Jesner A. Barbosa
Reza a lenda que a primeira lavagem da Igreja de Santo Antônio de Queimadas foi realizada no final dos anos 40, há mais de seis décadas, portanto, tendo como principal personagem desse acontecimento histórico a então jovem senhora Sinforosa Lírio, célebre parteira e ex-vereadora do município, a nossa conhecida “Mãe Sinforosa”, auxiliada por outras vinte e cinco parturientes.
O movimento ganhou força e a cena iterativa tornou-se habitual. Com as latas d’água equilibradas em rodilhas sobre as cabeças, trazidas do canal do rio Itapicuru próximo dali, as mulheres com entusiasmo lavavam o adro da igreja para, em seguida, dar início a Trezena de Santo Antônio – uma série de orações e práticas litúrgicas que se seguiam durante os 13 dias antecedentes ao dia do santo para obtenção de alguma graça divina.
Apoiado pelos párocos da igreja, o ritual religioso expandiu-se no decorrer dos anos evoluindo para as manifestações populares festivas organizadas por uma comissão composta de pessoas de destaque na sociedade queimadense para promover as feiras paroquiais, denominadas quermesses, animadas pela alegria das fanfarras e pelo deslumbramento dos parques de diversão, ao tempo em que rezavam as trezenas marcadas por ruidoso foguetório.
A festa culminava na noite do dia 13 de junho com uma procissão iluminada por velas acesas protegidas em cones de papel celofane levadas pelos fiéis, seguindo em cortejo pelas principais ruas da cidade acompanhado pelos componentes da Filarmônica Recreio Queimadense que, ao final, dirigia-se à colina sagrada conduzindo o andor do santo até o interior da igreja para receber a bênção do Santíssimo Sacramento.
A repetição desta manifestação popular inspirou o então Prefeito Abelardo Borges Simões de Oliveira que decidiu urbanizar a avenida que dá acesso ao templo cristão, e ao inaugurá-la no início dos anos 70, oficializou o já tradicional desfile da lavagem da Igreja de Santo Antonio nos moldes em que conhecemos hoje, fixando como data da festividade aquela correspondente ao último domingo do mês de maio, afastando, desse modo, a coincidência com a data comemorativa do santo padroeiro. Inovou ao introduzir os desfiles de carroças enfeitadas formando alas com temas folclóricos caracterizados por pessoas fantasiadas a caráter desfilando em cortejo pela cidade até o alto da colina sagrada. Ao final das trezenas a sociedade queimadense e demais convidados comemoravam o dia do santo padroeiro com uma bonita e concorrida festa de gala no Recreio Clube.
Desde então, retornamos à cidade para rever velhos amigos e parentes, assistir ao desfile e nos reunir nas imediações da Igreja de Santo Antonio a nos regozijar nesta data festiva que anualmente nos propicia este encontro de várias gerações de queimadenses com alegria e contentamento.
Nos primórdios, concebido como evento de cunho eminentemente religioso em congraçamento de fé, o cortejo sempre despertou nos sacerdotes certa resistência aos apelos populares festivos que aos poucos transformavam a festa. E a discórdia tem se agravado paulatinamente com a adesão de blocos carnavalescos animados por trios elétricos e a promoção de shows das bandas de forró estilizado, descaracterizando totalmente a festa religiosa na sua concepção original.
O fato é que, embora essa fusão de valores antagônicos desagrade aos religiosos, o povo tem demonstrado preferência pelo lado mundano da celebração, pois, ao que parece, deixa-se seduzir mais facilmente pelos cantos e ritmos que fazem a alegria da festa, mas que têm contribuído decisivamente para o crescimento cada vez maior desse evento e, por via de conseqüência, incentivando ainda mais os seus promotores e investidores.
É indiscutível que a religião faz parte da cultura de um povo e influencia a sua própria tradição. A Bahia é um forte exemplo dessa evidência, pois muitas das festas católicas transcendem a esfera religiosa para dar lugar às manifestações populares, ditas profanas, que se tornam naturalmente tradicionais não apenas pelo costume adquirido, mas, sobretudo, pela transmissão de hábitos culturais de geração em geração.
Neste diapasão, a cultura e a tradição com suas propensões para ritualizar e englobar conhecimentos constituem os mais importantes pilares de uma sociedade, configurando a sua própria essência. Elas não se confundem, mas guardam relativa dependência, já que a tradição faz parte da cultura, porém esta subsiste sem a tradição. Isso significa dizer que a tradição não sobrevive distanciada da cultura de um povo, sobretudo a religiosa.
A festa consagrada à celebração de Santo Antonio é vital para a comunidade religiosa de nossa terra, bem como é igualmente importante para as pessoas em geral que desejam participar dos folguedos e ambas as manifestações podem conviver pacificamente. É uma questão de organização e bom senso.
Trata-se de uma data memorável em que presenciamos continuamente a afluência de milhares de pessoas oriundas dos diversos municípios circunvizinhos e alhures para celebrar conosco a nossa devoção cristã, ao tempo em que nos alegramos nos reencontros de familiares e amigos distantes: a rezar, a sorrir e a cantar.
Infelizmente, o último dia 30 de maio – data em que se pretendia comemorar oficialmente o quadragésimo aniversário oficial do desfile da lavagem da igreja do nosso santo padroeiro, sob os auspícios do governo municipal – passou em branco em meio à turbulência jurídica que varreu os mandatários políticos. Naquela oportunidade única em que comemoraríamos solenemente data tão significativa, acontecimentos supervenientes precipitaram reações adversas.
A Câmara teria deliberado sobre um projeto de resolução de autoria do vereador Nilton Barbosa autorizando a fixação de uma placa alusiva ao fato histórico e ao seu organizador, mas ao invés de vivenciarmos um dia glorioso e festivo com a materialização de um momento mágico e revelador de nossas tradições, através de uma justa homenagem ao idealizador do evento popular mais representativo de nossa terra, presenciamos o abandono e o esquecimento.
Um fato deveras lastimável! Não pelo mandamus moralizador da justiça baiana que apeou do poder os maus gestores públicos, mas pela coincidência das datas que provocou a exoneração da cúpula governista e abortou a programação planejada.
Ao contrário da política que impera nos dias de hoje em que se sobrepõem os projetos pessoais e familiares, Abelardo Borges foi um político da era romântica dos homens públicos escorreitos e bem-intencionados; comprometido com as questões sociais priorizava as ações que beneficiavam a população, como a criação de empregos através de frentes de trabalho para construção de pequenos açudes e “aguadas” e a edificação de escolas nas áreas rurais, mesmo limitado aos orçamentos minguados de sua época. Era um homem honesto, desambicioso e sonhador que à frente da prefeitura deixou uma marca indelével em sua breve gestão ao oficializar um evento de forte apelo popular – uma realização que o tempo mostrou ser de grande valia e alcance social.
E isso nos leva a uma reflexão: alguns homens e mulheres são importantes pela ostentação de riquezas, pelos cargos que ocupam ou pela tradição familiar, mas, há os que se destacam pela generosidade que se traduz nas ações do cotidiano, da expressão de solidariedade e do amor ao próximo; outros, porém, tornam-se importantes por suas atitudes visionárias que embora passem despercebidas da maioria se revelam na perpetuidade do tempo e provocam atos de reconhecimento dos seus pares no futuro, como os que agora testemunhamos.
Como queimadense e sobrinho do protagonista mais destacado deste acontecimento, sinto orgulho do seu feito, e como cidadão me perfilo em sua homenagem como reconhecimento ao sucesso desta festividade sócio-religiosa, hoje inserida definitivamente no calendário dos tradicionais festejos juninos de nossa região.
Abelardo Borges é digno e merecedor de uma honraria maior, à altura do seu empreendedorismo em prol da preservação da cultura popular, e uma forma de valorizar o seu papel é perenizar o seu nome batizando uma rua desta cidade, de preferência em logradouro próximo ao local do evento, ou designando-o oficialmente ao circuito do cortejo público, além da placa comemorativa, como reconhecimento da população. Isso decerto trará algum conforto aos familiares e descendentes, além de servir de referência histórica exemplar às novas gerações.
Pensando a cultura como a representação das características e peculiaridades de um povo que envolve crenças, costumes e demais hábitos adquiridos ao longo do tempo, e a tradição como um conjunto desses atributos que são seguidos e partilhados sucessivamente por várias gerações, conclamo as atuais autoridades municipais e eclesiásticas para que mantenham o firme propósito de cumprir a tradição da Festa de Santo Antonio em reverência à memória de nossa gente, identidade e preservação da nossa história para gáudio e afirmação de fé das futuras gerações.
"Quem cala sobre teu corpo consente na tua morte. Quem grita vive contigo !" Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos
ResponderExcluirO presente artigo beira a falta de equanimidade e prudência no exercício da atividade pública, ao abrigo de pressões espúrias.
A sociedade espera, o cidadão, o modesto sertanejo confia que o Homem Público atenda ao singelo e essencial anseio de avaliação serena no trato da coisa pública.
Apenas para a finalidade acima indicada instituiu-se o quadro distinto de agentes do Poder Público, que compõem o Poder Executivo.
Quando o Homem Público sucumbe e não realiza esse objetivo - de servir ao povo sobre todos os aspectos - qualquer que seja o teor da sua atuação, está ele a ofender mortalmente, no coração, sua própria essência, a renegar sua razão de ser, tornando-se peso morto no corpo social, imagem de um malogro.
E não foi diferente com o Sr. Abelardo Borges, pelo contrário, usufruiu sempre das beneses do poder, usava costumeiramente dos funcionário da antiga cementeira para afazeres pessoais, como lavar seu carro particular e etc., desviando das suas precípuas funções, tais servidores que além de deixarem os serviços públicos relegados a quinta categoria, jamais poderiam reclamar, no sentido que não eram essas suas tarefas, pelas quais recebiam do erário para servir toda população.Acrescento ainda o fato de sempre o interesse particular para o Sr. Abelardo Borges sempre sobreponha ao público, o que demonstra sua falta de respeito para com a moralidade e a coisa pública, bem como sua falta de escrupolos para com os seus concidadãos.
Não estou aqui desmerecendo seus feitos, mas é necessário, com moderação e a prudência, bradar a verdade sobre esse Homem Público, posição essa de superior imunidade, que no imemorial e confortante julgamento dos povos assinala a imagem do Político fidedigno, o que não o era. Entre o homem probo e o cidadão trabalhador, um vínculo como que pessoal, estreita relação de confiança - não a ingênua visão de sacralidade - mas o sentimento cordial e humana solidariedade, beirando a familiaridade universal.
Portanto, não deixemos de lado suas realizações, mesmo porque é atributo, no mínimo de um adminstrador, todavia, nunca nos esqueçamos de que para conclamar-se lisura à coisa pública, deve-se pautar na verdade escorreita, esta muitas vezes não muito aceita nos dias atuais. Muito pelo contrário, para enaltecer homens públicos do nosso passado recente; é primordial conhecer seus verdadeiros atributos administrativos, devendo-se trilhar sempre pelo princípio de que o interesse público sobrepõe o particular em qualquer situação que se apresente. Seja frisado aqui, como já se fez, que especialmente no segmento público, o dever minucioso do respeito ao patrimônio do povo, pelo administrador público, é de relevância ímpar, porque é precisamente desse exemplo pessoal que deverá brotar sua íntima consciência de que aquilo não lhe pertence, mas sim, a toda coletividade. Acho salutar reviver nossas tradições,seja religiosas, seja profanas, de maneira que contribua com o desenvolvimento da nossa cidade, mas não podemos em meio a esses fatos importantes, possibilitar mesmo subjetivamente, homenagens a quem não sobe corresponder e respeitar a pedra de toque do bom administrador público, qual seja, atuar com respeito e dignidade no trato à coisa pública, conclamando sempre o princípio constitucional de que o interesse público sobrepõe ao particular.
Grato.
Já percebi que este blog não cumpre com seu desiderato, qual seja, ser democrático e, permitir que todos possam explanar opiniões diversas do escritor.
ResponderExcluirEstou a postar isso, tendo em vista que escrevi recetemente neste blog, explanando uma visão diferente do articulista Sr. Jesner Barbosa e não obtive oportunidade de ver meu texto explicitado neste sítio eletrônico, por isso dou por anti-democrático tal atitude ou demonstre o contrário, restabelecendo-se a verdade real dos fato.
Grato.
ACOMPANHEI A COMISSÃO ORAGANIZADORA DO CORTEJO CULTURAL,ESTA QUE SEU AROLDO DEVERIA ESTA BABANDO O OVO DE NELSO PELEGRINO E NÃO VIU O BELO CORTEJO QUE OS MENINOS DA CULTURA COLOCOU NA AVENIDA. EU TE PERGUNTO PQ NÃO VIU O CORTEJO??? E MAIS ESTAVA NO PLANO DO DEPARTAMENTO DE CULTURA E A FAMILIA DE ABELARDO BORGES HOMENAGEA-LO COM UMA PLACA EM SUA HOMENAGEM DE AGRADECIMENTO A ELE E A MAE SIFOROSA,ESTA PLACA FOI FEITA MAIS NAO FOI AFIXADA PQ NAO HOUVE TEMPO POIS ONDE FOI FEITO A PLACA SO SERIA PAGO EM 10 DE JUNHO,A GRAFICA ,CLARO FICOU SABENDO DA DESGRAÇA EM QUEIMADAS E NAO MANDOU A PLACA, NEM SERIA ACEITO PELOS PUXA SACOS DE SERGINHO QUE UMA PLACA FOSSE PAGA PELA PREF NA ADM DE SERGIO BRANDÃO E AFIXADA COM O LOGAN DO GOVERNO DA ITEGRAÇÃO SOCIAL..ESTOU ERRADO????
ResponderExcluirAfinal voce está contra ou a favor da homenagem? Sua raiva e o pouco conteúdo para discutir um artigo mostra apenas a pequenez de sua índole. Por decisão pessoal de há muito deixei de acompanhar o cortejo, a festa religiosa e a pagã. Este blog se associa as homenagens que devem ser prestadas a Mãe Sinforosa e a Abelardo Borges, ambos pessoas públicas que se destacaram, cada um a seu tempo, em nossa sociedade. Outros tem o direito de discordar expondo seus pontos de vista sem que,com isso, baixem o nível ou politizem o assunto. Como pessoas públicas ambos tiveram seus altos e baixos. Mas o que se analisa é o conjunto do seu trabalho. Neste caso ambos são merecedores das homanagens defendidas por Jesner em seu artigo. Qualquer outro sentido que queiram dar mostra apenas a pequenez dos fanáticos e dos que se acobertam na teoria da conspiração.
ResponderExcluirSACO DE SERGINHO. MAS TENHO PENA DE PESSOAS QUE ACHA QUE O VOTO É MAIS IMPORTANTE DO QUE A COMPETENCIA... COMO PRESENCIEI SUA PRIMA CRIS... DIZENDO QUE ERA UM ABSURDO SERGINHO TER DEIXADO A EQUIPE DA CULTURA COMO ESTAVA, POBRE ALMA, NEM SABE QUE ELES AMBOS CONCURSADOS TBM VOTARM EM SERGINHO. MAS NAO VIVEM NA CASA DELE,ASSIM TBM FOI NO GOVERNO DE EDIVALDO, ESTE DESCONHECEDOR DE CULTURA. NUNCA VI O DEPARTAMENTO PROCURAR EDIVALDO,POIS O SR LEONIR O MAIOR DE TODOS OS SECRETARIOS QUE JA ESTEVE EM UMA ADMINISTRAÇÃO... TINHA TOTAL AUTONOMIA, ERA UM FOMENTADOR DE CULTURA. E AI??? AGUARDO.
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