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sexta-feira, 27 de março de 2015

A Standard & Poor destruiu o discurso apocalítico da mídia ao trazer ao debate uma coisa: a verdade.

Se você acreditou na Empiricus e se encheu de dólar, más notícias

Por Paulo Nogueira, no DCM

Se você acreditou na Empiricus e se encheu de dólar, más notícias
Não há muito tempo, o Brasil parecia em estado terminal, no noticiário das grandes empresas jornalísticas.
Com evidente alegria, os editores e comentaristas empilhavam previsões apocalípticas.
O G1 – cujo chefe, Erick Bretas, conclamou os seguidores no Facebook a bater pernas no protesto de 15 de março – lutava para dar o furo do fim do mundo, ou especificamente do Brasil.
Na manchete, várias vezes, você tinha no G1, em tempo real, a marcha do dólar.
A consultoria de investimentos Empiricus contribuía para a atmosfera fúnebre. Anúncios seus espalhados pela internet traziam um título assustador: “O dólar a 4”.
Dentro desse clima, lances teatrais espoucavam aqui e ali. Num deles, um colunista econômico avisou que estava deixando o Brasil. Miami o chamava.
Era um Bolsa Patroa. Sua mulher ganhara uma bolsa e ele pegou carona. Mas, para todos os efeitos, o bilhete aéreo do colunista sugeria o começo de um êxodo dos melhores cérebros nacionais.
Alguns imaginaram: agora até o Lobão vai embora.
Para os que torcem pelo pior, como a mídia, tudo corria bem – até que uma coisa se impôs.
A verdade.
Ela apareceu numa análise que nenhum jornalista da grande mídia tem competência ou coragem para contestar.
Quem a produziu foi a agência de análise de risco S&P. Os colunistas brasileiros podem errar quanto quiserem, desde que seja contra o PT. Não acontece nada.
Mas cabeças rolam na S&P caso as previsões sejam erradas, porque há muito dinheiro em jogo. Se os investidores colocarem recursos em países ou empresas que tenham a chancela de uma agência e se derem mal, as consequências imediatamente se manifestam.
E a S&P disse o seguinte sobre 2015, em linhas básicas: a economia do Brasil deve recuar 1%, para crescer 2% em 2016.
O dólar médio deve ficar em 3,1 reais. (O que quer dizer que quem acreditou na Empiricus e se abarrotou de dólares pode já pensar na hipótese de processá-la.)
Para chancelar essa visão, a S&P manteve a classificação do Brasil como um bom lugar para investir.
Para quem acompanha – e acredita – nas colunas econômicas da imprensa, foi uma surpresa formidável.
Como assim? Quero bater panelas.
A Petrobras, que a mídia transformou num cadáver, recebeu um voto de confiança expressivo da agência. Manteve sua boa classificação.
Como assim? Quero gritar que o patrimônio nacional foi dilapidado e ir para as ruas com a roupa da seleção.
Todo o drama que a mídia anunciava foi pulverizado com uma simples análise de quem é do ramo.
O quadro é aquele para o ano. Uma queda de 1% na economia não deve ser comemorada com champanha, naturalmente, mas está longe de ser um desastre.
Se administrada de tal forma que os mais humildes sejam poupados, sai na urina, como dizia minha Tia Zete.
Sem se dar conta, a S&P tirou a voz dos profetas do apocalipse. Caso insista em dar o dólar em tempo real na primeira página, o G1 vai ficar até dezembro girando pateticamente em torno de 3,1 reais.
Os comentaristas se recolheram, prudentemente.
Sobraram no palco os tolos, como o senador Aécio Aeroporto Neves. Aécio disse que Dilma deve desculpas por tirar perspectiva de futuro melhor para os brasileiros.
Ora, sabemos todos como seriam as “medidas impopulares” que Aécio prometeu à plutocracia que adotaria caso se elegesse.
Sabemos também quem mereceria sua atenção como presidente – ela mesma, a plutocracia que tanto lutou para levá-lo ao Planalto.
Tudo isso posto, quem acredita que os brasileiros se dariam melhor com Aécio acredita em tudo, como disse Wellington.
A S&P reduziu ao silêncio o tom dos gerentes gerais da catástrofe alojados na mídia.
Falta Aécio cair na real.

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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Eu ainda tenho medo




COLUNA DO SERTANEJO
(Coletânea de artigos próprios, de Jornais, Revistas, Publicações, livros etc.)
Ano 02 – Salvador, 17 de fevereiro de 2014.

“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”.
Gabriel Garcia Marques

Por William Brasil



Era plena madrugada quando os cachorros começaram a latir no canil. Tenho ao todo quatro, que dormem a meia distância entre a casa do caseiro e a minha. São animais de grande porte, todos vira-latas. Latiam ao mesmo tempo, fazendo uma barulheira que tomou conta do sítio.

Levantei da cama assustado. Vesti uma calça e um chinelo. Peguei a lanterna e enfiei uma arma na cintura, um velho Taurus 38 de cano curto, de cinco tiros. Não acendi nenhuma luz, mas, enquanto andava pela casa, fui verificando se portas e janelas estavam devidamente trancadas. Com a mão na coronha do revólver, abri uma fresta na porta de entrada. Senti o ar que veio do jardim, gelado e úmido, mas não vi nada. Apontei a lanterna para a varanda e, sem detectar nenhuma ameaça, dei um passo para fora da casa. Mas continuei de porta aberta, pronto para correr de volta se fosse preciso.

O frio me deixou arrepiado e ligeiramente trêmulo. Tentei ouvir alguma coisa além dos latidos e do barulho que os cachorros faziam enquanto balançavam as telas de arame, jogando contra elas suas patas fortes e todo o peso de seus corpos.

Acendi as luzes da varanda. Nenhuma sombra se mexeu. Devagar, olhando em volta e com a lanterna abrindo caminho, fui até
o canil. Encontrei por lá Miro, meu caseiro, um típico nordestino de Queimadas, de rosto queimado pelo sol, cabelo preto encaracolado crespo, olho preto, pele negra e cheia de vincos.

 Ele acendeu as luzes, fazendo seu rosto brilhar como uma louça rachada. Embora estivesse do meu lado, tamanha era a barulheira no canil que mal escutei sua voz quando perguntou:
“O doutor sabe o que deu neles?”

Balancei a cabeça negativamente. Eram todos cachorros grandes e saudáveis, mas em geral mansos, ou pelo menos maduros, bastante habituados à convivência do grupo. Não estavam brigando entre si. Eu nunca tinha visto um ataque de fúria igual.

O canil é dividido em baias, que podiam ou não se comunicar. Cada baia para um cachorro e, no fundo de cada baia, o recipiente de água e a de comida. Examinamos todo o ambiente: o piso e as muretas de blocos cerâmicos, as portas e os pontos de circulação interna, as telas, com seus dois metros de altura. Não havia nada lá dentro.

Do lado de fora, também não encontrei nenhum buraco suspeito no arame, nenhum sariguê, gato ou saguim cercando o espaço. Muito menos movimento de gente. Vi apenas a mulher do caseiro, Ana, na janela de sua casa, nos dando retaguarda à distância.

Um sopro de vento frio arrepiou novamente meu corpo. No limiar da escuridão, reparei que as plantas do jardim balançavam, mas foi uma cena de cinema mudo. Não era possível ouvir nada além das ressonâncias guturais que nasciam na garganta dos cachorros e explodiam na madrugada, ou o ruído áspero das telas do canil sendo sacudidas.

Até Dalila, uma fêmea dócil, presente de Fernanda, estava transtornada. Latia sem parar e seu olhar fulminava, fixo e ardente, como se uma ameaça muito próxima rondasse o canil. Aquiles, um vira lata todo preto e enorme, meteu os caninos entre os gomos da tela, travou o maxilar e sacudiu a cabeça com tanta força que eu achei que iria conseguir arrancar a grossa trama metálica dos canos onde estava presa. Ao soltar a mordida, sua gengiva estava toda ensanguentada.

Sem nenhuma explicação que justificasse aquele comportamento, falei com Miro que o melhor a fazer naquele momento, era voltarmos para nossas casas. Até hoje, quando relembro o acontecido, fico todo arrepiado. Não consegui nenhuma explicação plausível para o ocorrido.