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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A contraofensiva de Dilma Rousseff



Por José Reinaldo Carvalho, no site Vermelho

Foi imediata, aguda, contundente, certeira e eficaz a contraofensiva da campanha da presidenta Dilma Rousseff diante da onda de mentiras desencadeada nas últimas semanas pelas candidaturas oposicionistas de Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB), cada vez mais identificadas com posições reacionárias, direitistas, neoliberais e conservadoras. 

As intervenções da presidenta em comícios, debates, entrevistas e reuniões com lideranças dos partidos aliados e dos movimentos sociais têm sido esclarecedoras quanto aos eixos do seu futuro governo – ampliar e aprofundar as mudanças de caráter progressista, incrementar o desenvolvimento nacional soberano, impulsionar a justiça social, fortalecer a integração latino-americana e contribuir nos esforços para alterar a favor dos povos e da paz a correlação mundial de forças. Destaca-se a reiteração do seu compromisso de, ao combater os efeitos da crise internacional, manter intactas as conquistas sociais, valorizar os salários e preservar os empregos. 

Mas as circunstâncias objetivas têm levado os partidos de esquerda, nomeadamente o PT e o PCdoB, o programa de Rádio e TV da candidata e ela própria, com as elevadas responsabilidades que tem perante a nação e o povo, a falar com o maior didatismo e clareza possíveis e mostrar que as propostas do candidato do PSDB e da candidata do PSB afrontam os direitos do povo e a soberania nacional. 

O candidato do PSDB – cujas ambições eleitorais se desvanecem diante do repúdio que vem sofrendo – tem sido desmascarado como aquele que quer fazer o país regressar à época de entreguismo e corrupção característicos do governo tucano. Pregoeiro da austeridade fiscal, acena com o arrocho dos salários, a compressão do gasto público, que levaria o país à recessão e à bancarrota, gerando desemprego e crise social. 

Quanto a Marina Silva, uma a uma as suas propostas vêm sendo desmontadas e sua face de pregoeira da subserviência aos interesses alienígenas vai aparecendo com nitidez aos olhos do povo. A candidata do PSB atacou o governo da presidenta Dilma num dos aspectos mais salientes do seu compromisso com o desenvolvimento nacional – a exploração das imensas reservas petrolíferas do pré-sal. Em sua passagem pela Bahia na semana passada, Dilma disse que ao colocar o pré-sal em segundo plano, o programa de governo do PSB é “fundamentalista, retrógrado e obscurantista”.

Em uma criativa peça publicitária que começou a ser veiculada nesta terça-feira (9), a campanha da presidenta Dilma atacou o outro flanco em que Marina se expõe como a candidata dos banqueiros. 

"Marina tem dito que, se eleita, vai fazer a autonomia do Banco Central. Parece algo distante da vida da gente, né? Parece, mas não é... Isso significaria entregar aos banqueiros um grande poder de decisão sobre sua vida e de sua família. Os juros que você paga... seu emprego, preços e até salário...", diz o texto da propaganda.

Como assinala documento do secretariado nacional do PCdoB divulgado na semana passada, a candidatura de Marina Silva, com suas propostas antinacionais e antipopulares, incoerências e demagogia representa uma ameaça de retrocesso para o país. “Seus compromissos com o grande capital financeiro são explícitos, seus projetos contrastam flagrantemente com os interesses nacionais – do que é exemplo maior sua declaração de que a exploração do pré-sal é uma aposta errada. O seu programa é uma carta de rendição aos banqueiros. Politicamente, os conceitos ali emitidos e as medidas propostas constituem uma ameaça de retrocesso da vida democrática e à unidade das forças vivas e emergentes da nação. Em seus devaneios, Marina Silva supõe que pode governar o país com messianismo, incoerências, mentiras e ambiguidades, como agente das ONGs internacionais e dos banqueiros” – assinala a nota dos comunistas.

A contraofensiva das forças democráticas, patrióticas e populares alinhadas em torno da candidatura da presidenta Dilma vai surtindo efeito, o eleitorado vai compreendendo a falsidade das propostas dos adversários e que o caminho a ser percorrido para ampliar e aprofundar mudanças de caráter progressista no país é a vitória nas eleições presidenciais. 

Igualmente eficaz foi a pronta resposta que a presidenta Dilma deu à tentativa da revista "Veja", esta usina de mentiras, de fabricar um escândalo. Incontinenti, pediu aos órgãos da Justiça acesso ao depoimento de delação premiada de um ex-diretor da Petrobrás e renovou seu compromisso de não transigir com malfeitorias. Reagiu com dignidade às leviandades propaladas pela revista e papagueadas pela dupla Marina-Aécio: "Nunca fui processada por improbidade administrativa", enfatizou.

A reeleição da presidenta Dilma resultará em maior acumulação de forças no processo histórico da luta pela emancipação nacional e social do povo brasileiro.

sábado, 30 de agosto de 2014

Ousar e vencer ou entregar o Brasil aos mercados passivamente?





Ao aluvião de malafaias, rentistas e insatisfeitos bem intencionados não basta contrapor conquistas incorporadas. É preciso sinalizar um símbolo da repactuação.




Por Saul Leblon, na Carta Maior

Silas Malafaia, pastor e radialista evangélico, de larga audiência no Rio de Janeiro, é um símbolo exclamativo daquilo que se convenciona chamar um estereótipo.

Certas características nele são tão acentuadas que mais se assemelha a um personagem de desenho animado.

Mas Malafaia é de verdade.

E personifica um dos mais buliçosos marcadores do extremismo conservador nos ciclos eleitorais brasileiros.

Malafaia é velho conhecido no ramo do palanque de rebanho.

Com a retórica adestrada na radiofonia da fé, o pastor evangélico se notabiliza como uma ferramenta implacável no exorcismo de gays e lésbicas; na condenação do aborto e da educação sexual; na demonização de petistas, esquerdistas e libertários em geral.

Não necessariamente nessa ordem, mas com essa vivacidade. Sempre em nome da pureza da sociedade, dos costumes e do que mais se engata a esse comboio.

Em 2012, já descendo a ladeira do seu moderado escrúpulo, na largada do 2º turno em São Paulo quando foi derrotado por Fernando Haddad, Serra importou o animador cirúrgico para reforçar a musculatura na hora do vale tudo na disputa.
Silas Malafaia desembarcou na cidade festejado então em manchete graúda do caderno de política da'Folha de SP', em 10/10/2012.

Assim:

"Líder evangélico diz que vai 'arrebentar' candidato petista -- Silas Malafaia afirma que Haddad apoia ativistas gay".

Em entrevista ao diário dos Frias, de imoderados pendores tucanos, o bispo disse que Serra agradeceu o apoio recebido no primeiro turno, quando fez um vídeo em que pedia votos ao candidato do PSDB e ligava Haddad ao ‘kit anti-homofobia’.

Carimbado de "kit gay" pelos evangélicos, o material consistia de uma cartilha contra a homofobia encomendada pelo Ministério da Educação em 2011, para ser distribuída nas escolas na gestão Haddad.

A pressão da mídia e evangélicos obrigou o governo a recuar. "O Haddad já está marcado pelos evangélicos como o candidato do 'kit gay'. Não vamos dar moleza a ele", fuzilou Malafaia, após o encontro com Serra.

Arrebentar a tolerância, de um lado, para resgatar o voto da ‘pureza’ de outro; esse, o fundamento regressivo representado pela restauração do filtro religioso na política.

A especialidade de Silas Malafaia está prestes a ser direcionado agora no apoio à candidata do PSB.

O bispo anunciou que apoiará Marina Silva no provável 2º turno das eleições presidenciais deste ano, embora a tenha trocado por Serra, em 2010, quando Marina sugeriu um plebiscito sobre o aborto.

Malafaia é um estereótipo.

Como qualquer marcador, cola onde encontra aderência.

A adesão a Marina foi revelada em blog de uma revista semanal, ela também um marcador sanguíneo dos pecados incluídos na lista de Malafaia.

No 1º escrutínio, ’para marcar posição’, informa a revista, o voto do influente bispo terá outro dono: o pastor e presidenciável Everaldo, do PSC, -como ele e Marina, também da Assembleia de Deus, e cujo bordão eleitoral é ‘vou privatizar tudo’.

Na decisão para valer, Malafaia vai de Marina.

Outro conhecido político e pastor evangélico, o deputado federal Marco Feliciano (PSC), envolvido recentemente em acusações de homofobia e rompido com o governo pela falta de solidariedade dos petistas, anuncia a mesma dobradinha.

Porém, com uma ênfase mais representativa dos dias que correm: ‘no segundo turno, qualquer um, menos o PT’, proclama Feliciano.

O bordão é o mesmo empunhado pelos operadores de outra confissão de fé arrebatada: a do mercado financeiro, que aspira à multiplicação bíblica do pão e do peixe na forma dinheiro.

O vertedouro desse sortido aluvião de intolerância e cobiça é a proposta de higienizar ‘a velha política’, apresentada ora como uma instância devassa de uma sociedade pia; ora como uma interferência suja na pureza lógica do maquinismo rentista.

A purgação desses pecados uiva na fogueira programática mais festejada da praça nesse momento. Das labaredas emana o espírito santo de um Banco Central autônomo ; de um mercado financeiro independente e de um moralismo a salvo dos incréus.

Todos abrigados da ingerência do Estado belzebu e das liberdades democráticas e individuais.

O tucano Aécio Neves, no debate da Bandeirantes, ao criticar Marina Silva, que se autonomeia a semente dessa ‘nova política’ (a limpa), acabou na verdade reiterando a falsa disjuntiva.

Aécio trocou a dualidade higiênica de Malafaia e assemelhados pelo maniqueísmo da 'boa e a má política'.

Boa política para o candidato do PSDB era a política de Tancredo ...Naturalmente não a de Vargas, não a de Morales, não a de Chávez, não a de Lula.

A ideia de uma salubridade externa à história que deve ser tomada como referência limpa e boa na construção da sociedade é um daqueles mantras aos quais se agarram os interesses dominantes de todos os tempos.

Pode assumir a forma de uma religião (leia o indispensável artigo de Katarina Peixoto; nesta pág). Ou a da judicialização da ‘velha e má’ política. Ou ainda encarnar no monopólio de um dispositivo midiático que se avoca a prerrogativa de um Bonaparte, a emitir interditos e sanções em defesa dos interesses que nomeia como ‘a ordem’.

O mercadismo rentista, o fanatismo religioso, assim como o barbosismo togado ou o bonnerismo midiático sempre tiveram dificuldade em se expressar através de um palanque unitário que emprestasse carisma a um credo excludente em seus próprios termos.

Agora parece que não mais, graças à ascensão desse super-bonder chamado 'nova política'.

Trata-se de um retrofit da desgastada terceira via.

Retro, do latim “movimentar-se para trás” e fit do inglês, adaptação, ajuste.

O termo emprestado da arquitetura adequa-se à descrição da candidatura sensação nesse momento que os mais entusiasmados, a partir de dados do Datafolha, enxergam em escalada irreversível rumo a Brasília.

O retrofit é recomendável quando um edifício chega ao fim de sua vida útil, oferecendo-se como opção para corrigir o desgaste e a decadência do longo tempo de uso, todavia sem alterar seus alicerces e estruturas de sustentação.

É mais barato e funcional.

No caso da política, o retrofit consiste em vender como novo a velho ardil conservador que evoca uma ordem natural naquilo que cabe ao conflito democrático resolver: ou seja, as escolhas inerentes à luta pelo desenvolvimento da economia e da sociedade.

Objetivamente, a candidatura Marina Silva é um retrofit do neoliberalismo e da terceira via.

Não qualquer retrofit , mas o estuário do higienismo político diuturnamente inoculado no imaginário brasileiro pelo intercurso de mídia, togas e elites nos últimos anos.

O desafio de vida ou morte do campo progressista nesse momento é restaurar a transparência dos dois campos em confronto na sociedade brasileira, dissimulados sob o xale da ‘nova política’.

O calcanhar de aquiles do retrofit conservador é o antagonismo entre a maquiagem da fachada e de alguns equipamentos e a rigidez dos pilares e colunas estruturais.

Num edifício isso é contornável com algum jogo de decoração.

Numa sociedade pode ser insuportável.

A participação soberana e democrática da população nas decisões sobre o desenvolvimento frequentemente evoca mudanças que colidem com as velhas estruturas que a ‘nova política’ visa preservar.

Marina Silva afirma apoiar o decreto de Dilma, demonizado pela elite que a festeja, da Política Nacional de Participação Social.

Como, porém, se a mesma Marina defende, por exemplo, a independência sagrada do Banco Central em relação à democracia e ao governo?

Como, se terceiriza aos operadores do mercado a hegemonia plena sobre a fixação de um dos principais preços da economia: a taxa de juros? (Leia esclarecedor artigo de Paulo Kliass sobre esse tema; nesta pág).

Marina e seus formuladores defendem a mesma autonomia em relação a outro preço estratégico: o câmbio, que segundo eles, deve flutuar livremente. E abjuram, em relação ao salários (o terceiro preço decisivo no capitalismo) , a política de valorização do salário mínimo adotada pelos governos petistas –da qual Dilma avisa que não abdicará.

É justo perguntar: assim encapsulada a economia nas mãos do mercado, o que sobra então à participação social endossada por Marina Silva?

O Brasil, desde 2003 –com todas as limitações e contradições intrínsecas a um governo de base heterogênea-- tem figurado aos olhos do mundo como uma da estacas de resistência à retroescavadeira ortodoxa que demole e tritura direitos sociais e soberania econômica urbi et orbi.

Essa resistência criou um dos maiores mercados de massa do mundo numa demografia de 202 milhões de habitantes.

Não há dúvida de que isso se fez às custas de afrontar a lógica de uma globalização financeira cujo colapso apenas acentuou sua natureza intrinsicamente excludente.

O assoalho macroeconômico brasileiro range e ruge sob o peso da inadequação entre a emergência desse protagonista de massa, que constitui a nova força motriz da economia, e estruturas pensadas para atender a 1/3 da população mais rica.

A solução da ‘nova política’ é reconduzir a agenda do desenvolvimento aos fundamentos estritos de sua autorregulação pelas forças dos mercados globais.

Higienizar ‘a sujeira’ do intervencionismo em todas as frentes.

Com as consequências sociais sabidas. E a dose de repressão necessária que faz do endosso de Marina à participação social pouco mais que um retrofit na palavra simulacro.

Não é uma acusação eleitoreira; é uma operação em marcha promovido por massas de forças ferozes.

Curto e grosso: está em jogo colocar o Estado esfericamente na mira dos jagunços de gravata de seda italiana e Rolex, dos quais Neca do Itaú é só a face elegante, para que façam o serviço sangrento.

Sobrepor o interesse privado aos da sociedade implica capturar o sistema democrático integralmente para o mesmo fim.

É uma operação de potencial lucrativo tão elevado que ao mercado compensa tolerar o xale dissipador de Marina Silva –desde que o bangue-bangue da faxina econômica esteja liberado às mãos e bicos que dão conta do serviço.

Não é só uma sucessão presidencial, portanto.

Estamos diante de um divisor histórico do desenvolvimento brasileiro.

Ao aluvião de malafaias, rentistas e bem intencionados --seduzidos estes pelo glamour da ‘nova política’, não basta contrapor o exaustivo balancete publicitário do que se conquistou nestes últimos 12 anos.

É importante, mas não é suficiente.

É forçoso contrapor à ‘nova política’ aquilo que a desnuda e afronta.

É urgente dizer pelo que se luta e contra quem se trava a batalha dos próximos dias e noites.

Essa é uma batalha entre a democracia social e as forças regressivas do galeão malafaico-rentista.

É preciso escancarar a contradição entre o retrofit messiânico e as estruturas calcificadas que ele maquia.

Contrapor , enfim, ao galope conservador um salto efetivo da democracia participativa em um novo governo Dilma.

Tornar esse salto palpável aos olhos da população requer um símbolo de magnetismo equivalente às tarefas que essa agenda encerra em termos de negociação de pactos, metas, concessões, salvaguardas e organização.

Um novo governo estruturado em torno dessa renegociação do desenvolvimento requer um chefe de Casa Civil dotado ao mesmo tempo de inexcedível sintonia com a Presidenta Dilma , e de incontrastável representatividade popular.

Essa referência existe; já funciona de fato como líder político do campo progressista; deveria ser oficializado desde já na nova estrutura de um segundo governo Dilma.

Seu nome é Lula.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O “novo rumo” subserviente de FHC

FHC: ele gosta de entregar

Por José Reinaldo Carvalho, no sítio Vermelho:

Na luta política, nada como enfrentar um adversário que fala, fala, fala e, no caso de um tucano, literalmente abre o bico. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso presta-nos este favor quando vem a público em seus artigos publicados nos jornalões do PIG defender seus pontos de vista.

Cumpre o seu papel de principal ideólogo do neoliberalismo e neoconservadorismo no País, sendo a liderança que exerce autoridade de fato no PSDB, partido em franca decadência e hoje carente de líderes e candidatos viáveis. Mas o “mérito” de FHC fica por aí, haja vista que suas opiniões e decisões revelam-se não só falsas, como resultam em rotundo fracasso.

Basta exemplificar com a decisão que tomou de, com um dedaço, indicar Aécio Neves para se candidatar à Presidência da República em 2014. Foi outro favor que prestou à coalizão progressista liderada pela presidenta Dilma, cujas chances de reeleição residem nos seus próprios méritos e na fraqueza dos adversários.

A última tirada de FHC foi um tijolaço publicado no jornal O Globo no último domingo (5). O sociólogo, cujo governo foi caracterizado como aquele que exerceu a diplomacia de pés descalços pelo gesto de subserviência de seu chanceler ao submeter-se a duvidosas normas de segurança num aeroporto dos Estados Unidos, resolveu deitar falação sobre a política externa vigente, que para ele “precisa rever seu foco”.

O ex-presidente acha necessário que o Brasil “estreite relações com os Estados Unidos e a Europa” e se separe do “bolivarianismo”, condição para que o país retome seu papel de liderança na América Latina.

Com ares de especialista em geopolítica, FHC diz que o governo “colocou suas fichas no ‘declínio do Ocidente’”. Desdenhando a inteligência do leitor, interpreta a tese do declínio do imperialismo estadunidense e europeu com uma nota forçada, para encobrir o seu fascínio com o poder dos centros do imperialismo no mundo.

“Da crise surgiria uma nova situação de poder na qual os Brics, o mundo árabe e o que pudesse se assemelhar ao ex-terceiro mundo teriam papel de destaque. A Europa, abatida, faria contraponto aos Estados Unidos minguantes. Não é o que está acontecendo: os americanos saíram à frente, depois de umas quantas estripulias para salvar seu sistema financeiro e afogar o mundo em dólares, e deram uma arrancada forte na produção de energia barata”.

Não foi isto o que dissemos, mas que o imperialismo estadunidense e europeu está vivendo um declínio histórico. Não fizemos prognósticos ingênuos. Apenas apostamos na objetividade do desenvolvimento histórico e na capacidade subjetiva das forças revolucionárias para organizar a luta anti-imperialista.

FHC não quer aceitar o óbvio, reage qual o velho do Restelo diante da força dos fatos. Despertaram-se forças irreversíveis no mundo contemporâneo que atuam no sentido contrário ao poder hegemônico estadunidense e europeu, engolfado em profunda crise sistêmica e atingido por insanáveis contradições.

As expectativas do exercício do poder unipolar pelos Estados Unidos após o final da Guerra Fria não se confirmaram. Foi-se o tempo em que um arrogante Clinton dizia que a hegemonia econômica estadunidense recuperada com a globalização – que FHC glorificou como um novo renascimento – demonstrava a falência das teorias de Marx, arrancando aplausos até entre acadêmicos “de esquerda”.

Pertence igualmente ao passado a era em que um presidente que exerceu por oito anos o governo como um poder terrorista internacional em nome do “combate ao terrorismo”, declarava guerra ao mundo e a única atitude de diferenciação era a perplexidade da chamada “comunidade internacional”. Hoje, a luta e a resistência dos povos, somada a uma atitude proativa de outras potências no âmbito do Conselho de Segurança da ONU detêm a mão criminosa do imperialismo e o obrigam a sentar-se à mesa de negociações com países como Síria e Irã.

Nada mais passadista do que a proposta do ex-presidente de forçar o retorno do Brasil ao alinhamento com potências imperialistas como os Estados Unidos e os que exercem o poder de fato na União Europeia. É o velho cacoete das classes dominantes reacionárias do Brasil de atar o seu destino aos desígnios imperialistas.

A disponibilidade do ex-presidente para prestar serviço às forças reacionárias mundiais fica mais evidente com seu ataque ao “bolivarianismo”. FHC investe contra a tendência mais progressista do mundo contemporâneo – o anti-imperialismo latino-americano – cuja expressão é a revolução bolivariana e todo o processo de integração solidária iniciado com as vitórias eleitorais das forças progressistas a partir da conquista do governo por Hugo Chávez na Venezuela, em 1998, e Lula no Brasil, em 2002. 

A nova América Latina está no nascedouro, mas o que se alcançou em década e meia é um extraordinário avanço histórico. A criação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos – Celac – é o mais relevante fato em 200 anos de história, o marco da segunda e definitiva independência. Desqualificar esta conquista é um exercício de retórica para preparar ações que promovam o retrocesso.

As invectivas de FHC contra a política externa brasileira constituem uma senha para um dos debates que a campanha eleitoral viverá nos próximos meses. Seus ataques ao “bolivarianismo” reeditam um episódio da campanha de 2010, quando os derrotados Serra e Marina Silva condenaram a política externa de Lula e Celso Amorim pela “aliança com ditadores”.

Se eu fosse tucano, aconselharia o ex-presidente FHC a não embarcar de novo nessa canoa furada. Mas seria incoerência, porquanto o único conselheiro dos tucanos é o próprio FHC.

A política externa continua sendo uma das melhores realizações dos governos progressistas no Brasil nos últimos 11 anos. A projeção internacional do Brasil e o prestígio de Lula e Dilma no mundo pesam na alta avaliação que a população brasileira faz dessas duas lideranças e é um componente a favor da reeleição de Dilma Rousseff.

Embora aparentemente distante do cotidiano das pessoas simples, a política externa granjeou popularidade, pois a população percebeu que mudou a forma de o Brasil se inserir no mundo, o país se tornou mais respeitado no exterior e se credenciou a desempenhar um papel mais ativo e de maior destaque na vida internacional.

O sucesso da política externa dos governos de Lula e Dilma reside em primeiro lugar em que esteve vinculada à luta pelo desenvolvimento nacional, para o que é imprescindível a defesa da soberania, num mundo carregado de ameaças de espoliação econômica e imposições políticas pela globalização financeira e pela política das grandes potências, principalmente do imperialismo norte-americano e seus aliados.

A política externa brasileira desde Lula é uma política externa autônoma, pacifista e democrática, ideologicamente vinculada ao nacional-desenvolvimentismo, às melhores tradições da diplomacia brasileira, que incorporou há décadas os princípios da autodeterminação e da não intervenção, princípios aliás inscritos no artigo IV da Constituição da República, promulgada em 1988.

Baseado na percepção do papel do Brasil no mundo não mais como país dependente e subordinado aos ditames dos Estados Unidos, mas como nação soberana, embora ainda vulnerável, com vontade e interesses próprios, em transição para o status de potência emergente, o Itamaraty nos últimos 11 anos formulou e pôs em prática uma política exterior “ativa e altiva”, na expressão do ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

Tem sido uma política externa cheia de iniciativa e assertividade, compreendendo como a ação internacional pode condicionar o êxito de um novo projeto nacional de desenvolvimento, ainda em gestação. É ocioso e vão negar os resultados positivos dessa assertividade em política externa, das novas parcerias estratégicas e das novas responsabilidades que o país vai assumindo internacionalmente.

Uma política externa acanhada, protocolar, centrada na prioridade ao bilateralismo com os Estados Unidos e subordinada aos interesses dessa potência poria em risco a própria independência nacional. É o que quer FHC. Essa percepção levou a diplomacia brasileira ao universalismo e ao multilateralismo que se traduziram, no âmbito do arcabouço institucional, na luta pela reforma das Nações Unidas, a democratização e reestruturação das suas instâncias e a alteração da composição do Conselho de Segurança, buscando conquistar aí seu espaço como membro permanente.

A política externa praticada a partir da primeira posse de Lula, em 2003, defendeu firmemente a paz e desdobrou-se para fazer prevalecer o direito internacional. Ao receber uma ligação telefônica do ex-presidente Bush, rogando apoio à invasão do Iraque, Lula foi cortante: “A única guerra do meu governo é contra a fome e a pobreza”, retrucou o então novato presidente, àquele que foi o mais agressivo e conservador chefe de Estado norte-americano desde sempre.

O universalismo e o multilateralismo da política externa brasileira ganharam fôlego com o estabelecimento de parcerias estratégicas com a China, a Rússia, a Índia e a África do Sul e a atenção dedicada ao Oriente Médio. É inexorável a tendência a mudanças na correlação mundial de forças. Nesse quadro, novas parcerias e alianças são indispensáveis como novo âmbito de coordenação política. Abrem-se com isso novas oportunidades para as relações do Brasil com outros povos e nações. A África, em particular os países lusófonos, mas não só, constituiu um novo foco da presença internacional do Brasil.

A opção estratégica mais importante e eficaz das forças progressistas brasileiras em política externa dirigiu-se para a América Latina e especialmente para o sul do continente. Foram inúmeras as iniciativas do Brasil para fortalecer as relações com os países do entorno, como para levar adiante e consolidar o processo de integração.

A demanda de “novo rumo” de FHC para a política externa encerra um rico debate e contém questões ligadas ao avanço ou ao retrocesso da luta do povo brasileiro para construir uma nação progressista forte, capaz de influir positivamente nos acontecimentos mundiais.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Como FHC vendeu a segurança nacional



Por Paulo Henrique Amorim no Conversa Afiada

Muito, mas muito boa mesmo a matéria sobre o livro branco da defesa


Cedo ou tarde a questão do poder militar brasileiro como política econômica e garantia defensiva das próprias políticas sociais (que vão depender muito do pré-sal, do xisto do Amapá e por aí vai) tem que ser recuperada pelos progressistas. 
A matéria foi estigmatizada pela associação de capacidade atômica e nuclear ao imperialismo americano (década de 50, campanha pelo desarmamento mundial etc). 
O FHC assinou o Tratado de Não—Proliferação Atômica. 
Para mim, traição nacional, traição mesmo, convicta, essa foi, seguramente. 
O resto foi entreguismo barato. 
Quero ver como os socialistas históricos do PSB vão se ver com o Atlântico às escuras da Marina que o Miguel do Rosário sublinhou.
A leitura do CAf pela manhã foi um banho de leite de cabra enquanto aguardo realizar uns exames médicos. Sem preocupação, sairei no carnaval fantasiado de Pré-Sal.
Grande abraço

Navalha
Príncipe da Privataria cometeu alguns atos de traição.
Pode-se dizer que ele vendeu, deliberadamente, a Segurança Nacional.
Em junho de 1993, ele vendeu à estrangeira Bunge a Ultrafértil, que produzia 42% dos fertilizantes do país.
Junto foi a Petrofértil, que produzia – e só ela – o combustível pesado para acionar os foguetes que saem de Alcântara.
Foguetes demandam combustíveis líquidos e sólidos.
Os sólidos são os mais complicados, porque, altamente poluentes, exigem um transporte complexo.
A Petrofértil foi fechada e o Brasil perdeu o fornecedor doméstico – e estatal – de combustível para foguetes.
(Depois a Petrobras recomprou a Ultrafértil.)
Outra traição à Segurança Nacional se deu em 1º de julho de 1998, no fim do primeiro mandato – para que não houvesse o risco de não conseguir fazê-lo mais tarde.
Foi quando ele assinou o Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares.
E jogou no lixo décadas de luta da diplomacia brasileira, de JK aos militares, que resistiu à furiosa pressão dos americanos, que, claro, querem o monopólio da energia nuclear.
Assinar o TNP foi a traição MAIOR, na opinião do amigo navegante.
Tem mais traição.
No dia 29 de julho, ele vendeu a Embratel à americana MCI.
Depois comprada pelo mexicano Slim.
Com a Embratel ele vendeu um satélite de comunicações com banda militar e a base terrestre para operá-la.
O Brasil tem que alugá-los ao Slim.
Enquanto não chega, ano que vem, o mega-satélite geoestacionário que a Dilma mandou comprar.
Como diria o então tucano Bresser Pereira, “só um bobo dá a telefonia para estrangeiros”.
O FHC deu.
Mas, de bobo não tem nada.
A outra traição à Segurança Nacional foi deixar de herança ao Lula uma licitação quase pronta de compra de caças.
A pedido dos americanos, ele tirou da licitação os Sukhoi-35 russos.
E deixou os americanos, os suecos – um clone dos americanos e da preferência da Tacanhêde -, e os franceses.
Agora, provavelmente, a Dilma vai ter que incluir os Sukhoi-35 de volta à competição.
O Príncipe da Privataria entregou a mercadoria.
Como lhe encomendaram.
Ele se elegeu para vender e entregar o Brasil aos americanos.
E foi o que ele fez.
Tirou o sapato !
Porque sempre acreditou em tirar o sapato.
Sua famosa “teoria da dependência” não passa disso: o Brasil não tem futuro, mesmo, então, é melhor ser dependente dos americanos.
Qual a surpresa, amigo navegante ?



Em tempo do amigo navegante missivista: lembrei: o primeiro ato do Nunca Dantes foi criar o Fome Zero… Essa é a diferença entre um governo que tem a preocupação com a população como inabalável prioridade máxima e seus opositores, qualquer um deles.