Para que este domingo seja mais reflexivo
Uma perspectiva mais ampla no
debate entre criacionismo e evolucionismo
Por J. Carlos de Assis*
Muitos evolucionistas sinceros e razoavelmente
informados não se dão conta de que a hipótese do aparecimento da vida por acaso
está no mesmo nível ontológico da hipótese da criação da vida de forma
intencional por um ente superior. Isso se constata sempre que uma variável
arbitrária não explicada é introduzida nas equações da Física ou algum salto
externo é introduzido na representação teórica evolucionista. É que há um
problema fundamental de origem, nos dois casos, seja a origem do Universo, seja
a origem da vida. Mas não é só isso.
Existem várias hipótese para a origem do Universo
mas a que parece ter o maior consenso entre os físicos quânticos é traduzida
como uma flutuação do vácuo. O que isso significa para além das fórmulas
matemáticas? Sinceramente não sei, e suponho que ninguém saiba, mas pode-se
imaginar um vácuo primordial que não era propriamente um vazio e sim um
amálgama de energia positiva e negativa. A flutuação no vácuo significaria,
nesse caso, o momento de ruptura do equilíbrio (por quem, pelo acaso, por um
Criador?) entre a energia positiva e negativa, liberada no Big Bang.
Desde logo aviso que se trata de uma imagem
poética, ou mesmo metafísica, porém coerente com a filosofia yoga que coloca na
origem de tudo a vibração, a qual cria o tempo. A ruptura do equilíbrio
resultaria na vibração cósmica de fundo. Entretanto, ontologicamente, flutuação
do vácuo, vibração, Criador, todos se equivalem. O suporte matemático da
primeira hipótese não lhe dá o status de científica porque não pode ser testada
ou ser sujeita à refutação, já que não há como reproduzir as condições iniciais
do Big Bang.
Mas esta não é a única limitação epistemológica da
Física. Ela está repleta de constantes que são medidas, encontradas geralmente
por intuição ou por aproximações sistemáticas, e que tornam precisas as
equações mas que não são explicadas pelas teorias subjacentes. São mais de 40.
É o caso da constante gravitacional de Newton, que entra arbitrariamente numa
equação que descreve o movimento das grandes massas celestes, ou a constate de
Planck, que se aplica aos fenômenos da termodinâmica, assim como uma miríade de
constantes da Mecânica Quântica.
Contudo, a constante física de longe mais
impressionante é a que mede a velocidade da luz no vácuo. Sem ela o Universo
seria totalmente desordenado e impossível de se viver. A não ser que nos
acostumássemos com um tipo de informação visual pelo qual veríamos um avião se
distanciando antes de chegar. A presença de tantas constantes inexplicáveis é
um embaraço para a física determinista, embora não totalmente para a física
quântica. Esta está mais ou menos preparada para aporias, mesmo porque muitos
quânticos, como Bohm ou Capra, se tornaram muito próximos do misticismo.
Digo isso para abalar as certezas de quantos acham
que a Física resolveu todos os problemas do reconhecimento da realidade. No
campo biológico é infinitamente mais complicado. Podemos definir matéria, mas
não podemos definir vida de forma rigorosa. Quando um evolucionista tenta
testar suas teorias sobre surgimento casual da vida ele, a rigor, não sabe
exatamente o que está procurando. Por analogia, busca coisas parecidas com a
vida no que supõe ser uma sopa primordial ou argila, e introduz uma hipótese
arbitrária – um relâmpago, um raio cósmico – para fazer essa “coisa”
físico-química adquirir a “coisa” chamada vida.
É claro que, na medida em que esse tipo de
construção foi se revelando implausível, as hipóteses se sofisticaram. As
ideias inicialmente formuladas de aparecimento do DNA e do RNA prontos, por
acaso, foram descartadas. Depois, por implausibilidade, também foi descartada a
hipótese do aparecimento da vida na forma de uma proteína acabada que
adquirisse propriedades replicadoras – de novo, por interferência de um
miraculoso raio cósmico. Recentemente, apareceu uma teoria mais elaborada
(Dawkins) de construção especular de uma proteína, do simples para o complexo,
por atração bioquímica de aminoácidos. Seus defensores se protegem da
implausibilidade desse processo para formação de uma proteína biológica
complexa dizendo que isso existe na natureza, não na forma biológica, mas na
forma análoga à da biologia. Isso bastaria para demonstrar que o sistema
funciona. Mas como? Por interferência de um raio cósmico?
A complexidade biológica não parece ser um problema
para os evolucionistas. Seu deus é o tempo. O tempo resolveria todos os
problemas, inclusive a seleção natural reversa (a absorção no nível dos
nucleotídeos do DNA das características determinadas pelo ambiente no nível
macrobiológico). A acreditar na hipótese evolucionista, o DNA criaria a tromba
do elefante antes que o elefante com trompas existisse. Eu até me simpatizo com
essa abordagem, porque suspeito que o processo evolutivo se desenvolveu do
complexo (criado) para o simples. Mas os evolucionista acham que foi do simples
para o complexo, num processo que, a meu ver, também exige a intervenção de uma
inteligência externa.
O tempo dos evolucionistas, como disse, está no
mesmo nível ontológico do Criador dos criacionistas. Mas minha vantagem, diz o
evolucionista, é que eu vejo o efeito do tempo agora em Biologia e não vejo o
do seu Criador. Como não? Tudo o que está criado originalmente e não comporta
uma descrição logicamente sintética, determinista ou probabilística, é uma
pista do Criador. Veja a luz: dependendo da posição do observador, ela é
partícula (determinista) ou onda (probabilística), mas não há uma palavra ou
conceito linguístico que a descreva sinteticamente. Você pode dizer: ela é
onda-partícula, mas isso não quer dizer nada em termos da realidade que é a
luz.
Note que não estou falando que a origem da vida não
tem explicação, e portanto requer a intervenção de um deus. Isso fazia parte do
argumento ontológico de Aristóteles e Tomás de Aquino. Um evolucionista
simplesmente pode dizer que a evolução da Ciência trará uma explicação.
Entretanto, estou falando em aporias quânticas que jamais terão explicação pois
sua complexidade está além da lógica determinista ou da probabilidade. Podemos
ter uma descrição analítica delas, como aliás faz a Ciência, mas elas rejeitam
a explicação por uma proposição sintética.
Tome-se o exemplo canônico de um experimento
quântico que embaraçou desde o início os físicos deterministas, inclusive
Einstein: não há como medir simultaneamente a posição e o momento de uma
partícula correlacionada. Não se trata de falta de precisão dos equipamentos; é
um fato profundo da natureza, fisicamente insolúvel. Ou ainda: experimentos
quânticos recentes que constaram transmissão de informação instantânea, portanto
quebrando o limite da velocidade da luz. Isso, contudo, são evidências da
verdade da Mecânica Quântica, não da verdade definitiva da natureza. Esta,
aparentemente, está acima da lógica humana, porém não acima da lógica da
Criação.
Embora muitas coisas da Física e da Biologia ainda
possam ser descobertas, o que já se descobriu é suficiente para concluir que
não há como descobrir ou explicar tudo. Portanto, vou abandonar,
provisoriamente que seja, a hipótese do deus-tempo e adotar a do Criador
natural intencional. Aqui as coisas ficam mais claras pois no conceito de
Criação devemos necessariamente incluir o arranjo social que produziu o homem
inteligente. Se há um Criador intencional, há um propósito na Criação. Se há um
propósito na Criação humana, ele deve gerar uma ética que concilie o interesse
individual com o interesse coletivo, pois do contrário a evolução “natural”
destruiria ou o homem ou a sociedade. E, claro, essa ética interativa deve
estar sujeita às leis da evolução seletiva casual (nas quais acredito, fora a
origem da vida e a diversificação das espécies).
Propostas por Hegel no plano das ideias e por Marx
no plano das relações sociais, as leis dialéticas estão presentes, a meu ver,
em nível profundo, por trás de toda natureza. Da fantasmagórica flutuação do
vácuo ao encontro do homem e da mulher, todo processo criativo reflete uma
interação entre positivo e negativo, masculino e feminino. Contudo, essa
interação não se manifesta de forma apenas determinista, mas também quântica
(ou probabilística). Essa discussão é infinita, e alguns comentaristas
estranharam, em algum de meus artigos anteriores, a introdução de temas
ordinários, como política e economia, num debate sobre criacionismo e
evolucionismo. Tentarei explicar, pois julgo isso fundamental na justificação
da crença num Criador intencional. Vamos á política e à economia.
O ápice da civilização política ocidental, hoje
quase universalizada, é a afirmação da liberdade individual a partir da Idade
Moderna. Essa liberdade, na leitura de Kant por Bobbio, tem duas formas
essenciais: a liberdade como não limite, e a liberdade (cidadã) de impor seus
próprios limites. Uma gerou o liberalismo radical (atualmente, neoliberalismo);
outra, a social democracia. Uma tem caráter determinista: Hobbes, o direito
absoluto do soberano; outra, probabilística: Locke, o direito dos homens se
auto-organizarem. Note que essas duas concepções, aparentemente antitéticas,
são complementares: sem as duas atuando juntas não há liberdade de criação
política. Em outras palavras, não há avanço da civilização.
Todo o desenvolvimento da economia moderna
baseia-se na busca de criação e acumulação do valor. Entretanto, valor tem um
sentido ambíguo. Na economia, é traduzido na forma monetária de preço; na
moral, como algo bom, que não se traduz diretamente na forma monetária. Valor
monetário é um conceito determinista: é apurado no mercado, pode ser dividido,
multiplicado etc. Valor subjetivo é um conceito probabilístico, indivisível: é
o valor do ar ou da água potável na fonte. A civilização, tal como a
conhecemos, impulsionado pela busca contínua de valor objetivo mas condicionada
também por valores subjetivos (o valor de uma crença, da educação ou de uma
criação sem fim monetário) seria diferente, se não auto-destrutiva, sem a
interação desses valores na política e na economia.
O que tem isso a ver com um Criador? Não seria tudo
ao acaso? Sim, acredito que tudo poderia ser produto da pura evolução política
ou econômica, como está registrado nos livros de história, exceto num ponto: a
lei dialética em si que está por trás desses fenômenos. Ela implica um
equilíbrio sutil entre o masculino e o feminino que contém, em si, um impulso à
continuidade da criação, seja em nível individual, seja em nível de espécie.
Isso é fantástico demais para ser puro produto do acaso, tendo em vista seu
caráter volitivo implícito.
Obs. Desde quando começamos este debate, tenho lido
atentamente comentários, alguns muito pertinentes, sobre o tema do criacionismo
e evolucionismo. Entretanto, talvez pelo pouco espaço que um spot permita, noto
uma certa tendência ao Fla x Flu, não ao debate em si. Como a maioria dos
comentários é de evolucionistas, quero deixar claro que minha intenção não é
convencê-los de meus pontos de vista. Pessoalmente, percorri todos os caminhos:
fui seminarista, fui ateu, fui agnóstico (muito influenciado por Bertrand
Russel) e hoje sou criacionista não religioso. No fundo, no fundo mesmo, apenas
gosto de conversar com gente inteligente e, quando possível, tolerante!
Economista, doutor em Engenharia de Produção,
professor de Economia Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, de “A
Razão de Deus”.
Alguns comentários
sobre este texto
Gui
Oliveira
"Digo
isso para abalar as certezas de quantos acham que a Física resolveu todos os
problemas do reconhecimento da realidade"
Esta frase, ao meu ver, é
emblemática desta espécie de metafísica da negação de que se vale
monotona e obtusamente o criacionismo. Nenhum cientista sério, nem mesmo
pessoa que simpatiza com a evolução sem ser cientista, acha ou afirma que
a física resolveu todos os problemas do reconhecimento da realidade. Isto já
foi dito e repetido aqui incontáveis vezes. Só o criacionismo insiste em
defender que tem uma solução final para as questões fundamentais da existência.
Não importa aos cientistas abalar as certezas dos criacionistas: apenas
prosseguir trabalhando para reunir evidências sobre mais e mais aspectos
da realidade. Esta insistência em negar só existe no criacionismo, e
unicamente direcionada a saberes que rompem dogmas que sustentaram ao longo do
tempo a hipótese teísta.
A fé criacionista foi sendo
metabolizada ao longo do tempo para acomodar o avanço do conhecimento da
realidade pela ciência. E graças aos avanços do conhecimento da realidade
- mesmo modestos, parciais e incompletos - aos poucos as pessoas foram
deixando de ser sacrificadas visando melhorar as colheitas, de ser torturadas e
queimadas por saberes heréticos, e assim por diante.
Não se trata aqui de ficar repisando
estas tragédias promovidas pelo obscurantismo criacionista, mas de defender o
trabalho de quem se dedica a saber mais em prol da humanidade ao invés de
simplesmente ficar apontando lacunas e imperfeições no conhecimento alcançado a
duras penas e monotonamente denominando qualquer lacuna de divindade (podem
escolher qualquer nome de qualquer cultura e qualquer tempo - dá tudo no
mesmo):
Vocês não sabem quem manda os raios e
trovões! Ahã...
Vocês não sabem por que as plantas florescem em certa época do ano! Ahã...
Vocês não sabem como acontecem os eclipses! Ahã...
Vocês não sabem por que as pessoas morrem de febre e contaminam as outras! Ahã...
Vocês não sabem por que a AIDS só "castiga" os homossexuais! Ahã...
Vocês não sabem por que as plantas florescem em certa época do ano! Ahã...
Vocês não sabem como acontecem os eclipses! Ahã...
Vocês não sabem por que as pessoas morrem de febre e contaminam as outras! Ahã...
Vocês não sabem por que a AIDS só "castiga" os homossexuais! Ahã...
A lista é interminável e cansativa. E
nunca vai acabar, já que sempre haverá coisas a serem negadas. E, é claro,
todas as negações desmontadas são prontamente esquecidas pelos
"negantes", que prontamente partem para outras negações. Mas a quantidade
de pessoas que cai nessa lenga lenga vai continuar diminuindo, até por que -
graças à ciência - hoje o criacionismo que não é
simplesmente boçal já tem a necessidade de elaborar sua
metafísica do nada fazendo sopa de letras com coisas como a física quântica e a
atração bioquímica de aminoácidos. Haja conhecimento para ser crente hoje em
dia! Chega a ser engraçado...
Carlo Mangino
A Origem da Vida: O Universo
A origem do Universo ainda está cercada por polêmica e controvérsia porque é uma questão cuja complexidade talvez supere aquela da origem da vida. Isso acontece porque as hipóteses sobre a origem da vida podem recorrer a modelos químicos plausíveis. Já os astrofísicos têm necessariamente que apelar para uma física desconhecida, pela de condições especiais e heterodoxas. É claro que essa é uma física desconhecida em comparação àquela que foi estabelecida após o momento inicial do Universo. Poderíamos afirmar que, antes do início, não havia física alguma. Os próprios físicos sentem dificuldade em compreender algumas das hipóteses lançadas mais recentemente. Nossa discussão sobre a origem do Universo não pretende esgotar todas essas proposições, apenas concentrar-se nos modelos mais hegemônicos, como o do Universo em expansão. Dentro desse tópico, procuraremos abordar de modo mais específico aqueles aspectos diretamente ligados à formação das estrelas e planetas e à origem do elemento carbono, que, em última análise, determinou a química dos seres vivos.
Para que a diferença entre a interpretação dualista e a monista fique clara, apresentaremos antes algumas versões dualistas para a origem do Universo. Segundo a visão dualista, num dado momento, o Universo, inclusive a Terra, foi criado por uma ou por múltiplas entidades divinas. As principais doutrinas de várias culturas do mundo apresentam versões que variam entre si, mas fundamentalmente descrevem o surgimento da Terra e do Universo como uma manifestação sobrenatural, ou melhor, uma manifestação que transcende nosso conhecimento atual. Há também, como veremos adiante, alguns pontos em comum.
Segundo os egípcios, Ra ou Re, deu à luz si mesmo. De sua saliva nasceram Shu, o ar, e Tefnut, a umidade. Shu e Tefnut geraram Geb, o deus da Terra, e Nut, a deusa dos céus. Os seres humanos vieram das lágrimas de Re e assim por diante.
O mito sérvio da criação afirmava que no começo não havia nada a não ser Deus, que dormia e sonhava durante muitas eras. Quando finalmente Deus despertou, cada um de seus olhares transformou-se numa estrela. Deus gostou do que viu e dispôs-se a viajar, mas aonde quer que chegasse não percebia um fim ou um limite. Quando, enfim, chegou à Terra, estava cansado e o suor de sua testa caiu no chão e deu origem à vida.
Já o mito chinês narra a criação da seguinte forma: no começo dos tempos, tudo era caos e o caos apresentava a forma de um ovo de galinha. Dentro do ovo estavam Ying e Yang, que eram a escuridão e a luz, o feminino e o masculino, o frio e o calor e o seco e o molhado. Essas forças opostas acabaram quebrando o ovo. Os elementos mais pesados desceram e formaram a Terra e os mais leves flutuaram e formaram os céus.
Talvez um dos mitos mais interessantes seja o dos aborígines da Austrália, que descreve o começo da Terra como uma planície nua, onde tudo era escuro. Não havia vida nem morte. O Sol, a Lua e as estrelas dormiam embaixo da Terra. Os ancestrais assumiam várias formas enquanto vagavam pela Terra. Às vezes, eram só animais, às vezes eram quimeras entre humanos e plantas. Dois desses ancestrais autocriados a partir do nada eram os Ungambikula, que, em suas excursões, encontraram pessoas feitas pela metade. Essas pessoas não passavam de montes disformes, sem membros ou rostos, e estavam jogados e amontoados perto de poços de água e lagos salgados. Os Ungambikula passaram então a esculpir nesses montes, cabeças, corpos, pernas e braços, até que finalmente os seres humanos foram terminados. Cada homem ou mulher foi feito a partir de uma planta ou animal e, assim, cada pessoa deve fidelidade ao totem do animal ou planta do qual foram feitos. Depois que terminaram seu trabalho, os ancestrais voltaram a dormir. Ao voltarem para suas casas subterrâneas, deixaram traços de sua presença em rochedos, poços ou árvores. Sem muito esforço veremos que essa versão aborígine é extremamente atual, uma vez que hoje se considera que as espécies existentes e as extintas são verdadeiras quimeras de nossos ancestrais, isto é, todas as espécies possuem um vínculo familiar entre si e com o ancestral universal.
Há muitos outros mitos, mas bastam os aqui mencionados para se perceber eu existem características comuns entre eles. Quase todos narram um estado inicial em que não havia nada. Como resultado de um capricho divino passou a existir matéria. Nesse particular, tirando-se o capricho divino, não há muita diferença entre os mitos e alguns modelos monistas.
Outro ponto em comum é o ambiente em que os humanos viveram e que, naturalmente, condicionou o cenário da narrativa da criação. Por exemplo, para os nórdicos da Islândia, o cenário da criação contém gelo, lava, fontes termais etc. Para os egípcios, a fonte de tudo estava claramente no firmamento, e para os aborígines, a criação se deu num cenário típico de certas regiões da Austrália e assim sucessivamente. Outra influência notável é o antropomorfismo, ou seja, as divindades exibem comportamentos, forma e pensamentos característicos do ser humano. Isso é extensivo ao cristianismo, ao islamismo e ao judaísmo. Em conclusão os mitos e as religiões parecem ser criações humanas. Nesse sentido, a própria ciência também se encaixa na categoria das invenções humanas.
É importante ressaltar também que, em quase todos os mitos, a água e a energia sob uma forma ou outra estão sempre presentes, o que, conforme veremos mais tarde, está de acordo com muitas hipóteses monistas sobre a origem da vida. O mesmo acontece com o problema da falta de organização, pois em muitos mitos o início é invariavelmente descrito como um estado caótico.
No caso dos aborígenes, essa percepção aguçada da natureza chega até conceitos evolucionistas, que claramente sugerem uma trajetória bastante contemporânea sobre a origem das espécies. Os próprios aborígenes podem também ser considerados como precursores da paleontologia, pois ao narrar que os ancestrais sagrados deixaram traços de sua presença nos rochedos, poços e árvores, certamente reconheciam os fósseis como vestígios do passado.
Para os monistas, o Universo tanto pode ter sido criado num dado momento, como pode ter sempre existido. Nesse particular, dualistas e monistas não divergem muito no que diz respeito aos aspectos essenciais dessa discussão. No entanto, os materialistas tentam explicar o surgimento do Universo somente por meio de forças físicas, mesmo que, devido à nossa ignorância, essas forças divirjam um pouco da física nossa de cada dia. Veremos depois quais são as origens das explicações sobre o Universo em expansão e o Universo eterno.
Fonte: http://cienciamestre.blogspot.com.br/2012/02/origem-da-vida-o-universohttpwwwblogger.html
A origem do Universo ainda está cercada por polêmica e controvérsia porque é uma questão cuja complexidade talvez supere aquela da origem da vida. Isso acontece porque as hipóteses sobre a origem da vida podem recorrer a modelos químicos plausíveis. Já os astrofísicos têm necessariamente que apelar para uma física desconhecida, pela de condições especiais e heterodoxas. É claro que essa é uma física desconhecida em comparação àquela que foi estabelecida após o momento inicial do Universo. Poderíamos afirmar que, antes do início, não havia física alguma. Os próprios físicos sentem dificuldade em compreender algumas das hipóteses lançadas mais recentemente. Nossa discussão sobre a origem do Universo não pretende esgotar todas essas proposições, apenas concentrar-se nos modelos mais hegemônicos, como o do Universo em expansão. Dentro desse tópico, procuraremos abordar de modo mais específico aqueles aspectos diretamente ligados à formação das estrelas e planetas e à origem do elemento carbono, que, em última análise, determinou a química dos seres vivos.Para que a diferença entre a interpretação dualista e a monista fique clara, apresentaremos antes algumas versões dualistas para a origem do Universo. Segundo a visão dualista, num dado momento, o Universo, inclusive a Terra, foi criado por uma ou por múltiplas entidades divinas. As principais doutrinas de várias culturas do mundo apresentam versões que variam entre si, mas fundamentalmente descrevem o surgimento da Terra e do Universo como uma manifestação sobrenatural, ou melhor, uma manifestação que transcende nosso conhecimento atual. Há também, como veremos adiante, alguns pontos em comum.
Segundo os egípcios, Ra ou Re, deu à luz si mesmo. De sua saliva nasceram Shu, o ar, e Tefnut, a umidade. Shu e Tefnut geraram Geb, o deus da Terra, e Nut, a deusa dos céus. Os seres humanos vieram das lágrimas de Re e assim por diante.
O mito sérvio da criação afirmava que no começo não havia nada a não ser Deus, que dormia e sonhava durante muitas eras. Quando finalmente Deus despertou, cada um de seus olhares transformou-se numa estrela. Deus gostou do que viu e dispôs-se a viajar, mas aonde quer que chegasse não percebia um fim ou um limite. Quando, enfim, chegou à Terra, estava cansado e o suor de sua testa caiu no chão e deu origem à vida.
Já o mito chinês narra a criação da seguinte forma: no começo dos tempos, tudo era caos e o caos apresentava a forma de um ovo de galinha. Dentro do ovo estavam Ying e Yang, que eram a escuridão e a luz, o feminino e o masculino, o frio e o calor e o seco e o molhado. Essas forças opostas acabaram quebrando o ovo. Os elementos mais pesados desceram e formaram a Terra e os mais leves flutuaram e formaram os céus.
Talvez um dos mitos mais interessantes seja o dos aborígines da Austrália, que descreve o começo da Terra como uma planície nua, onde tudo era escuro. Não havia vida nem morte. O Sol, a Lua e as estrelas dormiam embaixo da Terra. Os ancestrais assumiam várias formas enquanto vagavam pela Terra. Às vezes, eram só animais, às vezes eram quimeras entre humanos e plantas. Dois desses ancestrais autocriados a partir do nada eram os Ungambikula, que, em suas excursões, encontraram pessoas feitas pela metade. Essas pessoas não passavam de montes disformes, sem membros ou rostos, e estavam jogados e amontoados perto de poços de água e lagos salgados. Os Ungambikula passaram então a esculpir nesses montes, cabeças, corpos, pernas e braços, até que finalmente os seres humanos foram terminados. Cada homem ou mulher foi feito a partir de uma planta ou animal e, assim, cada pessoa deve fidelidade ao totem do animal ou planta do qual foram feitos. Depois que terminaram seu trabalho, os ancestrais voltaram a dormir. Ao voltarem para suas casas subterrâneas, deixaram traços de sua presença em rochedos, poços ou árvores. Sem muito esforço veremos que essa versão aborígine é extremamente atual, uma vez que hoje se considera que as espécies existentes e as extintas são verdadeiras quimeras de nossos ancestrais, isto é, todas as espécies possuem um vínculo familiar entre si e com o ancestral universal.
Há muitos outros mitos, mas bastam os aqui mencionados para se perceber eu existem características comuns entre eles. Quase todos narram um estado inicial em que não havia nada. Como resultado de um capricho divino passou a existir matéria. Nesse particular, tirando-se o capricho divino, não há muita diferença entre os mitos e alguns modelos monistas.
Outro ponto em comum é o ambiente em que os humanos viveram e que, naturalmente, condicionou o cenário da narrativa da criação. Por exemplo, para os nórdicos da Islândia, o cenário da criação contém gelo, lava, fontes termais etc. Para os egípcios, a fonte de tudo estava claramente no firmamento, e para os aborígines, a criação se deu num cenário típico de certas regiões da Austrália e assim sucessivamente. Outra influência notável é o antropomorfismo, ou seja, as divindades exibem comportamentos, forma e pensamentos característicos do ser humano. Isso é extensivo ao cristianismo, ao islamismo e ao judaísmo. Em conclusão os mitos e as religiões parecem ser criações humanas. Nesse sentido, a própria ciência também se encaixa na categoria das invenções humanas.
É importante ressaltar também que, em quase todos os mitos, a água e a energia sob uma forma ou outra estão sempre presentes, o que, conforme veremos mais tarde, está de acordo com muitas hipóteses monistas sobre a origem da vida. O mesmo acontece com o problema da falta de organização, pois em muitos mitos o início é invariavelmente descrito como um estado caótico.
No caso dos aborígenes, essa percepção aguçada da natureza chega até conceitos evolucionistas, que claramente sugerem uma trajetória bastante contemporânea sobre a origem das espécies. Os próprios aborígenes podem também ser considerados como precursores da paleontologia, pois ao narrar que os ancestrais sagrados deixaram traços de sua presença nos rochedos, poços e árvores, certamente reconheciam os fósseis como vestígios do passado.
Para os monistas, o Universo tanto pode ter sido criado num dado momento, como pode ter sempre existido. Nesse particular, dualistas e monistas não divergem muito no que diz respeito aos aspectos essenciais dessa discussão. No entanto, os materialistas tentam explicar o surgimento do Universo somente por meio de forças físicas, mesmo que, devido à nossa ignorância, essas forças divirjam um pouco da física nossa de cada dia. Veremos depois quais são as origens das explicações sobre o Universo em expansão e o Universo eterno.
Fonte: http://cienciamestre.blogspot.com.br/2012/02/origem-da-vida-o-universohttpwwwblogger.html
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