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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Crise: As Primaveras do Terror U.S.A






Por Mauro Santayana, reproduzido do site de Luis Nassif


(Jornal do Brasil) - Há alguns dias, terroristas franceses, ligados, aparentemente, à Al Qaeda, atacaram a redação do jornal satírico parisiense Charlie Hebdo, em represália pela publicação de caricaturas sobre o profeta Maomé.
Doze pessoas foram assassinadas, entre elas alguns dos mais famosos cartunistas e intelectuais do país, e dois cidadãos de origem árabe, um deles, estrangeiro, que trabalhava há pouco tempo na publicação, e um membro das forças de segurança que estava nas imediações.
Logo em seguida, houve, também, outro ataque, a um supermercado kosher na periferia de Paris, em que 4 judeus franceses e estrangeiros morreram.
Dias depois, milhões de pessoas, e personalidades de vários países do mundo, se reuniram nas ruas da capital francesa, para protestar contra o atentado, e se manifestar contra o terrorismo e pela liberdade de expressão.
Na mesma primeira quinzena de janeiro, explodiram carros-bomba, e homens-bomba, também ligados a grupos radicais islâmicos, no Líbano (Beirute), na Síria (Aleppo), na Líbia (Benghazi), e no Iraque (Al-Anbar), com dezenas de mortos, em sua maioria civis.
Mas, como sempre, não seria normal esperar que algum destes fatos tivesse a mesma repercussão do atentado em Paris, capital de um país europeu, ou que a alguém ocorresse produzir cartazes e neles escrever Je suis Ahmed, ou Je suis Ali, ou Je suis Malak, Malak Zahwe, a garota brasileira, paranaense, de 17 anos, que morreu na explosão de um carro-bomba, junto com mais 4 pessoas (20 ficaram feridas), no dia 2 de janeiro, em Beirute.
No entanto, os homens, mulheres e crianças, mortos, todos os dias, no Oriente Médio e no Norte da África, são tão frágeis e preciosos, em sua fugaz condição humana, quanto os que morreram na França, e vítimas dos mesmos criminosos, criados pela onda de radicalização e rápida expansão do fundamentalismo islâmico, nos últimos anos.
Raivosas, autoritárias, intempestivas, numerosas vozes se alçaram, em vários países, incluído o Brasil, para gritar - em raciocínio tão ignorante quanto irascível - que o terrorismo não tem que ser "compreendido" e, sim, "combatido".
Os filósofos e estrategistas chineses ensinam, há séculos, que sem conhecê-los, não é possível vencer os eventuais adversários, nem mudar o mundo.
Além disso, não podemos, por aqui, por mais que muitos queiram emular os países "ocidentais", em seu ardoroso "norte-americanismo" e "eurocentrismo", esquecer que existem diferenças históricas, e de política externa, entre o Brasil, os EUA, e países da OTAN como a França.
Podemos dizer que Somos Charlie, porque defendemos a liberdade e a democracia, e não aceitamos que alguém morra por fazer uma caricatura, do mesmo jeito que não podemos aceitar que uma criança pereça bombardeada pela OTAN no Afeganistão ou na Líbia, ou porque estava de passagem, no momento em que explodiu um carro-bomba, por um posto de controle em Aleppo, na Síria.
Mas é preciso lembrar que, ao contrário da França, nunca colonizamos países árabes e africanos, não temos o costume de fazer charges sobre deuses alheios em nossos jornais, não jogamos bombas sobre países como a Líbia, não temos bases militares fora do nosso território, não colaboramos com os EUA em sua política de expansão e manutenção de uma certa "ordem" ocidental e imperial, e, talvez, por isso mesmo - graças a sábia e responsável política de Estado, que inclui o princípio constitucional de não intervenção em assuntos de outros países - não sejamos atacados por terroristas em nosso território.
As raízes dos atentados de Paris, e do mergulho do Oriente Médio na maior, e, com certeza, mais profunda tragédia de sua história, não está no Al Corão ou nas charges contra o Profeta Maomé, embora estas últimas possam ter servido de pretexto para ataques como o que ocorreu em Paris.
Elas começaram a se tornar mais fortes, nos últimos anos, quando o "ocidente", mais especificamente alguns países da Europa e os EUA, tomaram a iniciativa de apoiar e insuflar, usando também as redes sociais, o "conto do vigário" da Primavera Árabe em diversos países, com a intenção de derrubar regimes nacionalistas que, com todos os seus defeitos, tinham conquistado certo grau de paz, desenvolvimento e estabilidade para seus países nas últimas décadas.
Inicialmente promovida, em 2011, como "libertária", "revolucionária", a Primavera Árabe iria, no curto espaço de três anos, desestabilizar totalmente a região, provocar massacres, guerras civis, golpes de Estado, e alcançar, por meio da intervenção militar direta e indireta da OTAN e dos EUA em vários países, a meta de tirar do poder, a qualquer custo, regimes que lutavam para manter um mínimo de independência e soberania em suas relações com os países mais ricos.
Quando os EUA, com suas "primaveras" - que não dão flores, mas são fecundas em crimes e cadáveres - não conseguem colocar no poder um governo alinhado com seus interesses, como na Ucrânia e no Egito, jogam irmão contra irmão e equipam com armas, explosivos, munições, terroristas, bandidos e assassinos para derrubar quem estiver no comando do país.
O objetivo é destruir a unidade nacional, a identidade local, o Estado e as instituições, para que essas nações não possam, pelo menos durante longo período, voltar a organizar-se, a ponto de tentar desafiar, mesmo que em pequena escala, os interesses norte-americanos.
Foi assim que ocorreu com a intervenção dos EUA e de aliados europeus como a Itália e a França - contra a recomendação de Brasil, Rússia, Índia e China, no Conselho de Segurança da ONU - no Iraque, na Líbia e na Síria.
Durante décadas, esses países - com quem o Brasil tinha, desde os anos 1970, boas relações - viveram sob relativa estabilidade, com a economia funcionando, crianças indo para a escola, e diferentes etnias, religiões e culturas, dividindo, com eventuais disputas, o mesmo território.
Estradas, rodovias, sistemas de irrigação, foram construídos - também com a ajuda de técnicos, operários e engenheiros brasileiros - com os recursos do petróleo, e países como o Iraque chegavam a importar automóveis, como no caso de milhares de Volkswagens Passat fabricados no Brasil, para vender aos seus cidadãos de forma subsidiada.
Na Líbia de Muammar Kadafi, segundo o próprio World Factbook da CIA, 95% da população era alfabetizada, a expectativa de vida chegava, para os homens, segundo dados da ONU, a 73 anos, e a renda per capita e o IDH estavam entre os maiores do Terceiro Mundo, mas esses dados nunca foram divulgados normalmente pela imprensa "ocidental".
Pode-se perguntar a milhares de brasileiros que estiveram no Iraque, que hoje têm entre 50 e 70 anos de idade, se, naquela época, sunitas e xiitas se matavam aos tiros pelas ruas, bombas explodiam em Basra e Bagdá todos os dias, como explodem hoje, a qualquer momento, também em Trípoli ou Damasco, ou milhares de órfãos tentavam atravessar montanhas e rios sozinhos, pisando nos restos de outras crianças, mortas em conflitos incentivados por "potências" estrangeiras, ou tentavam sobreviver caçando, a pedradas, ratos por entre escombros das casas e hospitais em que nasceram.
São, curdos, xiitas, sunitas, drusos, armênios, cristãos maronitas, inimigos?
Antes, trabalhavam nos mesmos escritórios, viviam nas mesmas ruas, seus filhos frequentavam as mesmas salas de aula, mesmo que eles não tivessem escolhido, no início, viver como vizinhos.
Assim como no caso de hutus e tutsis em Ruanda, e em inúmeras ex-colônias asiáticas e africanas, as fronteiras dos países do Oriente Médio foram desenhadas, na ponta do lápis, ao sabor da vontade do Ocidente, quando da partilha do continente africano por europeus, obedecendo não apenas ao resultado de Conferências como a de Berlim, em 1884, mas também à máxima de que sempre se deve "dividir para comandar", mantendo, de preferência, etnias de religiões e idiomas diferentes dentro de um mesmo território ocupado pelo colonizador.
Eram Saddam Hussein e Muammar Kadafi, ditadores? É Bashar Al Assad, um déspota sanguinário?
Quando eles estavam no poder, não havia atentados terroristas em seus países.
E qual é a diferença deles e de seus regimes, para os líderes e regimes fundamentalistas islâmicos comandados por xeques e emires, na mesma região, em que as mulheres - ao contrário dos governos seculares de Saddam, Kadafi e Assad - são obrigadas a usar a burka, não podem sair de casa sem a companhia do irmão ou do marido, se arriscam a ser apedrejadas até a morte ou chicoteadas em caso de adultério, e não há eleições, a não ser o fato de que esses regimes são dóceis aliados do "ocidente" e dos EUA?
Se os líderes ocidentais viam Kadafi como inimigo, bandido, estuprador e assassino, por que ele recebeu a visita do primeiro-ministro britânico Tony Blair, em 2004; do Presidente francês Nicolas Sarkozy - a quem, ao que tudo indica, emprestou 50 milhões de euros para sua campanha de reeleição - em 2007; da Secretária de Estado dos EUA, Condoleeza Rice, em 2008; e do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi em 2009?
Por que, apenas dois anos depois, em março de 2011 - depois de Kadafi anunciar sua intenção de nacionalizar as companhias estrangeiras de petróleo que operavam, ou estavam se preparando para entrar na Líbia (Shell, ConocoPhillips, ExxonMobil, Marathon Oil Corporation, Hess Company) esses mesmos países e os EUA, atacaram, com a desculpa de criar uma Zona de Exclusão Aérea sobre o país, com 110 mísseis de cruzeiro, apenas nas primeiras horas, Trípoli, a capital líbia, e instalações do governo, e armaram milhares de bandidos - praticamente qualquer um que declarasse ser adversário de Kadafi - para que o derrubassem, o capturassem e finalmente o espancassem, a murros e pontapés, até a morte?
Ora, são esses mesmos bandidos, que, depois de transformar, com armas e veículos fornecidos por estrangeiros, a Líbia em terra de ninguém, invadiram o Iraque e, agora, a Síria, e se uniram para formar o Estado Islâmico, que pretende erigir uma grande nação terrorista juntando o território desses três países, não por acaso os que foram mais devastados e destruídos pela política de intervenção do "ocidente" na região, nos últimos anos.
Foram os EUA e a Europa que geraram e engordaram a cobra que ameaça agora devorar a metade do Oriente Médio, e seus filhotes, que também armam rápidos botes no velho continente. Serpentes que, por incompetência e imprevisibilidade, depois da intervenção na Líbia, a OTAN e os EUA não conseguiram manter sob controle.
Os Estados Unidos podem, pelo arbítrio da força a eles concedida por suas armas e as de aliados - quando não são impedidos pelos BRICS ou pela comunidade internacional - se empenhar em destruir e inviabilizar pequenas nações - que ainda há menos de cem anos lutavam desesperadamente por sua independência - para tentar estabelecer seu controle sobre elas, seu povo e seus recursos, objetivo que, mesmo assim, nunca conseguiram alcançar militarmente.
Mas não podem cometer esses crimes e esses equívocos, diplomáticos e de inteligência, e dizer, cinicamente, que o fizeram em nome da defesa da Liberdade e da Democracia.
Assim como não deveriam armar bandidos sanguinários e assassinos para combater governos que querem derrubar, e depois dizer que são contra o terrorismo que eles mesmos ajudaram a fomentar, quando esses mesmos terroristas, além de explodir bombas e matar pessoas em Bagdá, Damasco ou Trípoli, todos os dias, passam a fazer o mesmo nas ruas das cidades da Europa ou dos próprios Estados Unidos.
O "terrorismo" islâmico não nasceu agora.
Mas antes da balela mortífera da Primavera Árabe, e da Guerra do Iraque, que levou à destruição do país, com a mentirosa desculpa da posse, por Saddam Hussein, de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas - tão falsa quanto o pretexto do envolvimento de Bagdá no ataque às Torres Gêmeas, executado por cidadãos sauditas, e não líbios, sírios ou iraquianos - não havia bandos armados à solta, sequestrando, matando e explodindo bombas nesses 3 países.
Hoje, como resultado da desastrada e criminosa intervenção ocidental, o terror do Estado Islâmico, o ISIS, controla boa parte dos territórios e da sofrida população síria, iraquiana e líbia, e, a partir deles, está unindo suas conquistas em torno da construção de uma nação maior, mais poderosa, e extremamente mais radical do ponto de vista da violência e do fundamentalismo, do que qualquer um desses países jamais o foi no passado.
O ataque terrorista à redação e instalações do semanário francês Charlie Hebdo, e do Mercado Kosher, em Vincennes, Paris, foram crimes brutais e estúpidos.
Mas não menos brutais, e estúpidos, do que os atentados cometidos, todos os dias, contra civis inocentes, entre muitos outros lugares, como a Síria, o Iraque, a Líbia, o Afeganistão.
Quem quiser encontrar as sementes do caos que também atingiram, em forma de balas, os corpos dos mortos do Charlie Hebdo poderá procurá-las no racismo de um continente que acostumou-se a pensar que é o centro do mundo, e que discrimina, persegue e despreza, historicamente, o estrangeiro, seja ele árabe, africano ou latino-americano; e no fundamentalismo branco, cristão e rançoso da direita e da extrema direita norte-americanas, cujos membros acreditam piamente que o Deus vingador da Bíblia deu à "América" do Norte o "Destino Manifesto" de dirigir o mundo.

Em nome dessa ilusão, contaminada pela vaidade e a loucura, países que se opuserem a isso, e milhões de seres humanos, devem ser destruídos, mesmo que não haja nada para colocar em seu lugar, a não ser mais caos e mais violência, em uma espiral de destruição e de morte, que ameaça a sobrevivência da própria espécie e explode em ódio, estupidez e sangue, como agora, em Paris, neste começo de ano.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O cordão da ditabranda cada vez aumenta mais


Golpe em marcha


Por Antonio Lassance, na Carta Capital




Há um debate importante na sociedade que precisa encontrar uma conclusão. Ele diz respeito ao fenômeno do uso da violência contra a democracia. 

Seja dentro ou fora de manifestações, seja praticada por grupos de direita ou de esquerda, o debate é sobre o nível de repúdio e condenação que se deve empregar contra quem usa a violência não como autodefesa, mas como meio de afirmação política.

Esse é o debate que deveria estar por trás da chamada lei antiterrorismo (Projeto de Lei do Senado Nº 499, de 2013). A proposta ficou perambulando no Legislativo, sendo no meio do caminho envenenada pela mídia tradicional, com o auxílio luxuoso dos que trazem uma memória seletiva da velha ditadura de 1964.

O tema deveria mobilizar uma ampla parcela dos cidadãos, pois interessa a todos. Tudo o que mexe com a vida e a liberdade de cada cidadão precisa, antes, ser profundamente debatido.

Ao mesmo tempo, em uma democracia, não se faz debate pelo debate. O que se pretende e se deve fazer é chegar a uma conclusão e tomar uma decisão amplamente respaldada.

Não é o que se vê, porém, na discussão da lei antiterrorismo. A questão está diante de dois graves riscos. Um é o de se tomar decisões erradas, aprovando uma lei mal feita. 

O outro risco vai em sentido contrário. É o risco de que esse debate seja simplesmente abandonado, com a grave consequência de se manter um entulho autoritário, a Lei de Segurança Nacional.

A democracia e a cidadania clamam por um meio termo.

Acirrado e federalizado desde a morte do cinegrafista da Band, Santiago Andrade, o debate sobre a lei antiterrorismo acabou sendo açodado.

Na base do oito ou oitenta, ficamos entre os que quiseram aprovar a lei a toque de caixa e os que foram ao êxtase ao defender que a nova lei seria mais dura do que a famigerada Lei de Segurança Nacional (LSN).

A LSN existe no Brasil desde 1935, forjada na esteira da dura repressão de Vargas contra a Aliança Nacional Libertadora, contra os partidos e organizações de esquerda.

Acabou servindo depois a todo o período da Guerra Fria, incluindo o que compreende a ditadura de 1964. Tal lei foi sucessivamente modificada, em 1969, 1978 e 1983. É uma lei das ditaduras, pelas ditaduras e para as ditaduras.

Os adeptos da ditabranda saborearam o tema com um sorriso nos lábios. A turma da ditabranda é aquela que defende a tese de que a ditadura instaurada em 1964 não foi lá tão dura assim, comparada à de países vizinhos.

Que a ditadura brasileira foi diferente da chilena e da argentina, é fato. Daí dizer que ela foi “branda” vai uma distância imensa.

Enfim, pelos argumentos dos defensores da ditabranda, a legislação em vias de ser aprovada no Senado seria mais dura que a LSN.

Não só defensores da ditabranda, mas muitos que repudiam aquele regime distribuíram a esmo o artigo de Elio Gaspari, "A histeria dos comissários", que segue essa linha de ataque. Foi publicado em O Globo e na Folha de São Paulo.

O problema é que o artigo de Gaspari traz “erros” banais que só interessam a quem quer e gosta de banalizar a ditadura. Vale a pena indicar tais erros para evitar que o cordão da ditabranda cada vez aumente mais.

Um “erro” elementar foi ter acusado o senador Paulo Paim (PT-RS) de ser o autor do projeto da lei antiterrorismo. Não é. O “erro” poderia ter sido facilmente evitado com um mínimo de apuração jornalística.

Sendo o jornalista sabidamente experiente, ficam as aspas sobre o “erro”, de modo a manter uma saudável dúvida quanto ao deslize.

Afinal, uma das profissões de fé de Gaspari é tratar os governos do PT (Lula e Dilma) como um regime de "comissários", os quais, a qualquer momento, podem implantar uma ditadura. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, é o que está encravado nas entrelinhas de seus artigos.

Diz Gaspari que, enquanto a proposta em trâmite no Congresso prevê penas que vão de 15 a 30 anos de prisão, a LSN previa, para crimes similares, penas de 8 a 30 anos.

Nesses termos, se o pior de uma ditadura se mede pelo tempo de pena, vamos chegar à conclusão de que a mais ditatorial de nossas leis é o Código Penal, que prevê penas ainda mais duras, de 20 a 30 anos, por exemplo.

Vamos ter que incluir o Canadá na lista de ditaduras cruéis das Américas. O país acaba de transformar em crime o uso de máscaras em manifestações. Um mascarado pode ser condenado a passar até 10 anos preso, seja vestido de Batman ou de Homem Aranha. Isso é que é ditadura!

Muitos passaram batidos pela mais imaculada de todas as frases do artigo de Gaspari sobre a bandura da Lei de Segurança Nacional:

Caso o delito resultasse em morte, a pena seria de fuzilamento. Apesar de ter havido uma condenação, ninguém foi executado dentro das normas legais".

Vale a pena ver de novo: "ninguém foi executado dentro das normas legais".

Mais uma vez, só para reforçar: "ninguém foi executado dentro das normas legais".

Isso é que é ditadura. "ninguém foi executado dentro das normas legais". Éramos felizes e não sabíamos.

A LSN de 1969, se alguém se der ao trabalho de lê-la direto na fonte, para entender do que se tratava sem precisar de intermediários, verá que ela prevê, em caso de morte de algum agente da repressão, desde a prisão perpétua, "em grau mínimo", até a pena de morte, "em grau máximo" (artigos 80 a 107).

Mas fiquemos tranquilos. Na ditadura cinquentenária, ninguém foi executado. Não legalmente. Que bom saber disso!

De repente, não mais que de repente, parece que ser contra o terrorismo é que se tornou antidemocrático.

De repende, não mais que de repente, a mesma legião de articulistas e comentaristas que defendeu, histérica e macarrônicamente, a extradição de Cesare Battisti (acusado de terrorismo na Itália) resolveu ser contra a lei antiterrorismo.

O Congresso discute faz tempo a proposta de legislação antiterrorismo. Falhou, como tem falhado, ao deixar o assunto se arrastar inconcluso. Tem sido assim com muitos outros assuntos que aguardam regulamentação.

Nada disso deve nos levar a tirar conclusões erradas, que sepultem um debate extremamente importante. O Brasil precisa sim de uma lei antiterrorismo para sepultar de vez a LSN.

É preciso colocar em seu lugar uma lei que proteja as pessoas da violência e que faça jus ao que diz o art. 5º. da Constituição, que equipara a condenação ao terrorismo à condenação da tortura.


É disso que se trata e é nisso que a proposta que tramita no Congresso está longe de atender. Ela ainda é genérica o suficiente para deixar margem ao perigo da discricionariedade tanto de juízes quanto do guarda da esquina.

O tema é delicado como nitroglicerina e deve se lidar com todo o cuidado do mundo, mas sem que seja deixado de lado, esquecido.

Muito menos o assunto deve servir de pretexto para fazer aumentar o cordão da ditabranda.

Às vésperas dos 50 anos da dita cuja, é preciso rechaçar a todo o momento as tentativas reiteradas, reeditadas e em liquidação de se mascarar a lógica daquele tenebroso regime de exceção.

Um regime em que as normas eram apenas para Inglês ver.

Um regime em que, sabidamente, a verdadeira lei era ditada no cárcere e cumprida por tribunais compostos por torturadores.

Mais sobre o assunto:

O termo ditabranda foi cunhado por um editorial do jornal Folha de S. Paulo de 17 de fevereiro de 2009. Marco Aurélio Weissheimer, em Carta Maior, nos mostra “O que a falácia da ditabranda revela”. 

A lei antiterrorismo, na íntegra, com seus de autoria e tramitação, pode e deve ser acompanhada na página do Senado

Uma visão ponderada sobre a discussão da lei antiterrorismo está no artigo do Fábio de Sá e Silva, em Carta Maior “O terrorismo da impaciência”

A versão da Lei de Segurança Nacional editada em 1969 está na íntegra no Portal de Legislação da Casa Civil da Presidência da República Portal de Legislação da Casa Civil da Presidência da República.

Obs: a lei aparece rabiscada nessa página para deixar claro que não está em vigência.

A LSN atual pode ser lida no Portal de Legislação da Casa Civil da Presidência da República 


(*) Antonio Lassance é cientista político.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Gráfico da Globo falseia a inflação





Por Renato Rovai, em seu blog:

Todos os inícios de ano a Globo lidera o terrorismo inflacionário. A inflação do ano que virá pode colocar o país em risco e blablablá.

Nos almoços de família, os parentes mais sensíveis às bobagens midiáticas repetem o mantra de que a situação está ruim e que o país está caminhando ladeira abaixo.

Que no final, todo o esforço feito pelo príncipe em 1994 ao debelar o dragão, vai ser jogado fora pelos aloprados do PT. Como se o Brasil de 2014 tivesse algo a ver com aquele que vivia de calças abaixadas para o FMI e que tirava os sapatos como sinal de respeito ao deus USA.

Todo começo de ano é assim, a inflação é a bola da vez.

Mas dessa vez a Globo levou o índice de ridículo ao limite ao fazer o gráfico acima. Não há proporção alguma nele. E isso é o mínimo para fazer um gráfico minimamente sério com dados informativos.

Nem na época de jornalzinho de Centro Acadêmico meus colegas mais radicais proporiam algo tão absurdo.

Prestem atenção na distância desproporcional do 5,81% do centro da meta de 4,5%. Os 4,5% são três vezes menor do que os 1,31%. Isso não é o mais grave. O 5,91% de 2013 é maior do que 6,50% e 5,82%, índices de 2010 e 2011.

O fato é que a inflação não superou o teto da meta que é de 6,5% em nenhum ano. No limite ficou no teto em 2010. E ficar em 5, 91% no ano passado não é nada grave. É parte do jogo.

Com este tipo de abordagem a Globo ultrapassa até a linha do que se pode chamar de desinformação. Isso é vandalismo jornalístico.

Duvido que a assessoria de imprensa de uma grande empresa deixasse uma sacanagem dessas sem resposta. Ia ter carta esculachando o veículo e pedindo correção. Se negasse, o veículo seria cortado da programação de publicidades da empresa.

Mas como o governo federal é ao contrário. Da mesma forma que o generoso ministro Mercadante decidiu enfiar 2,5 milhões na Abril, comprando Nova Escola, a Globo ainda vai lucrar por ter feito mais essa sacanagem.

E assim caminha a umanidade. Eu não errei não. Coloquei sem h de propósito. Porque essa humanidade não merece a palavra completa.

PS: Pesquei o gráfico acima no blogue do Ruda Ricci.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Salvar os mercados e afundar o Brasil - Terrorismo II


Por Saul Leblon, no sítio Carta Maior:

Carta Maior não tem por hábito reproduzir textos da mídia conservadora, mas abre uma exceção hoje pelo elevado teor pedagógico que o caso encerra. A guerra das expectativas, como se sabe, orienta a pauta dominante nos dias que correm.

O julgamento-espetáculo do chamado ‘mensalão’, um notável esforço de desossar o campo progressista a ponto de torna-lo incapaz de se equilibrar em um palanque, proporcionou retorno abaixo do esperado.

A sofreguidão midiática, e um desempenho excessivamente desfrutável das togas, atravessou o Rubicão a partir do qual o discernimento enxerga a mão do cambalacho. A cavalaria do jornalismo econômico assumiu, desde então, o comando das operações.

Justifica-se.

Se a meta é estrangular o horizonte das esperanças nacionais, e por extensão quem conduz há 12 anos a agenda do desenvolvimento socialmente progressista, a guerra das expectativas é o instrumento competente. A frota mais adestrada nesse campo de batalha é o jornalismo econômico.

Filho dileto da ditadura, quando exorbitou na narrativa áulica do regime, firmou-se desde então como a editoria predileta dos donos de jornais, por razões imagináveis de tesouraria e prestígio. Ainda hoje, é a área das redações em que vigoram os mais altos salários, e aquela mais coesa na genuflexão à agenda neoliberal.

Da vassalagem ao intervencionismo fardado, que arrochava salários com a repressão aos sindicatos, o noticioso econômico baldeou-se sem escala para a defesa incondicional dos mercados desregulados, em especial, o financeiro.

Talvez haja mais coerência do que se imagina nessa dupla militância. O que antes se esmagava, literalmente, com instrumentos e métodos rudimentares, hoje se dobra de joelhos com a sofisticada hegemonia assegurada às leis de mercado.

Ou não será essa a essência da recorrente defesa de um Banco Central independente --do Estado, da democracia e das urgências da sociedade? O cerco em curso, portanto, está em mãos habilitadas. Trata-se de elevar ao paroxismo a incerteza intrínseca aos detentores da riqueza.

Instados permanentemente a optar entre a alocação do capital em investimento de longo curso (infraestrutura , por exemplo), ou a opção mórbida pela liquidez rentista de curto prazo, eles são o alvo da esférica e convicta fuzilaria das redações.

Induzir o dinheiro graúdo à primeira opção, associada a um projeto social que o conduza, constitui o desafio de vida ou morte do governo.

Abortar as chances de que isso aconteça, adicionando diuturnamente caçambas de incerteza ao estoque endógeno dos detentores da riqueza, é a missão à qual se dedica de corpo e alma a o noticioso econômico conservador com suas certezas graníticas sobre o que é melhor para o país, a sua gente e o seu desenvolvimento.

O troféu em jogo é o escrutínio de 2014, quando opções mais amigáveis, tingidas de verde ou rosa, podem assumir o bastão ao intervencionismo petista. Não se pode dizer que o campo seja desfavorável ao time das redações.

O Brasil vive uma travessia de ciclo de desenvolvimento que agrega a vulnerabilidades de lavra própria (o câmbio valorizado, por exemplo), outras decorrentes da transição na economia mundial. Não há receita de custo zero capaz de impulsionar o passo seguinte do desenvolvimento nesse campo movediço.

Debater as opções em curso, escrutinar seus ônus e bônus, sedimentar assim um chão mais firme e um protagonista social que o percorra, é o que dará coerência à macroeconomia do país de agora em diante.

Os centuriões encarregados de exacerbar a incerteza interditam esse debate e vetam as soluções progressistas cogitadas (leia a nota deste blog ‘A urgência à procura de um debate’).

Seu exclusivo, e ansioso, interesse é acelerar a contagem regressiva do tempo que falta para o país se revelar uma nação aos cacos, à espera do cola-tudo capaz de saneá-la: uma boa purga de arrocho fiscal e um choque de juros.

Essa pauta latejava sua sofreguidão nesta 4ª feira, quando o governo resolveu rebater, com números, o necrológio fiscal do país estampado nas páginas de alguns dos principais veículos conservadores.

Foi com o evidente propósito de avalizar esse diagnóstico que o jornal Valor Econômico se preparou para lançar uma pá de cal na cova teimosamente recusada pelo governo.

Um quadro de prestígio da ortodoxia nativa, o economista Joaquim Levy, foi escolhido para ser o principal entrevistado sobre o tema na edição da 4ª feira quente.

Não foi uma escolha aleatória.

Levy carrega predicados de peso. Formado em Chicago, meca do neoliberalismo, atuou como Secretário do Tesouro Nacional do governo Lula, durante a gestão de Antonio Palocci na Fazenda. Levy encarnava então aquilo que muitos chegaram a classificar como a rendição do PT ao neoliberalismo.

Era a mão do arrocho fiscal na goela dos ideais e compromissos petistas. Capacitou-se para isso diretamente na fonte servindo no FMI por sete anos (1992/1999). Hoje, dirige um braço de gestão de recursos de investimento do Bradesco (BRAM). Foi desse poleiro privilegiado do mercado que ele falou ao Valor.

Bem, o que disse – sem renunciar às diretrizes ortodoxas - desagradou profundamente a pauta preconcebida para corroborar o diagnóstico de um Brasil em marcha batida para o abismo. A entrevista de Levy e as negativas do governo em aceitar a autópsia midiática elevariam a temperatura no ambiente do jornalismo isento.

Tanto assim que no site do jornal Valor, na mesma 4ª feira, guardiões do desastre iminente postaram uma acalorada nota no blog apropriadamente chamado: ‘Casa das Caldeiras’.

O pito no governo e em um Levy não nominado foi quase uma descompostura. Um sabão em quem resiste, ainda, em enxergar aquilo que o jornal tanto se esforça por demonstrar e difundir: ‘se não for hoje, de amanhã o Brasil não passa’. Ou, como diz o post do alto de sua condição de alter ego do mercado ,e como tal, sempre ancorado em um estratégico off de fonte inexcedível em saber e fazer: 

“É inegável que a piora dos indicadores e das expectativas estão agendando por bom tempo juro alto, inflação alta e baixo crescimento. Neste ano, sabemos que a agricultura e os investimentos darão fôlego à atividade. E no ano que vem? Como ficamos no ano que vem, com a desconfiança crescente entre financiadores e potenciais investidores...”

Repita-se, Carta Maior não tem por hábito transcrever a mídia conservadora . Mas os excertos abaixo, da entrevista mencionada e da admoestação professoral da parte ofendida, merecem ser coligidos.

Trata-se do testemunho de um garrote e de um tempo em que o jornalismo conservador assumiu a frente da guerra. Para salvar os livres mercados deles mesmos. E do governo que os ameaça.

Seguem-se excertos dessa jornada pedagógica de isenção das redações.

Primeiro, a entrevista de Joaquim Levy:


Levy descarta abismo fiscal, mas defende metas claras
Valor Econômico 06-11-2013

De São Paulo

O Brasil não está à beira do abismo, como o debate acalorado acerca das estratégias de política econômica às vezes pode indicar, mas é certo que falta ao governo esclarecer quais são seus objetivos no médio prazo, especialmente na área fiscal, avalia Joaquim Levy, secretário do Tesouro Nacional durante o governo Lula e hoje diretor-superintendente da Bradesco Asset Management (BRAM).

Segundo Levy, que também já fez parte do Fundo Monetário Internacional (FMI) entre 1992 e 1999, a "métrica" usada pelo governo não precisa ser necessariamente o superávit primário, mas é fundamental que exista uma e que seja bem explicada.

"Talvez o mais importante seja recuperar um pouco a visibilidade", diz. "Acho que o superávit primário, principalmente se ele for bem simplesinho é uma métrica poderosa, mas eu posso considerar outras. Só precisa ter clareza. Se for preciso adivinhar, gera mais dúvidas."

Questionado se a política fiscal preocupa mais do que outros temas, como a inflação ou o baixo crescimento, Levy rema um pouco contra a maré do mercado ao dizer que "há perspectivas positivas nas três áreas". 

Diferentemente do que o discurso menos agressivo poderia indicar, no entanto, Levy avalia que a discussão sobre trazer a inflação para mais próximo da meta e, eventualmente, trazer a meta um pouco mais para baixo parece o que chama de "firula teórica", mas não é. Segundo ele, seria um ingrediente fundamental para reduzir os juros reais e elevar investimentos, inclusive o produtivo.

Ao comentar a possibilidade de o Federal Reserve (o banco central americano) começar a reduzir os estímulos à economia do país entre o fim deste ano e o início do ano que vem, o executivo afirma que "quando o mundo se normaliza, a gente deixa de ser a única atração da cidade", em referência ao fim do cenário de juros globais mais baixos. Mas o Brasil, diz, ainda tem o que mostrar, especialmente no campo das concessões em infraestrutura.

Doutor pela Universidade de Chicago, Levy encerra a entrevista incorporando ao discurso temas outrora pouco comuns ao mercado financeiro, como conectividade, sustentabilidade e inclusão. "Se tivermos esse modelinho, o mundo pode dar cambalhotas que o Brasil vai continuar navegando", afirma. "É isso que o investidor olha e diz, eu quero estar ali". A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Há cerca de dois anos falava-se em uma nova era de juros mais baixos, que mudaria a cara dos investimentos feitos no país, mas, recentemente, os juros voltaram a subir. O que aconteceu?

Joaquim Levy: Por razões domésticas, e também internacionais, estamos em um momento de subida de taxa de juros. Estudos que fizemos demonstram que parte da queda dos juros domésticos se explicava pela queda de juros globais. Essa queda de juros internacional já está mais ou menos programada para voltar, o que também é um bom sinal, de normalização da economia americana. Aqui no Brasil, o importante é a queda histórica [da taxa básica de juros] continuar. A ideia de que não teríamos mais ciclos não se mostrou exatamente realista. Há riscos, e hora em que isso aperta um pouco mais, hora que afrouxa. O importante é a tendência. O desafio é ver se as políticas domésticas no Brasil vão ajudar ou atrapalhar a moderação da taxa de juros.

Valor: Quais são essas políticas?

Levy: Tem a política fiscal, tem a questão da política de oferta. Desde o fim do ano passado, quando a taxa de juros estava chegando ao seu piso, o Banco Central vinha sendo bastante claro em dizer que o problema do Brasil não era mais de demanda, mas de oferta e a política dele seria pautada por essa percepção. Então, acho que temos que ter políticas de flexibilização da economia que incitem as pessoas a tomar mais risco, como, por exemplo, ter uma visibilidade fiscal cada vez mais importante
(...)

Valor: O que seria uma boa política de oferta? 

Levy: Vamos viver com o mercado de trabalho um pouco mais apertado, o que significa que são necessários ganhos de produtividade expressivos, ou vai ser difícil continuar a manter taxa de crescimento da renda muito alta. Isso pode acabar gerando inflação. Há um princípio muito básico que vale a pena ressaltar: a economia tem quatro fontes de "folga": os salários, o setor externo, o lucro das empresas e a produtividade. 

Para que os salários continuem crescendo precisamos de ganhos de produtividade. Se não existirem, dependeremos ou de uma deterioração da conta corrente, o que não é bom, ou de um aperto no lucro das empresas. Se isso ocorrer sistematicamente, as empresas param de investir. Logo, ganhos de produtividade são importantes para garantir o crescimento dos salários, já que as outras opções não são sustentáveis. E produtividade é uma politica de oferta.

"O investidor sabe que o Brasil tem todas as condições para navegar nem que seja com um pouquinho de vento contrário"

Valor: Nesse sentido avançamos muito pouco?

Levy: A gente pode mais. A infraestrutura é uma maneira de aumentar a produtividade da economia (...) o que é essencial para que os salários continuem crescendo sem pressão inflacionária.

Valor: O governo está no caminho certo?

Levy: Tem todo um esforço nesse sentido. Não é uma tarefa fácil ter que simplificar os seus objetivos. Mas qualquer engenheiro ou matemático sabe que, ao se traçar muitos objetivos com muitas restrições, a equação pode ficar sem uma raiz. Acho que alguns movimentos, como essa questão do BNDES dar mais espaço para infraestrutura e para instrumentos de financiamento de infraestrutura, com as famosas debêntures, são passos importantes. Tem que ver a velocidade desses passos. O mercado de capitais brasileiro está aumentando e estamos apostando bastante nessa história de debêntures de infraestrutura. Para financiamentos, vamos precisar de inflação na meta e tudo, mas acho que é um mercado que vai deslanchar.

Valor: Olhando para a economia hoje, o que preocupa mais, as pressões inflacionárias, o crescimento baixo ou a política fiscal?

Levy: Acho que temos perspectivas positivas nas três áreas. A preocupação de a inflação ultrapassar o teto da meta é menor do que no passado. Por outro lado, uma inflação de 6% ou 6,5%, acho que todo mundo concorda, é uma inflação bastante alta (...) essa discussão de trazer a inflação para mais próximo da meta e, eventualmente, trazer a meta um pouco mais para baixo parece firula teórica, mas não é. É um ingrediente para baixar as taxas de juros reais, que são importantes para ter investimento de longo prazo. E isso vale tanto o investidor de uma NTN-B [título indexado à inflação] quanto para aquele que vai desenhar o financiamento de uma fábrica.

Valor: E temos outros desafios também, como um taxa de poupança muito baixa...

Levy: A China é um país de inflação baixa. Por quê? Uma das razões é que o país tem poupança. O Brasil precisa aumentar a sua taxa de poupança. O problema é que muitas vezes as pessoas descobrem que, para aumentar a taxa de poupança, é preciso consumir menos. O investimento cresceu mais que o consumo, é fato. Mas boa parte do investimento foi financiado pela conta externa. E à medida que a conta externa não pode continuar crescendo vai ser preciso outro meio para aumentar a poupança. Ao mesmo tempo, é preciso entender também que, no momento em que se dá maior estabilidade, as pessoas poupam mais (...)

Valor: A questão fiscal é preocupante? Os últimos números apontam uma economia para pagamento de juros ainda menor.

Levy: (...) O Brasil está em perigo à beira do abismo? Acho que não está. Mas qual é, afinal, o objetivo fiscal do governo? É diminuir a dívida? Ou é imprimir uma trajetória para o gasto corrente? Algo que dê uma visibilidade de três, quatro, cinco anos. Acho que isso é o mais importante. Qual é o objetivo para os próximos três anos? Não precisa ser o superávit primário, pode ser outra métrica. Mas tem que ter uma explicação, do tipo essa é a métrica que eu acho importante, e os motivos pelos quais ela é importante, e quais vantagens trará.

Valor: Corremos o risco de ver o rating do país rebaixado em razão da política fiscal?

Levy: Acho que a gente não tem motivo nenhum para ter rating rebaixado (...) O papo tem que ser o que fazer para aumentar o rating. E é um papo de sociedade, não só de governo, mas Congresso, economistas e diálogo com as próprias agências. Acho que, comparados com alguns países, estamos bem. Por exemplo, a Polônia tem rating A, uma dívida que não é tão melhor do que a nossa, mas fica ao lado da Alemanha, o que pode ajudar. Esse é o papo legal. Brasil é isso, é ir para frente. Quando converso com investidores, é o que querem ouvir.

Valor: O humor desses investidores deu uma melhorada?

Levy: O investidor tem convicção que o Brasil tem coisas muito boas e que se a gente não cometer equívocos, essas coisas vão continuar produzindo resultados. O investidor talvez tenha percebido que, mais uma vez, se a gente se antecipar a certos movimentos, como o Banco Central fez recentemente, tem condições de navegar um eventual aperto monetário com relativa segurança. Pode chacoalhar um pouquinho, aderna, mas não emborca. (...) Quando o investidor olha outros países emergentes, sabe que o Brasil tem todas as condições para navegar nem que seja com um pouquinho de vento contrário, como a alta dos juros internacionais.

Valor: Além da alta dos juros lá fora, quais são os principais riscos que podem atingir o Brasil no ano que vem?

Levy: Quando o mundo se normaliza, a gente deixa de ser a única atração da cidade. Mas a gente ainda tem um showzinho bacana. E se continuar treinando bem, desenvolvendo alguns quadros novos, continuaremos como atração bacana. A questão global é que é um mundo competitivo, temos que estar nos fortalecendo. À medida que infraestrutura continuar avançando isso dá sinalizações muito importantes para o investidor (...)
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Aqui, o ‘ pito’ não nominado, dirigido ao governo e a Joaquim Levy, postado no blog do Valor, ‘Casa das Caldeiras’.

Casa das Caldeiras 
Site do Valor Econômico 06-11-2013

“Deterioração de expectativa é mais inflação e juro com PIB menor

A antecipação do calendário eleitoral antecipou também a exaustão dos espectadores com a reprise de provocações e declarações de boa intenção para o futuro governo que, de novidade, os virtuais candidatos à Presidência da República têm pouco a apresentar no momento. Pior, a antecipação do calendário eleitoral ante resultados que o governo Dilma Rousseff tem dificuldade em entregar está fazendo um estrago nas expectativas e indicadores econômicos e financeiros. A incerteza quanto à economia que o governo pretende fazer para sinalizar o pagamento de juros da dívida, equivalente ao superávit primário, não coloca o país num quadro de insolvência, mas vem minando fundamentos. E negar essa evidência é um erro. É conspirar contra os acertos.

A deterioração fiscal e a projeção para a inflação ao final de doze meses, instalada no patamar de 6,2% desde o início de setembro, tornam-se poderosas alavancas para as taxas de juros, que, no mercado futuro, já sinalizam Taxa Selic de 12,75% ao ano em 2015, permanecendo nesse patamar nos anos seguintes. A arrancada do dólar frente ao real, com essa dupla encostada em R$ 2,30 e alta de 7% em quinze dias, pode sinalizar tudo, menos um futuro tranquilo para qualquer governo – venha de onde vier o presidente.

“Supor que o ambiente em que estamos vivendo neste momento não afeta ou não afetará o Brasil é um equívoco. De cara, os juros estão nas máximas alcançadas neste ano e isso significa, no mínimo, custo de financiamento mais caro para o Tesouro Nacional e para tomadores de crédito de prazo mais longo. É inegável que a piora dos indicadores e das expectativas estão agendando por bom tempo juro alto, inflação alta e baixo crescimento. Neste ano, sabemos que a agricultura e os investimentos darão fôlego à atividade. E no ano que vem? Como ficamos no ano que vem, com a desconfiança crescente entre financiadores e potenciais investidores no país. E não só financeiros?”, pergunta, e não aguarda resposta, o experiente executivo de uma instituição financeira nacional”.

A volta do terrorismo financeiro


Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

A manchete principal da Folha de S. Paulo de ontem é importante menos pelas conclusões – incorretas – mais por demonstrar os riscos para a economia dos velhos vícios da cobertura jornalística, de politizar de forma acrítica os temas financeiros.

A manchete principal, bombástica, tratava da elevação do dólar. 

Foi uma alta pontual, de 1,95%, refletindo um movimento internacional de valorização do dólar em função da divulgação de indicadores da economia norte-americana. Um fato interno adicionou um pouco de caldo à especulação: artigo do ex-Ministro Delfim Netto alertando para os riscos de um rebaixamento na classificação do Brasil pelas agências de risco.

Foi apenas um alerta endereçado aos senadores sobre a temeridade de aprovar o orçamento impositivo – pelo qual o governo seria obrigado a honras todas as emendas parlamentares.

A manchete da Folha, no entanto, colocava em xeque a credibilidade de toda política econômica: “Desconfiança no governo Dilma faz dólar ter forte alta”. Na matéria interna, falava-se em “disparada” do dólar e dizia-se que era a maior alta desde... 6 de setembro – período de tempo ridículo.

No mesmo dia, o jornal “Valor Econômico”, na matéria “Menos é Mais” com gestores de fundos, informava que nenhum se arrisca a apostar no dólar. Perderam muito nos últimos meses com a reversão da alta do dólar. “O primeiro baque para os multimercados, diz, veio em maio, com a quebra da expectativa de que o governo seria mais leniente com a inflação”.

Principal porta-voz do Mercado, Armínio Fraga recuou na exposição ao dólar: “A Gávea optou por reduzir o tamanho das posições e diversificar bem a alocação nas três principais classes de ativos que compõem a carteira (moedas, juros e bolsa), em função das incertezas no curto prazo”.

Ora, a gestão fiscal do governo tem produzido curtos-circuitos, sim. A presidente Dilma Rousseff mantem em postos-chave – na Fazenda e na Secretaria do Tesouro – pessoas tecnicamente fracas. Tem-se, em ambos, um prato cheio para críticas consistentes. São fracos, mas não são temerários. Quando o calo aperta, recuam, como todo ser racional.

Tome-se o informe econômico do Banco Itaú, divulgado ontem, sobre a política fiscal.

Constata que o mero risco de piora da classificação de risco do País já produziu ajustes de rumo.

Por isso mesmo, o Itaú aumentou sua previsão de superávit fiscal primário em 2014 de 1,1% para 1,3% do PIB; projetou menor crescimento das despesas de custeio para os próximos anos, manteve a projeção de taxa de câmbio de R$ 2,35 para o final de 2013 e de R$ 2,45 para 2014; constatou a gradual recuperação das receitas tributárias, a desaceleração dos estímulos para fiscais e dos aportes de recursos do Tesouro aos bancos oficiais.

Se o maior banco privado brasileiro aposta em recomposição fiscal, que “mercado” é esse ao qual a Folha se refere?

A intenção clara de parte da imprensa é apostar tudo ou nada no caos, única circunstância capaz de viabilizar a candidatura moribunda de José Serra – visto por alguns veículos como tábua de salvação.

Trata-se de um caso clássico de marcha da insensatez.