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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A agressividade de Aécio com as mulheres: firmeza ou covardia?




Aécio, e o dedo levantado para as mulheres


Por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador


A agressividade demonstrada por Aécio Neves durante o debate no SBT, nesta quinta-feira, pode ter espantado muitos telespectadores. Ainda mais porque o tucano não é conhecido como um político de confrontos duros na tribuna – quando do outro lado estão homens experientes na vida legislativa.

Por que, então, Aécio estava tão agressivo no embate com Dilma?

Há algumas explicações possíveis. Surpreendido pela adversária no debate anterior, na Band, Aécio quis partir logo para a ofensiva. Como se não pudesse dar tempo para a adversária respirar… Ultrapassou o limite razoável e desconheceu qualquer regra de cortesia.

O perfil pessoal de Aécio Neves pode ajudar a compreender esse comportamento exaltado – no embate direto com uma mulher.

Aécio é um rapaz que só teve facilidades na vida. Filho e neto de políticos, ganhou emprego ainda jovem como assessor parlamentar. Depois, foi nomeado para um banco público. Sempre protegido por papai e vovô. Nunca enfrentou dificuldades pra valer.

Nada parecido com a trajetória de Dilma – que viveu clandestina durante a ditadura, foi presa e torturada.

No debate, era esse o confronto: de um lado uma senhora, com mais vivência, e uma trajetória difícil. De outro, um homem maduro, mas com aparência de garotão, acostumado a ultrapassar todos os obstáculos sem que ninguém ouse confrontá-lo. Um “playboy” – como se costuma dizer.

E há mais que isso. Aécio não parece ser um homem acostumado a tratar as mulheres de igual para igual. As histórias sobre ele, nas noitadas cariocas, indicam que Aécio gosta de companhias femininas que não ameacem sua posição de centro das atenções. “Modelos”, garotas sem grande apetite por debates políticos e intelectuais: essas seriam as companhias femininas do tucano no Rio. Sempre acompanhado por outros garotões da elite carioca.

Pouco antes da campanha eleitoral, Aécio reatou relacionamento com uma namorada. Parece ter sido um relacionamento “produzido” para gerar a imagem de uma família estável. A mulher (que virou a companheira oficial dele) cumpriria o papel de “completar” a imagem pública do político: Aécio, um pai de família respeitável!

Mas quem conhece a trajetória de Aécio sabe que isso não combina muito com ele.

Se o candidato tucano mostrou contrariedade, e abusou da virulência verbal, ao lidar publicamente com uma mulher durante o debate, na vida privada o comportamento dele não parece ser tão diferente.

Pelo menos é a indicação que fica da leitura de um texto do jornalista Juca Kfouri – publicado em 2009. Na época, Aécio disputava a indicação de candidato tucano com José Serra. Juca ficou sabendo de uma história que chocou a chamada “sociedade carioca”. O título do post: “A Covardia de Aécio”.

O jornalista revelou que Aécio teria agredido fisicamente a namorada – na frente de vários convidados – durante uma festa. Aécio jamais processou ou interpelou Kfouri judicialmente. Talvez, porque soubesse que o jornalista contava com testemunhas do ocorrido.

A história jamais foi esclarecida. Mas – se confirmada – pode ajudar a explicar o comportamento agressivo do tucano. E indica uma personalidade algo explosiva e autoritária – por trás da fachada de garotão mineiro radicado no Rio de Janeiro.

Cordato com os homens, virulento com as mulheres que ousam desafiá-lo: esse parece ser o perfil de Aécio Neves – um político que nunca teve dificuldades nem contrariedades na vida.



É um bom perfil para quem almeja a presidência da República – num país dividido?

No primeiro turno, a imagem já se revelara – quando apontou o dedo em riste (foto acima, na abertura do post) diante de uma pergunta dura de Luciana Genro durante outro debate.

Relembremos o texto de Kfouri:



COVARDIA DE AÉCIO NEVES


Por Juca Kfouri

01/11/2009 

“Aécio Neves, o governador tucano de Minas Gerais, que luta para ter o jogo inaugural da Copa do Mundo de 2014, em Belo Horizonte, deu um empurrão e um tapa em sua acompanhante no domingo passado, numa festa da Calvin Klein, no Hotel Fasano, no Rio.


Depois do incidente, segundo diversas testemunhas, cada um foi para um lado, diante do constrangimento geral.

A imprensa brasileira não pode repetir com nenhum candidato a candidato a presidência da República a cortina de silêncio que cercou Fernando Collor, embora seus hábitos fossem conhecidos.

Nota: Às 15h18, o blog recebeu nota da assessoria de imprensa do governo mineiro desmentindo a informação e a considerando caluniosa.

O blog a mantém inalterada.”

PS:

No Blog da Cidadania, Eduardo Guimarães mostrou que há outras referências na imprensa sobre o mesmo episódio narrado por Juca Kfouri. Guimarães faz a pergunta: por que Aécio nunca processou Juca?

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O “mar de lama” à Aécio





Por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo




Os contendores

Primeiro que tudo, acho importante que haja agressividade em debates presidenciais, e que questões pessoais sejam trazidas à discussão.

É o interesse público que está em jogo. A sociedade tem que conhecer melhor cada candidato.

O pior cenário, para os cidadãos, seria uma conversa de lordes ingleses, com elogios mútuos e protocolares em meio a goles de chá.

Por isso dou nota elevada ao debate de hoje no SBT. Onde alguns viram baixaria enxerguei a tensão, a eletricidade, a adrenalina dignas de uma disputa presidencial.

A grande diferença entre Dilma e Aécio esteve no conteúdo da agressividade.

Aécio fez o que sempre faz. Pediu generosidade quando jamais é generoso. Pediu respostas quando ele invariavelmente tergiversa. Pediu sinceridade quando é cínico em regime de tempo de integral. Pediu humildade quando é arrogante a ponto de falar em nome dos brasileiros.

Num momento de descaro abissal, comparou o caso do irmão de Dilma ao time de parentes aos quais ele dá altos cargos públicos quando pode.

Uma rápida pesquisa mostra que Igor Rousseff foi assessor do prefeito petista Fernando Pimentel, de Belo Horizonte.

Depois disso, nunca ocupou cargo público nenhum. Disse o Globo, o insuspeitíssimo Globo, num perfil de 2011: “Quem não conhece o Igor não fica sabendo nunca que ele é irmão da presidente. Morre de medo de pensar que quer tirar proveito disso.” (Aqui o link.)

Pois Aécio quis tirar proveito disso.

Não há termo de comparação entre o caso da irmã de Aécio e o caso do irmão da Dilma. Mas fingiu – nisto ele é mestre – que são coisas iguais.

Andrea Neves ocupou sob Aécio um cargo – ainda que formalmente não remunerado – que dava a ela o comando das verbas publicitárias estaduais.

Sabe-se, porque a Folha enfim resolveu investigar um pouco o candidato tucano, que o governo de Aécio colocou dinheiro público nas rádios da família.

É, em si, uma indecência. Isso piora quando, numa afronta brutal ao conceito de transparência tão citado por Aécio, ninguém informa quanto foi o dinheiro público investido nas rádios.

E não é apenas Andrea. É o cunhado, são primos, agregados – em funções muitas vezes de mando.

Meritocracia?

Só se for pela ótica de quem, aos 25 anos, foi nomeado diretor da Caixa Econômica Federal pelo mérito de ser neto de Tancredo Neves.

Aécio não surpreende. A cada debate, ele faz mais do mesmo.

Dilma, ao contrário, surpreendeu ao adotar o mesmo tom de Aécio. Ou quase o mesmo: Aécio a chamou de mentirosa várias vezes e Dilma disse o mesmo uma ou duas.

Onde ela avançou em relação ao primeiro debate: não deixou que certos assuntos sumissem da discussão.

O aeroporto de Cláudio é o maior exemplo. Aécio fala, tergiversa, se desvia – mas não consegue dar uma única explicação convincente para o aeroporto de uso privado construído com dinheiro público.

Jornalistas de Minas disseram que essa história já era conhecida nas redações. Mas ninguém publicava pela censura que, na prática, Andrea Neves comandava para proteger o irmão de notícias desfavoráveis.

Eis o conceito de liberdade de expressão de Aécio.

Para quem lida com palavras como eu, irritou particularmente a manipulação de Aécio ao usar uma frase de Dilma que, supostamente, seria um incentivo à corrupção.

O significado da frase é o seguinte: todo mundo pode cometer corrupção.

É uma verdade verdadeiríssima. Ninguém está acima às tentações que o poder e a sensação de impunidade trazem, como mostra o próprio episódio do aeroporto de Cláudio.

A questão é fiscalizar e punir.

Neste sentido, o PSDB – dos votos comprados para a reeleição de FHC às propinas do Metrô de SP – não tem muita coisa a dizer.

No debate, Aécio voltou a afirmar que não havia evidências de nada nos casos de corrupção do PSDB.

Hoje mesmo, viralizou na internet o depoimento do jornalista Fernando Rodrigues, da Folha, autor do furo em 1997 sobre a compra de votos.

“Não eram evidências”, disse ele. “Eram provas.” Ninguém investigou – incluída, como lembra Rodrigues, a mídia. Como FHC era presidente, e amigo dos donos da mídia, entendeu-se que não era assunto a compra de votos para que ele pudesse se reeleger.

Como Lacerda, Aécio fala em “mar de lama” olhando para o outro. Ambos deveriam, no entanto, olhar para o espelho.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Meritocracia e as bravatas de Aécio




Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:


Meritocracia.

Uma das palavras mais pronunciadas por Aécio nesta campanha é esta, meritocracia.

Faz parte, se entendo, de um esforço de se colocar como um grande gerente. No jargão corporativo, meritocracia é uma palavra muito empregada, bem como outra do repertório de Aécio: previsibilidade.

Como todos sabemos, meritocracia é escolher alguém pelos seus méritos, e apenas por eles.

Num mundo menos imperfeito, a mídia teria tratado de verificar a trajetória de Aécio para ver como, no caso pessoal dele, se manifestou a meritocracia.

Convenhamos: ele é um forte candidato à presidência, e informações sobre sua carreira profissional têm, mais que nunca, um torrencial interesse público.

Mas este mundo é muito imperfeito – e a mídia mais ainda.

A inépcia - ou má fé - de jornais e revistas não impediu, no entanto, que viralizassem na internet documentos que mostram a rápida ascensão de Aécio.

Examinemos o papel da meritocracia em sua jornada, iniciada cedo. As informações estão no site da Câmara dos Deputados. Nenhum repórter teria que suar, portanto, para prestar um serviço relevante aos eleitores. (Aqui, olink.)

Aos 17 anos, Aécio foi nomeado secretário de gabinete parlamentar na Câmara dos Deputados. Seu pai, Aécio Cunha, era deputado federal pela Arena.

Segundo o site da Câmara, Aécio permaneceu nesta posição até os 21 anos.

Há, aí, um fato intrigante: conforme perfil feito pela insuspeita revista Época, Aécio fazia faculdade no Rio no mesmo período em que era secretário de gabinete.

Algum jornalista se interessou em esclarecer essa suposta ubiquidade meritocrática?

Mundo imperfeito, mundo imperfeito.

Aos 23 anos, de volta a Minas depois da estada no Rio, foi nomeado assessor pelo avô, o governador Tancredo Neves. Como avós sempre encontram méritos nos netos, Aécio poderia hoje dizer que ganhou o cargo graças à meritocracia.

Tancredo morreria em 1985, pouco antes de tomar posse como primeiro presidente civil depois da ditadura militar. (Ele vencera, ao lado do vice Sarney, eleições indiretas.)

Com Sarney na presidência, Aécio deu um salto. Aos 25 anos, era diretor da Caixa Econômica Federal.

O que o candidato Aécio diria, hoje, de um neto de político indicado para uma diretoria da Caixa aos 25?

Aparelhamento?

Como os jornais, que jamais trataram disso, falariam do caso se fosse um neto de Lula?

No Brasil, aparelhamento é quando os adversários fazem nomeações.

Quando você mesmo faz, é meritocracia. FHC nomeou seu genro diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, e o desnomeou depois do divórcio.

Serra deu emprego a Soninha e família na máquina estadual do PSDB.

Mas nada disso é aparelhamento.

A irmã de Aécio ocupa alto cargo público em Minas. O marido dela é peça-chave na campanha de Aécio. Um primo também. Cheque aqui, se tiver dúvida.

Tudo é meritocracia, naturalmente.

Graças à meritocracia à Aécio, Minas sob seu governo ficou em 22.o lugar entre os 27 estados brasileiros em crescimento econômico entre 2002 e 2010, segundo o IBGE.

O silêncio da mídia permite bravatas meritocráticas a Aécio. E não só meritocráticas: ele se sente protegido o suficiente para falar em “decência” mesmo depois de construir, com dinheiro público, um aeroporto numa fazenda da família.

Este silêncio é obsequioso, mas não gratuito. Caso Aécio se eleja, as grandes empresas de mídia podem se preparar para as copiosas quantidades de dinheiro público que choverão nelas em anúncios governamentais.

E em resposta à chuva de publicidade, o Brasil subitamente melhorará nas análises de Jabor, Merval, Míriam Leitão. A corrupção desaparecerá dos telejornais, dos jornais, das revistas. Se nem a compra da reeleição de FHC foi notícia, o que haverá de ser?

Como disse um genial economista conservador, “não existe almoço grátis”.

Manifesto de Marina por Aécio: ignorância, rancor e má-fé




Por Igor Felippe, no Escrevinhador


Votarei em Aécio e o apoiarei, votando nesses compromissos, dando um crédito de confiança à sinceridade de propósitos do candidato e de seu partido e, principalmente, entregando à sociedade brasileira a tarefa de exigir que sejam cumpridosMarina Silva – 12/10/2014

O candidato à presidência Aécio Neves (PSDB) apresentou no horário político o pronunciamento de Marina Silva em apoio ao PSDB. Assim, a candidata do PSB deu sua contribuição para o tucano, que quer conquistar uma fatia gorda dos seus mais de 20 milhões de votos.

O manifesto de Marina por Aécio, com um tom solene um tanto forçado, é uma lição de desconhecimento do país, misturado com um profundo rancor, pitadas de uma falsa ingenuidade e sinais de má-fé (para ler, cliqueaqui).

A candidata derrotada inicia colocando que o documento que Aécio Neves apresentou tem compromissos dirigidos à Nação, não a ela. Assim, Marina se coloca de forma humilde, buscando ofuscar o papel de protagonista – que, de fato, teve – na “adesão” do tucano aos tais compromissos.

Logo depois, de forma muito matreira, ela afirma que a sociedade que deve cobrar o tucano em relação às promessas. Dessa forma, exime-se de qualquer responsabilidade se for desrespeitada a plataforma que a teria levado a apoiar o PSDB.

Marina faz uma breve análise das eleições. Resgata a aliança com Eduardo Campos, a coligação de partidos “pela primeira vez” exclusivamente em torno de um programa.

Ignora o fracasso na tentativa de construção do Partido Rede, que a obrigou a se unir ao então governador de Pernambuco para participar das eleições. Superestima uma coligação de partidos médios e pequenos, em torno de um tal programa que mais atrapalhou que ajudou a sua campanha.

Esquece que a aliança política construída pelo PT na eleição de 2002, em torno de Lula, tinha como base um programa que incidia nos efeitos colaterais das políticas neoliberais. Inclusive, a candidata fez parte dessa construção.

Marina reclama também dos “ataques destrutivos de uma política patrimonialista, atrasada e movida por projetos de poder pelo poder, mantivemos nosso rumo, amadurecemos, fizemos a nova política na prática”.

O que Marina chama de ataques foi uma intensa disputa de ideias e propostas, como a independência do Banco Central e o papel do pré-sal para o desenvolvimento do país. Isso é ataque pessoal? O que Marina queria? Que os candidatos adversários passassem a mão na sua cabeça e aceitassem as suas propostas?

Na verdade, a figura da candidata foi respeitada, sem questionamentos em relação à sua trajetória. Além disso, ela ignora que também foi criticada por Aécio Neves, que foi quem cunhou, por exemplo, a imagem de que seu programa tinha sido escrito a lápis e poderia ser apagado.

Antes de anunciar o já esperado apoio a Aécio Neves, ela faz uma introdução sobre o que entende por política, afirma que seria egoísmo se eximir neste momento e critica as velhas alianças pragmáticas. Na eleição de 2010, quando Marina ficou neutra no segundo turno, ela priorizou os interesses próprios em detrimento do que era melhor para o país?

O auge do pronunciamento de Marina é quando a candidata traça um paralelo da eleição de 2002 e, esta, de 2014. Ela compara o compromisso assumido por Aécio no documento “Juntos pela Democracia, pela Inclusão Social e pelo Desenvolvimento Sustentável” (leia aqui), um resumão de ideias genéricas, com a “Carta ao Povo Brasileiro”, lançada pelo então candidato Lula.

Em 2002, o sistema financeiro fez uma guerra especulativa ao candidato Lula, usando seus instrumentos para desestabilizar a economia e prejudicar a campanha do PT. Assim, arrancou os compromissos de Lula, que afirmou na carta que manteria a estabilidade econômica e não romperia contratos. No fundo, o que os bancos queriam é que o governo Lula não tocasse nos seus interesses.

Marina avalia que a carta de Aécio seria um compromisso similar ao de Lula, mas com a sociedade brasileira, em torno da democracia, da inclusão social e do desenvolvimento sustentável…

Assim, ela iguala o poder do sistema financeiro e o poder de uma sociedade dentro de uma concepção abstrata. A sociedade aos olhos da candidata é um corpo homogêneo em movimento com posições convergentes.

Marina demonstra um profundo desconhecimento da sociedade, da história e das contradições no processo de formação do Brasil. A “sociedade” não poderá cumprir o mesmo papel que o sistema financeiro desempenhou em 2002, porque existem contradições, inclusive antagônicas, no seu interior. É a boa e velha luta de classes, que alguns deixaram de acreditar, mas que resiste.

O melhor exemplo dessas contradições é a jornada de junho de 2013, que mobilizou jovens em todo o Brasil em torno da defesa do transporte público e contra a violência da polícia, mas que no processo congregou bandeiras antagônicas, como a luta pelo respeito aos direitos humanos e pela redução da maioridade penal.

Somente quem pode fazer avançar a luta pela democracia, a inclusão social e o desenvolvimento sustentável são as forças sociais organizadas com interesse de sustentar esses compromissos. Por isso, a plataforma de Aécio para ganhar o apoio de Marina não passa de um carro novo e moderno, mas sem um motor que possa fazê-la avançar.

O mais interessante é que a maioria das organizações que defendem os compromissos que Aécio assumiu a pedido de Marina apoia a candidatura de Dilma Rousseff, mesmo sabendo dos limites do seu governo.

Essas organizações sabem bem que o PSDB, no governo FHC e nos governos estaduais, tem uma dura política de criminalização dos movimentos sociais. Ou seja, os tucanos atuam justamente para reprimir os atores sociais que protagonizarão as mudanças sociais.

Vale lembrar a ação da Polícia Militar, sob o governo do tucano Geraldo Alckmin, contra os protestos dos jovens pela redução da tarifa do transporte público em São Paulo, no ano passado. Vale lembrar da greve dos petroleiros em 1995, que foi reprimida pelas Forças Armadas a mando de FHC. Vale lembrar do Massacre de Eldorado dos Carajás, que deixou 17 mortos na conta da Polícia Militar do Pará, sob mando do governo estadual do PSDB.

Os bancos defenderam seus interesses em 2002 e obrigaram Lula a se enquadrar ao modelo econômico que subordina a indústria e o trabalho. Depois, o sistema financeiro continuou a fazer pressão sobre o governo. Ou seja, não foi a mágica carta de Lula que fez vale os interesses dos banqueiros. Foi a ação política de um dos mais poderosos setores da economia.

Agora, Aécio faz compromissos vagos, com evidentes interesses eleitorais, para atender Marina. Só que, sob um governo tucano, os sujeitos da luta social são reprimidos. Então, quem poderá fazer pressão para o governo Aécio respeitar tais compromissos? Marina acredita na sinceridade de Aécio, mas lavou as mãos e de antemão avisou que não tem nenhuma responsabilidade.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O ovo de Marina





A candidata sensação dos bancos choca a restauração de uma ordem que se ancora nas ruínas de seus próprios dogmas e fracassos. 


Por Saul Leblon no site CartaMaior

Abstraia a voz, o rosto, a identidade.

Agora leia o que dizem sobre a economia do país os candidatos Marina Silva e Aécio Neves, ademais de seus assessores oficiais e aqueles mais informais, mas não menos infatigáveis a mourejar no jornalismo isento...

A semelhança com o linguajar das missões do FMI, ou com a ênfase imperativa dos atuais comitês interventores da Troika na Europa não é mera coincidência.

É o espírito do tempo.

De um tempo em que paira uma chantagem permanente sobre governos, estados , nações, projetos de desenvolvimento.

Um tempo em que a mobilidade de capitais estreitou a tal ponto a voz da soberania que –não raro- a urna fala, mas não comanda.

Paraísos fiscais marmorizaram-se em um quarto poder da República, para onde fatias da riqueza se dirigem sempre que contrariadas e na verdade antes mesmo que se possa tentá-lo.

Um tempo em que é preciso gerar desenvolvimento sem dispor da capacidade de programação do investimento público e privado condizente.

Um tempo, portanto, em que todo capital é capital estrangeiro.

E que o interesse local não faz mais sentido a quem detém o poder de exigir uma convergência trabalhista baseada no piso mundial de direitos e no teto global da produtividade.

Uma China sem o Estado chinês; uma carga fiscal de Ruanda, com a eficiência suíça.

Essa, a agenda dos endinheirados nas eleições presidenciais de 2014.

É o espírito do tempo excretado diuturnamente pela emissão conservadora.

Cobra-se das nações que convivam com a incerteza como o peixe com a água.

Ainda que a incerteza dificulte a respiração hoje, e impeça a visão do amanhã.

Não importa: a incerteza é o plâncton dos cardumes especulativos.

Governos, povos e nações precisam de chão firme. Previsibilidade para erguer uma hidrelétrica. Estabilidade para educar um filho. Regulação, fundos públicos para realizar um ciclo de investimento.

Os magos da arbitragem desdenham: respira-se melhor debaixo do oceano da incerteza.

Precifica-se hoje o poder coercitivo adicional de uma subida das taxas de juros norte-americanas, capaz de ampliar a margem de manobra dos capitais voláteis.

Perdigueiros do glorioso jornalismo de economia farejam diariamente o cheiro da virada no ar –se não for hoje, de amanhã não passa, uivam colunas desfrutáveis.

Quem dá mais? É dessa pergunta que vive a especulação.

Na crítica cerrada ao ‘intervencionismo da Dilma’, por ter abandonado as ‘reformas amigáveis’, parte-se do princípio de que os anos de 2007/2008 nunca existiram no calendário das grandes crises do capitalismo mundial.

O photoshop na história permite descartar perguntas incômodas.

Uma resume as demais.

Onde estaria o Brasil hoje se a sua condução no colapso neoliberal dobrasse a aposta no veneno –com a mesma formulação e posologia preconizadas agora pelos presidenciáveis que levam plateias banqueiras ao delírio plutocrático?

A omissão desses detalhes distorce um debate eleitoral cujo pano de fundo é o passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Marretadas demolidoras golpeiam dia e noite a confiança erigida ao longo de uma década na construção negociada de uma democracia social no país.

A mensagem é nada sutil: ‘afrontar o mainstream leva ao caos’.

Um caos condensado no ingresso ‘voluntarista’ de 20 milhões de ex-miseráveis no mercado e na ascensão de 40 milhões na pirâmide de renda.

O que fazer com esse aluvião humano?

Devolvê-lo ao lugar de onde veio para desobstruir as artérias do mercado e o país poder andar.

Esse, o substrato da agenda conservadora no debate eleitoral da transição brasileira: o ajuste ‘inevitável’ que o intervencionismo da Dilma se recusa a fazer.

Ou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não informou nesta 2ª feira que o governo vai usar recursos do Fundo Soberano, para cobrir a previsão de arrecadação menor em vez de proceder ao devido arrocho fiscal?

Em tempo: o fundo foi criado por Lula em 2008, três meses após a quebra do banco Lehman Brothers, com recursos excedentes do superávit primário de então (da ordem de 0,5% do PIB)

Um fundo contracíclico, que engorda nas águas e cede gordura na seca.

Não para o jornal O Globo , que sapecou no dia seguinte: “Ontem, o governo reduziu em R$ 10,5 bilhões sua previsão de receitas para este ano. Mas, em vez de cortar (NR: onde, na saúde, por exemplo?) na mesma proporção a estimativa de gastos, decidiu sacar R$ 3,5 bilhões do Fundo Soberano para cobrir parte da diferença’.

Não ficou nisso a reação indignada.

Coube à doce Marina sintetizar o endosso dos presidenciáveis do peito do mercado à estupefação da família Marinho.

Aspas para a candidata do PSB:

‘O uso dos recursos do fundo para socorrer as contas públicas é uma demonstração clara de que o atual governo está comprometendo a estabilidade econômica de nosso País’.

Doce Marina Silva.

A Marina de hoje é a prova viva de que não basta ter dividido um ovo solitário com os irmãos na infância pobre.

É preciso ter a determinação de não permitir que isso se repita no país.

Requer instituições sólidas e políticas discricionárias que afrontem a lógica responsável por levar uma penca de filhos a depender de um singelo ovo.

Mas o que propõe a doce Marina décadas depois do ovo?

Renunciar ao uso de um fundo soberano.

Renunciar ao manejo da moeda, do câmbio e do juro, em benefício de um BC independente ‘da ingerência política’ congênita à democracia.

Renunciar à importância dos bancos públicos.

Rebaixar o pré-sal e tudo que a ele se interliga em termos de educação, saúde, reindustrialização e soberania.

Marina engrossa o jogral obcecado em provar a ineficácia das medidas que mudaram o padrão da política econômica herdada do ciclo liberal-tucano.

Seu ovo hoje choca a mórbida restauração de uma ordem ancorada nas ruínas de seus próprios dogmas e promessas.

Diante da fenda exposta pela crise mais grave do capitalismo desde 1929, o que se propõe é transformar a água em seu próprio dique.

A vítima paga a indenização ao agressor.

A prostração que atinge mesmo setores mais intelectualizados na atual campanha vem da impotência anterior da democracia para romper o fastio com o discurso neoliberal, e renovar a agenda da sociedade e do desenvolvimento, em meio à crise sistêmica criada pela supremacia financeira.

Da reação a essa encruzilhada nasce um voto trincheira.

Um voto crítico, mas firme, em Dilma Rousseff nas eleições de 2014, que Carta Maior traz a público, na manifestação de intelectuais, artistas e lideranças sociais.

Carta Maior entende que esse voto condensa um estado de espírito representativo e um debate necessário.

Um voto firme, por não enxergar na pretendida terceira via uma alternativa ao risco da restauração neoliberal ainda mais radicalizada e excludente, servindo-lhe, antes, como lubrificante.

Um voto crítico, por entender que a prostração democrática atual é o produto histórico de uma correlação de forças desfavorável urbi et orbi. Mas também de hiatos políticos insustentáveis em um projeto mudancista.

A eleição de outubro oferece a singular oportunidade de se demonstrar que não é necessário que seja assim.

O primeiro passo é tomá-la como um ponto de partida, que não se esgota no calendário de outubro. E tem no avanço da democracia participativa a base de um compromisso capaz de reciclar a prostração em engajamento; e a crítica em mobilização propositiva para a construção de uma verdadeira democracia social no Brasil .

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Apogeu e queda de Marina Silva







Por Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe), no siteVermelho



Faltam aproximadamente 15 dias para a eleição presidencial, talvez a mais disputada desde a redemocratização de nosso país. De um lado, as forças progressistas que há 12 anos estão no comando do executivo buscando implementar, mesmo que devagar, mudanças significativas nas relações sociais e políticas.


Do outro lado, em duas candidaturas, temos as forças neoliberais, em conjunto com a mídia, sedentos por voltar a conduzir o país nos rumos do arrocho salarial, privatizações e política externa comandada pelos barões norte americanos.

Nada seria novo se não existisse desta vez um acidente aéreo, no mínimo misterioso, que vitimou o ex-governador de Pernambuco e presidenciável Eduardo Campos, levando o país a uma comoção imensa que culminou na candidatura de Marina Silva em seu lugar.

A ex-ministra do Meio Ambiente, de maneira extremamente sagaz, trouxe consigo uma parcela significativa do eleitorado que clamava por mudanças, os mesmos que em junho de 2013 ocuparam as ruas do país pedindo transformações no estado brasileiro.

A maior parte destes rebeldes, não percebeu que a candidatura da ex-verde, não tinha nada de novo em relação aos principais presidenciáveis; aliás, tinha (e tem) sim: uma agenda neoliberal mais impactante que a dos próprios tucanos, algo inimaginável para quem tem a história de vida de uma ex-seringueira.

Marina Silva, infelizmente, representa tudo de pior que pode existir no mundo político, o chamado oportunismo. Com um projeto pessoal de poder que não inclui nada e nem ninguém à exceção dela mesma, a acreana trai todos os acordos que um dia fez ou as bandeiras que um dia defendeu para ficar refém de banqueiros e militares odiosos com os rumos que o Brasil tomou na última década.

Sem dúvida é decepcionante para alguém que militou com Chico Mendes e que durante 27 anos exerceu mandatos eletivos com a legenda petista agora usar de um discurso de ódio contra as pessoas que ela um dia chamou de “companheiras”.

Entretanto, o efeito comotivo da trágica morte de Eduardo Campos, não dura para sempre. A máscara da candidata está caindo, ela está perdendo pontos importantes nas intenções de voto, sua rejeição está aumentando a cada dia (principalmente pelo apoio de figuras repugnantes como Silas Malafaia e Marcos Feliciano que defendem tudo de pior, como a violência contra os homossexuais e o discurso de ódio contra a esquerda, que culminou na morte de um militante do PT do Paraná) e o próprio mercado neoliberal que a financia,começa a ficar preocupado, podendo, inclusive, voltar a apoiar o tucano Aécio Neves, até então carta fora do baralho.

Se fosse para apostar nos rumos que cada campanha está tomando, com destaque para as patacoadas que Marina tem cometido contra ela mesma (vide o recuo sobre a questão LGBTT após twites de Malafaia, independência do Banco Central e o possível ataque a CLT), a campanha contra ela que tomou as redes sociais esclarecendo a todos e todas quem a ex-senadora representa de fato e o terceiro lugar dos tucanos em Minas Gerais, reduto da família Neves desde sempre, eu apostaria na vitória de Dilma no Primeiro Turno, mas não descartaria um segundo turno entre PT e PSDB.

Para justificar minha opinião, me baseio na leve melhora de desempenho do ex-governador de Minas Gerais, na queda de intenções e aumento da rejeição contra Marina e no eleitorado conservador e anti-petista presente no principal estado da Federação: São Paulo (só observar as recentes propagandas eleitorais paulistas com o senador mineiro e o governador Alckmin juntos).

Não chego ao ponto de dizer que Marina está derrotada, mas com base nos números é possível afirmar que ela já teve sua alta. E, como todo império sem sustentação, após o apogeu, sempre vem à queda. Queda esta, em geral, que acontece de uma vez, mais rápido que os imperadores (ou presidenciáveis) esperam...

* Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) é biólogo, especialista em gestão ambiental, mestrando em sustentabilidade pela UFOP/MG e diretor de Universidades Públicas da ANPG.

domingo, 21 de setembro de 2014

Por que o PSDB está morrendo?





Por Paulo Nogueira, no DCM

Papo velho

Tarde demais para o PSDB reagir e chegar ao segundo turno, disse o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

Ele se referia ao pequeno avanço de Aécio nos últimos dias nas pesquisas.

A não ser que um milagre ocorra, Dilma e Marina disputarão o segundo turno.

Aécio vai ficar de fora, e será um marco no declínio do PSDB.

Concordo apenas parcialmente com o diretor do Datafolha.

No obituário da campanha tucana de 2014, eu diria o seguinte: o PSDB teve anos para se preparar. Não se preparou. Seria impossível, em poucos dias, recuperar o atraso de tanto tempo.

O PSDB é hoje uma obsolescência.

Seus líderes foram cegos para enxergar as demandas do Brasil moderno.

Em vez de abraçarem a causa do combate à desigualdade, que é a grande questão nacional, eles se fixaram na velha, gasta, mentirosa, oportunista, hipócrita ladainha da corrupção.

Fizeram-se de virgens sendo marafonas.

Os tucanos foram espetacularmente desmascarados por Luciana Genro no debate da CNBB. As palavras de Luciana a Aécio, enumerando os atos de corrupção do PSDB, entrarão para a história da política nacional.

Compare o discurso pseudomoralista de Aécio com o de Dilma: qual tem mais apelo?

Dilma fixou sua campanha na questão social. Vem mostrando os avanços sociais brasileiros nestes anos do PT no poder.

De certa forma, todas as informações que sustentam estes avanços parecem novas, não porque sejam, mas porque a mídia não cobriu nada, ou por miopia ou por má fé.

Do Bolsa Família ao Mais Médicos, das cotas para negros ao Prouni, do aumento do salário mínimo ao Pronatec, a lista de realizações sociais é, inegavelmente, grande.

Podia ser maior? Claro que sim. Podia e devia. Mas é muito mais do que, excetuado Getúlio Vargas, qualquer outra administração fez contra a iniquidade.

Dilma tem o que mostrar e o que falar.

Melhor ainda para ela, certas coisas nem é ela que diz. São os outros. Nesta semana, por exemplo, a ONU informou que o Brasil deixou o “Mapa da Fome”.

Enquanto isso, FHC se diz chocado ao ler a Veja e deparar com denúncias, como se fosse um Carlos Lacerda.

Ele quer enganar a quem com esse choque de araque? Quer conquistar que votos? Os dos leitores da Veja? Ora, estes já são do PSDB. São os antipetistas viscerais.

O presente está perdido para o PSDB, e o futuro também estará a não ser que o partido se reinvente.

Mas com quem?

Com FHC, com Serra, com Aécio?

Esqueça.

Considere o caso do premiê escocês Alex Salmond, derrotado no plebiscito que decidiu se a Escócia permanecia ou não no Reino Unido.

Salmond, conhecidos os resultados, anunciou que deixaria a liderança de seu partido e renunciaria, consequentemente, à chefia do governo.

É preciso encontrar novos líderes, disse.

No Brasil, os chefes políticos só costumam sair de cena num caixão, e é uma pena.

Serra já deve estar pensando em 2018. Aécio provavelmente logo estará pensando nisso também.

Uma empresa se renova com sangue fresco. Um partido também. O PSDB, neste sentido, é a quintessência do bolor.

Os tucanos pagam “militantes” para fingir que Aécio é popular. Mas este tipo de expediente apenas demonstra que o discurso velho do partido não comove ninguém.

O dinheiro compra até o amor verdadeiro, escreveu Nelson Rodrigues.

Mas não compra votos, e o PSDB parece desconhecer esta verdade indestrutível.