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sábado, 13 de setembro de 2014

Marina Silva diz que militares ajudaram na transição democrática




Marina voltou a dizer que Chico Mendes fez parte da elite brasileira.

O jornal O Dia do Rio de Janeiro, mostra mais uma proeza de Marina, a sem noção... A candidata do PSB à presidência da República, Marina Silva, afirmou nesta sexta-feira em sabatina "Visões de Futuro" na Federação de Indústrias do Rio de Janeiro que os militares ajudaram na transição democrática da ditadura para a democracia."Existem pessoas boas e corretas em todos os lugares", disse Marina.

Na semana passada, o Clube Militar anunciou apoio à Marina, chamando sua candidatura de "Fio de Esperança". Na segunda-feira, porém, o clube retirou o apoio anunciando voto em Aécio Neves (PSDB) por ser o "menos pior".

Marina também voltou a dizer que Chico Mendes fez parte da elite brasileira. "Elite não é quem tem dinheiro, é quem tem visão estratégica", disse.

Ao dizer que está sendo caluniada, a candidata citou o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela. "Mandela ficou 25 anos na prisão. Vocês se lembram do nome de seus algozes?", perguntou ela à plateia. Em seguida, a candidata disse que os adversários de Mandela também o trataram como "mal supremo". E apenas mais uma das muitas bobagens que Marina fala. Hoje, o jornalista  Mario Magalhães, escreveu um texto no qual diz, Marina ouve aliado ofender Dilma. E se cala. Diz ainda que, Marina estava rindo

Marina recuou de novo
.

 

A história de Marina Silva, as ONGs da Amazônia e os EUA








No último dia 16 de fevereiro, Marina Silva anunciou o lançamento da Rede Sustentabilidade, seu partido em construção. Muitos questionamentos já têm sido feitos às propostas apresentadas nessa ocasião pela ex-senadora acriana, que vem defendendo uma “nova forma de fazer política”, um “novo tipo de partido”, assim como um “novo tipo de militância”. As críticas têm conseguido demonstrar que Marina abusa de conceitos vazios para elaborar um discurso que tenta agradar ao maior número de eleitores. Também já se destacou a presença, nessa rede, de empresários como Guilherme Leal e Maria Alice Setúbal, apoiadores da campanha eleitoral de Marina à presidência da república em 2010, e a integração de outros políticos, como Heloísa Helena, a esse movimento de “renovação ética”.

Mas a verdadeira rede de Marina é muito mais ampla e foi sendo construída ao longo de sua trajetória política. Alguns dos elementos centrais dessa trama não farão parte do seu novo partido, mas foram fundamentais para a construção do projeto político que dá sustentação à atuação pública de Marina Silva e à criação da Rede Sustentabilidade.

Nesse mapa de relações pessoais de Marina, Chico Mendes é a primeira pessoa que deve ser destacada. Afinal, foi a luta dos seringueiros, da qual Chico era uma das principais lideranças, que deu maior projeção à então professora de história e sindicalista, que havia feito parte do movimento estudantil na Universidade Federal do Acre. Ligada às Comunidades Eclesiais de Base que, assim como os movimentos sociais urbanos de Rio Branco, foram importantes para fortalecer a organização e a resistência dos seringueiros na floresta, Marina também participou da criação da CUT e do PT no Acre, ao lado de Chico Mendes e tantos outros.

A partir dessa relação com Chico, outras duas figuras centrais entraram na rede de Marina: a antropóloga Mary Allegretti, que colaborou com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, e Steve Schwartzman, antropólogo norte-americano, ligado à ONG Environmental Defense Fund (EDF). Eles foram os principais responsáveis pela projeção internacional da imagem de Chico Mendes (a partir de sua famosa viagem a Washington para denunciar os impactos das obras da BR 364 ao Banco Mundial) e pela tentativa de transformação de seu legado político radicalmente anticapitalista – com fundamentação teórica marxista – apenas em uma luta pela preservação da floresta. Em um extremo quase caricato, chegou-se a apresentá-lo como uma versão amazônica do “pacifismo” de Mahatma Gandhi.

Chico Mendes: um ambientalista?

A promoção desta “metamorfose” ocorreu logo após o assassinato de Chico, momento em que esses atores que haviam se aproximado do movimento dos seringueiros, especialmente Mary Allegretti, intencionalmente buscaram dissociá-lo das lutas sindical e pela reforma agrária. A partir das relações que estabeleceu enquanto atuava como “apoiadora” dos povos da floresta nos anos 1980, a antropóloga construiu na década seguinte uma carreira como consultora de projetos para a Amazônia financiados por instituições e agências internacionais. Figura dos bastidores do movimento ambientalista, Allegretti foi elemento importante nas negociações para implantação do PPG7 (Programa Piloto do G7 para proteção das florestas tropicais do Brasil, gerido pelo Banco Mundial, que orientou várias políticas do Ministério do Meio Ambiente). Entre outras coisas, contribuiu para a articulação do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), um grupo de ONGs e movimentos da Amazônia que deveria acompanhar as discussões e negociações dos projetos do PPG7 (essa articulação de ONGs, criada em 1993, teve Fábio Vaz de Lima, marido de Marina Silva, como seu secretário-executivo entre 1996 e 1999).

Essa imagem de um Chico Mendes “ambientalista” também foi habilmente apropriada ao longo dos anos 1990 pela Frente Popular no Acre (PT e partidos aliados), assim como por Marina Silva. (Especialmente quando foi eleita para o Senado, ela assumiu nacionalmente a identidade de ecologista e “seringueira”, embora já vivesse há vinte anos na cidade de Rio Branco). Depois do assassinato de Chico, além de adotar o discurso da sustentabilidade, os grupos que então eram considerados as organizações de esquerda do Acre fizeram uma aliança fundamental para suas conquistas políticas posteriores: tornaram Jorge Viana, jovem herdeiro de uma tradição política familiar associada à ditadura militar, a principal liderança do PT no estado. Candidato a governador em 1990, quando levou a disputa ao segundo turno, foi eleito prefeito de Rio Branco em 1992. Nessa época era ainda comumente reconhecido como “filho do Wildy” (Wildy Vianna das Neves foi deputado estadual pela ARENA entre 1967 e 1979, e deputado federal entre 1979 e 1987. Seu cunhado, Joaquim Falcão Macedo, tio de Jorge, foi governador do estado entre 1979 e 1983, indicado pelo general Ernesto Geisel).

O desempenho eleitoral de Jorge Viana conseguiu ajudar a eleger Marina ao Senado em 1994, o que o faz figurar como um elemento de destaque em sua rede de relações políticas. Em pronunciamento de 1998, quando comemorava a chegada da Frente Popular ao governo do Acre (uma aliança entre 12 partidos, entre eles o PSDB), assim como a eleição de Tião Viana, irmão de Jorge, para o Senado, Marina demonstrou sua admiração pela capacidade de articulação do novo governador: “Carismático, convincente e seguro, ele foi capaz de buscar aliados e apoiadores até mesmo em setores historicamente hostis à esquerda e ao Partido dos Trabalhadores” (1).

Em 2001, o material de divulgação elaborado pelo gabinete da senadora comemorava as realizações dos primeiros anos de governo de Jorge Viana (no qual seu marido, Fábio Vaz, possuía cargo estratégico), destacando que: “Foi-se o tempo em que a ‘turma do Chico Mendes’ e empresários – principalmente madeireiros - eram como água e óleo. As coisas amadureceram nos últimos 15 anos, o mundo girou, o Acre está mudando, a ‘turma do Chico’ chegou ao poder e pôde concretizar suas ideias. Aplacaram-se radicalismos. Viu-se que é possível negociar diferentes interesses com ética e conhecimento técnico. (...) Por incrível que pareça, há madeireiros, pecuaristas e petistas sentados à mesma mesa.” (2). Com esse tipo de declaração, Marina Silva ajudou a legitimar – utilizando levianamente o nome de Chico Mendes – um governo que conseguiu agradar tanto parte da antiga esquerda quanto a direita acriana, não tendo representado nenhuma ruptura significativa com a ordem política anterior.

Ministério do Meio Ambiente

Defendendo essa atuação da Frente Popular, Marina foi reeleita senadora em 2002 (quando Jorge Viana foi reeleito governador) e, em 2003, assumiu o Ministério do Meio Ambiente do governo Lula. Nesse período passam a se destacar em sua rede outros atores, que já vinham atuando no Acre e se relacionavam com Marina em seu mandato anterior no Senado. Assim, esse momento não marca o início, mas a consolidação de um projeto, o fortalecimento de uma proposta específica de desenvolvimento para a Amazônia, defendido por esses indivíduos e organizações desde o início da década de 1990.

O principal pressuposto dessa abordagem é o de que a floresta precisa ter um valor econômico para ser preservada e incentivos financeiros devem ser criados para que os indivíduos se abstenham de destrui-la. Propõe-se uma “economia verde”, em que as forças de mercado (com suas “falhas” devidamente corrigidas) proporcionem um uso sustentável dos recursos naturais. Trata-se de uma clara ofensiva do capitalismo neoliberal sobre a Amazônia. E essa é a lógica de fundo dos projetos do PPG7 (mencionado anteriormente), que definiram as principais políticas para a região nos últimos vinte anos, numa atuação integrada entre financiadores internacionais (Banco Mundial, USAID e agências europeias de “auxílio ao desenvolvimento”) e ONGs. Estes agentes trabalharam em “parceria” com o governo da Frente Popular no Acre (mas também em outros estados da Amazônia Legal) e com o Ministério do Meio Ambiente, antes mesmo da gestão de Marina Silva. Afinal, Mary Allegretti já era Secretária de Coordenação da Amazônia no MMA no governo FHC, durante a gestão de Sarney Filho.

Marina deu continuidade a esse trabalho, em conjunto com sua equipe. Nela destacam-se ao menos três pessoas, que ainda hoje possuem função estratégica na rede de Marina: os engenheiros florestais Carlos Antônio Vicente e Tasso Azevedo e o biólogo João Paulo Capobianco. O primeiro foi Secretário de Florestas e Extrativismo do estado do Acre, no governo de Jorge Viana, cargo que tinha importância central na proposta de desenvolvimento sustentável da Frente Popular: a promoção do manejo madeireiro nas florestas acrianas. No MMA foi, primeiramente, diretor do Programa Nacional de Florestas (cargo que depois veio a ser assumido por Tasso Azevedo) e passou a ser assessor direto da ministra. Quando Marina voltou ao Senado, Carlos Vicente a acompanhou como assessor parlamentar. Foi exonerado do cargo em 2010 para se dedicar à campanha eleitoral de Marina, pelo PV. Ao fim do mandato da senadora, foi destacado para trabalhar na criação do Instituto Marina Silva.

Tasso Azevedo, antes de entrar no MMA, era diretor executivo do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA), trabalhando com a atribuição de um “selo verde” (o FSC) aos produtos provenientes do manejo florestal. Como Diretor do Programa Nacional de Florestas, fez parte da equipe que conseguiu fazer com que o Congresso aprovasse, em poucos meses, a polêmica Lei de Gestão de Florestas Públicas, que autoriza a sua concessão para exploração pelo setor privado e cria o Serviço Florestal Brasileiro, do qual Tasso Azevedo foi o primeiro Diretor Geral (3). Tanto Carlos Vicente quanto Tasso Azevedo possuem relação com a ONG IMAZON (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), uma das principais promotoras do manejo madeireiro na Amazônia (incluindo o Acre), que defendeu a aprovação da referida lei.

O terceiro elemento importante na equipe de Marina no Ministério do Meio Ambiente é João Paulo Capobianco, que foi Secretário de Biodiversidade e Florestas e, ao final, Secretário Executivo do MMA. Capobianco é tido como um dos “mentores” da divisão do IBAMA, que levou à criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), órgão do qual ele foi o primeiro presidente. Servidores do IBAMA chegaram a acusar Marina e Capobianco de promoverem o sucateamento da fiscalização ambiental no Brasil. Quem acompanha a atuação do ICMBIO na Amazônia pode dar razão a essas denúncias.

Atualmente, Capobianco preside a ONG Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), da qual também fazem parte Marina, Maria Alice Setúbal, Guilherme Leal e Ricardo Young. Foi o coordenador da campanha de Marina à presidência em 2010. Faz parte do conselho consultivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e é membro do conselho de administração da Bolsa de Valores Sociais (Bovespa Social). É também pesquisador associado do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), uma das principais ONGs responsáveis pela defesa da criação de sistemas de venda de serviços ambientais na Amazônia (como exemplo, o mercado de créditos de carbono por desmatamento evitado, conhecido pela sigla REDD).

O vice-presidente do conselho deliberativo do IPAM é Steve Schwartzman, aquele que, junto com Mary Allegretti, levou Chico Mendes aos Estados Unidos. Schwartzman segue atuando no Environmental Defense Fund (EDF), onde trabalha com o tema das florestas tropicais “e incentivos econômicos para proteção florestal em larga escala”. E também Marina Silva, desde 2011, faz parte do Conselho Consultivo do IPAM. Essa ONG, contudo, já estava integrada à sua rede enquanto era ministra de Meio Ambiente, tendo ela participado de debates organizados pelo IPAM nas reuniões da ONU sobre o clima. A parceria com a organização é fundamental também para o estado do Acre, que aprovou em 2010 uma legislação pioneira para promover a venda de serviços ambientais, quando Binho Marques, amigo de Marina desde os tempos da faculdade de História, era governador. Ainda mais interessante é observar que, enquanto Marina participava dessas conferências da ONU como ministra, Binho participava como representante do Acre e era acompanhado por Fábio Vaz de Lima, coordenador da área de desenvolvimento sustentável do governo estadual depois de ter deixado o cargo de assessor parlamentar do senador Sibá Machado.

Capitalismo verde


Nesse período o governo do Acre não só criou uma legislação extremamente avançada para a comercialização de “serviços ambientais”, como ainda estabeleceu um importante acordo para a venda de créditos de carbono com o governo da Califórnia, nos EUA. Neste processo, Fábio Vaz também é uma figura fundamental, do mesmo modo que Steve Schwartzman, já que sua ONG americana, o EDF, aparece nas negociações como “representante da sociedade civil”. Tendo permanecido no governo de Tião Viana como secretário adjunto da SEDENS (Secretaria de Estado, de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis), atualmente o marido de Marina é o principal responsável pela estruturação da agência criada para promover a venda de créditos de carbono no Acre. Observando a trajetória política de Fábio Vaz é possível perceber que sua atuação, realizada nos bastidores, sempre foi estratégica para o governo da Frente Popular do Acre, mesmo depois do afastamento de Marina Silva do PT.

Assim, embora a ex-senadora acriana possa buscar dissociar sua imagem da herança deixada ao Acre pelos governos de Jorge e Tião Viana e Binho Marques – especialmente em um momento no qual a Frente Popular e sua proposta de desenvolvimento sustentável passam por um grande desgaste –, a rede de relações que os aproxima demonstra a artificialidade dessa tentativa. É bastante estranho que Marina venha anunciar que seu partido em construção optará por um novo tipo de política quando laços tão fortes a unem à velha forma oligárquica de governar.

As críticas que Marina tem feito a Jorge Viana, pelo fato de este ter sido relator no Senado da proposta de alteração do Código Florestal e não ter atendido as solicitações dos ambientalistas, não parecem tão duras. E, se olharmos com calma, a “turma de Marina” acabou sendo beneficiada por alguns dos dispositivos da nova lei. Pouca gente percebeu a aprovação do que Gerson Teixeira, presidente da ABRA (Associação Brasileira de Reforma Agrária), chama de “armadilha fundiária e territorial contida no Novo Código Florestal”, resultado da articulação entre setores ambientalistas – esses da rede de Marina – e o capital financeiro, “com reverência da bancada ruralista” (4) .

Teixeira se refere ao regramento constituído pela lei para amparar e promover o mercado de pagamento por serviços ambientais (PSA), utilizando como principal moeda a chamada “Cota de Reserva Ambiental” (CRA), destinada a “compensar passivos” (áreas desmatadas irregularmente) até julho de 2008. Dito de outra forma, os proprietários de terras com “excedentes” de Reserva Legal estão autorizados a comercializá-los em Bolsa. E os que não possuem área de Reserva Legal suficiente podem recuperá-la através de plantio e regeneração ou adquirir as CRAs no mercado. Além desse esquema, o Código Florestal também prevê a possibilidade de remuneração dos proprietários pela manutenção das APPs (Áreas de Preservação Permanente), das áreas de Reserva Legal e as de uso restrito, que poderá ser feita pelo mercado nacional e internacional de redução de emissões de carbono. Como afirma Teixeira, essa nova legislação, além de ser “mais um golpe contra a reforma agrária no Brasil”, pode transformar o “patrimônio natural do país em alternativa especulativa para o capital financeiro”.

Pensando de forma distinta, os representantes do IPAM (ONG que tem Marina Silva como associada honorária), no documento que elaboraram com “contribuições para o debate” no Senado, intitulado “Reforma do Código Florestal: qual o caminho para o consenso?”, defendem a adoção desses mecanismos de incentivos econômicos como forma de “recompensar aqueles que buscam a conservação florestal”. E outros parceiros de Marina devem também ter ficado satisfeitos com a criação desses instrumentos de “incentivo positivo”. É o caso, por exemplo, do empresário Guilherme Leal (da Natura Cosméticos, seu vice na chapa da candidatura à presidência em 2010), que é membro do Conselho da Biofílica Investimentos Ambientais, a “primeira empresa brasileira focada na gestão e conservação de florestas na Amazônia a partir da comercialização dos serviços ambientais”. No mesmo Conselho encontram-se figuras como Haakon Lorentzen (presidente do Grupo Lorentzen, fundador da Aracruz Celulose, acionista controlador da Cia de Navegação Norsul, a maior empresa privada brasileira de transporte marítimo) e José Roberto Marinho (vice-presidente das Organizações Globo e presidente da Fundação Roberto Marinho). A Biofílica já trabalha (segundo seu site na internet) na área de compensação de reserva legal criada pelo Novo Código Florestal, realizando a “formatação e transação de instrumentos de compensação de modo a solucionar o passivo de proprietários rurais”.

Para fomentar o mercado de Cotas de Reserva Ambiental (CRAs), o país já conta com uma “bolsa de valores ambientais”. Criada em dezembro de 2012 para a negociação de contratos ligados ao meio ambiente, a BV Rio é uma ONG que tem em seu Conselho Consultivo a participação dos governos estadual e municipal do Rio de Janeiro. Em sua plataforma de negociação de ativos ambientais, a BVTrade, já estão sendo negociadas as “moedas verdes” do Código Florestal (as CRAs), através de contratos de desenvolvimento e entrega futura, tendo em vista o fato de que a lei ainda necessita de algumas regulamentações. Os criadores da BVRio, os irmão Maurício e Pedro Moura Costa, sócios da empresa E2 Sócio Ambiental, estimam que o “mercado de devedores ambientais pode gerar negócios de R$ 100 bilhões e R$ 500 bilhões, dependendo do custo médio das transações” (5).

Pedro Moura Costa, presidente executivo da BV Rio, tem em seu currículo o desenvolvimento do primeiro projeto de certificação de crédito de carbono do mundo, na Ásia. Em 1997 fundou sua antiga empresa, a EcoSecurities, que se tornou líder mundial na venda desses créditos e foi comprada pelo banco de investimentos JP Morgan em 2009. Além da BVRIO, a E2, nova empresa de Pedro Costa, está desenvolvendo um programa de pagamentos por serviços ambientais no município de Paragominas, no Pará, em parceria com o IMAZON (aquela ONG da qual fazem parte Carlos Vicente e Tasso Azevedo, como relatado anteriormente, e também o próprio Pedro Moura Costa).

A E2 ainda integra uma “plataforma de investimentos para a região amazônica” denominada Guardiãm, “fundada por um grupo de profissionais que incluem investidores, empresários, executivos e líderes na causa amazônica”, entre os quais se pode destacar Caio Túlio Costa (co-fundador do UOL, secretário de redação e ombudsman da Folha de São Paulo), Henri Philippe Reichstul (que foi presidente da Petrobrás) e dois dos principais integrantes da rede de Marina Silva: Tasso Azevedo e João Paulo Capobianco. Ao que tudo indica, as pessoas desse grupo não apenas conhecem como poucos o caminho para um lobby eficiente no Congresso Nacional e nas Assembléias Estaduais, conseguindo fazer aprovar legislações favoráveis a seus interesses. Eles parecem possuir também a capacidade “admirável” de aproveitar ao máximo as possibilidades criadas por essa estrutura jurídico-institucional que ajudaram a construir.

As possibilidades de negócios criadas pelos novos mercados de ativos ambientais também têm chamado a atenção do agronegócio, que identifica as vantagens financeiras de adotar essa “fachada verde” proporcionada por iniciativas como a da BVRio. É o que vem deixando claro a própria porta-voz dos ruralistas, a senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura. Outro “prócer” do agronegócio, o senador Blairo Maggi, já tinha aderido à defesa do mercado de carbono em 2009, quando ONGs que trabalham em conjunto com o IPAM na divulgação desse mecanismo na Amazônia lhe apresentaram as vantagens econômicas que ele poderia trazer aos latifundiários do Mato Grosso. Talvez um dos maiores expoentes do “agronegócio verde” no Brasil, em 2011 o Grupo Maggi fez sua primeira venda de “soja responsável” (um lote de 85 mil toneladas), com o “selo verde” atribuído pela WWF (num programa de “certificação ambiental” realizado em parceria com Bunge, Cargill, Monsanto, Nestlé, Shell, Syngenta, Unilever, etc) (6).

É possível que Marina Silva ainda não tenha integrado Kátia Abreu e Blairo Maggi diretamente a sua rede, mas a WWF, ONG certificadora de soja e cana-de-açúcar, está nela há bastante tempo. Em 2008, Marina recebeu do Príncipe Philip da Inglaterra (o marido da Rainha), a Medalha Duque de Edimburgo de Conservação, o prêmio mais importante concedido por essa organização internacional. Em 2012, foi a vez da ONG receber um certificado de reconhecimento do governo da Frente Popular do Acre, “entregue a personalidades e instituições que auxiliaram na construção da história local”, na data em que se celebrou o aniversário de 50 anos do estado (7).

A rede de Marina é mais complexa do que pode parecer à primeira vista. É menos sustentável do que quer fazer crer o “ambientalismo de mercado” promovido por seus integrantes. Está mais envolvida com as transações políticas tradicionais do que quer deixar transparecer a ex-senadora acriana, com seu discurso em defesa da ética e da novidade. A criação de seu partido, apresentada como a busca pela realização de novos sonhos, não pode apagar o fato de que a ascensão política de Marina e a projeção internacional de seu nome ocorreram à custa de sonhos e projetos de outras pessoas, os quais foram sendo destruídos nesse caminho. Essa profunda transfiguração faz com que Chico Mendes, aquele que apareceu no início dessa história, não tenha mais lugar na rede de Marina, a despeito das tentativas cínicas de associação de seu nome às “soluções” do capital para a crise ecológica, já que o líder seringueiro lutou contra esse sistema até o fim de sua vida. Marina encontrou outro rumo, outra “turma”, só não percebe quem não quer enxergar.


Notas

(1)Pronunciamento no Senado Federal, em 15/10/1998. Disponível em:

(2)Revista da Marina. Publicação do Gabinete da Senadora Marina Silva, 2001.

(3) No período em que o tema foi debatido no Congresso, Fábio Vaz de Lima, marido de Marina, era assessor parlamentar de Sibá Machado, suplente de Marina no Senado.

(4) "Novo código florestal na estrutura agrária brasileira”. Análise de Gerson Teixeira, jornal Brasil de Fato, edição de 28/09/2012. Disponível em:http://www.brasildefato.com.br/node/10733.

(5) “Eles negociam florestas”, reportagem da Revista Época, edição de 10 de dezembro de 2012, p. 102.

(6) “Grupo Maggi inicia venda de soja com selo verde”. Jornal Valor Econômico, 16/06/2011. Disponível em:

(7) Fábio Vaz Lima, marido de Marina, esclarece a importância da WWF para o Acre nesse vídeo, em que apresenta um projeto feito pela ONG em parceria com a SKY Reino Unido:http://www.youtube.com/watch?v=6qQZ0pdZHaQ.

Sítios eletrônicos das ONGs e outras instituições citadas:

IPAM (Instituto de Pesquisas da Amazônia) - www.ipam.org.br
Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) – www.imazon.org.br
IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade) – www.idsbrasil.net
EDF (Environmental Defense Fund) – www.edf.org
Biofílica Investimentos Ambientais – www.biofilica.com.br
Guardiãm – www.guardiam.com
BV RIO (Bolsa Verde do Rio de Janeiro) – www.bvrio.org

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A nova Marina Silva é uma criatura de FHC





Por Juarez Guimarães, no site Carta Maior


Antes de Marina Silva deixar o segundo governo Lula e o PT, Hamilton Pereira eu escrevemos uma carta aberta a ela dirigida com o nome “Em favor das razões de Marina”, publicada no site da Fundacao Perseu Abramo. Nela, após anotar os avanços já conquistados no campo ecológico durante os governos Lula (redução drástica do desmatamento da Amazonia, nova regulação inclusive com a introdução do critério ambiental no financiamento dos bancos públicos, grande extensão das áreas ecologicamente preservadas, presença de liderança nos fóruns internacionais de políticas contra o aquecimento global), reconhecíamos que a agenda ecológica ainda não havia ido ao centro da cultura da esquerda brasileira e do próprio governo. Marina tinha ainda um grande trabalho a cumprir neste sentido.

Mas nesta mesma carta, alertávamos para dois grandes riscos corridos por Marína: o de separar dramaticamente a luta ecológica da luta por justiça social e ser seduzida pelas novas ondas do eco-liberalismo, isto é, inserir a sua visão ecológica na sedutora rede do chamado “capitalismo verde”. A trajetória de Marina até estas eleições de 2014 superou as piores expectativas: ela se tornou, de fato, a nova criatura política do neoliberalismo cosmopolita e bem articulado de Fernando Henrique Cardoso.

Já na candidatura de 2010, como expõe Alfredo Sirkis, coordenador geral da candidatura de Marina, no livro “O efeito Marina” ( Editora Nova Fronteira), foi realizada em fevereiro de 2010 no apartamento de FHC em Higienópolis uma “reunião secreta” , nas próprias palavras do autor, com FHC e Serra para combinar um palanque duplo de Gabeira no Rio. A candidatura de Marina pelo PV já havia passado por um acordo com o presidente deste partido, fisiologicamente ligado ao governo do PSDB em São Paulo. De lá, Sirkis seguiu para combinar com Aécio Neves o acordo do PV com o PSDB em Minas.

O “rabo preso” de Marina com o PSDB ficaria nítido no segundo turno das eleições de 2010, quando Marina optou por se abster do confronto entre Dilma e Serra. Ali, como marcou memoravelmente a sagrada ira crítica de Leonardo Boff, Marina começou definitivamente a separar o programa ecológico da luta dos trabalhadores e oprimidos brasileiros contra o neoliberalismo.

A sua participação nestas eleições de 2014 completa o ciclo de mudanças de Marina. Após o trágico acidente que vitimou Eduardo Campos, Marina já se apresenta como aquela que vai reunir a “nova elite”, isto é, que vai salvar não o Brasil como afirma mas o neoliberalismo brasileiro de sua derrota política estrondosa e final.

Como um Aécio que está dando certo, Marina tem na liderança de Fernando Henrique Cardoso o seu novo epicentro político. Sem este epicentro, o folego político de Marina seria muito curto. Mas é preciso demonstrar esta convergência entre a evangélica de posicionamentos fundamentalistas e o neoliberal cosmopolita.

Estratégia, linguagem e nova articulação política

O primeiro modo de documentar a organicidade da práxis de Marina nestas eleições em relação a FHC é refletir sobre a sua estratégia política. O seu posicionamento de oposição frontal ao governo de Dilma Roussef poderia ser combinado com uma delimitação clara com a base política histórica e social do PSDB, estabelecendo as suas críticas fundamentais ao ciclo FHC, se quisesse de fato construir uma “terceira via”. É o contrário do que fez: adotou a narrativa que pretende estabelecer o mérito histórico de FHC em conquistar a estabilidade econômica do país como Lula cumpriu a grande meta da inclusão social, exatamente a mesma narrativa assumida antes por Aécio Neves. Isto é, desfazer o abismo entre a impopularidade de FHC e a popularidade de Lula, o sentido classista antagônico dramático dos dois governos, apenas para melhor disputar por dentro a base social em ascensão econômica e de acesso a direitos e que forma a maioria do eleitorado brasileiro.

Ao elogiar FHC e não entrar em choque frontal com a liderança política de Lula, Marina pretende combinar dois objetivos: tornar-se orgânica em relação as forcas políticas e econômicas do neoliberalismo e , ao mesmo tempo, cultivar a base social que já construiu a consciência democrática de seu antagonismo com os tempos de FHC. Mais do que Aécio, por todo seu simbolismo, ela está muito mais bem posicionada para cumprir esta estratégia.

Ora, esta estratégia – a de formar uma base social ampla do anti-petismo e capitalizar uma dinâmica de “mutirão das oposições” contra Dilma – foi exatamente formulada por FHC. E, neste sentido, a nova Marina é a criatura que melhor encarna esta estratégia.

O segundo modo de comprovar a identidade de Marina com FHC é registrar a fonte de sua linguagem. Se a linguagem encena a política – com suas agendas, seu vocabulário, seus argumentos - , não há hoje na fala pública de Marina nada que não possa ser identificado ou assimilado pela linguagem de FHC, que formou o ideário cosmopolita do neoliberalismo brasileiro. Não há classes e interesses sociais em disputa mas “elites”.

Seus novos “heróis ecológicos” são empresários ou herdeiros ou associados a grandes banqueiros nacionais e internacionais. As promessas de políticas sociais serão melhor cumpridas com um programa econômico neoliberal. O Brasil deve mudar sua política externa, voltando ao eixo americanista. O estado será diminuído e será mais eficiente ao ser governado pelos “melhores”.

E, ao mesmo tempo, cenho franzido, voz indignada, dedo em riste acusador para falar do governo Dilma e do PT. A °nova política” expulsará os corruptos! A Petrobrás virou um antro de corrupção e tem uma gestão catastrófica. A inflação está fora do controle e disparada! O “Mais Médicos “ foi um paliativo. A política de partilha do pré-sal deve ser revista para modelo de concessão. O número de ministérios será diminuído!

Erra Aécio Neves quando diz que o programa de Marina é um plágio do seu. É mais grave: ele tem a mesma fonte de inspiração, ou seja, o paradigma político de FHC. Em resumo: a nova linguagem de Marina se faz com a gramática e o dicionário de FHC. Mesmo o tema da participação social no governo pode ser assimilado pelos argumentos do papel protagonista da “sociedade civil”, das ONGs , do “terceiro setor”, do governo em rede etc.

Há uma terceira linha de organicidade nova de Marina em relação a rede de articuladores liderada por FHC. Há aí um novo pragmatismo político da política de convicções fundamentalistas no plano moral e novos atores que estão indo ao centro em substituição aos amadores da Rede ou dos quadros históricos mais a esquerda do PSB, como Luiza Erundina ou Roberto Amaral.

Se FHC foi, desde a origem, a grande referencia programática do PSDB, ele nunca fez politica “de partido”. Primeiro, jogou-se no grande mundo oposicionista do PMDB. Depois, já no início do PSDB, só não entrou no governo Collor devido a cerrada oposição de Covas, como já está documentado. Foi a partir de dentro do governo Itamar, que armou a estratégia do Real e da candidatura a presidência. No governo, cooptou na direita do espectro político e na esquerda.

Na oposição aos governos Lula e Dilma, sempre trabalhou em rede: além do trio PSDB, PPS, PFL/DEM , articula um setor oposicionista dentro do PMDB (Pedro Simon, Jarbas Vasconcelos etc), do PDT ( os senadores Cristóvão Buarque e Tasques), do PSB (os deputados federais Beto Albuquerque e Júlio Delgado etc), do PTB, do PV. Esta rede oposicionista em parte já convergiu e está convergindo cada vez mais para Marina. Seus novos articuladores políticos já falam na intimidade com Serra, Alckmin e com os núcleos dirigentes dos políticos conservadores brasileiros.

A “nova elite” em formação – o marinato –, na verdade, é composta centralmente de personagens políticos da intimidade ou da relação com FHC.

Neoliberalismo selvagem e visão de mundo

A quarta dimensão que escancara a configuração da nova Marina como criatura política de FHC é a sua adesão sem limites a um relançamento do programa neoliberal, em bases ainda mais selvagens do aquele cumprido nos anos FHC. A proposta de “autonomia do Banco Central”, na verdade, um atentado ao poder do presidente soberanamente eleito de dirigir a economia do país em detrimento do poder dos grandes banqueiros, é um símbolo e uma direção. Esta radicalização do programa neoliberal está bem documentada em atas dos seminários do Instituto FHC realizados nos últimos anos.

Um novo encaixe de um Brasil neoliberal na fase extremamente regressiva hoje vivida pelo capitalismo internacional, certamente duplicará seus efeitos sociais perversos. E uma nova rodada de assalto, concebido como definitivo, ao patrimônio público – privatização por dentro da Petrobrás, revisão do regime de partilha do pré-sal , privatização por dentro do Banco do Brasil e da Caixa Econômica como já foi anunciado, desmontagem do BNDES – certamente viria com uma eventual eleição de Marina.

O Banco Itaú, da nova amiga de confiança de Marina, a agora famosa Neca, que lhe abriu a coordenação do programa e da arrecadação financeira, foi sempre intimamente vinculado a FHC. Os dois personagens até agora mandatados por Marina para a área econômica – Eduardo Gianetti e André Lara Resende – compuseram o governo FHC em cargos muito importantes. O primeiro foi secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior, órgão diretamente vinculado à presidência. O segundo foi diretor do Banco Central e, depois, presidente do BNDES no segundo governo FHC por um período de alguns meses em 1998, tendo que deixar o cargo após o chamado escândalo dos grampos da privatização das telecomunicações.

Os dois são personagens tidos como brilhantes no grande pequeno mundo neoliberal: um economista filósofo de quinta categoria que chegou ao disparate de afirmar que a escola econômica desenvolvimentista da Unicamp é “filhote da ditadura” e de propor, como está documentado no livro “O que os economistas pensam sobre a sustentabilidade”, organizado por Ricardo Arnt, que os precos do leite e da carne deviam ser aumentados por motivos ecológicos, isto é, para se reduzir o tamanho do rebanho bovino cujos gases impactam a camada de ozônio; o segundo é um rentista especulador, fundador do Banco Matrix, gestor no Brasil do dinheiro de grandes bancos estrangeiros e de fundos de investimento internacionais, um milionário que tem como esporte carros de corrida e cavalos de raça.

Mas há uma quinta convergência entre esta política de preconceitos morais fundamentalistas e o neoliberal cosmopolita que é preciso esclarecer mais. Há mais do que funcionalidade recíproca entre Marina e FHC: uma criatura que encarna com mais dinamismo e eficácia o “tsunami anti-petista” vocalizado por Aécio mas dirigido por FHC e o interlocutor que lhe abre o caminho real da bolsa, do poder e da mídia empresarial.

Fernando Henrique Cardoso já manifestou várias vezes a sua avaliação positiva das seitas evangélicas no Brasil: elas , retomando de modo superficial um tema clássico de Max Weber, ao retirar o sentido cristão católico negativo atribuído ao dinheiro e ao enriquecimento, seriam vetores culturais de afirmação de valores saudáveis do capitalismo. Ora, esta que faz o elogio da “boa consciência” dos milionários é facilmente assimilada por este que sempre, contra a tradição varguista, desenvolvimentista e agora petista , faz a defesa ideológica do casamento da democracia liberal com o mercado.

A “nova “ Marina e a velha ordem neoliberal

Marina constituiu sua primeira identidade pública, por um longo período, no campo da esquerda brasileira. Isto a diferencia de Collor e de Jâio Quadros que, apenas em um primeiro momento, contou com a simpatia do antigo PSB. Não se trata, pois, de um caso de simulacro, de um personagem que faz de conta ser o que não é.

Houve uma ruptura política profunda e há uma “nova” Marina Silva. O conceito clássico para designar esta passagem, esta transformação, em que uma liderança de fora da ordem dominante é tragada por esta ordem em busca de uma relegitimação política , é o de transformismo, operado por Gramsci para entender a política italiana.

Toda a virulência da operação transformista de Marina – como um sintoma – veio a tona em sua afirmação durante o debate entre os candidatos presidenciais na Rede Bandeirantes de que Chico Mendes, assim como o empresário dono da Natura, Guilherme Leal e a herdeira Banco Itaú, são parte da elite.

Há certas afirmações que denunciam quem as faz. Chico Mendes não é mais para Marina um seringueiro, um sindicalista, um socialista e um grande mártir da luta ecológica dos brasileiros contra os poderes predatórios do capitalismo. Marina só é capaz de dizer isto porque agora já se sente e deseja, com toda a força de sua personalidade, ser parte da elite.

Aliás, o termo “elite” tem uma famosa genealogia na ciência política. A chamada “teoria das elites” foi formulada por italianos ultra-conservadores, que depois aderiram ao fascismo de Mussolini, como uma resposta ao princípio da soberania popular na virada do século XIX para XX. O par de “elite” é exatamente “massa”, indicando a incapacidade permanente de formas de auto-governo. No liberalismo conservador contemporâneo, ao qual Marina está aderindo, o termo elite designa a teoria do chamado “elitismo democrático”, isto é, uma democracia que é na verdade governada pelas “elites”.

Trinta dias atrás FHC prognosticou a vitória provável de Aécio nestas eleições presidenciais. Os seus grandes erros na política sempre decorreram de se conceber como parte da elite, por um viés elitista desprezar a consciência politica em formação do povo brasileiro. Agora, sua aposta será cada vez mais na vitória provável de Marina nestas eleições.

Mas a nova Marina não é um mito mas uma mistificação. O resultado destas eleições dependera de nossa capacidade em construir junto com a consciência democrática, republicana e socialista do povo brasileiro – esta que Chico Mendes deu a vida para formar – a convicção de que a nova Marina é apenas a nova criatura do velho neoliberalismo de FHC.