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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Nove razões para admirar Gabriela

Quando fiz faculdade de letras, Jorge Amado foi encoberto por uma pá de críticas. Amado não o era na FFLCH-USP. Havia um profundo desprezo por parte dos professores (nunca tive que ler um único livro de Jorge Amado em todo o curso) e muitos de meus amigos tinham por ele um grande desprezo.

Por José Roberto Torero no site www.cartamaior.com.br


Este fim de semana estava numa casa em Peruíbe que possui um aparelho de tevê que, de certa forma, funciona a energia solar. É que ele só pega em dias de sol. Com tempo ruim, há mais chuviscos na tela que no céu. Sem poder ver a corrida de Fórmula-1 ou os jogos da tarde, tive que recorrer ao velho e bom livro, genial aparelho que nunca quebra e funciona sem eletricidade ou gasolina. Por conta disso acabei descobrindo um ótimo autor. Trata-se de um baiano com extremo domínio da técnica, rica imaginação e hábil criador de personagens. Um tal de Jorge Amado. Pode parecer exagero, mas acho que o termo certo é “descobrir” mesmo, porque, quando fiz faculdade de letras, ele foi encoberto por uma pá de críticas. Amado não o era na FFLCH-USP. Havia um profundo desprezo por parte dos professores (nunca tive que ler um único livro de Jorge Amado em todo o curso) e muitos de meus amigos tinham por ele um grande desprezo.Tal sentimento tinha duas justificativas. A primeira é que ele pintaria uma Bahia folclórica, artificial, formada por personagens estereotipados. A segunda, que ele só teve grande sucesso no exterior por conta de suas ligações com o Partido Comunista, que na época talvez fosse o maior propagandista internacional que um autor poderia ter. Este segundo argumento pode ter um bom tanto de verdade, mas não é um argumento literário. O sujeito fazer sucesso ou não não tem uma relação direta com sua qualidade como escritor. Logo, o segundo argumento não entra nesta discussão. O primeiro, sim.Gabriela, cravo e novelaCreio que muito da acusação de populista, de pintar uma Bahia estilizada, vem das adaptações das obras de Jorge Amado para a tevê, para o cinema e para o teatro. Gabriela, talvez a melhor de todas as novelas brasileiras, veio de um livro seu (aliás, foi o livro que li neste fim de semana). Mas há várias adaptações menos felizes, que não podem ser postas na conta dos seus livros. A adaptação depende muito mais do adaptador que do adaptado. Basta ver os modestos livros que Alfred Hitchcock transformou em grandes filmes. E o que fizeram com Dom Casmurro. Jorge Amado tinha consciência da independência das adaptações, tanto que é famosa a sua frase sobre elas: “Cobre caro e não veja.”Se as adaptações não podem ser motivo de julgamento, vamos aos livros. Ou melhor, a Gabriela, cravo e canela.A obra trata de dois assuntos que são um: a liberdade da mulher e a sucessão política. Mas, na verdade, os dois temas podem ser englobados em algo como “a evolução da sociedade baiana (e brasileira) no começo do século vinte”. Pela parte da liberdade mulher, temos Gabriela, uma jovem inculta e bela que faz sexo sem remorso, sem precisar casar, sem nem precisar amar, apenas movida pelo desejo, assim como era permitido aos homens. E este tipo de atitude para as mulheres na época em que se passa o romance, e mesmo naquela em que foi escrito o livro (1958), era coisa vista com, digamos, reservas. Esta questão é reforçada por várias outras pequenas histórias, como a de Glória, a amante de um coronel que deseja o professor; como a de Sinhazinha, que é assassinada por seu marido, o coronel Jesuíno, por ter se tornado amante do dentista; e como a de Malvina, que não aceita um marido que lhe imponha vontades. Pela parte política, temos a disputa entre Ramiro Bastos e Mundinho Falcão. Ramiro representa o velho coronelismo, que se apoiava em votos de cabresto, jagunços, cacau e em alianças políticas com o governador. Mundinho Falcão já se apoia apenas na parte mais liberal daquele coronelismo, numa economia mais diversificada (ele acaba sócio do restaurante de Nacib, ajuda na implantação das marinetes, abre uma avenida, etc...), e tem ligações com políticos do sul. Os principais atores da questão política são estes, mas cada um possui um time interessante, que complementa o retrato de sua facção.Quase todos os personagens do livro acabam assumindo alguma postura em relação a estes dois assuntos: sexo e política. E isso já lhes garante certa profundidade, ainda mais que muitas vezes o personagem é liberal num assunto mas conservador em outro. Porém, mesmo em relação a um só dos assuntos, os personagens assumem posturas fluidas, em tons diversos. O Doutor (intelectual e aliado político de Mundinho Falcão), por exemplo, era grande inimigo de Ramiro Bastos, mas respeitava o velho político e recebia dele certa admiração por sua cultura. E mesmo os coronéis são pintados em diversas cores, havendo desde o mais reacionário até o quase progressista. Resumindo, é uma leviandade chamar os personagens de Jorge Amado de superficiais. Mas vou sair da defesa e partir para o ataque. Ou seja, em vez de tentar mostrar que o autor não merece as críticas que recebeu, vou elencar nove motivos para admirar Gabriela:Os nove motivos:1-) O autor evita o espetáculo fácil, as cenas previsíveis. Sem medo de frustrar o leitor, Amado pula cenas vitais. Por exemplo, quase não vemos a chegada de Nacib em casa, quando descobre que Gabriela o estava traindo. Um autor que quisesse mendigar a atenção do leitor, certamente acompanharia cada passo de Nacib, mostraria o que ele estava pensando, narraria sua entrada na casa, um diálogo aos berros com o amante, alguma violência contra ele e talvez mesmo contra Gabriela. Mas Jorge Amado escapa do fácil e conta tudo num rápido flash back. O mesmo acontece outras vezes, como nas eleições, no assassinato de Sinhazinha e no incêndio do jornal. Jorge Amado não busca a cena grandiosa, cheia de poses marcantes e falas definitivas. Os fatos mais importantes se desenrolam em pequenos encontros, em conversas no bar Vesúvio, em pequenas festas. 2-) Um dos perigos de um romance político, ainda mais escrito por um autor de posição tão definida, é a manifesta simpatia por um dos lados, transformando o outro num partido cruel, de homens malvados que esfregam as mãos, dão gargalhadas retumbantes e vestem-se de preto. Não é o que acontece em Gabriela. Ali não há blocos políticos coesos e vemos traições e contradições de ambos os lados. Os partidos políticos não são representações de ideias, mas agrupamentos de homens, e assim sendo possuem tons, matizes, mudanças, particularidades.3-) Creio que o que mais me impressionou no romance foi a maneira como ele orquestrou seus personagens secundários. Todos são interessantes, críveis, e algumas de suas histórias vão se desenrolando até o fim do livro. Eles entram de quando em quando, num ritmo muito bem coordenado, comentando as histórias alheias ou fazendo as suas próprias caminharem. Isso dá um raro sabor ao livro. Lembra aqueles malabaristas chineses que conseguem equilibrar vários pratos ao mesmo tempo. Ou seja, além de ter dois grandes temas que vão se alterando, há ainda as pequenas narrativas que as vão interrompendo, o que faz com que nossa atenção não caia jamais. 4-) O livro de Jorge Amado tem enredo, história, fatos. Para mim, isso é uma qualidade, mas parte da crítica prefere a investigação psicológica do personagem à ação, como se a ação também não revelasse muito de sua psicologia. Para essa parcela da crítica, um livro no qual aconteçam muitas coisas é frívolo, juvenil. Eles preferem o fluxo de consciência, o pensamento, as digressões. Não tenho nada contra estes recursos, mas isto não significa que contar uma boa história seja ruim. Se você gosta de Clarice Lispector, não precisar desprezar Jorge Amado. O coração do leitor é grande, pode ficar com os dois.5-) Há em Gabriela curiosos capítulos independentes, que poderiam ser praticamente cortados, sem que perdêssemos nada das linhas narrativas principais. É o que temos, por exemplo, quando há o espetáculo de um pequeno circo na cidade ou quando um poeta passa por Ilhéus para uma palestra. Fosse o livro um filme americano, estes sim, escravos da ação, e estas cenas seriam sumariamente cortadas. Mas Amado aproveita os capítulos para dar mais corpo à descrição do tempo e do lugar, e algumas migalhas a mais sobre os desejos e gostos dos personagens.6-) Um interessante recurso, talvez até uma ousadia, ocorre na demora de Amado em apresentar a personagem que dá nome ao livro. Gabriela só encontra com Nacib depois da página cem, e antes aparece em duas ou três cenas esporádicas, aproximando-se da cidade. Este esconder a personagem principal é algo raríssimo, e aposto que qualquer manual de boa escrita desaconselharia tal atitude. Mas o autor esconde Gabriela por um terço do livro e acaba gerando uma agradável expectativa. O mesmo acontece com Ramiro Bastos. Ele demora muitíssimo a surgir, e, na verdade, pouco aparece. É mais um fantasma que ronda a história.7-) Tanto em Ramiro Bastos quanto em Mundinho Falcão há uma rica mistura entre psicologia e política. Por exemplo, Mundinho vai para Ilhéus para esquecer um amor e para se livrar da influencia dos irmãos mais velhos. É um caçula querendo crescer. Já Ramiro é um pai com filhos decepcionantes, tanto na família como na política. É o símbolo de um exercício de poder sem herdeiros diretos.8-) Um dos charmes do livro são as interferências estilísticas. É que há, antes de cada grande bloco do livro, um bom poema sobre o assunto que virá. Algumas partes destes poemas viraram letra das músicas da novela da Globo. E, antes de cada capítulo, há títulos com um certo ar medieval, como os de Dom Quixote.9-) Por fim, há bons e econômicos diálogos. E diálogos com estas qualidades são difíceis de encontrar. É muito comum que eles sejam metidos a sábios ou falsos ou verborrágicos ou rasteiros. Os de Jorge Amado são ao mesmo tempo saborosos e naturais, revelando um pouco de cada personagem pelo seu jeito de falar, ajudando a compor sua psicologia.Cânone e caninoJorge Amado sofre de dois problemas simultâneos. Ele é um cânone, um autor consagrado, e, ao mesmo tempo, ao longo da história sofreu críticas ferinas, ou caninas, para justificar o trocadilho do subtítulo. Por conta do cânone, passou a ser indicado em escolas, o que faz com que receba uma imagem de escritor antigo, difícil. E por conta de uma fortuna crítica negativa, que o tinha por folclórico, acaba não merecendo a atenção merecida. Ou seja, é ao mesmo tempo tido como difícil e fácil.No ano que vem, por conta de seu centenário, creio que as antigas críticas serão soterradas pelos elogios. Possivelmente teremos novos estudos acadêmicos no Brasil, já distantes dos antigos discursos anticomunistas. E ele será redescoberto no exterior. A Morte e a morte de Quincas Berro D´Água sairá em inglês no começo de 2012, e editores da França, Itália, Suécia e até da China estão comprando também Jubiabá, Capitães da Areia, Bahia de Todos os Santos e Tocaia Grande.Então Jorge será amado como merece.

José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.