Do Blog de Luis Nassif
Autor: Weden
Nas últimas semanas, o livro de Amaury Ribeiro Jr., A Privataria Tucana, foi comemorado por petistas e anti-tucanos como o tiro de misericórdia nas pretensões do PSDB de voltar a ser um partido hegemônico no país. Lembra-nos o acontecimento midiático do "mensalão" e a certeza de que o PT chegara ao fim.
É evidente que o trabalho jornalístico não ganhou enorme repercussão via rede somente por um efeito de torcida partidária (como tentam desmerecer os detratores da obra). Muita gente qualificada se irritou com o silêndio da grande imprensa ou aderiu á leitura, porque esperava do livro o esclarecimento de fatos importantes de nossa história.
Podemos adiantar que Amaury cumpre bem este papel.
Mas, com o tempo, a interpretação dominante foi que o livro se transformara numa arma letal contra o PSDB. Tanto que jornalistas da grande mídia alinhados com o tucanato, depois de bravo silêncio, tiveram que sair às ruas para desqualificar o trabalho de reportagem investigativa realizado pelo premiado repórter.
Tanto um lado - o dos que comemoram - quanto o outro - os que agem na defensiva - podem estar esquecendo de um pequeno detalhe: na História, não há relações mecânicas, que nos permitiriam tanta previsibilidade.
Que tal desnaturalizar a interpretação hegemônica, mostrando outras possíveis leituras do livro? Trata-se de um exercício de leitura crítica e não de uma convicção, evidentemente.
Enumeramos cinco pontos que, se o partido quiser, podem ser vistos como grandes contribuições do livro para a refundação tucana.
1) Exorcismo: Se tiver boa vontade, o PSDB poderá usar o livro para exorcizar o fantasma de José Serra. O ex-governador de São Paulo alimenta uma estranha ilusão de que ele estaria para o seu partido como Lula esteve para o PT. Ora, por muito tempo o Partido dos Trabalhadores funcionou como aquele time de um só craque que jogava para municiar o artilheiro predestinado. Mas isso sempre foi natural no PT.
É muita pretensão de Serra pensar que o PSDB deva rduzir-se ao seu desejo pessoal de chegada à Presidência. O peso do eterno candidato paulista dentro do partido foi considerável - hoje apenas um fardo - mas por circunstâncias momentâneas. Nem era "o candidato natural" em 2002, quando perdeu para Lula, nem o fora em 2006, quando perdeu a candidatura para Alckimin (sim, ele "perdeu"!). Até se pode cogitar que seria ele o candidato natural para 2010, mas isto não era um consenso sequer no partido.
Serra consegue se impor por meio de sua vinculação com o maior estado da Federação, e pelas armas bem conhecidas, materializadas em ameaças, dossiês, estratégias de desagregação e fortes vínculos com os grupos de mídia que o apoiam. Ou seja, se Serra não estivesse em São Paulo, ou não contasse com uma forte mídia - e com um forte aparato subterrâneo - nada seria.
O livro traz muita munição para que o PSDB se livre de Serra; se houver mentes um pouco mais pensantes no partido, não ficará difícil exorcizar este fantasma.
2. Superação do Moralismo: O PSDB viu no moralismo sua única bandeira desde que o PT chegou à Presidência. Isso porque boa parte das suas convicções sociais-democratas foram deixadas pelo caminho, durante o governo FHC. Ora, o PT apropriou-se de bandeiras importantes da social-democracia mundial - como a renda mínima, o estado de bem-estar social, - e ainda adicionou outras, como o forte apelo de reafirmação política internacional. Ao fazer oposição sistemática a tudo que vinha dando certo no governo Lula, o PSDB acabou se reduzindo a uma espécie de filho temporâo da UDN, o que, evidentemente, nunca daria certo (toda sua campanha sempre se voltou contra a política como um todo, o que reforçou o peso das decisões economicistas de cada eleitor).
Com a divulgação em nível massivo dos desvios de conduta, dos exercícios de clientelismo, do descuido com o bem público por parte do partido, é evidente que aquela bandeira não poderá ser sustentada. Cabe ao PSDB propor um programa político sério, orgânico, alternativo ao que temos hoje, e não apostar somente na esperança de uma "crise política derradeira" que destituísse o governo atual. Já está mais que provado que o "cepeísmo", ao que ficou relegado o papel do PSDB (e do DEM) é muito pouco produtivo para pretensões eleitorais.
3. Destituição de convicções neoliberais: De forma anacrônica, o PSDB ainda defende bandeiras que nem conservadores europeus ou americanos têm tanta certeza de defender. Hoje, em plena crise do financismo mundial, que conta com ampla desaprovação popular, a situação do partido parece muito com aquela das agremiações de esquerda que ficaram sem pai nem mãe com o colapso dos regimes socialistas do Leste Europeu.
Ora, o PSDB precisa de um programa econômico, que seja fruto de um pensamento pós-neoliberal, o que não representa necessariamente que tenha que voltar aos antigos ideias sociais-democratas.
A face mais perversa do neoliberalismo à brasileira foi exposta no livro, e o PSDB deve encarar isso como um alerta sobre que caminho deve tomar daqui em diante.
4. Renovação de quadros: Os tucanos, com exceção do grupo de Serra, não foram atingidos em sua totalidade Aliás, a grande maioria passou ilesa pelo livro. Ou, numa outra leitura, podemos dizer que o que saiu prejudicado no livro foi o time dos caciques tradicionais, centralizadores, absolutamente avessos à renovação do pensamento no partido. Novos nomes do PSDB podem surgir, outros que estavam à sombra, por imposições serristas, podem reaparecer, revigorados sem o fardo de ter que dar explicações ou temer o submundo do ex-governador paulista ou as imposições da cúpula histórica.
Para isso, os novos nomes tucanos devem perceber que o que afunda é o submundo serrista e o anacronismo e não o partido como um todo, apesar da torcida dos adversários. Como numa "primavera tucana", o PSDB pode passar por uma reconfiguração importante em sua cúpula, que faça dele um partido mais plural, menos envelhecido, mais dinâmico, menos autocrático.
O livro representa o fim das pretensões serristas, ou, se muito, o fim da velha geração tucana, e é isso que os jovens devem perceber.
5. Transferência da bomba: O livro, num primeiro momento, parece ser fatal para o PSDB. Não é. E parece trazer maus agouros somente para o tucanato. Não traz.
O governo petista preferiu, por infelicidade de muitos, assumir parte do espólio: o pouco esforço para salvar a operação Satiagraha da forte campanha de difamação contra um delegado e um juiz abnegados mostrou o quanto são confusas as dinâmicas partidárias, para além da ingenuidade dos militantes.
A decepção expressa por muitos petistas foi ainda maior quando o governo passado contribuiu claramente para o fortalecimento de um complexo telefônico que está no centro dos malfeitos da privataria.
O PSDB tem toda a chance de usar estes dois momentos infelizes do governo passado como exemplo de que, se alguém inventou o caldo da privataria, muita gente além dele lambeu os beiços.
Assim o livro de Amaury pode ser lido como o início do fim do tucanato, ou, quem sabe, como, enfim, a grande chance de um recomeço.
Negar as provas do livro, não dá. Que tal provar que é possível pensar?