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sábado, 21 de dezembro de 2013

Os olhos secos da liberdade


Por Miguel do Rosário




(Um relato sobre o debate desta quinta-feira 19 no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro).

Dessa vez não houve lágrimas.
Diferentemente do evento na Associação Brasileira de Imprensa, no início do ano, em que mil pessoas choraram com os discursos tristes (apesar de combativos) sobre os erros da Ação Penal 470, dessa vez não houve esse tipo de comoção.
O que é curioso, afinal tratava-se de um evento nascido de um impulso de solidariedade, um sentimento nobre e antigo, mas associado a gestos adocicados e lacrimejantes. O nome do evento: Solidariedade e Justiça, com presença da filha de Dirceu, tinha tudo para descambar em olhos marejados.
Quer dizer, houve um momento em que o presidente da CUT-RJ, Darby Igayara, ao encerrar seu discurso, não conseguiu disfarçar a emoção. Com voz embargada, anunciou que iria fazer uma coisa: pegou uma camisa sobre a mesa e a vestiu. Na estampa, os três presos políticos do PT aparecem com os braços erguidos. Mas Igayara se controlou rapidamente e finalizou sua intervenção em alto astral, sem esquecer de usar a expressão “show de bola”, que seus amigos de sindicato – suponho eu – devem pedir que ele não mais repita, mas que ele fez questão de pronunciar, como que afirmando que suas palavras ali eram autênticas. Não era um discurso retórico.
O sentimento predominante no evento, contudo, não era a tristeza. Talvez porque não haja mais perplexidade. Nem confusão. A união da esquerda petista, a começar por suas facções mais jovens e idealistas, em torno da convicção profunda de que a Ação Penal 470 constituiu um golpe judiciário, midiático e político contra o Partido dos Trabalhadores, decretou o fim de uma longa fase de hesitações, angústias ideológicas e conflitos internos.
Sim, porque o mensalão também gerou explosões mortais dentro do partido. Vários quadros importantes se desligaram, outros se afastaram, companheiros processaram companheiros. A base da legenda se diluiu, afastando-se de si mesma, como que constrangida de seus próprios vícios.
Entretanto, nada como uma boa guerra para clarear a mente. E quando começa a luta, não se pode mais chorar. É tempo de escolhas difíceis, tempo de assumir riscos, tempo de polarização.
O primeiro a falar, Almir Aguiar, presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, deu o tom não apenas do evento, mas de todo o Partido dos Trabalhadores e dos setores mais conscientes da esquerda, neste momento.
“Precisamos de uma Lei da Mídia”, defendeu Aguiar, explicando que o julgamento do mensalão ocorreu na imprensa. Foi ali que os réus foram condenados. Os ministros do STF apenas chancelaram uma condenação já acertada entre os barões da mídia.
O deputado federal Edson Santos, após informar que visitou os presos esta semana, assegurou que eles não estão cabisbaixos. “Muito pelo contrário. Dirceu fez uma reunião ali com a gente, nos advertindo para os riscos do STF avançar sobre a reforma política. Ele está preso, mas sua preocupação é com o país, o governo, o partido.”
Santos lembrou que a luta contra as arbitrariedades da Ação Penal 470 não é mais uma questão petista. “O que está em jogo agora é a própria democracia”, disse o deputado, lembrando que juristas conservadores como Ives Gandra e Claudio Lembo também se manifestaram contra os desmandos do STF.
O deputado acusou ainda o Globo de criar um clima de “rebelião” que não existe na Papuda. “A atmosfera lá é de tranquilidade”, disse o deptuado, assegurando que não há animosidade entre outros detentos e os réus políticos. “Quem quer rebelião é o jornal O Globo”.
“O que está havendo é que Joaquim Barbosa continua interferindo indevidamente na Vara de Execuções Penais, produzindo instabilidade”.
“Às vezes meus irmãos do movimento negro me perguntam porque eu não apoio Joaquim, já que ele é um irmão de cor. Eu respondo citando Cruz e Souza, poeta negro: os negros que seguram o chicote para bater em outros negros, não são meus irmãos”.
O representante do MST, Joaquim Pinero, observou que a Ação Penal 470 cria uma jurisprudência que representa um retrocesso democrático. Os sem-terra, que tem larga experiência de arbitrariedades judiciais contra suas lideranças, poderiam responder a esse momento com sarcasmo, do tipo: “agora, vocês do PT vão aprender o que sofremos todos os dias”. Não fizeram isso. Pinero fez o discurso mais inflamado da noite em defesa da liberdade para os presos políticos e contra a criminalização da luta social. Mas lembrou que o governo jamais tocou na estrutura de comunicação da elite brasileira, e que, de certa maneira, está pagando por esse erro.
Pinero fez críticas a setores da esquerda que, vergados pelo rancor e pelas divergências ideológicas, se aliam ao conservadorismo e ajudam a criminalizar pessoas que passaram a vida lutando pelo país.
Joana Saragoça, filha de Dirceu, ocupava o centro da mesa. Quanto se levantou, todos os olhares se prenderam magneticamente em sua pessoa. Na imprensa corporativa, não pudemos ver direito quem é Joana. Ao vivo, nos deparamos com uma moça de quase um metro e noventa, incrivelmente bonita, dona de uma voz possante, pausada e sonora. Ela falou pouco, com uma calma impressionante, o que me lembrou seu pai durante o evento na ABI organizado no início do ano.
Seu porte altivo tinha algo de trágico e antigo. Enquanto falava, era como se fôssemos transportados para uma época remota, há milhares de anos, e estivéssemos num conselho de guerra, e ela, Joana, fosse a filha de um importante líder político refém em mãos de inimigos. Como se ela revivesse uma cena que já vivera diversas vezes, em outros países, em outras épocas.
Joana pediu ajuda a todos na luta para que o Judiciário cumpra a Constituição. Dirceu foi condenado a regime semi-aberto e se encontra preso em regime fechado. Esse é o primeiro passo. O mais importante, porém, disse Joana, “é continuar lutando, e fazer com que essa história seja contada de outro jeito”.
A razão principal para a atmosfera de frieza guerreira que ali predominava ficou patente no discurso do presidente da CUT-RJ, Darby Igayara, que fechou o evento.
- A melhor resposta que podemos dar a todas essas injustiças é reeleger Dilma Rousseff, eleger uma grande bancada de deputados e esmagar a direita!
Todo mundo sabe o que está em jogo. O julgamento do mensalão não teve nada a ver com nenhuma busca pela moralização da política. Foi uma vingança, um arreganho golpista, que tem de ser revidado com a principal arma em mãos das esquerdas: o voto.
*
Ao final do evento, uma amiga veio falar comigo, dizendo que achou a manifestação muito centrada nos petistas presos, que todo o preso é também um preso político, e que deveríamos nos preocupar com as condições carcerárias e as arbitrariedades sofridas por todos os presidiários no país.
É um pensamento correto, mas escapista, como quem deixa de ajudar um amigo alegando que precisa ajudar a humanidade inteira. A solidariedade ao mais próximo é o caminho para a solidariedade a todos.  Além disso, a acusação não condiz com a prática das pesssoas envolvidas neste movimento de solidariedade a Dirceu, profundamente comprometidas com as causas da justiça social de maneira em geral, inclusive dos presidiários.
Conversando com algumas conhecidas que estiveram no acampamento em frente à Papuda, elas me disseram que os militantes petistas ofereciam o banheiro do acampamento e lanches para as famílias que esperavam na fila para visitar seus parentes. Não havia esse clima de “revolta” contra “privilégios” que a mídia vem tentando insuflar.
Lutar contra as arbitrariedades e erros da Procuradoria e do STF no julgamento do mensalão é o caminho para melhorar todo o sistema penal brasileiro, porque expõe os vícios do sistema, o que é a coisa mais difícil de fazer. Quando se trata de incriminar e encarcerar cidadãos, o Estado brasileiro revela todo o seu fascismo enrustido.
Quando o Judiciário pratica suas arbitrariedades contra um cidadão comum, como caso do tetraplégico preso na Papuda por causa de 60 gramas de maconha, ele o faz amparado pela obscuridade e pelo anonimato. No caso da Ação Penal 470, o Judiciário fez o oposto: cegou os brasileiros com luz excessiva, através de um espetáculo de pirotenia e sensacionalismo. Os ministros faziam discursos raivosos em plenário; em seguida, corriam na direção das câmeras para acrescentar mais algumas falas de rancor. Enquanto isso, os autos, as provas, as evidências concretas, eram postos em segundo plano.
O próprio método usado pelo Judiciário, contudo, nos permite usá-lo contra ele mesmo, para expor seus erros. O caso deixou de ser uma arbitrariedade de setores do Estado, cooptados pelo conservadorismo, para se tornar o ensaio de um golpe. Um golpe conservador, visando rebaixar o poder popular e ampliar a força dos setores reacionários do Estado. Um golpe para tornar nosso sistema penal ainda mais truculento e atrasado.
Não podemos, portanto, cair nessa armadilha de não lutarmos pela liberdade de lideranças políticas importantes da nossa história, com a desculpa de que há outros em situação de injustiça. Qualquer reforma concreta nas estruturas sociais do país, entre elas o sistema judiciário, que é pesado, ineficiente, frequentemente descomprometido com as causas democráticas, precisa de instituições políticas fortes, sustentadas pelo sufrágio univerrsal. O julgamento do mensalão representa um retrocesso, porque serviu para alimentar o poder de todas as instituições não-democráticas: a procuradoria geral da União, o STF e a mídia corporativa.
As arbitrariedades mais comuns praticadas no Brasil se dão, em geral, nas primeiras instâncias. Sempre há esperança de estas sejam revertidas se o réu tiver a oportunidade de levar o caso para uma segunda instância e, por fim, ao Supremo. Mas se o próprio Supremo se torna, ele mesmo, uma instáncia desqualificada, que negligencia evidências concretas, omite provas e superestima ilações, então a gente estará consolidando uma jurisprudência errada de cima para baixo. Derrubar a Ação Penal 470, nem que seja uma derrubada apenas política num primeiro momento, é uma contribuição inestimável, portanto, para aprimorar todo o sistema penal brasileiro.
*
Isso também explicaria, aliás, a postura severa, quase desconfiada, de Joana Saragoça, filha de Dirceu. Talvez ela suspeitasse que todos naquela sala fossem, no fundo, culpados pela prisão de seu pai, porque são pessoas que alimentam as mesmas ideias que o levaram a ser preso várias vezes em sua vida: ideias de democracia e justiça social. Somos todos culpados.
Talvez isso explique também a atmosfera de frieza europeia do ambiente. Existe solidariedade para com Dirceu, Genoíno e Delúbio, afinal eles foram condenados com base numa ridícula teoria de compra de votos que não apenas jamais se comprovou, como se revelou inverossímil. Por que o PT compraria votos na Câmara, onde tinha maioria, pagando inclusive deputaods do PT, ao invés de comprar votos no Senado, onde, aí sim, precisava conquistar votos da oposição e de parlamentares independentes?
Existe solidariedade, também, conforme lembrou Edson Santos, para com todos os réus da Ação Penal 470, visto que todos foram vítimas de um processo viciado.
Mas havia no ar uma preocupação maior que a solidariedade, e que afeta a todos, nós, Dirceu, presidiários, brasileiros, gente do bem e gente do mal. Uma preocupação maior do que qualquer cálculo político, partidário, ideológico ou eleitoral.
Uma preocupação infinitamente maior do que qualquer moralismo.
O arbítrio de Joaquim Barbosa, com apoio decidido da mídia (da qual ele talvez seja apenas um marionete), pôs em risco o valor subjetivo mais sagrado para cada um de nós: a liberdade.
Porque se temos um judiciário trabalhando em conluio criminoso com a mídia, para encarcerar pessoas sem provas, então a liberdade está ameaçada no país.
Pela liberdade se luta com frieza implacável e serena objetividade. Porque é uma luta para a qual todos os nossos sentidos e todas as nossas faculdades intelectuais foram preparados. É a luta central do ser humano.
A liberdade nasce exatamente no momento em que decidimos lutar por ela. E foi precisamente o que aconteceu ali, naquele salão de eventos do Sindicatos dos Bancários, numa quinta-feira morna do dia 19 de dezembro de 2013. Cerca de 150 a 200 pessoas decidiram, serenamente, ser livres.
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PS: Aproveito a oportunidade para desejar a todos um bom descanso nestes feriados de fim de ano. Eu devo trabalhar um pouco no Tijolaço e aqui, durante os próximos dias, mas voltamos a todo vapor a partir do primeiro ou segundo dia útil de janeiro. Lembrem-se de fazer uma contribuição para o Cafezinho iniciar forte o ano que vem!

sábado, 14 de dezembro de 2013

Hegemonia: ponte entre o velho e o novo

Brasil


Por Saul Leblon, no sítio Carta Maior:

Não é preciso a adesão incondicional a uma sigla progressista para enxergar nos seus dilemas um mirante dos desafios que cercam as transformações da sociedade em nosso tempo.

O Congresso dos 33 anos do PT, que termina neste sábado, reavivou velhos dilemas da esquerda, condimentados pela encruzilhada de uma transição de ciclo na economia mundial.

Portadores de esféricas certezas – entre as quais, o óbito histórico do PT - dispensam-se da reflexão. Carta Maior acredita que ela ainda pode ajudar os fatos com a força dos argumentos.

Uma pergunta de interesse histórico martela as entrelinhas do texto-base do encontro do PT, publicado na íntegra por Carta Maior (leia neste blog: ‘Ser realista, sem perder a utopia’).

Como ser governo de uma sociedade capitalista e ao mesmo tempo não se perder do compromisso de transformá-la? Mais que isso: como fazê-lo em meio a uma crise que exprime a racionalidade impossível de se combater sem a intervenção política que coloque a economia a serviço da sociedade?

A desordem neoliberal veio reiterar que a saúde das finanças e a deriva da sociedade não são realidades contraditórias do nosso tempo. A Europa é a fratura exposta de um sistema que adoece o povo para curar bancos.

É a regra, dizem os consultores aos colunistas que martelam sandices como sentenças inapeláveis. Importa reter a tendência mais geral de um capitalismo que deixado à própria sorte mais que nunca vai operar em condições de baixa demanda efetiva (exceto em bolhas fugazes) e elevado desemprego.

Deixá-lo à vontade para funcionar assim é o que apregoa a emissão conservadora no Brasil, a evidenciar interesses e uma ignorância letal à sociedade. Comandar socialmente o investimento, puxando-o pelas rédeas do Estado, como o governo tenta fazer desde 2008, é um antídoto ao arrocho que alguns querem trazer ao Brasil.

O keynesiano discreto do PT, porém, grita seus limites em tempos de capital monopolista e expectativas comandadas pela emissão conservadora. Keynesianismo sem um protagonista social que o conduza – e este sujeito não é o capitalista local - assemelha-se a um pato manco.

Todo capital é capital estrangeiro na era da supremacia das finanças desreguladas. No aperto, voam juntos como golondrinas. O dilema que atormenta o PT, portanto, é uma versão turbinada daquele que assola a esquerda mundial desde que ela passou a disputar os votos da sociedade para gerir o Estado, ainda sem ter o poder de modifica-lo.

“(o PT) é ainda prisioneiro de um sistema eleitoral que favorece a corrupção e de uma atividade parlamentar que dificulta a mudança, a despeito da vontade das forças progressistas (...)

As medidas de reforma do Estado não foram capazes de remover os obstáculos burocráticos que criam empecilhos para o avanço mais rápido dos grandes projetos de infraestrutura, vitais para dar nova qualidade a nosso desenvolvimento” (texto-base do V Congresso do PT)

O PT nasceu para ser esse novo recorte na trajetória da democracia e do desenvolvimento brasileiro. O que se deliberou na reunião do Colégio Sion, em São Paulo, em 10 de fevereiro de 1980, foi isso.

Uma espécie de basta organizado à usina de retroalimentação de uma das sociedades mais injustas do planeta, reiterada pelo elitismo vicioso de sua representação política.

Anos depois o partido decidiria - e não errou nisso - disputar o velho poder contra o qual emergiu, como parte do esforço para mudar o eixo do desenvolvimento e a dinâmica da sociedade. 'A Nação é o povo e o Estado a sua expressão' , dizia o título do manifesto de criação do partido, assim detalhado: “Os trabalhadores (...) entendem que a Nação é o povo e, por isso, sabem que o País só será efetivamente independente quando o Estado for dirigido pelas massas trabalhadoras.

É preciso que o Estado se torne a expressão da sociedade, o que só será possível quando se criarem as condições de livre intervenção dos trabalhadores nas decisões dos seus rumos. Por isso, o PT pretende chegar ao governo e à direção do Estado para realizar uma política democrática, do ponto de vista dos trabalhadores, tanto no plano econômico quanto no plano social (...) para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados e nem exploradores’ (Manifesto de fundação do PT, no Colégio Sion, em São Paulo, em 10 de fevereiro de 1980).

O que se discute, 33 anos depois, é se o instrumento da mudança não foi ele próprio mastigado nos dentes da realpolitik , a ponto de se transformar de alavanca mudancista em presa da ordem. 

“(o sistema político) impede transformações mais profundas e impõe um Presidencialismo de coalizão, que corrói o conteúdo programático da ação governamental” (texto-base do V Congresso).

O saldo da comprovada capacidade progressista de governar a economia e a sociedade, de forma mais democrática e estável, com resultados indiscutivelmente superiores ao histórico conservador, sugere que ainda não.

Mas isso não dissipa, antes corrobora a percepção de que um ciclo se fechou. Mais sério que isso. Aquilo que pede para nascer não emergirá de uma brotação espontânea do que já foi acumulado.

Os sessenta milhões de brasileiro que passaram a respirar ares de consumo e cidadania após 11 anos progressistas formam uma espécie de pré-sal de possibilidades emancipadoras.

A exemplo da riqueza fóssil acumulada na plataforma brasileira, porém, esse protagonista potencial requer uma estratégia de lapidação que cobra a sua ‘Petrobrás’ política para se efetivar.

“Não é fácil para um Governo, sobretudo de esquerda: (1) estabelecer equilíbrio entre ação e reflexão e entre o urgente e o importante; (2) resolver as dificuldades institucionais e burocráticas que se antepõe à ação governamental e (3) entender e dar conta das novas reivindicações que surgem na sociedade.

Mas não é fácil para o Partido, tampouco, realizar a complexa tarefa de apoiar seu Governo e, ao mesmo tempo, empurrá-lo para além dos limites que lhes impõem a conjuntura ou instituições, muitas vezes arcaicas”. 

Não é fácil.

Mas o Congresso dos 33 anos do PT externa uma inquietação, implícita no documento-base, que desautoriza a saciedade conservadora de alas do partido. Hipertrofiadas pela mídia, elas tentam fixar o que é limitante como suficiente e apresenta-lo como satisfatório à maioria.

Não é razoável supor que os mesmos interesses e estruturas que produziram a sociedade mais desigual do planeta possam conduzir o Brasil para um horizonte de convergência da riqueza e de cidadania, apenas porque o governo é do PT.

A sedução da lógica incremental, de qualquer forma, não pode ser subestimada. Vista a partir de retinas embaçadas de cansaço ou rendição ideologia, a transformação social mais profunda parece uma impossibilidade aprisionada em seus próprios termos: as coisas só mudam, se as coisas mudarem. E se as coisas não mudarem, as coisas não mudam…

O sistema de produção baseado na mercadoria cria e apodrece as pontes das quais depende a travessia do velho para o novo. Não há automatismo que afronte essa incessante geração e coagulação do futuro no passado .

Ao contrário do que ocorre no mundo dos mamíferos, na história não há parto natural e muito menos sem dor. Uma parte do metabolismo social resiste ao novo - belicosamente se necessário.

Cada vez menos depois de 2002, o PT se debruçou sobre a tarefa de criar pontes de organização democrática e discernimento histórico, compatíveis com o gigantescas parto das transformações requeridas pelo país.

Onze anos de governo sob o cerco diuturno das torquesas conservadoras fizeram-no desenvolver um escudo de economicismo, ao mesmo tempo defensivo e imprudente. Ele se atribui a missão de gerar resultados tão suficientemente bons na macroeconomia que renovariam a delegação da sociedade, e a indulgência dos mercados, para administrar a travessia do país que somos ao Brasil que poderíamos ser.

Ponto pacífico: gerar resultados é um imperativo da governabilidade. O economicismo incremental como única alternativa à ruptura violenta, porém, é uma falsa disjuntiva. Suas consequências, no entanto, são verdadeiras.

Elas alargaram as distâncias entre o governo e o partido e entre este e as ruas – em que pese o mencionado e indiscutível saldo de avanços. Os protestos de junho escancararam esse hiato. Uma parte do corpo petista acordou.

Respostas que rompiam a circularidade incremental foram a anunciadas pelo governo, a exemplo da Constituinte da reforma política e do programa ‘Mais Médicos’. Um outro pedaço do metabolismo, porém, continua a ressonar como um sonâmbulo que mantém hábitos inalterados de andar em círculos.

O linchamento imposto ao partido e a algumas de suas lideranças históricas – sem qualquer resistência organizada; bem como as sirenes de uma transição traumática na economia mundial afrontam as certezas de quem considera a consciência política uma extensão natural da elevação do consumo e este uma espiral inesgotável.

A cegueira explica o inexplicável: “ (...) Partido e Governo não souberam desenvolver instrumentos de comunicação social que pudessem contra arrestar a permanente ofensiva conservadora dos grandes proprietários de jornais, rádios e televisões” (texto-base do V Congresso).

A omissão nessa frente (antiga e inacreditavelmente ativa) evidencia um descaso com iniciativas incontornáveis, quando se trata de transitar do velho para o novo na vida de uma Nação. Repita-se: avanços concretos perceptíveis no cotidiano do país formam os pilares dessa travessia.

Mas o que consolida a ponte entre o velho e o novo é o salto no discernimento histórico da sociedade. Sua emergência requer informação plural e participação direta nas grandes decisões do país.

Do conjunto nasce uma nova hegemonia. O documento-base do V Congresso sugere que para uma parte do partido a negligência com essa arquitetura atingiu um ponto de saturação.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

As dívidas de campanha e o julgamento do mensalão


A história de uma farsa – Capítulo 3

Por Miguel do Rosário do Blog O Cafezinho



As dívidas de campanha
Em algum momento lá trás, eu mencionei o “mínimo distanciamento histórico” em relação aos fatos que produziram o escândalo do mensalão. Preciso agora enfatizar o termo “mínimo”, ou mesmo me contradizer. Não há distanciamento histórico. As bombas ainda explodem lá fora. O editorial do Globo hoje, 15 de maio de 2013, é: “Mensalão recoloca STF em risco”, onde o jornalão assevera que o tribunal “precisa ter consciência de que, ao decidir sobre novo julgamento, pode pôr a perder a credibilidade obtida com sua atuação no caso até agora”. É uma ameaça. O Globo, pela enésima vez, põe uma faca no pescoço dos ministros do STF e diz: vão em frente.
A grande ironia é que o Globo está certo. Só que ao contrário. O STF está, de fato, em risco de se desmoralizar, mas se se curvar mais uma vez aos interesses políticos e às chantagens da família Marinho.
Eu falei nas bombas que estouram lá fora porque me lembrei de um comentário de alguém sobre Jules Michelet, talvez o mais querido historiador francês. Em 1848, Michelet escrevia sobre a revolução francesa enquanto ouvia, do lado de fora de sua casa, as bombas de uma outra revolução acontecendo. Os mesmos princípios estavam em jogo: a república, a democracia, a igualdade social. Michelet era um ardente republicano e defensor dos legados da revolução francesa, mas não podia negar os erros trágicos e brutais das lideranças que assumiram o poder no auge do “terror” jacobino.
Michelet, todavia, era inteligente demais para publicar uma denúncia contra a revolução que pudesse ser instrumentalizada por seus adversários políticos para atacar os princípios que ele, Michelet, acreditava. Michelet era o que, mais tarde, os marxistas chamariam de “intelectual orgânico”. Hoje em dia, a historiografia oficial francesa lê Michelet com muita cautela, tentando separar seu engajamento ideológico e seus inegáveis talentos literários dos acontecimentos históricos em si.
Após um certo tempo, a academia tende a analisar os fatos com a frieza de um dissecador de cadáveres. Mas todos admitem que, se você quiser sentir um pouco do calor revolucionário que emanava das ruas parisienses, naqueles cinquenta anos a partir da queda da Bastilha; se quiser entender o que aconteceu não apenas de maneira cerebral ou acadêmica, mas apreender sobretudo suas reverberações espirituais, então você precisa ler a História da Revolução Francesa de Jules Michelet.
Ao abordar a aparição de Marcos Valério no grande palco da história brasileira contemporânea, começaremos a falar dos grandes erros do PT. O erro fundamental, naturalmente, foi ganhar as eleições. Um parente meu, alguns meses após a posse de Lula, quando a onda de cobranças deflagrou mais uma fornada “desencantados com a política”, me disse assim mesmo: “O PT não deveria ter ganho”. Não era ironia. Havia muita gente, na própria esquerda, que entendia que o PT não deveria ter ganho, para evitar o processo de corrosão ética e ideológica provocado pelo poder.
Quando escavamos as origens do mensalão, batemos em alguma coisa sólida lá embaixo, guardamos a pá e abrimos o baú encontrado, o que vemos?
A vitória de Lula não representa, naturalmente, apenas a vitória pessoal do ex-metalúrgico, nem somente a ascensão do Partido dos Trabalhadores às funções máximas do Executivo. Há um corte histórico, que nem o mais raivoso inimigo do PT poderá negar. Uma coisa é o que acontece na superfície dos acontecimentos. A festa do povo nas ruas. A cantoria, o choro e as bebedeiras. Outra coisa é o movimento silencioso e profundo das placas tectônicas da história.
Vamos aos fatos.
Primeiro, a campanha. Todos os crimes eleitorais acontecem na campanha. A campanha eleitoral, em si, é o crime fundamental do regime democrático.
Não por outra razão, quando os petistas começam a se recuperar do susto que levaram com o escândalo do mensalão, repetirão em coro: a culpa é das campanhas! Daí nasce o desejo de fazer uma reforma política para tampar o ralo por onde escorre toda a decência e toda a ética.
Só que não vão conseguir. As campanhas eleitorais continuarão, para sempre, sendo um crime político. Porque é nas campanhas que se mobilizam todas as forças, todos os recursos, se amarram todos os compromissos. É nas campanhas que, invariavelmente, vemos despontar no horizonte, caminhando em nossa direção, um homem manco, de rosto estranho, com um pé deformado, semelhando um pé… de cabra.
Perdoem-me a caricatura, que tentarei desfazer mais adiante, mas não posso resistir: que figura mais parecida com o diabo senão aquele risonho moço de careca luzidia chamado Marcos Valério?
A única maneira de pôr fim a este grande crime político, ao crime original, é dar fim às campanhas. Ou seja, é dar fim ao regime democrático e instalar a ditadura. De preferência, uma ditadura de juízes vitalícios. Aí sim, o país poderá respirar aliviado, as classes instruídas poderão olhar, satisfeitas, para os donos do poder, que serão homens cultos e severos, e que não chegaram onde chegaram através de campanhas políticas sujas.
Ah, mas não é somente um crime. As campanhas mobilizam uma grande quantidade de mão-obra. São milhares, quiçá milhões de pessoas trabalhando em todo país, em tudo que é tipo de atividade. A moeda mais valiosa em qualquer campanha é o trabalho. Qualificado, naturalmente. Se há dinheiro para pagar o trabalho, paga-se. Se não se tem, faz-se dívidas. Arrisca-se. As campanhas mobilizam as apostas mais temerárias que se pode conceber. Empresários, ativistas, políticos, donas de casa, todo mundo aposta alguma coisa.
Após a vitória, Lula chama a equipe que coordenava a questão do financiamento de sua campanha. Obviamente, sempre fora a questão crucial para a vitória. E deixemos claro uma coisa: o PT não ganhou as eleições apenas por causa do amor dos companheiros à causa. A campanha de Lula foi rica em recursos. E falo do Caixa 1, contabilizado. O professor Wanderley Guilherme dos Santos fez um levantamento das eleições de 2002 e verificou que Lula ganhara mais dinheiro que seu adversário, José Serra.
Os empresários brasileiros, apesar de toda afinidade ideológica com o PSDB, estavam traumatizados pela incompetência do governo FHC. O país quebrara várias vezes, a carga tributária quase dobrara, os juros atingiram níveis insuportáveis. Só quem ganhava dinheiro, em tese, eram os bancos. Mas até os bancos quebraram! O capitalismo brasileiro foi empurrado à força para a esquerda, porque entendeu que precisava de uma coisa básica para continuar produzindo riqueza: consumidores.
Pizzolato, que já participara de várias campanhas e entendia de economia, em função de seu trabalho no Banco do Brasil, era um dos que trabalhavam no núcleo financeiro do comitê e descreve a reunião com Lula em tons vívidos. Os cardeais estavam todos presentes: José Dirceu, Palocci, Gushiken, etc. Lula só pediu uma coisa: quero as contas de campanha totalmente ordenadas. Quero ser diplomado sem a mínima mácula. E assim foi feito. Todos trabalharam como loucos para ordenar sabe-se lá quantos milhares de notas fiscais, preencher sabe-se lá quantas planilhas. Mas tudo foi cumprido à risca e Lula é diplomado com as contas de campanha em dia.
Aí, vem uma outra reunião. A campanha nacional fora paga, mas os dirigentes regionais aparecem com enormes dívidas. Dívida tem que ser paga! Ainda mais naquele Brasil em profunda crise econômica, desemprego altíssimo, como era em 2003. Ouvíamos casos famosos de gente matar outra por dívida de 15 reais. Que dizer então das milionárias dívidas de campanha?
“Então Lula fez uma loucura”, diz Pizzolato, embora mais tarde admita que talvez fosse o melhor a fazer. Quando a gritaria dos diretórios regionais em relação às dívidas começou a ficar alta demais, Lula chamou Delúbio Soares, tesoureiro do partido e mandou: “Resolve isso, Delúbio”. O diretório nacional do PT, por orientação do recém eleito chefe de Estado, assume as milionárias dívidas dos núcleos regionais. O PT, de uma hora para outra, mesmo tendo ganhado as eleições, se tornava uma instituição completamente falida e endividada.
O Delúbio era o cara com mais intimidade com Lula, conta Pizzolato. Quando Lula mandou ele assumir todas as dívidas, ele quase caiu da cadeira e rebateu de pronto: “No meu, não, né, presidente (ele agora já chamava Lula de presidente)! No meu arde!”
Palocci dá um risinho, bate nas costas de Delúbio e diz alguma coisa sobre o peso de “ser governo”.
Delúbio vai atrás de dinheiro. O fundo partidário estava mais liso que a careca de Valério: tudo havia sido gasto para que Lula se diplomasse com as contas pagas, totalmente limpo. Onde está o dinheiro? Nos bancos. Segundo Pizzolato, Delúbio gostava de fumar charutos; quem trabalhava mesmo eram os dois secretários à sua disposição. Vão ao Banco do Brasil pegar emprestado. Só que o patrimônio do PT só permitia ao partido pegar uns 2 milhões de reais. Não dava nem para encher o buraco do dente. A dívida total era mais de 50 milhões de reais. Os bancos não queriam emprestar para o PT por uma questão burocrática básica: o partido tinha um limite baixo.
Ironia quase trágica. O partido que vencera as eleições presidenciais não tinha limite. Mas o empresário Marcos Valério tinha. Ele podia pegar quanto dinheiro quisesse, porque era bem relacionado. “Hoje o pessoal fala mal do Valério, mas na época ele foi o salvador da pátria”, conta Pizzolato.
Com Marcos Valério como avalista, o PT conseguiu levantar dois bons empréstimos com o BMG e o Rural. Parte do problema estava sanado. Até aí tudo bem. Mas ainda faltava dinheiro. Então Valério faz um acerto com Delúbio. Aí nasce, efetivamente, o “mensalão”. Valério faz um empréstimo em seu nome, para pagar as dívidas do PT. Delúbio fazia assim, conta Pizzolato: conforme os diretórios iam ligando para cobrar o pagamento das dívidas, ele ligava para uma secretária de Valério para fazer os pagamentos. Tudo isso acontecia em 2003. Só que o tempo foi passando; em poucos meses, haveria outra eleição. Novas dívidas começaram a surgir…
O Lula? Ele sabia de tudo? Esse e mais detalhes, vamos deixar para o próximo capítulo.

PS: Agradeço profundamente a todos que tem apoiado meu trabalho. Não há ditado mais útil, neste caso, do que “a união faz a força”.  Reitero aqui a minha disposição de fazer uma série completa de artigos sobre o mensalão, com base em documentos, entrevistas, mas sobretudo tentando desintoxicar o tema de todo proselitismo conservador e tendencioso que foi se acumulando ao longo do tempo. Peço licença, mais uma vez aos assinantes, para deixar os posts abertos, e libero a sua reprodução em qualquer espaço, desde que dado o link.  Se quiser me ajudar a continuar fazendo esse trabalho, pode fazê-lo na forma de doações (clique aqui) ou assinaturas do blog O Cafezinho(aqui).
Prefácio: Mensalão, a história de uma farsa.
Capítulo 1: Acusações contra Pizzolato lembram Dreyfus e Kafka.
Capítulo 2: O caso Visanet.