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terça-feira, 2 de junho de 2015

O eterno petralha.




 Olhem o que colhemos


Há uma praga que ameaça o Brasil. Chama-se petralha. “O petralha é o demônio por trás da corrupção”, advertiu um grande homem. Petralhas, como os seus amigos nordestinos ou os sem terras e os sem teto, não gostam de trabalhar. Não se trata de fraqueza. É para atrair piedade. Parecem mas não são pobres. São uma raça de parasitas. Petralhas e outros vagabundos são os perpétuos parasitas. Assim como os ratos.
Uma pesquisa recente indica que petralhas e seus aliados são responsáveis pela existência de 34% dos pedintes, de 47% dos roubos, de 47% dos jogos de azar e de 82% das organizações criminosas em ação. Petralhas são adeptos do comunismo, doutrina de destruição de nações e da luta de classes, que brota de mentes como as de Karl Marx e de Rosa Luxemburgo.
Petralhas e seus iguais não querem nada com o trabalho. Deixam para os brasileiros. Tem um objetivo comum: explorar o país. Enquanto nós brasileiros empobrecemos, os petralhas enriquecem através de fraude, trapaça e usura.
São ladrões que roubaram milhões e milhões do país. Atacam em todas as frentes. Na cultura, promovem uma arte anormal, grotesca e perversa com exaltações à pornografia e à homossexualidade. Mas críticos de arte petralhas as enaltecem como “elevadas expressões artísticas”.
Atrás de tudo está a doutrinação petralha. Seus líderes são, acima de tudo, educadores políticos. A carta de princípios petralha encerra cinco mandamentos: 1) amai-vos uns aos outros; 2) amai o roubo; 3) amai o excesso; 4) odeie seu patrão; 5) nunca diga a verdade.
E assim tem sido. Mas este modo de pensar petralha está chegando ao fim. E não mais poluirá nossa nação.
Se o bravo leitor resistiu até aqui, mesmo ansiando por um engov, prepare-se: vai ficar pior. Porque o que se assemelha a um surto não é um surto, o que parece delírio não é delírio. E aquilo que aparenta ser apenas ficção ruim não é ficção ruim. É realidade ruim. De muito tempo atrás e, como se verá, de agora.

Substitua petralha e seus iguais por judeu, brasileiros por alemães, Brasil por Alemanha, grande homem por Richard Wagner, carta de princípios petralha por Canaã e você terá uma súmula da narração em off daquele que foi considerado “o filme mais imundo jamais feito”: O Eterno Judeu, de Fritz Hippler.
Seguindo as diretrizes de Joseph Goebbels, ministro da cultura e propaganda do Terceiro Reich, Hippler filmou o gueto de Lodz, na Polônia ocupada onde, atrás do arame farpado, o regime confinara 160 mil pessoas. Construiu uma ópera de ódio.
Na montagem, alternam-se cenas de judeus e de ratos. Ambos sujos, detestáveis, ameaças. Subjacentemente, induz-se a necessidade de serem dizimados. O fato de ser um documentário, com gente das ruas e não de atores, robustece a noção de veracidade embutida naquilo que descreve. Em tese, desvela o real, aquilo que o olhar do espectador captaria se estivesse em Lodz. Essa a ideia. Persuadir que algo tão desprezível não merece subsistir. Apronta-se a opinião pública para a solução final.
A analogia entre o inimigo engendrado e as moscas e roedores também é um presságio do modo de operação dos vernichtungslagers, os campos de extermínio. Pestes, os judeus seriam erradicados através de um pesticida, o Zyklon B, que paralisa o sistema respiratório. O Eterno Judeu chegou às telas em 1940. Em setembro de 1941, o Zyklon B estreou em Auschwitz.
Quem vê Der Ewige Jude – está no You Tube – percebe a assombrosa afinidade entre sua escrotidão e a matéria fecal transbordante das caixas de comentários e nas redes sociais. Mas, ojo, o narrador insinua mas não explicita a opção pelo genocídio. Ou seja, a ferocidade está aquém daquela ostentada na internet em 2015. Não duvide disso.
“Tem que começar a exterminar essa raça”, preconizou o internauta Carlos Zanelatto ao saber que o ex-presidente do PT, José Genoíno, poderia cumprir sua pena em prisão domiciliar. “A solução é começar a matar”, concordou outro, identificando-se com o número 010190. “Eu quero a cabeça dele. Pago em dólar”, bravateou Maurício P. Se a sensibilidade feminina faltava ao debate, Márcia TDB supriu a carência: “Dá nojo olhar pra esse safado. Morre camundongo da caatinga”.
Ante a observação de que “o porco sujo” deveria ter sido largado no mato “para ser comido vivo pelas onças”, um tal Denys divergiu: “Culpa foi não ter matado a Dilma”. TSilva111 discordou do discordante: “Culpa disso são (sic) os militares. Deveriam ter acabado com toda essa raça de bandidos na ditadura militar”. Fernando Amorim também xingou os milicos: “Porque diabos não mataram esses vermes na época da ditadura?”
É mole? Não, mas tem mais.
Avisando que seu recado era “sangrento”, João Neto informou que teria “o prazer de fuzilar qualquer petista”. Para ele, “nada irá mudar enquanto não começarmos a invadir as casas desses bandidos e pendurá-los pelo pescoço em praça pública…” Hemer Rivera foi logo buscar a faca e a corda: “Sou a favor disso, pendurar nos postes sem cabeça sangrando e deixar amanhecer para que todos vejam que político corrupto, merece ser decapitado”.
Bastou o ex-ministro José Dirceu sofrer um princípio de AVC, para uma internauta postar no Facebook: “Estamos juntos AVC. Não mata não, por favor, só deixa ele vegetativo, cagando na cama.” Recebeu 844 curtidas. Quando soube que Lula sofria de um tumor na laringe, um cidadão penalizou-se: “Tenho dó do câncer ter que comer carniça petralha”. Outro sugeriu apelar aos EUA “para assassinar Lula e Maduro”. Alguém gritou “Sou a favor. Amém” mas um terceiro propôs um caminho mais direto: “Porque não matamos esse filho da puta do Lula?”
E o que viria depois que “a vaca comunista”, “a puta da Dilma”, o “filho da puta do Lula”, os “vermes”, os “porcos”, a “escória”, a “raça”, a “sujeira”, os “vagabundos”, o “lixo” e – claro – os “ratos” fossem extirpados da face da Terra?
Um certo Rogério Bento rabiscou o novo programa de governo, com direito à “trinta anos de regime militar direitista”, mais “educação cristã”, “estado de sítio”, “pena de morte” e “criminalização do aborto, das ideologias esquerdistas, ateístas, gayzistas e dos direitos dos bandidos”.
Será que o nazista Hippler a serviço do nazista Goebbels insertaria tais falas no filme nazista de ambos? Difícil acreditar. Mesmo os nazistas tem limites. Formais, ao menos.
Sob Hitler, o patrocínio do ódio era oficial, bancado por um estado totalitário. Aqui, os haters são opositores da democracia sob uma democracia. Escancaram as bocarras para rugir sua ferocidade. Diferentemente de 1933 – e de 1964 — são leões desdentados.
Na Alemanha, o fascismo se serviu do governo. Que alimentou, pela propaganda, o horror aos judeus, eslavos, ciganos, comunistas, homossexuais. No Brasil, ao reverso, o governo é o inimigo a ser devorado. Na Alemanha, a escalada de Hitler à chancelaria do Reich foi atapetada pelos jornais de Alfred Hugenberg, o grande magnata da mídia. No Brasil, o governo vive sob estado de sítio midiático há 12 anos. Onde velhas vozes, dia após dia, tangem seu alaúde para lastimar a teimosia petralha em continuar existindo.
São, portanto, situações distintas. O que não muda, salvo alguma cor local, é o fascismo. Seu ingrediente básico é a frustração. Sova-se esta massa, umedecendo-a com algumas colheradas de ignorância e um copo cheio de cólera para fermentar. Deixa-se crescer. Quando as três partes estão bem misturadas, acrescentam-se porções generosas de irracionalismo, machismo, xenofobia, homofobia e intolerância e leva-se ao fogo alto. Na cobertura, um tanto de negação do outro, suspeição da cultura e força bruta.
Sociedades que engolem a gororoba nefasta desembocam, no seu extremo, nos vernichtungslagers. Outras vezes, na maioria, no borbulhar de uma ira estéril porém daninha. Temerosas da ascenção das camadas subalternas, as classes médias são bastante permeáveis ao cardápio. Na expressão de Umberto Eco, elas representam “o auditório do discurso fascistizante”. Mas, aqui, quem as nutre? Quem segrega o rancor espesso que se funde, engrossa e expande como uma nuvem tóxica? Quem ceva a escuridão?
Há uma resposta bem conhecida. Por ironia, de um judeu. O fato de não ser nova não significa que não deva ser apreciada. “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”, pressagiou o jornalista e judeu húngaro Joseph Pulitzer. Diga que o velho Pulitzer não tem razão.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O custo, o benefício e o fascismo


Por Sylvia Debossan Moretzsohn no Observatório da Imprensa

O que deveria ter sido uma manchete escancarada e escandalizada sobre uma aberração jurídica foi solenemente ignorado pela imprensa mais influente no país. Ao noticiarem o pacote anticorrupção do Ministério Público Federal, dois dias depois de o governo apresentar seu próprio conjunto de medidas nessa área, os três principais jornais deram ênfase ao endurecimento das penas, à classificação de crime hediondo para a corrupção que envolvesse altos valores, à possibilidade de extinção de partidos políticos envolvidos na roubalheira. Tudo de acordo com o argumento, tão surrado quanto falso, de que penas mais duras inibem a disposição para o cometimento de crimes. Mas, claro, tudo muito ao gosto popular, como a imprensa sabe desde sempre e o MPF, pelo visto, também.
Os jornais só se esqueceram de um detalhe: a proposta de validar provas ilícitas, embutida no pacote.
O Globo ignorou o assunto completamente. O Estado de S.Paulo, que na véspera (20/3) havia antecipado o anúncio das medidas, trouxe uma única referência a esse absurdo no quadro sobre “Propostas contra corrupção” da matéria coordenada na página 11 da edição seguinte: “Ajustes nas nulidades penais” – e o leitor que se vire para descobrir do que se trata. A Folha de S.Paulo também publicou um quadro em que cita as “nulidades”, com uma explicação pouco esclarecedora: “Tenta evitar que pequenos erros na fase de investigação derrubem operações inteiras”. No meio da reportagem, deu voz ao procurador Deltan Dallagnol, responsável pelas ações da Operação Lava Jato na Justiça Federal do Paraná:
“Eledestacou a necessidade de ajustes nas nulidades penais, erros que podem levar à derrubada completa de uma investigação na Justiça – como aconteceu com a operação Castelo de Areia, que caiu por ter usado grampos telefônicos na fase inicial de apuração.
De acordo com Dallagnol, é preciso ponderar o tamanho do erro. ‘Não podemos derrubar um prédio porque se encontrou um vazamento num cano. Somente erros muito graves podem levar à derrubada de um prédio’.”
É só a cabecinha?
O apelo a metáforas é comum para tentar facilitar o entendimento de coisas complexas. Mas às vezes – muitas vezes, quase sempre – a simplificação é mistificadora. Sim, quem se preocuparia com detalhes, filigranas jurídicas, diante do mal maior a ser combatido? Apresentada assim, a proposta parece muito palatável, principalmente para quem não tem conhecimento do mundo jurídico e político nem percebe a abrangência e as consequências dessas singelas “exceções”. E que, ainda por cima, está clamando nas ruas contra a corrupção: tantos pudores em relação a investigações, ora, que bobagem... queremos os criminosos na cadeia!
Seria ótimo, se fosse tão simples. Porém, as coisas são bem mais complicadas que isto. Se apelássemos para outra metáfora popular, aquela que diz que “é só a cabecinha”, talvez fosse possível começar a esclarecer o que está em jogo.
O alerta do Conjur
Quem chamou a atenção para esse escândalo – e fez jornalismo a sério, como tem feito regularmente, na contramão da grande imprensa – foi o site Consultor Jurídico, que, na noite de sexta-feira (20/3), destacou: “MPF propõe mudança para que prova ilícita seja aceita na Justiça“.
Esta seria a notícia, pelos critérios que os jornais celebram em seus manuais, e os editores em suas entrevistas, mas teimam em descumprir.
A reportagem informa que o uso de provas ilícitas implica mudança no Código de Processo Penal e estaria subordinado a uma espécie de relação custo-benefício: ocorreria quando“os benefícios decorrentes do aproveitamento forem maiores do que o potencial efeito preventivo”. Faz lembrar as “técnicas de interrogatório avançadas” ou “conjunto de procedimentos alternativos” do discurso malabarista da CIA para deixar de nomear a prática de tortura na obtenção de informações na sua “guerra ao terror”. Mas não: para tranquilidade geral da nação, em boa hora os nossos procuradores ressalvam que casos de tortura, ameaça e interceptações sem ordem judicial não seriam admitidos.
Ainda bem.
A reportagem confronta, em seguida, o artigo 5º da Constituição – “cláusula pétrea” – que afirma serem “inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos”, com o argumento favorável a essa, digamos, flexibilização: segundo o subprocurador geral da República Nicolao Dino Neto, chefe da Câmara de Combate à Corrupção, “é preciso fazer uma ponderação de interesses e verificar em que medida a eventual irregularidade na produção da prova pode indicar prejuízo à parte. Se não houver algo que evidencie prejuízo à defesa, nada justifica a exclusão dessa prova”.
Reação vigorosa
A notícia provocou a reação do jurista e procurador aposentado Lenio Streck, que indagou, no mesmo site do Conjur: “O que fazer quando o Ministério Público quer violar a Constituição?“ De saída, acusou: “Querem regras mais fáceis... para o MP. E para a Polícia. Pouco importa o que diz a Constituição”. Em seguida, contestou:
“O que é a ponderação de interesses? Interesses de quem? Estamos tratando de direitos ou de interesses? Voltamos ao início do século XX? Estão lendo os livros errados lá no MPF? Ninguém estuda nesse país?
“E o que é ‘eventual irregularidade’? Quem diz o que é e o que não é irregularidade? O MP? O juiz, com sua consciência? Ah, bom. Vamos depender das boas consciências de juízes e promotores”.
Lenio Streck apontou também a sugestão de que os ajustes no Código de Processo Penal prevejam que, no caso de anulação de atos praticados durante as investigações, o juiz ordene providências para que sejam “repetidos ou retificados”. “Como assim, Excelência? Quer dizer que, se existir uma prova ilícita, o juiz pode mandar consertá-la? Vou estocar comida. Passaram dos limites”.
Mas o principal é a sua consideração mais geral sobre o sentido da proposta:
“Quer dizer que a interceptação telefônica pode ser feita inconstitucionalmente? Quer dizer que os fins justificam os meios? E os efeitos colaterais? E o precedente que isso gera, procurador? Ah, mas era uma carga de cocaína. Ótimo. E quem diz que o juiz ou o promotor ou o policial não vão usar isso em outras ocasiões? Abrir a porteira do ilícito cometido pelo Estado é cair na barbárie. Isso mesmo”.
Exceção ilimitada
Vale a pena recordar aqui um trecho do livro O inimigo no direito penal (ed. Revan, 3ª ed., 2011), em que o jurista argentino Eugênio Zaffaroni desmonta o argumento de que medidas de exceção possam ser adotadas, como seus defensores candidamente sustentam, “apenas na estrita medida da necessidade”:
“(...) para os teóricos – e sobretudo para os necessidade que não conhece lei nem limites. Aestrita medida da necessidade é a estrita medida de algo que não tem limitespráticos – da exceção, sempre se invoca uma  porque esses limites são estabelecidos por quem exerce o poder”.
As pessoas comuns não parecem compreender isso e se regozijam quando os limites legais são ultrapassados para punir alguém que, publicamente – portanto, de acordo com a propaganda promovida pela mídia –, é apontado como inimigo público. Não percebe que o uso da exceção acaba transformando-a em regra, e que todos estarão expostos a essa situação, ficando à mercê “das boas consciências de juízes e promotores” ou, pior que isso, de todos os constrangimentos que os agentes do Estado podem exercer, diante das previsões de excepcionalidade legal.
“Constrangimento”, claro, é uma denominação mais delicada para “corrupção”, exatamente o que tanto se deseja combater.
As perversões do espetáculo
Tudo isso se encaixa no que o juiz Rubens Casara chamou, em artigo publicado em fevereiro deste ano, de “processo penal do espetáculo” (ver aqui), evidenciado nos casos que ganham repercussão na mídia e que transformam delegados, promotores, advogados e juízes em celebridades. Na entrevista a Paulo Moreira Leite (em 22/3, ver aqui), Casara reitera: “O processo penal do espetáculo é uma corrupção”. E explica:
“Ao afastar direitos e garantias fundamentais em nome do bom andamento do espetáculo, o Estado-juiz perde a superioridade ética que deveria distingui-lo do criminoso. Não se pode combater ilegalidades recorrendo a ilegalidades ou relativizando o princípio da legalidade estrita; não se pode combater a corrupção a partir da corrupção do sistema de direitos e garantias fundamentais. Punir, ao menos na democracia, exige o respeito a limites éticos e jurídicos. No processo penal do espetáculo, não é assim”.
Em seguida, aponta a simplificação maniqueísta do processo:
“O espetáculo aposta na exceção: as formas processuais deixam de ser garantias dos indivíduos contra a opressão do Estado, uma vez que não devem existir limites à ação dos mocinhos contra os bandidos. Para punir os ‘bandidos’ que violaram a lei, os ‘mocinhos’ também violam a lei. Nesse quadro, delações premiadas, que, no fundo, não passam de acordos entre ‘mocinhos’ e ‘bandidos’, violações da cadeia de custódia das provas e prisões desnecessárias – estas, por vezes, utilizadas para obter confissões ou outras declarações ao gosto do juiz ou do Ministério Público – tornam-se aceitáveis na lógica do espetáculo, sempre em nome da luta do bem contra o mal”.
E não é só:
“Em nome do ‘desejo de audiência’, as consequências sociais e econômicas das decisões são desconsideradas. Para agradar à audiência, informações sigilosas vazam à imprensa, imagens são destruídas e fatos são distorcidos. Tragédias acabam transformadas em catástrofes. No processo penal do espetáculo, as consequências danosas à sociedade produzidas pelo processo, não raro, são piores do que as do fato reprovável que se quer punir”.
Uma aliança nefasta
Pensemos na construção da imagem do ministro Joaquim Barbosa, durante o Mensalão, como paladino da Justiça, e na do juiz Sérgio Moro, agora na Operação Lava Jato, ambos premiados pelo jornal O Globo, quando o respeito à liturgia do cargo exigiria resguardar-se de holofotes e homenagens promovidas por interesses privados, para preservar a necessária isenção, inclusive na hipótese – remota, é verdade – de certas empresas precisarem ser investigadas. Pensemos no procurador geral, Rodrigo Janot, que recentemente se deixou fotografar com um cartaz que o saudava como “a esperança do Brasil”.
A aliança entre esta imprensa e as autoridades seduzidas pelo espetáculo leva dúvidas quanto ao motivo do silêncio em relação a tamanha aberração no pacote do MPF. Terá sido incompetência, desatenção, incúria? Terá sido conivência? Porque é flagrante demais, escandaloso demais, grave demais para passar despercebido.
A reportagem do Conjur, compartilhada na internet, provocou o comentário de um cidadão espantado: “Talvez eu tenha delirado”, diz ele, mas “talvez estejamos assistindo a uma monstruosa lavagem de provas ilícitas. A Polícia Federal e o Ministério Público podem ter andado espionando cidadãos sem mandado, por suspeita política, e agora obtêm, sob enorme constrangimento em prisões provisórias/permanentes, as confissões que permitirão legalizar aquelas provas anteriormente obtidas de forma ilícita.”
Será mesmo delírio? Se dependermos desta imprensa, jamais saberemos.
Nas recentes manifestações de protesto contra o governo, esta mesma imprensa fez o favor de ocultar as cenas contraditórias ao clima de festa: as ofensas, os insultos e, principalmente, as faixas e discursos que pediam intervenção militar. Pautou-se pela exaltação aos apelos anticorrupção e em defesa da democracia – os mesmos, aliás, que sustentaram o golpe hoje cinquentenário. Agora, ignora a proposta de medidas que instilam o germe do Estado de exceção na carapaça democrática. Estará esta imprensa novamente conivente com o golpismo?
“Abrir a porteira do ilícito cometido pelo Estado é cair na barbárie”, acusou Lenio Streck. Teria a mesma razão se tivesse falado em fascismo.
***
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora deRepórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007
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sábado, 25 de janeiro de 2014

Rolezinhos para leigos




"Rolezinho" é tão invenção do PT quanto queijo suíço. Dilma e Zuckerberg tentam entender o fenômeno





Quem está por trás dos "rolezi­nhos"? E quais as intenções? Até onde essa turma quer chegar? São perguntas que valem um milhão. Ou zilhão, dependendo do que acontecer daqui até a Copa.

No sábado, a Folha mandou esta datilógrafa que vos fala cobrir um "rolezinho" marcado para ocorrer no shopping JK. Agi de acordo com as instruções, mas, infelizmente, não tive a boa sorte de ver de perto uma das manifestações mais eletrizan­tes (!) do funk ostentação do verão 2014.

Sabendo que a polícia não ia aliviar e que os shoppings haviam pe­dido liminar à Justiça, a meninada cancelou a fuzarca. Paralelamente e, sendo este um país livre, a Unea­fro (União de Núcleos para Educa­ção Popular de Negros), resolveu or­ganizar, por sua conta e com o apoio dos grupos estudantis e partidos de esquerda de sempre, um protesto chamando atenção para a violência usada contra a criançada nos "role­zinhos" anteriores.

Explico: nos "rolezinhos" nos shop­pings Itaquera e Interlagos, em que aparentemente houve um "furto tentado", 23 menores acabaram detidos sem que nenhum BO fosse lavrado. Soltos, eles seriam ouvidos novamente ontem no 66º DP e dis­pensados. O delegado chegou à conclusão de que não valia mais a pena perder tempo com a história.

Pois é, mas a Uneafro não concor­da. Segundo a entidade, shoppings fechados, presunção de crime sem ocorrência, borracha em cima de criançada, há crime cometido, sim. Estamos falando de discriminação e constrangimento ilegal.

A manifestação que vi no sábado no JK não podia ser mais inó­cua. Mães com crianças no colo, se­nhoras do samba... Onde foi que o JK sentiu-se ameaçado?

Ah, mas no baile funk da Penha...! Sei. Só que o baile funk da Penha que virou arrastão não nasceu de "rolezinho". Nasceu baile funk turbi­nado por destilado e droga. E aca­bou mal como sempre acabam. Era outra galera, outra idade. Os "rolezi­nhos" de que estamos falando --é de "rolezinhos" que todos estão falando, não?-- esses não são infiltrados ou orquestrados por ninguém, garan­to. Por quê? Ora, porque os partici­pantes são alienados demais até pa­ra servir de massa de manobra.

Quer conhecer um "rolezeiro"? Olhe para o adolescente ao seu lado. O que você vê? Na maioria das ve­zes, um ser cujo único compromis­so é com a ostentação, não? Então é ele. Ele é o rei do camarote da ZL, o cliente da Petrossian de Paraisópo­lis. Passa pela cabeça que tenha algo a ver com o PSTU ou MTST? Necas! Mais fácil se unir ao PMR, o "Partido Mulheres Ricas".

Usar a internet para estudar? Nunca. Computador existe para acessar a rede e jogar joguinho. De­pois do "rolezinho" é direto para o WhatsApp. Por que houve tanto "ro­lezinho" em janeiro? Férias, ora!

Não há ninguém por trás dos "role­zinhos". O que há é "excesso de zelo" da polícia e de comerciantes vergo­nhosamente aflitos. Há também um desejo secreto por parte da so­ciedade de que uma limpeza étnica mágica varra a periferia e extermi­ne seletivamente só o que incomo­da. Como se fosse possível fazer so­brar só os pobres e pardos que estão aí para servir (manobristas, fren­tistas e garotos que carregam paco­tes no supermercado entre eles). Aqueles que não representam uma ameaça. O resto a gente lima, corta a cabeça e joga no rio.

"Rolezinho" é tão invenção do PT quanto terá sido o queijo suíço. Dil­ma está tentando entendê-lo como fenômeno, Mark Zuckerberg e Sla­voj Zizek também. Já houve "rolezi­nho" em Londres, Roma e em Frankfurt. Trata-se de uma excre­cência criada pelo apelo irresistível do mercado de consumo. Você não aprendeu a conviver com o pente­lho do Facebook? Pois então, se vira.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Haddad repudia ação da PM na Cracolândia




Por Altamiro Borges no blog do Miro

Na tarde desta quinta-feira (23), a polícia do governador tucano Geraldo Alckmin promoveu mais uma ação truculenta na Cracolândia, no centro da capital paulista. Agentes do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) usaram balas de borracha e bombas de gás contra os usuários do crack da região.

A investida arbitrária e desproporcional parece que teve como único objetivo sabotar a iniciativa da prefeitura de São Paulo para humanizar o tratamento dos dependentes da droga, na chamada Operação Braços Abertos. De imediato, o prefeito Fernando Haddad divulgou uma nota dura condenando a ação da polícia: 


“A prefeitura repudia esse tipo de intervenção, que fez uso de balas de borracha e bombas de efeito moral contra uma multidão formada por trabalhadores, agentes públicos de saúde e assistência e pessoas em situação de rua, miséria, exclusão social e grave dependência química”, afirma a nota.

Ela também destaca que a Operação Braços Abertos, iniciada na semana passada, tem como fundamento a não violência e afirma que "a prisão de traficantes deve ser feita sem uso desproporcional de força". A prefeitura informou ainda que expressou sua crítica diretamente ao governador Geraldo Alckmin, a qual a Polícia Civil está subordinada. 

Em outro trecho da nota, a prefeitura "reafirma seu empenho na solução deste problema da cidade e manifesta a sua preocupação com este tipo de incidente, que pode comprometer a continuidade do programa".

A Operação Braços Abertos acolhe os dependentes químicos em hotéis da região central e oferece uma bolsa para que eles trabalhem no serviço de limpeza de ruas, calçadas e praças no centro da cidade. Cada usuário recebe R$ 15 por dia de trabalho, mais alimentação e hospedagem. Os dependentes foram retirados da favela instalada na Alameda Dino Bueno, na região da Cracolândia.

O programa de Fernando Haddad já foi elogiado por diversos especialistas no assunto. Mas o tucano Geraldo Alckmin prefere mesmo a ação truculenta da polícia diante deste grave problema social. Em 2012, em pleno ano de eleições municipais, uma operação da PM retirou a força os dependentes das ruas do centro paulistano.

A ação foi um total fiasco e foi criticada por especialistas em segurança pública e defensores dos direitos humanos. O Ministério Público chegou a ingressar com uma ação contra o governo tucano devido ao uso excessivo da repressão. A Justiça acatou o pedido do órgão para que a PM fosse proibida de empregar ações “vexatórias, degradantes ou desrespeitosas” contra os dependentes.