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terça-feira, 30 de setembro de 2014

É grave a crise! no mega porto da Bahia!


Depois de 4 anos de rame-rame do Ibama, nasce o terceiro maior porto do Brasil!

Um dos terminais escoará minério de ferro que virá de Caitité (BA) pela ferrovia Oeste-Leste

Paulo Henrique Amorim entrevistou Eracy Lafuente, coordenador de políticas de infraestrutura na Casa Civil do Governo da Bahia.

O tema foi o Porto Sul da Bahia, em Ilhéus, que obteve a autorização do IBAMA para ser construído, depois de quatro anos de rame-rame (leia “em tempo”).
A licença de instalação do órgão ambiental foi dada na sexta-feira (19/09) e divulgada na segunda-feira (22) .

A previsão de investimentos imediatos é de R$ 2,2 bilhões em dois grandes terminais portuários de uso privado.

A entrevista também está disponível em áudio:


PHA: O que significa esse projeto ?

ERACY LAFUENTE: Recebemos a notícia da licença prévia do IBAMA para a construção de dois terminais privados. Um terminal exclusivo de minério de ferro, da Bahia Mineração (Bamin), que tem uma portaria de lavra para explorar algo em torno de 20 a 25 milhões de toneladas/ano de minério de ferro. E um outro terminal que é de uma zona de apoio logístico, que terá condições de armazenar outros minérios, bem como soja, milho e líquidos.


Ainda estamos importando, para essa atividade de instalação, um terminal para cargas em geral, como containers. Isso, ao todo, dá R$ 2,2 bilhões em uma primeira fase. Ao longo de 25 anos, em termos de instalação física, nós queremos chegar a R$ 5,6 bilhões de reais (de investimentos).



PHA: Esse porto será qual do Brasil, em tamanho?

ERACY: Hoje, se tivesse com essa carga estimada de 100 milhões de toneladas/ano, ele estaria entre os três maiores do país. (Só Santos (SP) e Tubarão – no Espírito Santo – serão maiores que ele.)

Ponte de 3,5 km ligará a parte terrestre ao píer de atracação, que terá dois terminais

PHA: Esse porto se imbrica com a Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste). Eu pergunto: com essa mudança de localização, que por determinação do IBAMA saiu da Ponta da Tulha, ao sul de Ilhéus, para Aritaguá, mais ao norte, implica em quê em relação à produtividade e à qualidade do projeto?

ERACY: Do ponto de vista do IBAMA, nós modificamos o projeto para 4 Km ao sul, muito próximo da linha de chegada. Do ponto de vista da Fiol, não há problema nenhum. Nós já acertamos, conservamos e estamos planejando tanto o pátio de manobra externa como a ligação e a chegada em via-dupla da ferrovia até aos dois terminais. Elas já estão em projeto para execução pela VALEC Engenharia, Construções e Ferrovias S.A (empresa pública, sob a forma de sociedade por ações, vinculada ao Ministério dos Transportes). É um projeto de 1.500 km até Tocantins a que a Bamin dará viabilidade, de Caetité até Ilhéus pelo terminal de ferro.


Além disso, estamos projetando para que, no entrocamento de Guanambi, no futuro, a ferrovia de Belo Horizonte a Salvador leve a carga de minério de ferro de Minas Gerais até o Porto de Ilhéus.


Eu já estou em discussão para fazermos a interligação também com a Fico (Ferrovia Integração Centro-Oeste), que vai de Lucas do Rio Verde (MT) a Uruaçu (GO). Para que de Uruaçu vá até a região de Correntina (BA) e São Desidério (BA), também entrocando essa carga de graneis agrícolas até o Porto de Ilhéus.


PHA: Quer dizer que o Porto Sul da Bahia poderá ser um escoadouro de produção inclusive do Centro-Oeste de grãos e de minérios provenientes de Minas Gerais  ?

ERACY: Isso. Estamos planejando para que ele seja um porto de grande sucesso, de grande movimentação. Para você ter uma ideia, nós já temos os contratos de adesão da ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) conforme a nova Lei de Portos da Presidenta Dilma.


(Aquela que o Dudu da Bláblá, o Pauzinho do Dantas, o Eduardo Cunha e o Dantas não queriam deixar passar. Foi o que motivou aquele célebre discurso do Garotinho na Câmara sobre a “Emenda Tio Patinhas”. – PHA)

Então, ele é um arranjo que não se confunde nem com a concessão e nem com o arrendamento. São terminais privados em que a iniciativa privada investe esse volume extraordinário e o Estado apenas planeja e não tem a obrigação de ressarcir o investidor privado.


PHA: Então, é um formato novo ?

ERACY: É um formato novo. Nós alavancamos com um projeto de uma grande exploração de minério de ferro, compartilhamos investimentos em que a gente seleciona investidores privados através de sua detenção de carga ou através de sua operação com contratos de cargas de terceiros. O que está em discussão não é outorga, não é arrendamento, é desenvolvimento da capacidade do potencial de mineração e de granel agrícola.


Vista panorâmica da parte terrestre do Porto-Sul



PHA: Quem é a Bamin ?

ERACY: É a Bahia Mineração, que os antigos acionistas eram a Pramord Agarwal e hoje está, na sua maioria, com um grupo de investidores do Cazaquistão que já tem experiência em exploração de minério de ferro e de outros minérios.



PHA: Qual foi o atraso provocado por esses quatro anos de exame do IBAMA ? Quanto custou isso ao projeto?

ERACY: Ele custa um tempo de amadurecimento. O que tentamos é recuperar o tempo da relação da construção da Fiol e a operação do terminal que se encontra na sua ponta. Esse tempo é que buscamos, com todo cuidado ambiental, para desenvolver o cinturão do minério de ferro que existe na Bahia. Isso vai desenvolver o semiárido baiano em condições extraordinárias.


PHA: Quando começam as obras?

ERACY: Queremos terminar todos os projetos, já contratar os consultores, os geólogos, os da atividade social, o engenheiro florestal, para começar os dados preliminares de supressão, de resgate, de reflorestamento, para que ao longo do tempo nós possamos avançar na atividade física de terraplanagem e começar os destacamentos da atividade da ponte, que sai da praia com um prolongamento de 3,5 km de distância para chegar até o quebra-mar e os berços de atracação.


PHA: Você prevê o inicio da primeira obra física da construção do Porto…

ERACY: Final deste ano nós iremos começar e já ter a atividade logística para a produção da engenharia tipo marítima. E com mais força no inicio de 2015.


Terminais escoarão minério de ferro e produtos agrícolas


PHA: Então será Santos, Tubarão e Porto Sul da Bahia ?

ERACY: Isso. Nós queremos sempre estar na ponta. Vamos fazer de tudo para que esse projeto possa estar na ponta do ranking.


PHA: Não existe projeto de fazer em torno do Porto Sul um parque de instalações industriais como foi feito em Suape (PE)?

ERACY: A partir das instalações de armazenamento, outras áreas um pouco mais a Oeste, 5 a 10 km, terão as ligações da Fiol e da BR- 262, bem como a BR 101 e BR 116, que corta o Norte e Sul e Sul e Norte. Isso criará uma viabilidade logística para atração de outras atividades, como a indústria em Suape (PE).


Aqui é diferente. A zona portuária vai ser mais uma atividade de armazenamento, na parte mais afastada sem nenhum prejuízo de logística. Porque, diferente de Suape, nós temos uma ferrovia com pátios de manobra, (que criarão) potencial ao longo da distribuição do território baiano de novos investimentos industriais.



Em tempo: imagine o amigo navegante, o custo desse ramerrame no Ibama ! Não deixe de ler “Bláblárina tem um encontro marca com um tribunal da História por causa do ramerrame que levou ao crime das usinas a fio d’água.PHA

Em tempo2:
 entre as medidas institucionais do segundo mandato da Dilma, além da Ley de Medios que já anunciou deveria constar uma radical redefinição do ramerrame do Ibama, um órgão roda-presa, a serviço de interesses não- nacionais.
 PHA

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Adeus, Itaparica


COLUNA DO SERTANEJO


(Coletânea de artigos próprios, de Jornais, Revistas, Publicações, livros etc.)

Ano 02 – Salvador, 28 de abril de 2014.


“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”.
Gabriel Garcia Marques




Texto de João Ubaldo Ribeiro


Como todos os anos, vim a Itaparica, para passar meu aniversário em minha terra, na casa onde nasci. Casa de meu avô, coronel Ubaldo Osório, que fez pouco mais na vida que amar e defender a ilha e seu povo. De lá para cá, muito se tem perpetrado para destruí-los física ou culturalmente e há nova tentativa em curso. Trata-se da anunciada construção de uma ponte de Salvador para cá. Isso é qualificado, por seus idealizadores, de progresso.

Conheço esse progresso. É o progresso que acabou com o comércio local; que extinguiu os saveiros que faziam cabotagem no Recôncavo; que ao fim dos saveiros juntou o desaparecimento dos marinheiros, dos carpinas, dos fabricantes de velas e toda a economia em torno deles; que vem transformando as cidades brasileiras, inclusive e marcadamente Salvador, em agregados modernosos de condomínios e shoppings acuados pela violência criminosa que se alastra por onde quer que estejamos enfurnados, ilhas das quais só se sai de automóvel, entre avenidas áridas e desertas de gente.

Também conheço argumentos farisaicos dos proponentes da ponte, ávidos sacerdotes de Mamon, autoungidos como empresários socialmente responsáveis. Na verdade sabem os menos ingênuos, eles se baseiam em premissas inaceitáveis, tais como uma visão imediatista, materialista e comprometida irrestritamente não só com o capital especulativo, que já está pondo as mangas de fora no Recôncavo, como aquele que investe aqui usando os mesmos padrões aplicados em Pago-Pago ou na Jamaica. A cultura e a especificidade locais são violentadas e prostituídas e o progresso chega através abastardamento de toda a verdadeira riqueza das populações assim atingidas.

As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvio de verbas. Mas essas estatísticas, mesmo quando fiéis aos dados coligidos, também padecem de pressupostos questionáveis. Trazem à mente o que alguém já disse sobre estatística, definindo-a como a arte de torturar números até que eles confessem qualquer coisa. E confessarão, é claro, pois Mamon é forte e sempre esteve na crista da onda.

Mas não mostrarão que esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda riqueza de nossa cultura e nossa História. Quem não é atrasado sabe disso. Para não cometer esse tipo de atentado é que, em Paris, por exemplo, não se permite a abertura de shoppings onde isso possa ferir o comércio de rua tradicional. Tampouco, em Veneza, as gôndolas foram substituídas por modernas lanchas. Num país não submetido a esse estupro socioeconômico e cultural, os saveiros seriam subsidiados, as antigas profissões, o artesanato e o pequeno comércio também. Exercendo a vocação turística de toda a região, teríamos razão em nos mostrar com tanto orgulho quanto um europeu se mostra a nós. Mas nosso destino parece ser acentuar infinitamente a visão que enxerga em nós um país de drinques imitando jardins, danças primitivas, pouca roupa e nativas fáceis.

Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de alguma igrejinha venerável por milagre preservada, na fala, daqui a pouco perdida, de meus conterrâneos da contracosta. Sei em que conta me terão os que querem a ponte e não tem como dizer que só estão mesmo é a fim de grana, venha ela de onde vier e como vier. Conheço os polissílabos altissonantes que empregam, sei da sintaxe americanalhada em que suas exposições são redigidas e provavelmente pensadas, como convém a bons colonizados, já ouvi todos os verbos terminados em “izar” com que julgam dar autoridade a seu discurso. É bem possível que a ponte seja mesmo construída, mas, pelo menos, não traio meu velho avô.

Artigo publicado na 2ª página do 1º caderno do Jornal “A TARDE”, dia 22/01/2010.


Vale salientar que um dos responsáveis pelo empreendimento é o Engenheiro Manoel Ribeiro Filho (Ex-OAS), que por triste coincidência, vem a ser irmão do autor do artigo. O projeto básico foi contratado, pelo governo estadual, por R$ 22,5 milhões com o consórcio formado pelas empresas Enercil, Maia Melo e a holandesa Cowi, em 07/03/2014.