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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Crise: As Primaveras do Terror U.S.A






Por Mauro Santayana, reproduzido do site de Luis Nassif


(Jornal do Brasil) - Há alguns dias, terroristas franceses, ligados, aparentemente, à Al Qaeda, atacaram a redação do jornal satírico parisiense Charlie Hebdo, em represália pela publicação de caricaturas sobre o profeta Maomé.
Doze pessoas foram assassinadas, entre elas alguns dos mais famosos cartunistas e intelectuais do país, e dois cidadãos de origem árabe, um deles, estrangeiro, que trabalhava há pouco tempo na publicação, e um membro das forças de segurança que estava nas imediações.
Logo em seguida, houve, também, outro ataque, a um supermercado kosher na periferia de Paris, em que 4 judeus franceses e estrangeiros morreram.
Dias depois, milhões de pessoas, e personalidades de vários países do mundo, se reuniram nas ruas da capital francesa, para protestar contra o atentado, e se manifestar contra o terrorismo e pela liberdade de expressão.
Na mesma primeira quinzena de janeiro, explodiram carros-bomba, e homens-bomba, também ligados a grupos radicais islâmicos, no Líbano (Beirute), na Síria (Aleppo), na Líbia (Benghazi), e no Iraque (Al-Anbar), com dezenas de mortos, em sua maioria civis.
Mas, como sempre, não seria normal esperar que algum destes fatos tivesse a mesma repercussão do atentado em Paris, capital de um país europeu, ou que a alguém ocorresse produzir cartazes e neles escrever Je suis Ahmed, ou Je suis Ali, ou Je suis Malak, Malak Zahwe, a garota brasileira, paranaense, de 17 anos, que morreu na explosão de um carro-bomba, junto com mais 4 pessoas (20 ficaram feridas), no dia 2 de janeiro, em Beirute.
No entanto, os homens, mulheres e crianças, mortos, todos os dias, no Oriente Médio e no Norte da África, são tão frágeis e preciosos, em sua fugaz condição humana, quanto os que morreram na França, e vítimas dos mesmos criminosos, criados pela onda de radicalização e rápida expansão do fundamentalismo islâmico, nos últimos anos.
Raivosas, autoritárias, intempestivas, numerosas vozes se alçaram, em vários países, incluído o Brasil, para gritar - em raciocínio tão ignorante quanto irascível - que o terrorismo não tem que ser "compreendido" e, sim, "combatido".
Os filósofos e estrategistas chineses ensinam, há séculos, que sem conhecê-los, não é possível vencer os eventuais adversários, nem mudar o mundo.
Além disso, não podemos, por aqui, por mais que muitos queiram emular os países "ocidentais", em seu ardoroso "norte-americanismo" e "eurocentrismo", esquecer que existem diferenças históricas, e de política externa, entre o Brasil, os EUA, e países da OTAN como a França.
Podemos dizer que Somos Charlie, porque defendemos a liberdade e a democracia, e não aceitamos que alguém morra por fazer uma caricatura, do mesmo jeito que não podemos aceitar que uma criança pereça bombardeada pela OTAN no Afeganistão ou na Líbia, ou porque estava de passagem, no momento em que explodiu um carro-bomba, por um posto de controle em Aleppo, na Síria.
Mas é preciso lembrar que, ao contrário da França, nunca colonizamos países árabes e africanos, não temos o costume de fazer charges sobre deuses alheios em nossos jornais, não jogamos bombas sobre países como a Líbia, não temos bases militares fora do nosso território, não colaboramos com os EUA em sua política de expansão e manutenção de uma certa "ordem" ocidental e imperial, e, talvez, por isso mesmo - graças a sábia e responsável política de Estado, que inclui o princípio constitucional de não intervenção em assuntos de outros países - não sejamos atacados por terroristas em nosso território.
As raízes dos atentados de Paris, e do mergulho do Oriente Médio na maior, e, com certeza, mais profunda tragédia de sua história, não está no Al Corão ou nas charges contra o Profeta Maomé, embora estas últimas possam ter servido de pretexto para ataques como o que ocorreu em Paris.
Elas começaram a se tornar mais fortes, nos últimos anos, quando o "ocidente", mais especificamente alguns países da Europa e os EUA, tomaram a iniciativa de apoiar e insuflar, usando também as redes sociais, o "conto do vigário" da Primavera Árabe em diversos países, com a intenção de derrubar regimes nacionalistas que, com todos os seus defeitos, tinham conquistado certo grau de paz, desenvolvimento e estabilidade para seus países nas últimas décadas.
Inicialmente promovida, em 2011, como "libertária", "revolucionária", a Primavera Árabe iria, no curto espaço de três anos, desestabilizar totalmente a região, provocar massacres, guerras civis, golpes de Estado, e alcançar, por meio da intervenção militar direta e indireta da OTAN e dos EUA em vários países, a meta de tirar do poder, a qualquer custo, regimes que lutavam para manter um mínimo de independência e soberania em suas relações com os países mais ricos.
Quando os EUA, com suas "primaveras" - que não dão flores, mas são fecundas em crimes e cadáveres - não conseguem colocar no poder um governo alinhado com seus interesses, como na Ucrânia e no Egito, jogam irmão contra irmão e equipam com armas, explosivos, munições, terroristas, bandidos e assassinos para derrubar quem estiver no comando do país.
O objetivo é destruir a unidade nacional, a identidade local, o Estado e as instituições, para que essas nações não possam, pelo menos durante longo período, voltar a organizar-se, a ponto de tentar desafiar, mesmo que em pequena escala, os interesses norte-americanos.
Foi assim que ocorreu com a intervenção dos EUA e de aliados europeus como a Itália e a França - contra a recomendação de Brasil, Rússia, Índia e China, no Conselho de Segurança da ONU - no Iraque, na Líbia e na Síria.
Durante décadas, esses países - com quem o Brasil tinha, desde os anos 1970, boas relações - viveram sob relativa estabilidade, com a economia funcionando, crianças indo para a escola, e diferentes etnias, religiões e culturas, dividindo, com eventuais disputas, o mesmo território.
Estradas, rodovias, sistemas de irrigação, foram construídos - também com a ajuda de técnicos, operários e engenheiros brasileiros - com os recursos do petróleo, e países como o Iraque chegavam a importar automóveis, como no caso de milhares de Volkswagens Passat fabricados no Brasil, para vender aos seus cidadãos de forma subsidiada.
Na Líbia de Muammar Kadafi, segundo o próprio World Factbook da CIA, 95% da população era alfabetizada, a expectativa de vida chegava, para os homens, segundo dados da ONU, a 73 anos, e a renda per capita e o IDH estavam entre os maiores do Terceiro Mundo, mas esses dados nunca foram divulgados normalmente pela imprensa "ocidental".
Pode-se perguntar a milhares de brasileiros que estiveram no Iraque, que hoje têm entre 50 e 70 anos de idade, se, naquela época, sunitas e xiitas se matavam aos tiros pelas ruas, bombas explodiam em Basra e Bagdá todos os dias, como explodem hoje, a qualquer momento, também em Trípoli ou Damasco, ou milhares de órfãos tentavam atravessar montanhas e rios sozinhos, pisando nos restos de outras crianças, mortas em conflitos incentivados por "potências" estrangeiras, ou tentavam sobreviver caçando, a pedradas, ratos por entre escombros das casas e hospitais em que nasceram.
São, curdos, xiitas, sunitas, drusos, armênios, cristãos maronitas, inimigos?
Antes, trabalhavam nos mesmos escritórios, viviam nas mesmas ruas, seus filhos frequentavam as mesmas salas de aula, mesmo que eles não tivessem escolhido, no início, viver como vizinhos.
Assim como no caso de hutus e tutsis em Ruanda, e em inúmeras ex-colônias asiáticas e africanas, as fronteiras dos países do Oriente Médio foram desenhadas, na ponta do lápis, ao sabor da vontade do Ocidente, quando da partilha do continente africano por europeus, obedecendo não apenas ao resultado de Conferências como a de Berlim, em 1884, mas também à máxima de que sempre se deve "dividir para comandar", mantendo, de preferência, etnias de religiões e idiomas diferentes dentro de um mesmo território ocupado pelo colonizador.
Eram Saddam Hussein e Muammar Kadafi, ditadores? É Bashar Al Assad, um déspota sanguinário?
Quando eles estavam no poder, não havia atentados terroristas em seus países.
E qual é a diferença deles e de seus regimes, para os líderes e regimes fundamentalistas islâmicos comandados por xeques e emires, na mesma região, em que as mulheres - ao contrário dos governos seculares de Saddam, Kadafi e Assad - são obrigadas a usar a burka, não podem sair de casa sem a companhia do irmão ou do marido, se arriscam a ser apedrejadas até a morte ou chicoteadas em caso de adultério, e não há eleições, a não ser o fato de que esses regimes são dóceis aliados do "ocidente" e dos EUA?
Se os líderes ocidentais viam Kadafi como inimigo, bandido, estuprador e assassino, por que ele recebeu a visita do primeiro-ministro britânico Tony Blair, em 2004; do Presidente francês Nicolas Sarkozy - a quem, ao que tudo indica, emprestou 50 milhões de euros para sua campanha de reeleição - em 2007; da Secretária de Estado dos EUA, Condoleeza Rice, em 2008; e do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi em 2009?
Por que, apenas dois anos depois, em março de 2011 - depois de Kadafi anunciar sua intenção de nacionalizar as companhias estrangeiras de petróleo que operavam, ou estavam se preparando para entrar na Líbia (Shell, ConocoPhillips, ExxonMobil, Marathon Oil Corporation, Hess Company) esses mesmos países e os EUA, atacaram, com a desculpa de criar uma Zona de Exclusão Aérea sobre o país, com 110 mísseis de cruzeiro, apenas nas primeiras horas, Trípoli, a capital líbia, e instalações do governo, e armaram milhares de bandidos - praticamente qualquer um que declarasse ser adversário de Kadafi - para que o derrubassem, o capturassem e finalmente o espancassem, a murros e pontapés, até a morte?
Ora, são esses mesmos bandidos, que, depois de transformar, com armas e veículos fornecidos por estrangeiros, a Líbia em terra de ninguém, invadiram o Iraque e, agora, a Síria, e se uniram para formar o Estado Islâmico, que pretende erigir uma grande nação terrorista juntando o território desses três países, não por acaso os que foram mais devastados e destruídos pela política de intervenção do "ocidente" na região, nos últimos anos.
Foram os EUA e a Europa que geraram e engordaram a cobra que ameaça agora devorar a metade do Oriente Médio, e seus filhotes, que também armam rápidos botes no velho continente. Serpentes que, por incompetência e imprevisibilidade, depois da intervenção na Líbia, a OTAN e os EUA não conseguiram manter sob controle.
Os Estados Unidos podem, pelo arbítrio da força a eles concedida por suas armas e as de aliados - quando não são impedidos pelos BRICS ou pela comunidade internacional - se empenhar em destruir e inviabilizar pequenas nações - que ainda há menos de cem anos lutavam desesperadamente por sua independência - para tentar estabelecer seu controle sobre elas, seu povo e seus recursos, objetivo que, mesmo assim, nunca conseguiram alcançar militarmente.
Mas não podem cometer esses crimes e esses equívocos, diplomáticos e de inteligência, e dizer, cinicamente, que o fizeram em nome da defesa da Liberdade e da Democracia.
Assim como não deveriam armar bandidos sanguinários e assassinos para combater governos que querem derrubar, e depois dizer que são contra o terrorismo que eles mesmos ajudaram a fomentar, quando esses mesmos terroristas, além de explodir bombas e matar pessoas em Bagdá, Damasco ou Trípoli, todos os dias, passam a fazer o mesmo nas ruas das cidades da Europa ou dos próprios Estados Unidos.
O "terrorismo" islâmico não nasceu agora.
Mas antes da balela mortífera da Primavera Árabe, e da Guerra do Iraque, que levou à destruição do país, com a mentirosa desculpa da posse, por Saddam Hussein, de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas - tão falsa quanto o pretexto do envolvimento de Bagdá no ataque às Torres Gêmeas, executado por cidadãos sauditas, e não líbios, sírios ou iraquianos - não havia bandos armados à solta, sequestrando, matando e explodindo bombas nesses 3 países.
Hoje, como resultado da desastrada e criminosa intervenção ocidental, o terror do Estado Islâmico, o ISIS, controla boa parte dos territórios e da sofrida população síria, iraquiana e líbia, e, a partir deles, está unindo suas conquistas em torno da construção de uma nação maior, mais poderosa, e extremamente mais radical do ponto de vista da violência e do fundamentalismo, do que qualquer um desses países jamais o foi no passado.
O ataque terrorista à redação e instalações do semanário francês Charlie Hebdo, e do Mercado Kosher, em Vincennes, Paris, foram crimes brutais e estúpidos.
Mas não menos brutais, e estúpidos, do que os atentados cometidos, todos os dias, contra civis inocentes, entre muitos outros lugares, como a Síria, o Iraque, a Líbia, o Afeganistão.
Quem quiser encontrar as sementes do caos que também atingiram, em forma de balas, os corpos dos mortos do Charlie Hebdo poderá procurá-las no racismo de um continente que acostumou-se a pensar que é o centro do mundo, e que discrimina, persegue e despreza, historicamente, o estrangeiro, seja ele árabe, africano ou latino-americano; e no fundamentalismo branco, cristão e rançoso da direita e da extrema direita norte-americanas, cujos membros acreditam piamente que o Deus vingador da Bíblia deu à "América" do Norte o "Destino Manifesto" de dirigir o mundo.

Em nome dessa ilusão, contaminada pela vaidade e a loucura, países que se opuserem a isso, e milhões de seres humanos, devem ser destruídos, mesmo que não haja nada para colocar em seu lugar, a não ser mais caos e mais violência, em uma espiral de destruição e de morte, que ameaça a sobrevivência da própria espécie e explode em ódio, estupidez e sangue, como agora, em Paris, neste começo de ano.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Chávez por Chávez


A morte do presidente da Venezuela Hugo Chávez completou um ano nesta quarta-feira, 5 de março. O Blog Escrevinhador apresenta uma das entrevistas mais interessantes e abrangentes com o comandante da Revolução Bolivariana.

Marta Harnecker, renomada socióloga marxista-leninista chilena, fez uma grande entrevista em 2002 com Chávez, que estava há apenas três anos no governo e se forjava como uma grande figura histórica do continente.

Nos anos posteriores, Chávez ganharia relevo na política internacional e se transformaria em um dos maiores inimigos das políticas intervencionistas dos Estados Unidos na América Latina.

No Brasil, a entrevista saiu como livro em 2004, com o nome “Um homem, um povo”, com mais de 200 páginas, pela Editora Expressão Popular.

O livro está disponível para download. Clique aqui para baixar.

Abaixo, leia a introdução escrita por Marta Harnecker em 2002.

INTRODUÇÃO

A idéia de entrevistar o presidente venezuelano Hugo Chávez Frías surgiu-me em abril de 2002. Eu havia programado fazer uma viagem por vários Estados da Venezuela para realizar palestras sobre meus últimos trabalhos sobre a esquerda.

Como não aproveitar essa ocasião para entrevistar o líder do processo revolucionário venezuelano, um processo tão tergiversado pelos meios de comunicação internacionais e tão pouco compreendido pelos setores progressista e de esquerda deste e de outros continentes?

Não é de se surpreender que isso ocorra, já que se trata de um processo sui generis, que rompe com os esquemas preconcebidos dos processos revolucionários.

Primeiro: surge a partir da esmagadora vitória de Chávez em uma disputa eleitoral e continua avançando pela via institucional, apesar de todas as provocações que recebe dos opositores.

Segundo: é conduzido por um ex-militar que, seis anos antes, ao procurar superar a crise política que já então vivia a Venezuela, ousou promover um levante militar contra o regime.

Terceiro: tem sido incapaz de eliminar a corrupção, uma de suas bandeiras de luta.

Quarto: não conta com um partido de vanguarda para conduzir o processo.

Quinto: é catalogado ideologicamente de indefinido, porque não assume ideologicamente o marxismo como ideologia, mas o bolivarianismo. Este, evidentemente, não fala da luta de classes, mas fala, sim, de integração latino-americana. Concebe a democracia como o sistema político que proporciona a máxima felicidade ao povo. Não aceita que um militar dirija suas armas contra o povo. E, talvez o mais significativo, adverte, já naquela época, que os “Estados Unidos da América do Norte parecem destinados pela providência a semear de misérias a América em nome da liberdade”.

Sexto: não materializou ainda transformações econômicas de envergadura e é um fiel pagador da dívida externa. Levando em conta tudo isso, muitos se perguntam: como falar então de processo revolucionário? Paradoxalmente teria havido uma contra-revolução sem uma revolução.

Propus, então, ao presidente Chávez, realizar uma longa entrevista, partindo das dúvidas da esquerda em geral, que lhe permitisse informar e refletir sobre temas como: o porquê da escolha da via institucional para realizar mudanças revolucionárias; as razões de uma presença militar tão importante tanto nos órgãos de governo quanto na condução de muitas das principais tarefas revolucionárias; as características das atuais gerações de militares venezuelanos que os tornam diferentes de outros exércitos latino-americanos; as relações históricas com a esquerda
organizada e suas desilusões; o tipo de modelo econômico que se pretende levar adiante e as razões do escasso avanço neste terreno; as dificuldades que teve de enfrentar, os erros cometidos; a aprendizagem conseguida através desses anos e uma visão dos últimos acontecimentos – o golpe reacionário de 11 de abril de 2002 e o retorno do presidente ao palácio de Miraflores.

Minha intenção era de que esta entrevista servisse não apenas para dar a conhecer o processo venezuelano e os enormes desafios que enfrenta ao tratar de avançar nas transformações profundas da sociedade pela via pacífica constitucional, mas também como material de formação para os que acreditam, diante do neoliberalismo selvagem que hoje arrasa o nosso continente, que outro mundo humanista e solidário é possível e procuram obstinadamente construí-lo.

Quando decidi empreender a tarefa, li algumas entrevistas que ele havia concedido e me dei conta de que vários dos temas que me interessava abordar já haviam nelas sido desenvolvidos. Estive a ponto de abandonar o empreendimento. Não tinha sentido obrigá-lo a repetir o que já havia dito a outros.

Duas coisas me fizeram decidir continuar adiante. Primeiro, o convencimento a que finalmente cheguei de que era possível aprofundar vários temas já abordados e levantar alguns novos. E, segundo, a possibilidade de difundi-lo de forma “massiva” entre os que acompanham meus trabalhos desde tempos atrás.

Compreendia as dificuldades que o presidente teria para me conceder uma longa entrevista e, por isso, devido ao tempo e para oferecer ao leitor o máximo de informação possível sobre cada tema, pensei que o melhor seria elaborar as perguntas precedendo-as de um longo comentário informativo que oferecesse uma síntese das idéias principais já expostas em outros lugares, entrevistas e discursos, permitindo-me evitar os temas já tratados e destinar o tempo que me concedesse para aprofundá-los e abordar os novos. Fiz então um longo questionário de 12 páginas que, como era de se esperar, dada as suas múltiplas tarefas, ele nunca leu.

Não pude realizar a entrevista da forma como me havia proposto. Chávez é um grande conversador, foi muito difícil que se centrasse exatamente no tema proposto. Costuma acompanhar suas exposições com episódios e referências históricas. Às vezes, parecia haver perdido o fio ou que não queria abordar a matéria proposta, mas, passado algum tempo e sem que eu lhe cobrasse, voltava sistematicamente à pergunta.

Por outro lado, em alguns assuntos, não pude impedir que repetisse a informação que havia concedido a outros entrevistadores, o que finalmente tornou-se positivo porque, em vários deles, o fez com maior profundidade, talvez motivado pelo perfil do leitor para o qual sabia estava destinado este trabalho.

Fui apreensiva para minha primeira entrevista: seria capaz de estar à altura da tarefa? Meu entrevistado compreenderia a dureza de algumas perguntas? O gravador funcionaria bem? Bastou conhecê-lo e conversar uns minutos para que todas as minhas preocupações se desvanecessem. Encontrei um homem simples, simpático, autocrítico, reflexivo, com uma grande capacidade para ouvir com atenção os comentários que lhe são feitos.

Apaixonado, com uma grande força interior. Chamou-me especialmente a atenção sua grande sensibilidade humana e sua genuína vocação popular. Adora suas filhas e filhos e é muito terno com eles. Não pode viver sem ter um contato direto e freqüente com os setores populares mais humildes, nos quais, ele sabe, reside sua maior força. Sabe que é adorado pelo seu povo, mas quer transformar esse amor em organização e desenvolvimento autônomo. É um dirigente extraordinariamente humano.

Todas essas virtudes não negam seus defeitos. Ele mesmo reconhece que tem grandes dificuldades para trabalhar em equipe, perde facilmente a paciência, ofende seus colaboradores, confia excessivamente em pessoas em quem não deveria confiar, é incapaz de organizar sua agenda de forma racional, fala mais do que deveria falar: diz toda a verdade quando só poderia dizer uma parte.

Não se define como marxista, mas sim como revolucionário e bolivariano. Está convencido de que só uma revolução – ou seja, uma profunda transformação econômico-social – pode tirar a Venezuela da crise que se arrasta há décadas e, sobre este tema, não está disposto a transigir, custe o que custar. Sabe que, no processo revolucionário bolivariano, está em jogo a esperança,
não só de seu povo, mas também de muitos povos da América Latina e do mundo.

Escolheu a via pacífica para conseguir que esta se materialize e acredita sinceramente que este é o caminho mais desejável. Tem uma grande fé no papel que pode desempenhar o povo como poder constituinte para evitar que seus opositores obstruam este caminho. “O admirável em nossa nova
Constituição, costuma dizer, é que não permite que se aliene o Poder Constituinte”.

Esse é o último recurso no caso de o processo ser obstruído institucionalmente. Não pretende ter soluções claras e precisas para todos os problemas que angustiam a esquerda mundial. Reconhece honestamente que não possui todas as respostas, e está convencido de que deve caminhar guiado por algumas orientações básicas e ir criando muitas delas no caminho.

Tem absolutamente claro que não há processo revolucionário sem povo organizado e consciente e, por isso, dedica uma parte significativa de seu tempo a educar esse povo através de seus discursos e de seu programa semanal radiotelevisado “Alô, Presidente!”, além de seu contato direto com o povo. Não se cansa de chamá-lo para desempenhar um papel ativo na construção da nova sociedade que está nascendo. Sua obsessão tem sido transformar todo esse povo que se expressou nas ruas em 12, 13 e 14 de abril em organização. Não perde oportunidade para convocar pela construção de círculos bolivarianos dos mais diversos tipos. Sabe que um povo organizado e não desarmado, porque conta com o apoio de parte significativa da Força Armada, é invencível.

Mas, voltando à entrevista, apesar de ter gravado mais de 15 horas em diferentes sessões de trabalho, que ocorreram nos meses de junho e julho de 2002, em vários lugares da Venezuela, num jipe a caminho de El Vigia, em Mérida; num helicóptero em direção a um bananal, no mesmo Estado, onde se realizou o programa “Alô, Presidente!”; no avião presidencial em vôo de regresso para Caracas; na residência presidencial La Casona; na residência presidencial na ilha La Orchila, lugar onde esteve preso nas últimas horas do golpe militar de abril; no palácio de Miraflores; e no Forte Tiúna – foi impossível desenvolver completamente o amplíssimo questionário que eu havia elaborado.

As maiores lacunas ocorreram em dois temas: os elementos teóricos que fundamentam seu projeto e o instrumento político necessário para enfrentar os enormes desafios que ocorrem. Temas que, inclusive, ele reconhece como abertos.

Pareceu-me que a melhor forma de cobrir essas lacunas temporariamente, já que não renuncio à idéia de aprofundar esses temas em uma futura entrevista, era sintetizar os aspectos não abordados com dados conseguidos por mim da mesma forma que havia feito para o questionário, intercalando-os, sinteticamente, entre um tema e outro, ou no início de alguma pergunta.

A entrevista havia sido planejada para acontecer antes do golpe de Estado de 11 de abril de 2002, mas só foi possível materializá-la dois meses depois. As informações e reflexões sobre como um governante deposto por um golpe militar recupera o governo em menos de 48 horas, acontecimento único no mundo, ocupam um espaço importante neste livro.

E, falando do golpe, gostaria de terminar esta introdução com suas próprias palavras: “Quando penso no golpe do 11 de abril, lembro-me das idéias de John Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, que disse: ‘Os que fecham o caminho para a revolução pacífica abrem o caminho para a revolução violenta’. Escolhemos fazer a revolução constitucionalmente, por um processo constituinte de inquestionável legitimidade. Se em algum momento de 11 e 12 de abril duvidei que uma revolução democrática e pacífica fosse possível, o que aconteceu em 13 e 14 de abril, quando essa imensa quantidade de pessoas saiu à rua para rodear o palácio de Miraflores e vários quartéis, exigindo meu retorno, reafirmou-se em mim, com muito vigor, a idéia de que, sim, é possível. Claro que a batalha é dura, e será dura e difícil. Trata-se da arte de tornar possível o que tem parecido e continua parecendo para muitos como algo impossível”.

15 de agosto de 2002

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A volta da velha senhora



A turbulência cambial está de volta à AL. Mesmo governos progressistas usufruíram do ciclo de alta liquidez internacional que valorizou câmbio e poder de compra




Por Saul Leblon no sítio Carta Maior


A velha senhora, a turbulência cambial, está de volta à América Latina.

Ela nunca viaja sozinha. 

Em geral, faz-se acompanhar de sua inseparável dama de companhia, a instabilidade política.

Divisores importantes da história continental tiveram na alavanca cambial uma de suas forças de impulsão.

O colapso da dívida externa dos anos 80 foi um caso.

A paulada nos juros promovida pelos EUA, em 1979, reeditou o dólar forte, barateou as importações americanas, baixou a inflação do país (que chegara a 12%) e compensou a sangria comercial, decorrente da elevação dos preços do petróleo, em 1973.

Resolveu o problema americano. 

Mas alteraria toda a estrutura de passivos das economias em desenvolvimento.

As taxas de juros norte-americanas saltaram de um dígito para mais de 20%.

Foi o tiro de largada para a crise da dívida externa que desencadearia um efeito dominó com a quebradeira do México, Polônia, Brasil etc.

Empréstimos tomados a taxas flutuantes, súbito tornar-se-iam impagáveis.

Teve um aspecto positivo: a margem de manobra de ditaduras militares, como a brasileira, estreitou-se a tal ponto que terminariam abandonadas por amplos segmentos de seus patrocinadores empresariais.

O que se vive agora é uma paulada de novo tipo, desfechada pelas mesmas mãos.

O colapso das sub primes em 2008 produziu a maior crise do capitalismo desde 1929.

Os EUA foram, de novo, o epicentro.

Trilhões de dólares foram despejados então pelo Fed, o BC norte-americano, para salvar o sistema financeiro hegemônico no planeta.

Bem ou mal, o resgate teve êxito.

Mas a guerra cambial denunciada pelo Brasil, que valorizou as moedas dos países emergentes e danificou seu equilíbrio de preços, custou caro.

No caso brasileiro, danificaria adicionalmente sua planta industrial que já vinha –há uma década - afogada em importações barateadas pelo poder de compra artificial da moeda.

Com o ensaio de recuperação em marcha nos EUA, encerra-se a temporada de dinheiro barato.

O mundo – sobretudo o mundo em desenvolvimento - pagará novamente o tranco do ajuste.

O desafio do câmbio veio para ficar na agenda da América Latina.

Erra quem imagina que estamos diante de uma questão técnica.

Câmbio e inflação são almas gêmeas, por exemplo.

A taxa de câmbio define qual será o poder real de compra dos salários.

Ela qualifica o trânsito para um novo ciclo econômico; em certa medida antecipa seus vencedores e perdedores. 

Determina a inserção da economia no quadro mundial, o papel da exportação e da indústria (onde ela existe) e o tipo de emprego e de mercado interno que se deseja incentivar.

É por conta dessas implicações delicadas que mesmo governos progressistas usufruíram passivamente do confortável ciclo de alta liquidez internacional que valorizou o câmbio e o poder de compra local nos últimos anos.

No Brasil, na Argentina e alhures, de certa forma, a valorização da moeda nacional tem sido um recurso protelatório para amortecer a disputa interna pela riqueza.

Importações baratas funcionam como uma baldeação no conflito de classes.

O custo macroeconômico desse atalho – vide esgarçamento industrial - é elevado e tem um limite de elasticidade incontornável.

O elástico parece ter chegado ao fim para a Argentina. E de certa forma para toda América Latina.

O que vai pesar agora é o saldo dos trunfos acumulados no ciclo que se encerra.

Quem usou a folga cambial como um risco calculado e construiu uma nova correlação de forças, na qual os desfavorecidos ganharam maior musculatura para disputar o passo seguinte da história, sai na vantagem.

Quem deflagrou um novo ciclo de investimentos em infraestrutura, capaz de elevar a produtividade e a competividade da economia e, dessa forma, gerar um nova matriz de acesso à renda, substitutiva ao artifício cambial, tem margem de manobra para continuar crescendo.

De certa forma foi isso que Dilma afirmou no seu discurso em Davos , quando nomeou as conquistas dos últimos anos:

“Estamos nos tornando, por meio de um processo acelerado de ascensão social, uma nação dominantemente de classe média: 36 milhões de homens e mulheres foram tirados da extrema pobreza recentemente; 42 milhões ascenderam à classe média, que passou de 37% da população para 55% da população, apenas entre os anos a partir de 2003 até hoje. A renda per capita mediana das famílias brasileiras cresceu 78% no mesmo período. Nos últimos três anos, nós geramos 4,5 milhões de novos empregos. Criamos um grande mercado interno de consumo de massas. Criamos um imenso contingente de cidadãos com melhores condições de vida, maior acesso à informação e mais consciência de seus direitos. estamos conscientes da necessidade de avançarmos para uma nova etapa (...)O nosso objetivo é melhorar estruturalmente a economia brasileira, tornando-a cada vez mais competitiva”

O Brasil avançou nessa travessia sem perder o controle da inflação, nem das contas fiscais.

O país vem promovendo desde 2012 um lento – ainda que ziguezagueante - ajuste em seu câmbio.

Estima-se que o Real tenha se desvalorizado cerca de 30% desde então.

A meta do governo é atingir e estabilizar uma paridade de R$ 2,45 por dólar.

O patamar é considerado suficiente para reverter o núcleo duro dos desequilíbrios na economia brasileira: o definhamento da sua industrialização.

O setor industrial encontra-se esmagado nas pinças de um turquês feito de importações baratas e exportações corroídas pela bola de neve do baixo poder competitivo e baixo incentivo ao investimento tecnológico.

Em 2012 o déficit comercial da indústria (diferença entre manufaturas importadas e exportadas) foi de desastrosos US$ 105 bilhões. Suficiente para anular o superávit comercial conquistado na ponta dos embarques agrícolas.

A industrialização é a grande usina irradiadora de produtividade em uma economia.

O Brasil tem uma planta fabril diferenciada entre os chamados emergentes - completa, produz o ‘prego e a máquina de fazer prego’. Ou seja, bens de consumo e bens de capital.

Se cuidar de preservá-la terá o fermento da riqueza necessária à universalização da cidadania.

Ingressa nesse novo ciclo, ademais, com um poderoso air-bag de reservas cambiais, da ordem de US$ 375 bi.

Está fresca ainda a tinta da crítica conservadora ao governo Lula por acumular reservas ‘excessivas’, segundo a contabilidade midiático-ortodoxo.

Hoje, é esse ‘excesso’ que impõe respeito aos mercados especulativos.

O poder de intervenção do Estado brasileiro não é desprezível: a dívida externa do país é inferior ao volume das reservas acumuladas pelo setor público.

Embora o passivo externo total (inclui empréstimos inter-companhias das multinacionais, ademais de aplicações de curto prazo etc) seja quase o dobro das reservas, a hipótese de uma fuga global capaz de contaminá-lo, é improvável.

Desencoraja-a adicionalmente o mercado de massa citado por Dilma.

É ele que atrai um fluxo regular de investimentos produtivos da ordem de dezenas de bilhões de dólares por ano -cerca de US$ 60 bi em 2013.

O conjunto tem sustentado o equilíbrio das contas externas, apesar dos ascendentes rombos no saldo comercial e de serviços: em 2013 ele atingiu US$ 81,3 bi (3,6% do PIB); em 2012 foi de US$ 54,249 bilhões (2,41% do PIB).

Um ajuste cambial bem sucedido, que estabilize a paridade em R$ 2,45 –como quer o governo-- ajudará a desmontar essas armadilhas e a desbastar a nova matriz de expansão que a sociedade cobra: crescimento com serviços de qualidade e justiça social.

A volatilidade cambial em curso na América Latina, porém, dificilmente poupará fronteiras caso se agrave.

A Argentina, por exemplo, é o principal cliente de vários setores industriais do país.

Mecanismos de mercado – desvalorizações sucessivas-- destinados a corrigir o câmbio cobrarão um preço alto do bolso dos assalariados argentinos.

Em última instância é o salário real que se deteriora para devolver competitividade externa à economia - reações políticas são previsíveis em uma espiral de desvalorizações selvagens.

O poder financeiro internacional não pode ser responsabilizado pela omissão política de seus alvos.

É desconcertante que, após uma década de fastígio das commodities, a América Latina tenha perdido a oportunidade de construir um fundo comum de reservas, capaz de estender uma rede de apoio regional em momentos tensos como esse.

Felizmente, uma semente dessa cepa foi plantada na reunião dos BRICS de setembro do ano passado, em São Petersburgo.

O grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul criou um fundo comum de reservas de divisas.

Um instrumento de coordenação e autodefesa cambial para fazer frente à turbulência inerente aos sinais já emitidos então pelo Fed , de que reduziria as injeções de liquidez destinadas a reaquecer a economia americana.

Trata-se de um caixa para prover liquidez em casos de retração das linhas de crédito internacionais. Ou queda dramática de investimentos, bem como mitigar o efeito de ataques especulativos.

As reservas somadas dos Brics superam os U$ 4,3 trilhões – uma base mais do que suficiente para respaldar qualquer iniciativa de autodefesa.

Ademais das cifras, importa reter o simbolismo político dessa iniciativa.

Trata-se de introduzir um novo personagem no monólogo através do qual os mercados financeiros tem ditado as ordens no mundo.

Para que as economias em desenvolvimento deixem de ser o quintal pró-cíclico dos impulsos predadores, é necessário dispor de uma retaguarda capaz de amortecer a reação adversa dos mercados e o pânico financeiro propagado pelo 'jornalismo especializado' (em servir aos mercados).

É sobre essa retaguarda que a reunião de setembro do ano passado começou a falar.

Mais que nunca, é hora de a América Latina ouvir.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A reviravolta nas relações Brasil-EUA


Por Antonio Lassance, no sítio Carta Maior:

Por trás da escolha “técnica” dos caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), houve e ainda há muito mais política do que se imagina. Houve não só a intenção de passar um recado aos Estados Unidos, mas uma mudança de rota nas relações com aquele país. Houve também, pela enésima vez, uma disputa entre diplomatas e militares em torno de questões estratégicas e de defesa nacional.

A decisão sobre os novos caças, que terminou com a escolha do modelo sueco Gripen, representou um desvio de rota da política externa trilhada pela presidenta Dilma, no aspecto das relações entre Brasil e Estados Unidos. Foi também um “round” ganho pelos militares na disputa permanente que travam contra outra forte corporação do Estado brasileiro: os diplomatas. Militares e diplomatas se digladiam pelo controle da orientação do Ministério da Defesa, praticamente, desde a sua criação.

Resumindo para os que não têm detalhes sobre o assunto dos caças (os que já sabem de cor podem pular os próximos dois parágrafos), a batalha dos caças foi travada entre três concorrentes: o Gripen NG, da empresa sueca Saab (a mesma que, no Brasil, fabrica os caminhões Scania); o americano F-18 Super Hornet, da Boeing; e o francês Rafale, da Dassault.

A guerra dos caças foi uma derrota importante para os interesses comerciais americanos, mas significa algo além. É mais um revés na política de aproximação que Dilma vinha buscando desde o início de seu governo, interrompida por conta das revelações escabrosas feitas por Edward Snowden, um agente terceirizado de uma empresa que prestava serviços para a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA).

A mudança nas relações Brasil-Estados Unidos partia de um entendimento compartilhado entre Dilma e Lula. Ao contrário do que se possa imaginar, não houve desavença sobre essa nova diretriz. Dilma e Lula concordavam que era importante reforçar a administração Barack Obama. Por dois motivos: consideravam que Obama poderia consolidar uma política externa mais multilateral e menos militarizada do que a dos republicanos.

Havia também a expectativa de reconhecimento, pelos americanos, do novo papel internacional desempenhado pelo Brasil, tendo em vista uma avalanche de fatos objetivos que demonstravam categoricamente que o país havia mudado de patamar.

O Brasil fora protagonista na criação do G-20; tornou-se um parceiro econômico prioritário da China; foi fundamental na retomada das negociações da Rodada Doha; havia atraído a África do Sul para os BRICS; e vinha sendo fundamental para apaziguar os ânimos cada vez mais acirrados na América Latina, que estava em plena ebulição com Chávez, Evo Morales e o peronismo kirchenista.

As antigas reuniões dos EUA com o G-8, a partir de Obama, perderam importância em relação à participação no G-20. Obama, em discursos, tratava o Brasil, ao lado da China, como um dos países onde a classe média se expandia mais rapidamente, contribuindo para dissipar a crise instalada desde 2008. Sem contar o elogio direto a Lula, “o cara”. Os sinais de simpatia estavam dados, e a alternância na presidência brasileira tornava propícia uma igual mudança de tom na política externa, sem abdicar do terreno já alcançado em torno dos BRICS, do G-20 e do Mercosul.

A nova política externa a ser encampada por Dilma, fazendo um contraponto combinado com a de Lula, facilitaria uma aproximação que poderia redundar no patrocínio explícito dos Estados Unidos ao velho sonho brasileiro por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, uma prioridade que o Itamaraty conseguiu inculcar na diplomacia presidencial de Lula.

A escolha de Antonio Patriota como chanceler já havia sido uma clara sinalização do interesse nessa aproximação maior entre Brasil e Estados Unidos. Patriota era até casado com uma americana, o que tornava o convite ao enlace ainda mais ostensivo. A doce ilusão caiu como um castelo de cartas diante das revelações de Snowden. Com o azedamento das relações com os EUA, o prestígio de Patriota também foi por água abaixo; sua figura deixou de fazer sentido. Junto com Patriota, o caça da Boeing, o Hornet, também acabou sendo abatido em meio a essa reviravolta.

A escolha do Rafale só não ocorreu, ainda durante o governo Lula, porque o assunto foi mal conduzido na época em que o Ministério da Defesa era comandado por Nelson Jobim e porque os franceses, em momento algum, se mexeram para rever seus preços. Acabaram perdendo o “timing” da decisão no governo Lula.

Jobim falhou indecorosamente no que é chamado de apoio à decisão. A comissão da FAB (Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate), montada para analisar o assunto, deveria apresentar prós e contras de cada modelo, para subsidiar a decisão a ser levada pelo ministro ao presidente. Seria até compreensível se a comissão excluísse algum concorrente, caso fosse julgado inadequado.


O governo considerava que os três jatos, sendo, como são, de primeira linha, permitiriam que qualquer decisão fosse considerada tecnicamente defensável. Superada a avaliação técnica, restaria uma decisão que deveria ser política e estratégica do ministério e da Presidência, e não da FAB.

Extrapolando suas prerrogativas, a comissão se comportou como uma espécie de comissão de licitação que analisou propostas e apontou uma decisão preferencial.

O fato de o Rafale ter ficado em terceiro lugar foi apresentado quase como uma desclassificação. A comissão, inteligentemente, ao invés de recomendar opções, amarrou e vazou para a imprensa uma conclusão: tudo, menos o Rafale. A velha mídia adorou saborear em manchetes o tropeço imposto por Jobim a Lula.

Os militares conseguiram derrotar a opção do Rafale, que não havia sido articulada por eles, de maneira astuta. Sabiam que contrariar a decisão do presidente em favor de uma opção pró-americana seria politicamente inviável.


De quebra, se optassem pela Boeing, pesariam fortes suspeitas sobre que tipo de critérios e relações teriam levado os militares a uma opção mais cara, sem transferência de tecnologia e sem tradição na Força Aérea. O Rafale, pelo menos, vinha da mesma família dos Mirage (a Dassault) que até então equipavam a FAB.

A decisão de Dilma em torno do Gripen acabou sendo a melhor possível, consideradas as circunstâncias. O Gripen seria tido como uma decisão “técnica”, o que reforçaria uma das imagens que a presidenta gosta de sustentar. Impôs uma derrota aos americanos, que pagaram um preço caro pela prática da espionagem praticada contra a própria Dilma.


Agradou os militares, que se consideravam pouco prestigiados até então. Foi a opção mais barata, o que também ajudava em um momento em que gastos exorbitantes em áreas supostamente não prioritárias são consideradas quase um crime de lesa-pátria (por mais paradoxal que investir em defesa possa ser considerado lesa-pátria).

É igualmente óbvio que, se Dilma optasse pelo Rafale, se diria ter sido uma decisão do Lula, e não dela. Para evitar ruídos com o ex-presidente, foi providencial o lobby do prefeito e do movimento sindical de São Bernardo do Campo, ativo em defesa dos suecos. A turma de São Bernardo conseguiu emplacar, em torno do Gripen, o compromisso de implantação, por lá, de uma fábrica para a produção de vários dos componentes do futuro caça.

De todo modo, a opção pelos suecos acabou sendo a menos pior para os americanos. O Rafale seria uma derrota maior. O Gripen, a começar por seu motor (que é da General Eletric), tem vários de seus componentes fabricados nos Estados Unidos. O sistema de radar é da Selex-Galileo, subsidiária americana da ítalo-britânica Selex ES, que fornece armamentos tanto para as Forças Armadas dos Estados Unidos quanto para a guarda costeira daquele país.

De todo modo, desde que a presidenta cancelou a viagem com honras de chefe de Estado que faria aos Estados Unidos, em outubro de 2013, e até a escolha do Gripen, a quantidade de recados enviada a Obama foi mais do que suficiente para bom entendedor. Obama falou muito sobre o assunto da espionagem, mas fez pouco.


O Brasil, junto com a Alemanha, rascunhou a resolução aprovada na ONU contra a espionagem desenfreada. Obama sequer conseguiu rever suas normas internas. Segue preocupado com outras prioridades. Resta a ele torcer para que, em 2014, seja eleito para a Presidência da República alguém que lhe preste bons serviços, por aqui, contentando-se em saber que o Brasil não figura como uma das prioridades de sua política externa. Candidatos para isso não faltam.