sábado, 17 de julho de 2010

Exposição em demasia

Nos últimos dias o “Caso Bruno” e o “Caso Misael” tem chamado a atenção do País. Não só pelo bárbaro assassinato de duas jovens de forma cruel e covarde e, no "Caso Bruno", por envolver uma figura pública, ou seja, o jogador do Flamengo, mas, em especial, pelo circo armado pela mídia brasileira em torno desses escabrosos episódios. Independentemente de Bruno e seus “amigos” e de Misael serem ou não culpados, a mídia já os condenou.
E longe de eu querer antecipar julgamentos. Mas a mídia não aprende com seus próprios erros. Alguém parou para imaginar (apenas isso) que o goleiro do Flamengo possa ser inocente? E mesmo que não o seja é justo condená-lo antes de findo o processo? É correto o papel exercido pelos delegados de polícia e por promotores nestes casos que ganham dimensão por envolverem possibilidade de aparecerem no cenário nacional dentro do espetáculo armado por um tipo de imprensa irresponsável e criminosa?
Dizem que o brasileiro tem memória fraca e esquece com facilidade episódios marcantes, mesmo os mais recentes. Neste momento dois deles estão no noticiário da manhã, tarde, noite e madrugada. E ambos, como espetáculo, pois a imprensa de há muito deixou de investigar e se transformou em polícia, promotoria e justiça.
Basta um delegado qualquer que goste de aparecer e a mídia embarca nas suas declarações (falsas ou não) sem o mínimo pudor e, o que é pior, sem o menor respeito às pessoas envolvidas sejam elas culpadas ou inocentes. No palco da telinha de TV cabe tudo, menos a VERDADE. Interessa o ibope, nem que para isso se massacre a vida das pessoas do momento envolvidas em episódios que gerem sangue, mas, também, indignação.
Aliás, os próprios apresentadores de forma teatral transformam pessoas ingênuas em linchadores e em algozes. Não é incomum, Brasil afora, vermos noticiados depredações de residências de suspeitos; linchamentos; multidões perseguindo e agredindo verbal e fisicamente suspeitos (quem lembra do casal Nardoni?), atiçados por poderosos donos de programas que cospem sangue nos horários mais impróprios.
o "Caso da Escola de Base", em São Paulo quando a Folha de São Paulo “comprou” a versão mirabolante de um delegado louco para aparecer foi emblemático. Destruiu uma empresa sólida e uma família inocentes. Alguns anos atrás, mas precisamente em 2001, foi a vez de cinco jovens - Camila Dollabela, Edson Poloni Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes - terem seus nomes arrastados na lama e transformados em assassinos cruéis, no ~Caso Aline.
Para quem já esqueceu aqui vão alguns detalhes transformados em circo pelo Rede Globo de Televisão no Jornal Nacional, Bom Dia Brasil e Jornal Hoje, entre outros. Esta jovem (Aline Silveira) deixou a cidade de Guarapari (Espírito Santo) para passar alguns dias na cidade de Ouro Preto (Minas Gerais). Ela foi encontrada dias após sua chegada morta, nua, sobre um túmulo no cemitério Nossa Senhora das Mercês, com 17 facadas no corpo. A causa da morte uma facada fatal no pescoço.
Quatro jovens que dividiam com ela a República em Ouro Preto, inclusive sua prima Camila Dollabela, foram acusados pelo Delegado de Policia e, posteriormente, pela Promotoria Publica de serem os responsáveis pela morte da garota. A prima (Camila) inclusive, ficou oito meses presa. Ambos tiverasm a vida arrasada acusados por um crime que não cometeram.
O Delegado, que virou estrela da Rede Globo por tantas aparições utilizou como principal elemento incriminatório, nao a arma do crime, mas sim livros e postêres de RPG encontrados na república onde moravam os jovens. O game consiste de um grupo de jogadores que, trabalhando em conjunto e usando regras de jogo pré-definidas, tenta superar desafios propostos por um Mestre, responsável por narrar a história e organizar cada sessão de jogo.
Para o delegado o jogo tem parentesco com o satanismo. Com esta ideia na cabeça e desprezando outra linha de investigação (envolvimento da jovem com gente da droga) ele dirigiu a acusação para o assassinato de Aline num ritual satânico baseado apenas na existencia de livros deste jogo na Republica e pela forma como o corpo foi encontrado, nu em cima de uma lapide e com as roupas arrumadas ao lado, com 17 facadas pelo corpo e uma fatal no pescoço.
Oito anos depois todos foram absolvidos pelo tribunal de júri por total falta de provas. Nove nos depois a mídia brasileira embarca no mesmo procedimento. O desfecho pode ser outro. Bruno e Misael podem ser culpados e, se assim o forem, que paguem por seus crimes horrendos. Mas se não forem, o delegado, o promotor e a mídia pagarão por suas irresponsabilidades?

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