nada que o governo sírio
negue isto, ou que Médicos sem Fronteiras afirmem que “não podem determinar a
autoria do ataque”.
A informação do governo sírio,
difundida pela televisão nacional desse país, assegurando que o exército
localizou no dia 24 um depósito dos opositores armados em Jobar, localidade na
periferia de Damasco, onde encontrou vários barris de agentes tóxicos com a inscrição
“feito na Arábia Saudita”, além de máscaras antigas e pastilhas para
neutralizar os efeitos da exposição a tais agentes químicos, só a Prensa
Latina difundiu essa notícia.
O governo que mais mortes já provocou
na história por armas atômicas (Hiroshima e Nagasaki) e por armas químicas
(agente laranja no Vietnam) é o que se apresenta como protetor mundial contra
os danos dessas armas. O governo que iniciou uma guerra no
Iraque, a qual ainda está em andamento, justificada por umas armas de
destruição massiva que não existiam, agora propõe fazer o mesmo por umas armas
químicas fundadas nas mesmas provas.
A sensação de dejá vu com a invasão do
Iraque é inevitável. Naquele então, pediram inspetores e, quando estes se
encontravam no terreno, obrigaram-nos a sair precipitadamente porque começavam
a bombardear. São os mesmos governos que se ampararam
numa resolução da ONU para proteger os líbios e acabaram bombardeando a
comitiva do presidente para que uma turba de mercenários o linchasse e postasse
o vídeo na internet.
É a mesma OTAN que bombardeou a
Yugoslávia sem autorização do Conselho de Segurança argumentando uma limpeza
étnica que os legistas demonstraram ser falsa e que, uma vez mais, voltarão a
fazê-lo na Síria sem se importar com a legislação internacional.
Os mesmos países que invadiram o
Afeganistão para liberar as mulheres dos talibã, as quais hoje continuam sendo
lapidadas, e o país aumentando seu recorde de produção de ópio, corrupção e
pobreza.
A todas essas pessoas bem-intencionadas
que dizem que não podemos permanecer impassíveis diante do massacre de centenas
de civis na Síria devemos explicar que esses libertadores, que esgrimem o
direito de proteger, a defesa dos direitos humanos e a implantação da
democracia, carregam antecedentes em excesso para que possamos acreditar em
suas boas intenções.
Como ressalta Jean Bricmont (Imperialismo
humanitário. O uso dos Direitos Humanos para vender a Guerra, El Viejo
Topo, 2008), estamos vendo que grande parte do discurso ético da esquerda
considera a necessidade de exportar a democracia e os direitos humanos lançando
mão das intervenções militares do primeiro mundo, e tacham de relativistas
morais e indiferentes ao sofrimento alheio àqueles que criticam essas
ingerências.
De modo que é precisamente essa
esquerda a que inventa e interioriza “a ideologia da guerra humanitária como um
mecanismo de legitimação”. É um erro argumentar que existem
governos bons – que podem invadir – e maus, que merecem ser invadidos e
derrubados. Não nos esqueçamos que, se aceitarmos
essa opção, a invasão legítima, no fundo, estaremos autorizando a do forte
sobre o fraco. Por acaso o Brasil (tão democrático
como os EUA) invadirá o Iraque para instaurar a democracia?
Aceitaríamos que o Líbano bombardeasse
Israel em caráter preventivo? Recordemos que o Líbano foi atacado
algumas vezes por esse país e seu ataque preventivo estaria muito fundamentado.
Esquecem-se também que o poder sempre
se apresenta como altruísta. Dizer que bombardeia a Yugoslávia para impedir uma
limpeza étnica, que invade o Afeganistão para defender os direitos das
mulheres, ocupa o Iraque para levar a democracia e libertar o país de um
ditador, ou ataca a Síria para derrotar um tirano não difere muito do discurso
da Santa Aliança para enfrentar as ideias do Iluminismo que inspiraram a
Revolução Francesa, ou do discurso de Hitler que justificou sua invasão dos
Sudetos checoslovacos para defender a minoria alemã.
Parece que essa esquerda de fervor
internacionalista humanitário se esquece que, já nos tempos mais recentes, o
intervencionismo estrangeiro ocidental, que vem a ser o mesmo que dizer
estadunidense, é o que apoiou Suharto contra Sukarno na Indonésia, aos
ditadores guatemaltecos contra Arbenz, a Somoza contra os sandinistas, aos
generais brasileiros contra Goulart, a Pinochet contra Allende, ao Xá do Irã
contra Mossadegh e aos golpistas venezuelanos contra Chávez
.
Se se trata de intervir para salvar
vidas, bastaria “bombardear” muitos países da África com tetra briks de leite,
em lugar de bombas de fragmentação. Não é que estamos defendendo os talibã,
Sadam, Gadafi, nem Al Assad. Estar contra um bombardeio da OTAN ou
uma invasão estadunidense não exige um rechaço expresso a esses regimes, como
se buscasse protegê-los.
A questão que devemos debater é a
violação da legislação internacional por parte de uma potência invasora — e as
mentiras nas quais se ampara para justificá-la.

Nenhum comentário:
Postar um comentário