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sábado, 29 de novembro de 2014

O avesso, do avesso do avesso

Sanduiche de Mortadela do Mercado Municipal


Desembarquei no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, por volta do meio dia de um domingo de sol, no início de novembro. Não conhecia e não queria conhecer São Paulo. Nem a música que mais adoro de Caetano Veloso (Sampa), que considero um hino a esta cidade mau vista (ao meu olhar), relaxava minha eterna vigilância contra esta metrópole em que as contradições sociais são mais aguçadas, mas, ao mesmo tempo, o reacionarismo é mais acentuado.
         E minha resistência ao paulistano e ao paulista estava à flor da pele. Estava na ressaca do resultado das eleições e das manifestações de uma direita radical, hidrófoba, despolitizada, capitaneada e apoiada por um sociólogo (FHC), pelo candidato do PSDB derrotado pela Dilma (Aécio Neves) e pelo seu vice, o ex-motorista de Carlos Marighela, esquerdista hoje envergando o capuz de uma direita sanguinária.
         E um diálogo à minha direita, enquanto aguardava surgir a bagagem nas engrenagens da esteira rolante, confirmava as minhas desconfianças em relação ao paulista e ao paulistano. Quase ao meu lado, estava um senhor meio calvo, aparentando mais de 60 anos e um jovem na faixa dos 25. Ambos bem vestidos, se bem que com a diferença das idades.  Num diálogo rápido em que os gestos valem mais do que palavras, o mais velho, com o dedo indicador, apontava e lia rapidamente os subtítulos da manchete da revista IstoÉ, com voz embargada.
         "Olhe o que eles são" bradava com o rosto avermelhado pela raiva que ia aumentando à medida que lia. A maneira quase apoplética com que balbuciava os subtítulos despertou minha curiosidade e fez com que me aproximasse para tentar compreender o que se passava e a quem era endereçada tanta raiva. Entendi de pronto. Era a Dilma, ao PT, aos nordestinos e a quem quer que tenha votado e derrotado, pela quarta vez o PSDB e também àqueles que proclamaram seu voto nulo, em branco ou se abstiveram.
         Para fechar minha triunfal chegada à cidade dos bandeirantes fui brindado com uma frase de apenas dez palavras do jovem que ouvia atentamente a pregação daquele senhor de tez branca: "Isso porque você não viu a capa da Revista Veja". A pouca bagagem minha, da mulher, da filha e do genro apareceram e minhas mãos tremiam enquanto a agarravam com sofreguidão porque achei que não deveria me envolver num bate-boca ao pisar em terras tão estranhas. Mas a vontade era a de guerrear.
         Pois é. Alguma coisa aconteceu em meu coração e eu, sequer, tinha cruzado a Ipiranga com a Avenida São João e, muito menos ainda, tinha desfilado meu charme baiano e nordestino pela estilosa Avenida Paulista, fonte de todas as manifestações de raiva, preconceito e discriminação social contra aqueles que defendem um governo progressista e o Estado Democrático de Direito que tanta ojeriza provoca à maioria dos paulistas e paulistanos.
         Pegamos o táxi e fomos para a Vila Mariana (onde mora meu filho caçula), bairro de classe média e boêmio de São Paulo. Termômetro, como dizem seus economistas, do pulsar da economia paulistana, paulista e, quiçá, brasileira. Lá, uma cerva gelada nos esperava e mais uma decepção: a derrota do Bahia para o Palmeiras, em plena Fonte Nova, início do calvário da degola da série A, para vergonha dos baianos independente das cores de seu coração.
         Oito dias depois, faço uma penitência: gostei de São Paulo. Gostei dos paulistanos. Continuo sem entender o resultado das eleições. Não houve, até este momento, uma análise fria, sem paixões deste fenômeno. Não, não apenas pelo resultado das urnas no segundo turno presidencial. Como explicar a vitória, em primeiro turno daquele que é chamado de "Picolé de xuxu", um político desprovido de carisma, de sorriso falso e de frases de efeito, claramente incompreensíveis, e envolvido no "trensalão" do PSDB.
         Como escreveu Emir Sader em seu blog, postado no site Carta Maior, em 23 deste mês, A derrota acachapante em São Paulo é a mais grave – pela sua dimensão e pela sua simbologia – entre todos os retrocessos da esquerda. Não basta explicações menores, como erros pontuais da esquerda, desempenho capital do Alckmin nas prefeituras, etc. etc. Nada disso, junto, explica o tamanho do revés, que revela uma hegemonia tucana no maior estado do Brasil, daquele com movimentos sociais com mais trajetória, com presença de dirigentes com grande trajetória política, no estado de maior luta de classes do país.

         Deve-se apelar, pra começar a Gramsci, para saber como foi possível que a direita organiza-se uma hegemonia tão sólida ao longo de duas décadas no estado que o maior nível de contradições de classe do Brasil. Análises concretas – sociais e culturais, além das políticas – são essenciais para dar conta de um fenômeno dessa proporção. E, claro, análise do PT, como partido.!.

         Deixemos os analistasSingrei, como um navegante em mar aberto, em busca de um porto. Atravessei São Paulo: da Avenida Alcântara, à Rua Oriente com a Maria Marcolina; da Avenida Paulista, à 25 de Março; da Liberdade, à Rua José Paulino, no Bom Retiro. E, claro, não podia faltar o Mercado Municipal para aproveitar a gula de um dia de andanças e tentar desfrutar, como fazem muitos paulistanos gordinhos e apressados, e comer o sanduiche de mortadela ao preço exorbitante de R$ 23,00 ou o pastel gigante, suficiente, cada, para duas ou três pessoas.
         Quem pensa que baiano vive de festa e que paulista não se diverte, só trabalha, se engana. Difícil uma vaga, em plena quarta-feira num de seus bares e restaurantes. A fila de espera é tão grande que os garçons, piedosamente, servem chope gelado enquanto todos aguardam sua vez de se entupirem de um sanduiche de mortadela de mais de dez centímetros de altura. Eles comem, engordam, mas se divertem. Mas conheci parte de seu povo.
         Sim, nordestinos de todas as cores, chineses coreanos, bolivianos. Uma infinidade de nacionalidades nascidos ou chegados. "Desceeeeu!!!!. Subiu!!!! Gritam os camelôs, interrompendo sua propaganda na Ladeira Porto Geral à aproximação da Polícia Cosme e Damião. É o sinal para se afastarem, guardarem as mercadorias expostas em caixas de papelão improvisadas.
         Entre eles, serpenteia todo o tipo de gente. Desde madames bem vestidas a mulheres e homens do povo, segurando filhos pela mão ou carrinhos onde acondicionam as mercadorias compradas em lojas populares e a preços só encontrados nessas áreas. Se algum analista quer saber do pulsar da economia paulista e paulistana deve perder a pose e descer a Ladeira do Porto Geral, desembocar na 25 de Março e esquecer a Vila Mariana. Porque esta é a economia macro. Na outra, é uma pequena parcela da classe média que desfila nos finais de semana. Na Ladeira, é a semana, por inteiro.
         Foi com este povo paulista e paulistano que convivi um pouco mais de sete dias. Sem perguntar-lhes absolutamente nada. Apenas observava, ouvia e sentia seu pulsar. A eleição acabara. Eles venceram e voltaram às ruas. A maioria para comprar. Outros, para negociar. À tardezinha, começavam a recolher suas mercadorias expostas em carrinhos, postos em passeios largos, que não prejudicam o comércio local. Dá prazer assistir a destreza com que, em poucos minutos, escondem, num intrincado jogo de esconde/esconde, uma variedade de mercadorias e arrastam seus carrinhos para depósitos, onde ficam guardados à noite.
         Pela manhã, retomam sua rotineira vida de trabalho. Entre uma venda e outra, discutem do Campeonato Nacional às notícias da Delação Premiada que atingem em cheio, políticos, empresários e alguns dirigentes da Petrobras. Tomam partido, mas não seguem as manchetes de revistas e jornais. Todo mundo é culpado. Para eles, terceiro turno, impeachment, corrupção, passeatas, golpes militares é para quem não tem o que fazer.
            Eu, após estes oito dias, revi meus conceitos. Vi São Paulo, os paulistas e paulistanos no comércio da Liberdade (a nossa), da Baixa dos Sapateiros, do Comércio, do Uruguai, do Tabuão. Mas vi também São Paulo do Rio Vermelho, do Mercado Modelo, da Tancredo Neves. O que não vi foi a São Paulo das manchetes, dos quatrocentões e, muito menos, a São Paulo da divisão. Esta vive em guetos que, vez em quando, é chamada e incentivada a agir pelo outro gueto: uma imprensa golpista que teima em não esquecer 54 e 64.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Manifesto de Marina por Aécio: ignorância, rancor e má-fé




Por Igor Felippe, no Escrevinhador


Votarei em Aécio e o apoiarei, votando nesses compromissos, dando um crédito de confiança à sinceridade de propósitos do candidato e de seu partido e, principalmente, entregando à sociedade brasileira a tarefa de exigir que sejam cumpridosMarina Silva – 12/10/2014

O candidato à presidência Aécio Neves (PSDB) apresentou no horário político o pronunciamento de Marina Silva em apoio ao PSDB. Assim, a candidata do PSB deu sua contribuição para o tucano, que quer conquistar uma fatia gorda dos seus mais de 20 milhões de votos.

O manifesto de Marina por Aécio, com um tom solene um tanto forçado, é uma lição de desconhecimento do país, misturado com um profundo rancor, pitadas de uma falsa ingenuidade e sinais de má-fé (para ler, cliqueaqui).

A candidata derrotada inicia colocando que o documento que Aécio Neves apresentou tem compromissos dirigidos à Nação, não a ela. Assim, Marina se coloca de forma humilde, buscando ofuscar o papel de protagonista – que, de fato, teve – na “adesão” do tucano aos tais compromissos.

Logo depois, de forma muito matreira, ela afirma que a sociedade que deve cobrar o tucano em relação às promessas. Dessa forma, exime-se de qualquer responsabilidade se for desrespeitada a plataforma que a teria levado a apoiar o PSDB.

Marina faz uma breve análise das eleições. Resgata a aliança com Eduardo Campos, a coligação de partidos “pela primeira vez” exclusivamente em torno de um programa.

Ignora o fracasso na tentativa de construção do Partido Rede, que a obrigou a se unir ao então governador de Pernambuco para participar das eleições. Superestima uma coligação de partidos médios e pequenos, em torno de um tal programa que mais atrapalhou que ajudou a sua campanha.

Esquece que a aliança política construída pelo PT na eleição de 2002, em torno de Lula, tinha como base um programa que incidia nos efeitos colaterais das políticas neoliberais. Inclusive, a candidata fez parte dessa construção.

Marina reclama também dos “ataques destrutivos de uma política patrimonialista, atrasada e movida por projetos de poder pelo poder, mantivemos nosso rumo, amadurecemos, fizemos a nova política na prática”.

O que Marina chama de ataques foi uma intensa disputa de ideias e propostas, como a independência do Banco Central e o papel do pré-sal para o desenvolvimento do país. Isso é ataque pessoal? O que Marina queria? Que os candidatos adversários passassem a mão na sua cabeça e aceitassem as suas propostas?

Na verdade, a figura da candidata foi respeitada, sem questionamentos em relação à sua trajetória. Além disso, ela ignora que também foi criticada por Aécio Neves, que foi quem cunhou, por exemplo, a imagem de que seu programa tinha sido escrito a lápis e poderia ser apagado.

Antes de anunciar o já esperado apoio a Aécio Neves, ela faz uma introdução sobre o que entende por política, afirma que seria egoísmo se eximir neste momento e critica as velhas alianças pragmáticas. Na eleição de 2010, quando Marina ficou neutra no segundo turno, ela priorizou os interesses próprios em detrimento do que era melhor para o país?

O auge do pronunciamento de Marina é quando a candidata traça um paralelo da eleição de 2002 e, esta, de 2014. Ela compara o compromisso assumido por Aécio no documento “Juntos pela Democracia, pela Inclusão Social e pelo Desenvolvimento Sustentável” (leia aqui), um resumão de ideias genéricas, com a “Carta ao Povo Brasileiro”, lançada pelo então candidato Lula.

Em 2002, o sistema financeiro fez uma guerra especulativa ao candidato Lula, usando seus instrumentos para desestabilizar a economia e prejudicar a campanha do PT. Assim, arrancou os compromissos de Lula, que afirmou na carta que manteria a estabilidade econômica e não romperia contratos. No fundo, o que os bancos queriam é que o governo Lula não tocasse nos seus interesses.

Marina avalia que a carta de Aécio seria um compromisso similar ao de Lula, mas com a sociedade brasileira, em torno da democracia, da inclusão social e do desenvolvimento sustentável…

Assim, ela iguala o poder do sistema financeiro e o poder de uma sociedade dentro de uma concepção abstrata. A sociedade aos olhos da candidata é um corpo homogêneo em movimento com posições convergentes.

Marina demonstra um profundo desconhecimento da sociedade, da história e das contradições no processo de formação do Brasil. A “sociedade” não poderá cumprir o mesmo papel que o sistema financeiro desempenhou em 2002, porque existem contradições, inclusive antagônicas, no seu interior. É a boa e velha luta de classes, que alguns deixaram de acreditar, mas que resiste.

O melhor exemplo dessas contradições é a jornada de junho de 2013, que mobilizou jovens em todo o Brasil em torno da defesa do transporte público e contra a violência da polícia, mas que no processo congregou bandeiras antagônicas, como a luta pelo respeito aos direitos humanos e pela redução da maioridade penal.

Somente quem pode fazer avançar a luta pela democracia, a inclusão social e o desenvolvimento sustentável são as forças sociais organizadas com interesse de sustentar esses compromissos. Por isso, a plataforma de Aécio para ganhar o apoio de Marina não passa de um carro novo e moderno, mas sem um motor que possa fazê-la avançar.

O mais interessante é que a maioria das organizações que defendem os compromissos que Aécio assumiu a pedido de Marina apoia a candidatura de Dilma Rousseff, mesmo sabendo dos limites do seu governo.

Essas organizações sabem bem que o PSDB, no governo FHC e nos governos estaduais, tem uma dura política de criminalização dos movimentos sociais. Ou seja, os tucanos atuam justamente para reprimir os atores sociais que protagonizarão as mudanças sociais.

Vale lembrar a ação da Polícia Militar, sob o governo do tucano Geraldo Alckmin, contra os protestos dos jovens pela redução da tarifa do transporte público em São Paulo, no ano passado. Vale lembrar da greve dos petroleiros em 1995, que foi reprimida pelas Forças Armadas a mando de FHC. Vale lembrar do Massacre de Eldorado dos Carajás, que deixou 17 mortos na conta da Polícia Militar do Pará, sob mando do governo estadual do PSDB.

Os bancos defenderam seus interesses em 2002 e obrigaram Lula a se enquadrar ao modelo econômico que subordina a indústria e o trabalho. Depois, o sistema financeiro continuou a fazer pressão sobre o governo. Ou seja, não foi a mágica carta de Lula que fez vale os interesses dos banqueiros. Foi a ação política de um dos mais poderosos setores da economia.

Agora, Aécio faz compromissos vagos, com evidentes interesses eleitorais, para atender Marina. Só que, sob um governo tucano, os sujeitos da luta social são reprimidos. Então, quem poderá fazer pressão para o governo Aécio respeitar tais compromissos? Marina acredita na sinceridade de Aécio, mas lavou as mãos e de antemão avisou que não tem nenhuma responsabilidade.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A derrota de Tarcísio


Os grandes derrotados  nesta eleição em Queimadas
       
            

A derrota vergonhosa do prefeito de Queimadas, Tarcísio Pedreira nas eleições de domingo passado deveria, mas não vai em razão de sua arrogância, servir de lição para futuros embates eleitorais. A acachapante vitória do PT liderado por Dr. André, Ricardo e Cloudes no município mostra o nível de desgaste do atual gestor que, sequer, contou com o voto fechado de seu grupo. Perdeu nas eleições majoritária e proporcional.

            Após trair o governador Jacques Wagner e apoiar Paulo Souto o prefeito viu seus votos minguarem nas urnas. Rui Costa abocanhou 6.465 votos, ou 54,25% dos votos válidos levando a eleição no primeiro turno e a presidente Dilma 9.359 dos 13.822 eleitores que compareceram às urnas, o que significa que a atual Presidenta da República obteve 74,40% dos votos válidos.

            Nas eleições proporcionais a derrota do prefeito foi ainda maior, apesar do uso da máquina pública em favor de seus candidatos:  perderam o deputado Federal, Ronaldo Carleto, o homem do helicóptero, e o deputado estadual, o manjadíssimo Sandro Régis que garantiu sua sobrevivência quando perdeu seu emprego (de político profissional) lotando-o em seu gabinete na Assembleia Legislativa.

Foto de Zeeduardo Ze Bim Sousa.
Moema Gramacho: a grade vitoriosa em Queimadas


            O primeiro, Carleto perdeu as eleições para Moema Gramacho a candidata apoiada por Dr. André, Ricardo Cloudes por uma diferença de 732 votos (2.988 à 2.256). Isso, se somado apenas estes candidatos. Acrescentando-se outros deputados votados no município e que não são aliados do atual prefeito a derrota é mais fragorosa.

            À exemplo dos candidatos João Gualberto com 655 votos; Severiano Alves, com 602; Lúcio Vieira Lima, com 573 e Pellegrino, com 211 votos para ficarmos apenas nos mais votados. Neste caso, a surra levada pelo prefeito foi vergonhosa: De 2.773 votos de diferença.

            Já a eleição para a Assembleia Legislativa, o candidato de Tarcísio,  o democrata Sandro Régis obteve pouco mais de 1.900 (1.927) votos enquanto seus adversários diretos, somados lograram um total de 6.148 votos em seus candidatos, isso levando-se em conta apenas os sete mais votados.

            Pela ordem, o candidato do Dr. André, Angelo Almeida com 1.449 votos; o candidato apoiado por Ricardo e Cloudes, Alex Lopes, com 1.250; o candidato de Edvaldo Cayres, Anderson Muniz, com 1.398; o apoiado pelo ex-prefeito, José Mauro, com 749 votos, além de Luciano Simões Filho , hoje inimigo número um de Tarcísio, com 708; Cecília Petrini, com 622 e Joseildo Ramos, com 594.

            As eleições proporcionais em Queimadas, como acredito na maioria dos municípios brasileiro apresenta uma distorção grave e que traz grande prejuízo para os munícipes. É a  absurda votação em candidatos desconhecidos numa pulverização que retira o poder político do município na luta por obras e projetos que beneficiam seus cidadãos.

            Só para que vocês tenham uma ideia deste absurdo basta dizer que foram votados em Queimadas a absurda quantidade de 127 candidatos à Câmara Federal e 148 candidatos à Assembleia Legislativa. Enquanto o candidato mais votado à Câmara, Moema Gramacho recebeu 2.998 votos, os eleitores queimadenses presentearam 29 candidatos com um voto; 15 com dois votos; quatro, com três votos; oito, com quatro votos; sete com cinco votos; dois, com sete votos; três, com oito votos; dois, com 13 votos e um, com 14 votos.

            Este cenário macabro é ainda mais grave com relação à Assembleia Legislativa. Nada menos do que 28 candidatos foram consagrados com apenas um voto. Na sequência outros 24 receberam dois votos; 16, três votos; 08, quatro votos; três, cinco votos; 10, seis votos, 04, sete votos e três com oito votos.


            Qual a consequência dessa pulverização? O município perde representatividade. Que candidato eleito vai lutar para conseguir obras, projetos e recursos para um município que lhe rendeu um voto? Ao contrário, se o município elege deputados com votação expressiva tem como cobrar a contrapartida. Não sem razão, muitos defendem, na Reforma Eleitoral, a implantação do Voto Distrital, ou seja, o candidato só é votado no seu distrito de registro, mesmo que este distrito englobe três, quatro ou dez municípios.

sábado, 4 de outubro de 2014

Lula aos indecisos: como era o Brasil antes do PT?














Lula pede que o último dia da campanha não seja o derradeiro da militância. E que a partir desta sexta-feira, comece um mutirão boca a boca, porta a porta.




Por Saul Leblon, extraído da Carta Maior


Ex-presidentes costumam dar expediente em institutos e fundações de carpete macio, gabinetes de mogno e mesas de vidro com aço escovado.

Telefonemas bajuladores e audiências reverenciais compõem uma rotina colorida, fatiada de almoços elegantes e recepções requintadas. Amenidades bocejam 24 horas por dia no seu entorno.

Bons negócios, comendas, lavanda inglesa e gravatas de seda italiana.

Mas tem um deles que destoa do figurino de voz macia e boutades autocentradas.

Debaixo da garoa fina desta quinta-feira, protegendo a cabeça branca com chapéu de boiadeiro que destoa do blusão esportivo, a voz rangendo idade, cansaço, estrada, o rosto vincado, lá está ele em Diadema, no cinturão vermelho de São Paulo, em cima de uma carroceria, puxando a carreata que fecha o primeiro turno da campanha de 2014.

Alguém poderia imaginar que estamos falando de FHC?

Não. Quem está ali com uma mão agarrada ao microfone e a outra a gesticular, alternando uma e outra, a voz rouca modulando altos e baixos de ironia e indignação, mestre na oralidade, é o único ex-presidente capaz de fazer isso como se fosse um novato, a suar a camisa para provar que suas ideias pertencem ao mundo através da ação.

O novato no caso é o político que alia a garra de um jovem militante à experiência de maior líder popular do Brasil.

Duas vezes ex-presidente da República, ele dá o exemplo da volta às origens que cobra do PT.

Levar a disputa às ruas.

Definir o campo de classe dos interesses em jogo.

Voltar às bases, ouvir, falar, engajar e aí nunca mais se omitir.

É isso que ele tem feito com intensidade assustadora para a idade e o susto de um câncer diagnosticado há três anos , em 29 de outubro de 2011.

Lula fará 69 anos no dia seguinte ao pleito de 5 de outubro próximo. A contrariar o fardo dos outubros, nos últimos nove dias ele visitou nove cidades, fez mais de 15 comícios.

Na terça feira, de dia, estava na Capela do Socorro; à noite em Cidade Tiradentes, agora em Diadema. Fala duas, três vezes por dia. Como fazia no governo.

Fosse FHC, as câmeras de televisão estariam formando uma parede entre o orador e a plateia reunida em frente a um supermercado em Diadema.

Mas é Lula; e sendo Lula quem é, tem que ser escondido pelo que representa, pelo que já fez, pelo que ainda fará e hoje, sobretudo, pelo que ainda fala e faz.

Ele faz coisas do seguinte tipo: na carreata em Diadema levou anotações com dados do site Manchetômetro, um monitoramento de mídia feito por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) sobre a cobertura das eleições de 2014.

Durante quase dez minutos Lula dissecou o sentido político dos números frios colhidos pelo Manchetômetro.

Fez manchetes com notícias que não saem nos jornais.

Ao mencionar o tempo ocupado por escaladas negativas contra a presidente Dilma Rousseff no Jornal Nacional ( 1h46m), por exemplo, recorreu à metáfora futebolística e disparou para ninguém mais esquecer: ‘A Globo na campanha presidencial de 2014 dedicou mais tempo dando manchetes contra a Dilma do que a duração de uma partida de futebol’.

Pronto. Não precisava mais nada.

Mas para reforçar ele não hesitou em sacudir a anotação no ar: sabem quantos minutos de noticiário negativo a candidata do PSB teve no mesmo período ?

Nenhum.

Um mestre na pontuação oral.

Sobrou também para os jornalões da ‘gloriosa imprensa brasileira’, como ele gosta de alfinetar com ironia ácida.

Um número resume todos os demais.

Desde o início da disputa, em 6 de junho, lembrou a voz rouca, mais afiada que nunca, os jornais Folha de SP, Globo e Estadão deram nada menos que 490 manchetes negativas contra Dilma.

Uma intensidade mais de quatro vezes superior a soma das manchetes negativas atribuídas a Aécio e Marina juntos (114).

A conclusão disso tudo altera a voz rouca, que agora adquire um sentimento de indignação diante do qual é impossível ficar indiferente.

Imagine essa cena no Jornal Nacional.

Não acontecerá.

Porque Lula não é FHC e porque FHC jamais diria o que ele vai disparar em seguida.

‘Isso acontece porque neste país não existe liberdade de imprensa, mas sim a doutrina de nove famílias que dominam a comunicação e nutrem ódio pelo PT. Não pelos erros que o PT possa ter cometido’, fuzila a rouquidão indignada. ‘O PT tem defeito? Tem’, prossegue depois de uma pausa. ‘Mas eles nos odeiam não pelos nossos defeitos. E, sim, porque o PT promoveu a ascensão social dos pobres neste país. É por isso que desde o início da campanha eles atacam a Dilma com o equivalente a três manchetes negativas por dia cada um’.

A indignação contra esse cerco, cujo núcleo duro está arranchado no estado de São Paulo, fez o ex-presidente intensificar a campanha de rua no interior e na região metropolitana da capital.

Sua determinação extrai força de uma certeza: é preciso enfrentar e romper o torniquete de aço contra Dilma, contra Padilha e, sobretudo, contra o PT e contra ele próprio. Ou a restauração conservadora pode fechar de vez as portas e frestas sociais e geopolíticas arduamente abertas a unha nos últimos doze anos.

Ao final da carreta, esse orador empenhado faz um apelo acalorado.

Lula pede que o último dia da campanha não seja o derradeiro da militância. Que ela continue a falar o que a sua voz já não poderá mais dizer na boleia de um caminhão. E que a partir desta 6ª feira, comece um mutirão boca a boca, porta a porta, voto a voto para buscar o eleitor indeciso e decisivo na arrancada final para a urna.

A senha que ele sugere à militância diante dos recalcitrantes é a sua convicção de que a memória é um pedaço precioso do futuro a ser conquistado nestas eleições.

É com essa certeza que ele faz sua despedida como quem sacode o país pelos ombros para espantar o torpor criado pela doutrinação midiática conservadora e diz: ‘Perguntem às pessoas se elas se lembram como era o Brasil antes de o Lula governar este país’.

Carta Maior dá a sua contribuição a esse resgate da memória nacional deixando aos seus leitores o vídeo abaixo, como parte da corrente sugerida por Lula na boca de urna das horas que correm e do estirão que urge..

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Agora não é mais só uma eleição. Agora é a História.







Por Fernando Brito, no Tijolaço

Não é difícil perceber que se formou, nestes dias finais da campanha eleitoral do primeiro turno (e talvez da própria campanha eleitoral), uma imensa e tresloucada aliança do conservadorismo brasileiro.

Um clima histérico que capturou, admita-se, parte da classe média e da mediocridade fútil que foi entronizada pela mídia como sendo a “inteligência” brasileira.

Chegamos aos píncaros de uma onda de pessimismo que não encontra base nos fatos profundos da economia – não há desemprego, não há queda violenta do poder de compra da população, não há uma crise social como tantas que vimos em nossa história – e muito menos nos da política, porque jamais vivemos numa democracia formal tão completa como hoje, embora os imbecis chamem a tudo de “perigo vermelho”, 50 anos atrasados em sua guerra-fria neurótica.

Mas os jornais publicam um país que arde: as bolsas despencam, o “mercado” incorpóreo prevê o desastre e embolsa lucros milionários.

Mas o outro mercado, o da esquina, faz tempo que não tira a plaquinha do “estamos contratando”.

O debate nacional se reduz à pobreza mental do aparelho excretor de Levy Fidélix, como se Levy Fidélix e e a polivalência de aparelhos excretores fossem as causas nacionais e este não fosse um país que tenta se livrar de sua condição histórica de colônia.

Um Brasil que pode e vai assumir seu papel de um dos gigantes do mundo, já não só pela sua “própria natureza”, e não mais ser, me perdoem, o cu da Terra.

Mas é assim a alienação de nossas classes médias transformadas em diletantes do voto: o ator americano que faz o papel de Hulk ou a neurose fanática do pecuniário pastor Malafaia contam mais que o aumento do salário mínimo que alimenta melhor 40% dos 200 milhões de brasileiros.

Ou que os espelhinhos energéticos da Siemens (caríssimos, aliás) fossem nos prover da gigantesca energia de que precisamos e nos fizessem guardar para os espertos o petróleo do pré-sal. Ou se um país pudesse se desenvolver sem portos, ferrovias, gasodutos, estradas, transportes.

Assim é, em tudo, a manipulação que nos impõe, como se fôssemos, um bando de tolos e superficiais.

O que teria ou não teria dito um safardana que foi demitido da Petrobras e ao qual se promete o perdão de anos de cadeia por todos os roubos se envolver neles os que o demitiram de lá ( perdão que faria um desqualificado moral que, a esta altura, acusaria a própria mãe) flui, anonima e criminosamente, de meia dúzia de meganhas e promotores que podem dizer o que quiserem, na sombra do que seria, no mínimo, a violação dos seus deveres funcionais, mas os confessados e comprovados aeroportos privados e jatinhos de caixa-2, ah, estes repousam no silencioso limbo da conveniência.

Em tudo se tenta distrair o povo brasileiro do que está por trás da eleição.

É preciso que se deixe de olhar para a história deste país infelicitado por quase ininterruptos 512 anos de governos de elites coloniais, daqui e de fora, para que se atribua a quem nos tenta tirar daí a culpa pelas carências e roubalheiras que nos marcaram por séculos.

É preciso transformar em tolos ou corruptos quem tem trajetória de luta, de honradez, de amor ao povo brasileiro e que não se serviu dele para exibir-se como um exotismo manso e servil aos senhores de nossa escravidão histórica.

O povo brasileiro a tudo vem resistindo, na sua sabedoria inconsciente, aquela que se forma apenas pela força irresistível da realidade, que é o único componente da verdade que não se forma com fumaça e que, por isso, não se esfumaça com os dias.

Hoje não é dia mais de dados, de números, de “denúncias”.

Nada disso importa mais, porque nossa imprensa e nossas classes dominantes transformaram dados, números e “denúncias” em panfletos imundos que se penduram nas bancas de jornal ou se exibem na tela das televisões. O nosso povão, na sabedoria que lhe vem da vida e da pele, na sua maioria, já o entendeu e o repele.

Hoje e os próximos três dias são de honradez, de altivez, de dignidade e, por isso, de absoluta tranquilidade.

Sabemos contra o que lutamos e pelo que lutamos.

A nossa causa é digna, é bonita, é humana, é generosa.

A deles, é feia, sombria, perversa e, por isso, precisa revestir-se de mil mentiras e das falsas juras de quem há muito entregou sua fé, como Judas, pelos trinta dinheiros com que os novos (e eternos) romanos compram alguns de nossos filhos.

Os que representam a causa do povo brasileiro, nestes dias finais, devem se sublimar.

Banharem-se na serenidade dos que sabem que sentem a razão e o destino a seu lado.

Distantes do ódio, do nervosismo e dos medos, inseguranças próprias de cada um e de todos nós, seres humanos.

Há momentos em que as circunstâncias são o senhor supremo nossos atos e decisões.

Porque é a hora que faz os grandes e os que e aqueles que apenas planejam sê-lo declinam quando chega o momento da verdade.

Este é o instante em que já não somos apenas nós mesmos, mas somos o o passado mesclado ao futuro, somos nossos pais e nossos filhos, somos negros, pardos, brancos, índios, somos esta massa diversa, fervilhante e teimosa que é o povo brasileiro .

A História, esta força imensa que habita em cada um de nós, nos absorve quanto mais a amamos.

E, quando amamos agudamente, temos a confiança dos amantes e deixamos que ela nos possua e fale por nossa boca.

E as palavras, então, tornam-se invencíveis.

Os vagabundos do mercado financeiro

A ciranda financeira de uma Bolsa de Vagabundagem



Por Bepe Damasco, em seu blog


"Fulano não dá prego em barra de sabão". Essa expressão popular usada para se referir a quem não é chegado ao batente cai como uma luva no tal mercado financeiro. Aqui e no mundo inteiro ele busca o dinheiro fácil, sem a contrapartida do suor do trabalho. Por isso, não hesita em lançar mão de factóides, rumores infundados e mentiras deslavadas.

Vive da especulação. Incapaz de produzir um parafuso sequer, está sempre à espreita ao redor do planeta para organizar ataques especulativos às moedas nacionais, como já fez em todos os continentes. É essa gente que se arvora no direito de saber o que é melhor e o que é pior para o povo que trabalha e produz as riquezas do país, derrubando a bolsa e o dólar artificialmente para prejudicar a presidenta Dilma. Mas não passarão.

E não é a primeira vez que isso acontece no Brasil. Em 2002, no desespero para tentar impedir a vitória de Lula, os rentistas apelaram para o terrorismo explícito alçando o valor do dólar a estratosféricos 4 reais. Agora, em 2014, também sem nenhum fundamento econômico real, a bolsa de valores, que já desabara 11% em setembro, permanece em queda nesta quarta-feira, 1º de outubro.

A aproximação da vitória de Dilma Rousseff, se não já no próximo domingo, com certeza no dia 28 de outubro, deixa em polvorosa os investidores e mandachuvas de um certo bunker da vagabundagem oficializada, que atende pelo nome de bolsa de valores.

Para se ter uma ideia do nível de alienação do mercado financeiro em relação à vida das pessoas de carne e osso, basta que o caro leitor responda à seguinte pergunta : quantas pessoas você conhece que vivem do sobe e desce especulativo da bolsa ? Que eu saiba trabalhador brasileiro sequer cogita arriscar suas suadas economias na bolsa. Isso é coisa restrita a uma casta de privilegiados que pode se dar ao luxo de perder dinheiro caso os papéis se desvalorizem.

A imensa maioria de homens e mulheres que vive do seu trabalho não está nem aí para a gangorra da bolsa. Por isso, o terrorismo especulativo contra Dilma e o PT está condenado ao fracasso. Foi assim em 2002. Será assim agora. Isso porque quem trabalha define seu voto por questões que têm a ver diretamente com a sua vida, tais como emprego, renda, educação, saúde, educação, habitação, combate à miséria e à pobreza, programas de inclusão social, dentre outras.

As manchetes estrondosas que o monopólio midiático estampa sobre a queda das bolsas e a subida do dólar segue o diapasão patético de sempre, julgando que o eleitor é idiota. Mas o povo quer que o mercado financeiro se dane. Tanto assim que esse período de queda acentuada no Índice Bovespa corresponde exatamente à subida de Dilma nas pesquisas. O problema é que o mercado apostou suas fichas primeiro em Aécio e depois em Marina. Agora, arranca os cabelos para se desfazer de suas posições.

A guerra especulativa do mercado contra o governo federal gera situações absurdas.Não cabe na cabeça de ninguém que a Petrobras, que já produz 500 mil barris de óleo extraído da camada do pré-sal, e avance a passos largos para fazer do Brasil um país exportador de petróleo, possa ver suas ações despencando na bolsa aos sabor dos humores político-eleitorais do mercado financeiro.

A oposição e a mídia partidarizada também não se cansam de explorar uma suposta queda do valor de mercado da Petrobras na bolsa. Não dê ouvidos a essa patifaria. A Petrobras é vista no mundo todo como uma das mais importantes empresas de energia do planeta. E nunca valeu tanto. Quem não vale um tostão furado é o patriotismo do mercado financeiro e a credibilidade de seus porta-vozes da mídia.

O que significa a Bolsa de Valores desabar sempre que Dilma cresce nas pesquisas?




Por Paulo Nogueira, no DCM

A Bolsa

O que significa a Bolsa de Valores desabar a cada momento que parece mais provável a vitória de Dilma?
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Imagino que o BM, o Brasileiro Médio, se faça essa pergunta diante das repetidas notícias de queda na Bolsa.

A resposta é: é um problemão para quem tem dinheiro aplicado na Bolsa de Valores, uma fração insignificante da sociedade.

A Bolsa brasileira sempre foi irrelevante. Poucas empresas, ao longo dos tempos, decidiram abrir seu capital.

Na mídia, por exemplo, que não para de noticiar agora a instabilidade das ações, nenhuma grande empresa foi para a Bolsa.

A visão hostil em relação à Bolsa faz parte da cultura nacional, pouco disposta ao risco. Fora isso, há investimentos seguros que pagam altas – em certos momentos altíssimas – taxas de juros.

Suponha que, numa virada sensacional, a Bolsa começasse a bater recordes. Mais uma vez: não significaria nada para o BM.

O BM não come ações.

Em compensação, alguns especuladores ganhariam muito dinheiro.

Por trás do noticiário catastrofista, está uma tentativa de intimidar o eleitor assustadiço e convencê-lo a votar no “candidato do mercado”, Aécio.

As pesquisas mostram que o BM não é o idiota que alguns pensam que é.

Pressões baseadas no apocalipse são comuns. Numa clássica, o então presidente da Fiesp, Mário Amatto, disse que 800 000 empresários deixariam o país caso Lula vencesse as eleições de 1990.

O “mercado” se agitou também em 2002, diante da iminência da vitória de Lula. Lula piscou, e disso nasceu a Carta aos Brasileiros, na qual o PT se comprometeu a seguir a essência da política econômica de FHC.

Quer dizer: o PT abdicava, ali, de ser um partido de esquerda. Começava um movimento que levaria o partido ao centro, ou à centro-esquerda.

(Um efeito colateral dessa caminhada do PT rumo ao centro foi a transformação do PSDB num partido de direita.)

O terrorismo econômico de 2014 não é muito diferente do de 1989, e nem do de 2002.

O que se deseja, a rigor, é que Dilma se comprometa com uma agenda da qual o “mercado” goste.

Lula parece ter aprendido, pelo que ele fala agora, que no fundo se trata de mais um blefe. Não era verdade que 800 mil empresários debandariam, e nem que o Brasil entraria em colapso se não fosse seguida a receita ortodoxa de FHC em 2002.

Mais uma vez, o que temos é o 1% sempre querendo manipular os 99%: a rigor, não é mais nem menos que isso.

Durante muitos anos, na ditadura militar e depois mesmo no governo FHC, os brasileiros foram enganados com o argumento de que era preciso fazer o bolo – a economia – crescer para depois distribuí-lo.

O bolo cresceu e, como mostram os dados da desigualdade, jamais foi distribuído decentemente por sucessivas administrações.

Num mundo menos imperfeito, a mídia teria cobrado duramente ações para fazer do Brasil um país menos abjetamente injusto.
Mas não.
A imprensa nunca fez do combate à iniquidade uma causa, porque se beneficiou da desigualdade. Os donos das empresas de jornalismo acabaram figurando entre as pessoas mais ricas do Brasil.
A melhor atitude que o BM, o Brasileiro Médio, deve tomar diante das trepidações da Bolsa é ignorá-las.
De alguma forma, pode até respirar aliviado. Nas presentes circunstâncias, caso a Bolsa estivesse bombando, é porque – como prometeu Aécio a um grupo de empresários no começo da sua campanha – medidas impopulares estariam ali na esquina.
E delas ninguém escapa, salvo os suspeitos de sempre, o chamado 1%.