quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Dia de Reis... Dia dos homens



COLUNA DO SERTANEJO

(Coletânea de artigos próprios, de Jornais, Revistas, Publicações, livros etc.)

Ano 02 – Salvador, 06 de janeiro de 2014.

“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”. Gabriel Garcia Marques

Pórtico dos Reis Magos em Natal

Por William Brasil

Hoje, seis de janeiro, é Dia de Reis. Festividade cristã em que se comemora a manifestação divina de Jesus Cristo. Não se trata, no entanto, do seu nascimento, mas do seu reconhecimento pelos Reis Magos. Como conta a história, eles viram brilhar no céu a estrela do Oriente, a estrela do Messias e estavam à sua procura.

Dia de Reis é, então, a celebração do encontro e do reconhecimento do aparecimento divino. Epifania.

Epifania não é uma palavra de caráter religioso. Significa que algo, ou alguém, aparece em sua plenitude. É o ápice de sua manifestação. E supõe um tempo anterior, de preparação e um tempo posterior, de gradual desaparecimento.

Mas, como tudo só aparece de fato, se for visto por alguém, os Reis Magos cumprem essa função de serem as testemunhas e os anunciantes para o mundo humano da existência do Salvador. E, por isso mesmo, o Dia de Reis ou da Epifania, comemora o acontecimento primordial da vida humana, o nascimento.

A boa nova: “uma criança nasceu”. Quem ela é ou será? Que problemas, alegrias e desafios ela trará? Embora reconhecida em sua identidade inicial (como filiação, nacionalidade, naturalidade, raça, sexo, situação social etc.), esse novo indivíduo que chega é para todos, e para si mesmo, uma incógnita. Terá o tempo de sua vida para aprontar sua singularidade.

Mas o que importa é que nenhuma pessoa é “ela mesma” sem o testemunho dos outros. Quando nascemos para o mundo humano são os outros que autenticam nossa realidade e identidade. Todavia, é também preciso que aqueles que nos testemunham estejam ao nosso aguardo.

São os que já sabem, de antemão, antes de nós mesmos, quem somos. Pelo menos, sabem quem éramos quando começamos a ser. A vida sem esse testemunho é insuportável. Quando nos sentimos ignorados pelos outros, fazemos de tudo para ocupar um lugar nos seus olhos e nos seus ouvidos. Precisamos nos ver refletidos neles para nos assegurarmos de nossa própria realidade e identidade.

É sempre um outro ser humano quem tem o poder de nos contar quem somos. Conheço uma pessoa que aos 67 anos, por ocasião da morte de sua mãe, soube que havia sido adotada. E passou, a partir de então, por uma profunda perda de identidade e do significado de sua história já vivida.

A vida humana não é, por princípio, possível no isolamento. No Dia de Reis, creio que o que se celebra é o caráter próprio da condição humana. É esse evento em que o ser humano nasce quando começa a pertencer a uma comunidade, porque é reconhecido pelos que o precedem, como um membro esperado. É a celebração desse acontecimento sagrado da vida, que, para ser humana precisa ser vivida entre homens.

Obrigado Genaro, de coração, pelos ensinamentos transmitidos, muitas das vezes sem dizer uma única palavra. Em tempo, hoje, se vivo estivesse, estaria comemorando 99 anos de idade.

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