COLUNA DO SERTANEJO
(Coletânea de artigos próprios, de Jornais, Revistas, Publicações, livros etc.)
Ano 01 – Salvador, 18 de outubro de 2013.
“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”.
Gabriel Garcia Marques
Por William Brasil
Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente no final da tarde ou à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de surpresa mesmo. E os donos da casa recebiam alegres os visitantes. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um. Olha sua madrinha aqui, filho! Tome a sua benção.
madrinha aqui, filho! Tome a sua benção.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia. Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos sentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando e admirando a bela casa. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro, casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
As visitas eram singelas e acolhedoras. Era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha, geralmente uma das filhas, e dizia: Gente vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se, em última análise, de um evento gastronômico. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite, tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança. Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida.
Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos à porta. Olhávamos, olhávamos até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa. Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!
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