domingo, 1 de setembro de 2013

O tuíte da oposição síria que levou à intervenção





Charge de Vitor Teixeira, via Facebook

O “déjà vu” sírio


Tudo parece indicar que os EUA bombardearão a Síria nos próximos dias. É o que a mídia e a diplomacia denominam eufemisticamente como “intervenção”.
Para começar, devemos esclarecer que temos a humildade de reconhecer que, embora pareça indiscutível que houve um massacre por armas químicas, não sabemos quem foram os responsáveis.

É por isso que a ONU enviou inspetores à região. Ignorado isto, podemos apresentar algumas deduções lógicas. A primeira delas é o princípio estabelecido no Direito Romano e utilizado em criminalística de “cui prodest” (quem se beneficia?). Há semanas que na agenda das potências ocidentais e de seus subordinados árabes estão as acusações contra o governo sírio pelo uso de armas proibidas.

O mais absurdo que poderia fazer esse governo seria assassinar um milhar de civis, incluindo crianças, num bairro que não faz parte da frente de combate e, assim, pôr na bandeja a justificativa para uma intervenção militar dos EUA ou da OTAN. Ou seja, a resposta de “quem se beneficia” com o massacre por agentes químicos aponta os partidários dessa intervenção militar contra a Síria.

O que comprovamos a seguir foi a rápida difusão da notícia assinalando a autoria do governo sírio. Tão rápida que já no dia 21 a mídia internacional estava informando sobre um massacre de 650 pessoas cometido pelo exército sírio utilizando como fonte informativa um tuíte da oposição síria, nada mais! Não me vem à cabeça nenhum agente social que possa conseguir ser manchete mundial com apenas um tuíte.

Imediatamente, os governos que vêm externando seu apoio aos rebeldes sírios começaram a exigir a presença dos inspetores na zona para confirmar o ataque e determinar seus responsáveis, e acusaram o governo sírio de não colaborar. No entanto, quatro dias depois, esse governo estava autorizando a presença dos inspetores e dotando-os de escolta para seu deslocamento à zona.

Ao se dirigirem ao terreno, estes inspetores sofrem um tiroteio. Novamente, o governo é acusado da responsabilidade dos disparos de franco-atiradores sobre a comitiva. Seria uma coisa curiosa que um dos lados escolte alguns inspetores da ONU e, ao mesmo tempo, dispare contra eles. À continuação, os mesmos que exigiam a presença de inspetores dizem que já é tarde, que não precisam dos inspetores.

Sem esperar as conclusões da equipe de investigadores das Nações Unidas, o secretário de Defesa estadunidense, Chuck Hagel, diz que já têm a informação de inteligência que demonstrará que “não foram os rebeldes e que o governo sírio foi o responsável”. Não adianta nada que o governo sírio negue isto, ou que Médicos sem Fronteiras afirmem que “não podem determinar a autoria do ataque”.

A informação do governo sírio, difundida pela televisão nacional desse país, assegurando que o exército localizou no dia 24 um depósito dos opositores armados em Jobar, localidade na periferia de Damasco, onde encontrou vários barris de agentes tóxicos com a inscrição “feito na Arábia Saudita”, além de máscaras antigas e pastilhas para neutralizar os efeitos da exposição a tais agentes químicos, só a Prensa Latina difundiu essa notícia.

O governo que mais mortes já provocou na história por armas atômicas (Hiroshima e Nagasaki) e por armas químicas (agente laranja no Vietnam) é o que se apresenta como protetor mundial contra os danos dessas armas. O governo que iniciou uma guerra no Iraque, a qual ainda está em andamento, justificada por umas armas de destruição massiva que não existiam, agora propõe fazer o mesmo por umas armas químicas fundadas nas mesmas provas.

A sensação de dejá vu com a invasão do Iraque é inevitável. Naquele então, pediram inspetores e, quando estes se encontravam no terreno, obrigaram-nos a sair precipitadamente porque começavam a bombardear. São os mesmos governos que se ampararam numa resolução da ONU para proteger os líbios e acabaram bombardeando a comitiva do presidente para que uma turba de mercenários o linchasse e postasse o vídeo na internet.

É a mesma OTAN que bombardeou a Yugoslávia sem autorização do Conselho de Segurança argumentando uma limpeza étnica que os legistas demonstraram ser falsa e que, uma vez mais, voltarão a fazê-lo na Síria sem se importar com a legislação internacional.
Os mesmos países que invadiram o Afeganistão para liberar as mulheres dos talibã, as quais hoje continuam sendo lapidadas, e o país aumentando seu recorde de produção de ópio, corrupção e pobreza.

A todas essas pessoas bem-intencionadas que dizem que não podemos permanecer impassíveis diante do massacre de centenas de civis na Síria devemos explicar que esses libertadores, que esgrimem o direito de proteger, a defesa dos direitos humanos e a implantação da democracia, carregam antecedentes em excesso para que possamos acreditar em suas boas intenções.

Como ressalta Jean Bricmont (Imperialismo humanitário. O uso dos Direitos Humanos para vender a Guerra, El Viejo Topo, 2008), estamos vendo que grande parte do discurso ético da esquerda considera a necessidade de exportar a democracia e os direitos humanos lançando mão das intervenções militares do primeiro mundo, e tacham de relativistas morais e indiferentes ao sofrimento alheio àqueles que criticam essas ingerências.

De modo que é precisamente essa esquerda a que inventa e interioriza “a ideologia da guerra humanitária como um mecanismo de legitimação”. É um erro argumentar que existem governos bons – que podem invadir – e maus, que merecem ser invadidos e derrubados. Não nos esqueçamos que, se aceitarmos essa opção, a invasão legítima, no fundo, estaremos autorizando a do forte sobre o fraco. Por acaso o Brasil (tão democrático como os EUA) invadirá o Iraque para instaurar a democracia?

Aceitaríamos que o Líbano bombardeasse Israel em caráter preventivo? Recordemos que o Líbano foi atacado algumas vezes por esse país e seu ataque preventivo estaria muito fundamentado.

Esquecem-se também que o poder sempre se apresenta como altruísta. Dizer que bombardeia a Yugoslávia para impedir uma limpeza étnica, que invade o Afeganistão para defender os direitos das mulheres, ocupa o Iraque para levar a democracia e libertar o país de um ditador, ou ataca a Síria para derrotar um tirano não difere muito do discurso da Santa Aliança para enfrentar as ideias do Iluminismo que inspiraram a Revolução Francesa, ou do discurso de Hitler que justificou sua invasão dos Sudetos checoslovacos para defender a minoria alemã.

Parece que essa esquerda de fervor internacionalista humanitário se esquece que, já nos tempos mais recentes, o intervencionismo estrangeiro ocidental, que vem a ser o mesmo que dizer estadunidense, é o que apoiou Suharto contra Sukarno na Indonésia, aos ditadores guatemaltecos contra Arbenz, a Somoza contra os sandinistas, aos generais brasileiros contra Goulart, a Pinochet contra Allende, ao Xá do Irã contra Mossadegh e aos golpistas venezuelanos contra Chávez
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Se se trata de intervir para salvar vidas, bastaria “bombardear” muitos países da África com tetra briks de leite, em lugar de bombas de fragmentação. Não é que estamos defendendo os talibã, Sadam, Gadafi, nem Al Assad. Estar contra um bombardeio da OTAN ou uma invasão estadunidense não exige um rechaço expresso a esses regimes, como se buscasse protegê-los.


A questão que devemos debater é a violação da legislação internacional por parte de uma potência invasora — e as mentiras nas quais se ampara para justificá-la.

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