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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Holandesa de Suape doou R$ 1,9 milhão ao PSB em 2010. R$ 2,5 mi em 2012. E só ao PSB…



Por Fernando Brito, no Tijolaço

A nossa mídia gosta de associar doações eleitorais – legais e declaradas – a favores políticos prestados por governantes, o que, embora não permita conclusões, é usado com o inequívoco objetivo de lançar suspeitas. Agora mesmo o UOL está fazendo isso com uma das empreiteiras acusadas de ter negócios com Paulo Roberto Costa, que fez doações ao PT, mas também ao PSDB. Como fez, em 2010, ao PSB.

Então, no seu furor investigativo, porque é que nossos diligentes investigadores não retrocedem um pouco e verificam que, em 2010, a empresa holandesa Van Oord fez duas únicas doações, somando R$ 1,9 milhão, ao Diretório Nacional do PSB?

Com esse valor, a Van Oord foi a maior doadora da campanha do partido, excetuando-se as grandes empreiteiras Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão.

A doação – dividida em partes de R$ 1,8 milhão da Van Oord Operações Marítimas e R$ 100 mil da Van Oord Dragagens, para respeitar o limite legal de 2% do faturamento bruto – foi feita em 2 de setembro de 2010.

E o Diretório Nacional do PSB foi a maior fonte de recursos da campanha de Campos, com R$ 8,5 milhões dos R$ 13,8 milhões declarados como receita da candidatura a governador.

No ano seguinte, os holandeses festejavam, na página da empresa, terem vencido dois contratos com o Porto de Suape, no valor total de 165 milhões de Euros (ou R$ 450 milhões, aproximadamente).

Veja aí em cima a reprodução do site da Van Oord.

Em 2012 a holandesa fez mais uma única doação, e ainda maior: R$ 2,5 milhões para o Diretório Nacional do PSB, dominado por Eduardo Campos.

Foram estes contratos que, pela recusa do Governo Federal em continuar repassando valores considerados muito altos para o serviço, produziram a encrenca descrita ontem aqui entre Eduardo Campos e o Governo Dilma.

Mas isso não se investiga, porque a “nova política” é acima de qualquer suspeita, não é?

sábado, 6 de setembro de 2014

Aécio, Marina e a delação premiada



Por Antônio de Souza, no blog Viomundo:

Tudo indica que a delação premiada de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, é uma operação casada que envolve setores da Polícia Federal, que vazaram as informações, os tucanos e a velha mídia.

Para entender o está acontecendo neste momento é preciso voltar um pouco no tempo.

Com o intuito de detonar a reeleição de Dilma Rousseff, a candidata do PT à Presidência da República, a mídia insuflou exaustivamente a candidatura de Marina Silva, do PSB.

Só que o movimento midiático pró-Marina acabou sendo um tiro no pé da própria mídia. É que fragilizou demais o seu candidato preferencial, Aécio Neves, e o próprio PSDB. Está trazendo danos sérios às campanhas tucanas não apenas em Minas Gerais - lá Aécio está em terceiro lugar - mas também no Brasil. As bancadas do PSDB nas assembleias estaduais e na Câmara dos Deputados correm o risco de minguar muito, transformando a sigla num partido nanico.

Associa-se a isso o fato de Marina apresentar baixa possibilidade de sustentabilidade política e se negar a fazer acordos políticos.

O movimento da mídia está transparente no discurso de Aécio, que fala em PT 1 e PT 2, que seria a candidatura Marina.

A denúncia da Operação Lava Jato atinge o governo, fato, aliás, já sabido. Mas a novidade é que o pai da “nova política” aparece citado: Eduardo Campos.

As relações de Campos com Paulo Roberto Costa são antigas.


Isso é importante porque ajuda a jogar luz na história do avião de Campos.

Reportagem da Folha de S. Paulo dessa sexta-feira mostra que empresas que pagaram o avião do falecido governador de Pernambuco tiveram relação com o esquema do doleiro Alberto Youssef.

Diante dessas revelações, fica no ar que Aécio já sabe que poderá surgir o pedido de cassação da candidatura de Marina a qualquer momento antes das eleições.

Além disso, soma-se a preocupação do governador Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à reeleição, de evitar um segundo turno, especialmente devido ao crescimento natural das candidaturas de Alexandre Padilha (PT) e Paulo Skaf (PMDB).

Alckmin e a grande imprensa perceberam que o discurso do “vamos mudar tudo” pode ter impacto nas campanhas estaduais e fazer com que o PSDB paulista e o mineiro também sejam varridos nesse movimento.

Esse conjunto de fatores ajuda a compreender por que o tradicional denuncismo da mídia há 15 dias, uma semana antes da eleição, foi antecipado. Até porque sem fato novo a candidatura de Aécio definhava a olhos vistos. Havia o recado de que se esse cenário não mudasse 15 dias antes da eleição a candidatura tucana poderia virar pó.

Pior ainda para a direita que com a força de Dilma e do PT ainda preservada, conseguindo eleger bancadas de peso, associada ao possível enfraquecimento tucano, levaria Marina a negociar com o PT para ter governabilidade

Aparentemente, a mídia, ao constatar o tiro que desferir no seu próprio pé, começa a tentar fazer o caminho de volta.

Dessa maneira, o alvo agora também é Marina. Teremos um final de campanha arrepiante.

PS: Curiosamente, a mídia não publicou até o momento a relação completa dos parlamentares delatados talvez para preservar alguns aliados seus.

Lembro aqui as relações entre Luiz Argolo, do partido Solidariedade, que aparecia em negociações com o ex-delegado e deputado federal Fernando Francischini, também do Solidariedade (ex-PSDB). Franchiscini, além de ser um dos canais de vazamento da Operação Lava Jato da Polícia Federal, é citado nela. Argolo, por sua vez, é acusado de ser sócio do doleiro Alberto Yousseff. Ou seja, Francischini, o acusador-mor, pode estar envolvido em todo este esquema.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O que vimos no último domingo foi tudo, menos velório




A política no velório de Eduardo Campos

Por Urariano Mota, no Viomundo

No último domingo, enquanto assistia à missa no velório de Eduardo Campos, anotei em uma folha dobrada:

Lula é o cara. Quebrou as vaias, as lanças e hostilidade que se levantaram contra Dilma. Lula pegou Miguelzinho, o bebê órfão, dos braços de Renata. E fala com ela, a ela. Atrás dele, Serra faz uma cara de quem mastiga o insuportável. A cara de Serra, atrás de Lula, me lembrou uma lição da cartilha do ABC na infância: “Paulinho mastigou pimenta…”. Luiz Carlos Azenha me falaria depois, quando o encontrei por acaso em meio à Ponte Buarque de Macedo: “a Globo News mostrou somente a cara de Serra”.

Mas a cara no velório foi outra. Lula roubou a cena das mãos da selvageria, da claque formada que investiu contra Dilma. Acima do pós-doutorado em política e relações humanas, esse homem do interior de Pernambuco tem a dignidade dos que se defendem com o povo. Sem pompa, é autoridade pelo que de brasileiro deserdado ele possui. Quando encontrei Azenha na ponte, nem lembrei dos versos de Augusto dos Anjos, no poema As Cismas do Destino, que recupero agora:

“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!”

Medo sentimos pela onda de conservadorismo que se levanta. Quando o arcebispo de Olinda e Recife rezou na missa em frente ao palácio do governo a frase: “Aceita, Senhor, o nossa sacrifício”, uma jovem devota a meu lado, enquanto comia um potinho de doce de banana, repetia com ele: “Senhor, aceita o nosso sacrifício”. E comia. Faz mal à gente o mundanismo reles, naquele instante e lugar. O que meu íntimo censurava, notei depois, foi o comportamento vulgar da ausência absoluta de respeito aos mortos. A jovem que comia docinho repetia a visão do palco da missa, quero dizer, do púlpito, quero dizer, das autoridades e alguns íntimos do falecido adiante. Ela traduzia o grande mundo à altura das suas posses. A liturgia da morte foi quebrada, dentro e fora do cercado em frente ao Palácio do Campo das Princesas.

Na missa, o arcebispo Dom Fernando Saburido falava em ressurreição.

“Como disse o apóstolo Paulo, na segunda leitura: como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão…. E o mais bonito, meus irmãos e irmãs, é que todos os que creem em Jesus reviverão, não somente depois da morte, mas desde o instante em que acreditamos na sua Palavra”.

Na Praça da República, no Recife, o que se interpretava de tais palavras era mais carnal. De fato, no contexto armado do show cujo mote era uma tragédia, entre os telões com os atores políticos e pessoas com bandeiras eleitorais, do PSB e de Marina Silva a ressurreição falava mais perto à terra. E aqui, nem vamos lembrar, porque herético, demolidor, o sentido que deu à palavra o romance Ressureição, de Tolstói. Porque o significado era mais simples e baixo, nas condições do show eleitoral criado em torno da missa: a ressurreição era para Marina Silva.

Por isso o encontro com Luiz Carlos Azenha, na ponte Buarque de Macedo, foi mais respeitoso e aberto, quando lhe disse: “A gente fala no diabo e você aparece”. Ao que ele me respondeu: “E eu sou filho do capeta”.

É muito bom encontrar pessoas, repórteres honestos, corajosos, à margem da bênção eleitoral. Então lhe falei que Lula roubou a cena, inverteu o sentido das vaias com o gesto de agasalhar em seus braços o bebê Miguel. Menos para as imagens na televisão, onde apareceu a brilhante calvície de Serra. E lhe falei que me preocupava a pregação das qualidades de Eduardo Campos em que avulta o amor à família cristã. Para mim, para mais de 90% dos brasileiros que não nos formamos em famílias sólidas, de avós, pai, mãe e filhinhos harmonizados, isso é o mesmo que um escárnio. Suavizado, é claro, pela doce luz do evangelho.

Por que em lugar de uma pregação de valores humanos que abriguem a realidade vivida pela maioria dos brasileiros, por que se faz uma construção piegas, e falsa, por extensão? Será mesmo assim tão importante ser família no sentido mais burguês da palavra, não ter falhas, somente filhos, amar o lar doce lar, último reduto contra a tempestade do mundo? Então somos obrigados a ver Jarbas Vasconcelos elogiar o respeito à família em Eduardo, ao mesmo tempo que nem devemos lembrar a última “namorada” de Jarbas ser capa da Playboy. Faz parte da hipocrisia eleitoral, que em vez da homenagem que o vício paga à virtude, é substância mais grosseira: a destruição da lembrança da orgia da última noite.

Pensando melhor, o que vimos nesse último domingo foi tudo, menos um velório. Chamem-no de evento, espetáculo, oportunismo, desrespeito aos mortos, insensibilidade à tragédia, surfismo eleitoral.

“Nós temos família e sabemos o quanto é importante uma família feliz. Ontem, por coincidência, foi o encerramento da Semana Nacional da Família, cujo tema para reflexão neste ano de 2014 foi A espiritualidade cristã na família: um casamento que dá certo. Ou seja, tudo a ver com a família que Eduardo e Renata procuraram constituir e que viveram na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e que agora continua tão firme e estável como antes, na saudade e no amor que não morre”, assim falou o arcebispo Dom Saburido.

Prefiro os versos de Augusto dos Anjos, ao subir a ponte Buarque de Macedo:

“Mas a Terra negava-me o equilíbrio…
Na Natureza, uma mulher de luto
Cantava, espiando as árvores sem fruto,
A canção prostituta do ludíbrio!”

Depois do último domingo, sabemos que a mulher de luto é Marina Silva. Há um tom profético em toda poesia.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A morte de Campos e os urubus em busca de carniça






Por Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo


Ninguém nunca perdeu dinheiro por subestimar a inteligência das pessoas, mas a tragédia com Eduardo Campos trouxe do lixo manifestações que ultrapassam qualquer limite, se limite houvesse.

Na sexta, Dilma sancionou uma lei que protege o sigilo de dados das caixas-pretas de aviões, bem como as informações voluntárias de testemunhas de investigações. A legislação foi proposta pela Aeronáutica em 2007, após a crise aérea desencadeada pelos acidentes da Gol e da Tam.

Confirmada a morte do candidato, a turma que bate em golpe comunista, bolivarianismo e boitatá juntou os pontos e viu uma ligação entre a sanção presidencial e a queda da aeronave.

Enquanto a teoria conspiratória vicejava, a corja aproveitava para chafurdar mais fundo no oportunismo.

Um pastor chamado Daniel Vieira, de um certo Congresso dos Gideões Missionários da Última Hora, ligado a Silas Malafaia, cravou nas redes sociais: “Morre Eduardo Campos, candidato a presidente. Hoje são 13 [sic], numero do PT. Deveria ter levado a DILMA!”. Apagou em seguida, com um pedido de desculpas ignóbil.

Mas poucos conseguem superar Daniela Schwery, eterna “candidata” a qualquer cargo no PSDB em São Paulo (atualmente, a deputada estadual). Troladora oficial do partido, uma espécie de Tiririca fascista, sua única bandeira e missão de vida é ser antipetralha, “antiesquerdopata” e quejandos. Entre suas propostas, listadas em seu site oficial, está a de transformar o Instituto Lula em abrigo para mendigos.

Ela habita um terreno pantanoso entre o deboche, a fraude e a psicopatia. Schwery conseguiu forjar um meme de Dilma Bolada (“Pra descer todo santos ajuda”) e então se pôs a despejar uma série de acusações. “PT em festa”; “Celso Daniel eliminado; Toninho do PT eliminado…”. (Aliás, Dilma Bolada, perfil criado pelo publicitário Jefferson Monteiro, também fez uma piada doentia com Aécio e o menino que teve o braço decepado por um tigre no Paraná).

Nenhuma mísera mensagem de condolência à família, um insight, qualquer coisa remotamente humana. É um caso espantoso de delinqüência partidária e iniquidade.

Quando não se esperava mais nada, Roger, do Ultraje, conseguiu novamente se superar, horas depois de chamar Marcelo Rubens Paiva de bosta e declarar que o pai do escritor, Rubens Paiva, morreu “defendendo o comunismo” (numa resposta a uma menção que Marcelo lhe fez numa palestra na Flip).

Desta vez, Roger foi profético: “Pronto, vai virar santo. E herói”. Têm sido — continuarão sendo — dias ricos em estupidez, maldade, paranóia e desumanidade.

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Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Como evitar o golpe das pesquisas






O blog do haroldo reproduz artigo do professor no site Brasil Debate:




O que os números das pesquisas eleitorais revelam


Ao contrário do que as manchetes da grande mídia afirmam, os números das intenções de voto, considerando as seis pesquisas feitas pelo Datafolha esse ano, é impressionantemente estático. Isso apesar do ataque sistemático sofrido pelo governo Dilma, acusado de má gestão, desmando e corrupção


A campanha eleitoral mal começou, mas as análises “meio copo vazio” de Dilma já frequentam a grande mídia há muito tempo. A publicação de pesquisa eleitoral feita pelo Datafolha no último dia 18 foi razão para mais uma enxurrada de leituras desse tipo. Se a comunicação social deve ter uma função pedagógica, é mister mostrar que os números exibidos dão base também a outras interpretações, pelo menos para que o leitor/eleitor possa comparar, pesar e julgar.

Comecemos pelos números das intenções de voto. O quadro geral que transparece, ao tomarmos como um todo as seis pesquisas eleitorais feitas pelo citado instituto, desde meados de fevereiro deste ano, é impressionantemente estático, ao contrário do que as manchetes dão a entender. Não houve mudanças significativas da última pesquisa, coletada nos dias 1 e 2 de julho, para a atual, coletada nos dias 15 e 16 de julho.

Tampouco da penúltima, ou da antepenúltima. Todos os candidatos mantiveram-se dentro da margem de erro, ainda que, há de se notar, o cálculo das margens de erro feito pelos institutos, de 2% a 4%, seja incerto, pois a pesquisa utiliza metodologia de cotas e não puramente probabilística.

Na verdade, ao tomarmos as seis pesquisas em conjunto, notamos que Dilma somente caiu nas intenções de voto, de 44% para 38%, da primeira pesquisa, 19 e 20 de fevereiro, para a segunda, 2 e 3 de abril. Desde então, a candidata tem se mantido em torno dessa marca.

Por seu turno, Aécio Neves somente subiu, de 16% para 20%, da segunda para a terceira pesquisas, feitas nos meses de abril e maio, respectivamente. Desde então tem se mantido estático nos 20%, pesquisa após pesquisa. Eduardo Campos parece, à primeira vista, o que mais variou, pois a curva de seu gráfico pelo menos se mexe, mas sempre dentro da margem de erro.
Começa a série com 9%, em fevereiro, e acaba com 8%, na última pesquisa.

O que esses dados querem dizer? Entre outras coisas, que as preferências dos eleitores não estão mudando rapidamente. Há certa expectativa ou paralisia do eleitorado, o que é compreensível, dado que, no primeiro semestre desse ano, a Copa do Mundo da FIFA ocupou grande parte do noticiário. Esses dados também revelam o tão comentado impacto da Copa do Mundo nas percepções políticas do eleitorado. Na verdade, mais correto seria falar em falta de impacto, pois o que se constata é que o evento não alterou as preferências dos eleitores frente aos candidatos.

Mas isso não se deu em um contexto neutro. Pelo contrário, a grande mídia moveu uma forte campanha contra a organização do evento, culpando o governo federal, quando não Dilma diretamente, por supostas falhas, atrasos, corrupção, promessas não cumpridas e má administração. Tal campanha negativa ecoou fortemente nas mídias internacionais, que também passaram a projetar expectativas de catástrofe para a Copa do Brasil. Esperava-se o fracasso e que esse fracasso fosse cobrado de Dilma.

A Copa foi, contudo, um sucesso, o que aparentemente cancelou os efeitos da campanha negativa da mídia sobre as intenções de voto em Dilma. Outro dado importante a se notar é a rejeição dos candidatos. Aqui, os jornais chamaram bastante atenção para o fato de Dilma ter um índice de rejeição, 35%, que é praticamente o dobro do de Aécio, 17%, e três vezes o de Eduardo Campos, 12%.

Novamente, a informação só vem pela metade, pois o índice de rejeição tem que ser pesado juntamente com o índice de conhecimento que o eleitorado tem do candidato, e esse dado não foi apresentado, ainda que saibamos que o de Dilma, pelo simples fato de ser presidente, é quase 100%, enquanto Aécio e Campos têm índices muito menores.

As conclusões a serem tiradas desse quadro são nada óbvias. Se as coisas continuam mais ou menos da maneira como estão, Dilma teria atingido o teto de sua rejeição, pois o eleitorado já a conhece e já tem alguma opinião formada sobre ela. Já Aécio e Campos têm um caminho pela frente. Ao se tornarem mais conhecidos certamente verão seus índices de rejeição também aumentarem.

Mais uma vez, precisamos levar em consideração o contexto informacional. Até o momento, o governo Dilma e o partido da presidente, o PT, têm sofrido um ataque sistemático da grande mídia, acusados de má gestão, desmando e corrupção, enquanto os candidatos da oposição são tratados de maneira bem mais leniente, quando não francamente simpática. Ou seja, com raríssimas exceções, tudo o que o público de eleitores recebe são notícias ruins sobre o governo, acrescidas de uma cobertura que pinta o País em franca crise econômica e política, a despeito de todas as evidências em contrário.

Compondo a situação, o governo federal tem tido dificuldade em comunicar ao eleitorado notícias positivas de sua gestão e do País como um todo. A despeito do bloqueio midiático, o governo tem em suas mãos instrumentos de comunicação, ainda que limitados, mas essas informações parecem não chegar à população. Talvez embevecido por suas seguidas vitórias eleitorais, o PT também parece ter aberto mão, desde o primeiro governo Lula, de cultivar meios de comunicação que constituam alternativas reais para o grande público. Em suma, do ponto de vista informacional, estamos no pior momento possível para a candidatura da situação.

Isso não quer dizer que as coisas vão necessariamente melhorar para Dilma. Em breve, contudo, sua candidatura terá no horário eleitoral gratuito, no qual contará com muito mais tempo que qualquer oponente, uma chance real de informar os eleitores e assim resistir à avalanche de propaganda negativa da qual é objeto.

É claro que os candidatos da oposição aumentarão o tom das críticas. O mesmo devemos esperar da grande mídia, que tende a repetir o comportamento extremamente militante das eleições passadas. Enfim, entramos no período abertamente político do calendário eleitoral, no qual as máximas maquiavelianas da virtude e da fortuna imperam. O resultado do pleito de 2014 está longe de estar determinado. Vamos ao jogo!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Os feitores do salário mínimo



Por Fernando Brito no "Tijolaço"

O editorial de O Globo sobre o salário-mínimo para o qual o Miguel do Rosário nos chama a atenção, não é uma cobrança aos candidatos de oposição à Dilma.

Até porque não é preciso cobrá-los.

Tanto Aécio Neves (em maio) quanto Eduardo Campos (em outubro) já se comprometeram a isso.

Mas é preciso traduzir na língua do povo o que querem dizer ao defender a desindexação do salário mínimo.

É simples: arrochar o salário.

Porque os argumentos, é claro, de que “o país precisa de menos mecanismos que projetem para frente a inflação do passado” não são para que se dê aumentos maiores que a inflação aos trabalhadores mais modestos e à imensa maioria dos aposentados e pensionistas.






Vocês acreditam neste sorriso?

O aumento do salário-mínimo, a continuar, será o desastre econômico, dizem eles.

Todos sabem que também se previu o desastre econômico com a abolição da escravatura, não é? Como os fazendeiros poderiam fazer frente ao custo de pagar àqueles negros, para que trabalhassem, se já tinham a senzala e os restos de comida a pesar na competitividade de nossos produtos?

Não vou aqui me perder em discussões sobre déficit público e sobre os ganhos reais que o salário-mínimo teve com Lula e Dilma.

Não é preciso, para que o povo o entenda.

Basta que se lhe diga que, para eles, o que tem de ser mudado é o aumento do salário-mínimo.

A aposentadoria, o bolsa-família, a pensão, o benefício aos inválidos.

É por isso que não perco meu tempo chamando a qualquer dos dois candidatos a feitor do povo brasileiro de “tolos” ou “playboys”.

Não são.

São monstros, que vendem o direito à dignidade de nossos irmãos pobres no mercado de suas ambições eleitorais, que vendem os brasileiros como se vendiam os negros cativos no mercado das praças.

Dez anos de governo progressista – e apenas sete de aumentos minimamente significativos no salário mínimo – e o pouco que fizemos já é, para eles, intolerável e ruinoso.

O canalha que emprestou sua mão para escrever o editorial de O Globo, capaz de dizer que um real de aumento do salário gera R$ 340 milhões por ano de despesa, no meu tempo merecia ser puxado pela orelha até uma mãe pobre, com suas crianças no modesto barraco, e ser mandado dizer isso a ela.

Esta mesma pena de aluguel não diz que, para os juros pagos à turma da grana alta, para os quais sempre defendem a indexação para cima, um mísero ponto percentual a mais custa 80 ou 90 vezes mais que aquele R$1 no salário.

Isto, meus caros amigos, é o que o povo tem de julgar, avaliar e decidir.

Se quer de novo um feitor ou se quer, lentamente, ir cumprindo a profecia do homem que instituiu o salário-mínimo como mísera garantia aos despossuídos de não seriam, nunca mais, escravos de ninguém.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eduardo Campos vendeu alma à oposição

Até agora, nem Aécio nem Campos conseguiram representar o novo












O embate de propostas alternativas é essencial para a normalização democrática e para uma campanha menos virulenta que o esgoto de 2010. Nesse sentido, publiquei um post sintetizando um ensaio de programa de Fernando Henrique Cardoso, em seu artigo dominical.

Enalteci a convergência de diagnósticos com o do governo Dilma Rousseff. É sinal de maturidade para o país. Mas também é o sinal mais eloquente da absoluta falta de propostas de FHC.

Como lembrou o leitor RVeiga, mais se assemelha a um CTRL-C CTRL-V: "Sem firmar posição própria, só com críticas gerentistas, aquelas restritas ao como fazer não ao que deve ser feito, por que raios deveria o eleitorado optar pelo discurso tucano se ele difere pouco do discurso petista ora no poder?".

Não é o único drama nem do PSDB nem do PSB.


Também Eduardo Campos centra sua crítica nas questões gerenciais. E ambos os candidatos – ele e Aécio Neves – enfrentam problemas sérios com a visão preponderantemente economicista de seus formuladores – Campos por conta da aliança com Marina Silva.

W K anotou bem a discrepância do discurso de FHC com os economistas do partido:

a) "Tivemos Ilan Goldfajn defendendo o desemprego",

b) "Samuel Pessôa pedindo a revisão da política de aumentos do salário mínimo",

c) "Edmar Bacha pregando redução drástica dos impostos de importação e eliminação de direitos trabalhistas."

As demais "vozes" do partido são o deputado Carlos Sampaio (que entrou com uma denúncia no TSE porque Dilma Rousseff estava usando vermelho em um pronunciamento), Sérgio Guerra e Roberto Freire. Fica difícil assim.

A dificuldade com a visão sistêmica

Assim como em uma empresa, a análise econômica vem depois do plano estratégico. Primeiro, os verdadeiros CEOs (e estadistas) definem os planos estratégicos, objetivos, metas etc., no caso dos países, o desenho do país que se pretende. O financeiro limita-se a fazer as contas para mostrar a viabilidade ou não das propostas.

A visão economicista foi preponderante enquanto o pais padecia com a hiperinflação. O economicismo puro perdeu legitimidade devido ao seu fracasso em promover crescimento, devido ao impacto das políticas sociais - não só de público mas de crítica, ao construir um mercado de consumo robusto - e devido ao sucesso do ativismo econômico para superar a crise de 2008.

Até hoje esse economicismo não incluiu a análise das externalidades nas políticas públicas: tudo se limita à análise imediatista de impactos fiscais.

O aumento do salário mínimo na Previdência permitiu que 55% dos aposentados e pensionistas se tornassem arrimo de família. Significou mais amparo aos filhos e netos, mais oportunidade de estudo, menos gastos com saúde e segurança.

As políticas sociais ampliaram o mercado de consumo de forma muito mais concreta e objetiva do que aquele papo de superávit primário de 3% para pagar os juros mais escorchantes do planeta, prometendo o pote de ouro do crescimento no final do arco-íris.

Agora o pêndulo inclinou-se muito para o lado distributivista e necessita de ajustes. Mas ajustes não significam mudança radical de rumo.

FHC tenta amenizar o discurso dos seus cabeções, ao enfatizar a manutenção dos gastos sociais. Mas o que diz não chega a meia proposta do que já existe.

O papel de Aécio e Campos


E aí se entra no papel de Aécio Neves e Eduardo Campos.

A partir do momento em que se consolidou não apenas como presidente do partido, mas como seu candidato a presidência da República, toda a responsabilidade pelas ideias e pela falta delas passa a ser de Aécio Neves. A falta de propostas do partido não será mais responsabilidade de FHC, mas de quem de fato assumiu o comando.

O único conforto trazido pelas pesquisas eleitorais, tanto para Aécio quanto para Campos, é que, embora Dilma continue franca favorita, há uma tendência maciça do eleitorado em querer mudanças.

Mas quem está perseguindo as mudanças?

Embora situação, o PT armou o Instituto Perseu Abramo com os melhores cérebros do partido, dirigidos pelo seu mais imaginoso quadro, Márcio Pochmann.

Já o PSDB usou o Instituto Teotônio Vilella para uma barganha interna, entregando-o ao ex-presidente do partido Sérgio Guerra. O ITV deveria abrigar um time de estudiosos chefiados por Luiz Paulo Vellozo Lucas, José Roberto Afonso, José Roberto Mendonça de Barros, Marcelo Garcia e Armínio Fraga, e de novos quadros intelectuais.

O PSB tinha o discurso desenvolvimentista-nacionalista de Roberto Amaral, no Instituto João Mangabeira. Podia-se criticar ou não. Mas com o casamento com Marina Silva entraram o discurso anti-desenvolvimento de André Lara Rezende, a filosofia liberal de Eduardo Gianetti da Fonseca e a personalidade ambígua da própria Marina, com seu ambientalismo anti-empresarial convivendo com o apoio de grandes grupos empresariais.

O resultado final foi a ausência de discurso. Fora essa dificuldade extrema de pretender representar o novo, necessitar de acordos políticos velhos para se viabilizar e enfrentar não apenas a cabeça-dura de Marina como da grande Luiza Erundina.

Pelo que se tem até agora, se for menos teimosa, Dilma Rousseff será um caso inédito da situação representando o novo.