Se você acreditou na Empiricus e se encheu de dólar, más notícias
Não há muito tempo, o Brasil parecia em estado terminal, no noticiário das grandes empresas jornalísticas.
Com evidente alegria, os editores e comentaristas empilhavam previsões apocalípticas.
O G1 – cujo chefe, Erick Bretas, conclamou os seguidores no Facebook a bater pernas no protesto de 15 de março – lutava para dar o furo do fim do mundo, ou especificamente do Brasil.
Na manchete, várias vezes, você tinha no G1, em tempo real, a marcha do dólar.
A consultoria de investimentos Empiricus contribuía para a atmosfera fúnebre. Anúncios seus espalhados pela internet traziam um título assustador: “O dólar a 4”.
Dentro desse clima, lances teatrais espoucavam aqui e ali. Num deles, um colunista econômico avisou que estava deixando o Brasil. Miami o chamava.
Era um Bolsa Patroa. Sua mulher ganhara uma bolsa e ele pegou carona. Mas, para todos os efeitos, o bilhete aéreo do colunista sugeria o começo de um êxodo dos melhores cérebros nacionais.
Alguns imaginaram: agora até o Lobão vai embora.
Para os que torcem pelo pior, como a mídia, tudo corria bem – até que uma coisa se impôs.
A verdade.
Ela apareceu numa análise que nenhum jornalista da grande mídia tem competência ou coragem para contestar.
Quem a produziu foi a agência de análise de risco S&P. Os colunistas brasileiros podem errar quanto quiserem, desde que seja contra o PT. Não acontece nada.
Mas cabeças rolam na S&P caso as previsões sejam erradas, porque há muito dinheiro em jogo. Se os investidores colocarem recursos em países ou empresas que tenham a chancela de uma agência e se derem mal, as consequências imediatamente se manifestam.
E a S&P disse o seguinte sobre 2015, em linhas básicas: a economia do Brasil deve recuar 1%, para crescer 2% em 2016.
O dólar médio deve ficar em 3,1 reais. (O que quer dizer que quem acreditou na Empiricus e se abarrotou de dólares pode já pensar na hipótese de processá-la.)
Para chancelar essa visão, a S&P manteve a classificação do Brasil como um bom lugar para investir.
Para quem acompanha – e acredita – nas colunas econômicas da imprensa, foi uma surpresa formidável.
Como assim? Quero bater panelas.
A Petrobras, que a mídia transformou num cadáver, recebeu um voto de confiança expressivo da agência. Manteve sua boa classificação.
Como assim? Quero gritar que o patrimônio nacional foi dilapidado e ir para as ruas com a roupa da seleção.
Todo o drama que a mídia anunciava foi pulverizado com uma simples análise de quem é do ramo.
O quadro é aquele para o ano. Uma queda de 1% na economia não deve ser comemorada com champanha, naturalmente, mas está longe de ser um desastre.
Se administrada de tal forma que os mais humildes sejam poupados, sai na urina, como dizia minha Tia Zete.
Sem se dar conta, a S&P tirou a voz dos profetas do apocalipse. Caso insista em dar o dólar em tempo real na primeira página, o G1 vai ficar até dezembro girando pateticamente em torno de 3,1 reais.
Os comentaristas se recolheram, prudentemente.
Sobraram no palco os tolos, como o senador Aécio Aeroporto Neves. Aécio disse que Dilma deve desculpas por tirar perspectiva de futuro melhor para os brasileiros.
Ora, sabemos todos como seriam as “medidas impopulares” que Aécio prometeu à plutocracia que adotaria caso se elegesse.
Sabemos também quem mereceria sua atenção como presidente – ela mesma, a plutocracia que tanto lutou para levá-lo ao Planalto.
Tudo isso posto, quem acredita que os brasileiros se dariam melhor com Aécio acredita em tudo, como disse Wellington.
A S&P reduziu ao silêncio o tom dos gerentes gerais da catástrofe alojados na mídia.
Falta Aécio cair na real.
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Finalmente, hoje, em artigo na Folha de S.Paulo, Aécio Neves admite que o Aeroporto de Cláudio, junto a sua fazenda, serviu para sua comodidade pessoal, em atividades rigorosamente privadas.
E que a obra (que entre contratos e desapropriação custou, em dinheiro de hoje, mais de R$ 20 milhões) que consumiu farto dinheiro público, por não homologada e sem controle público já há quatro anos, só teve mesmo a serventia de dar-lhe este privilégio.
Mais importante que a semi-confissão do candidato tucano é o que o levou a ela, 11 dias depois de revelado o escândalo pela própria Folha.
Depois de várias gaguejadas e diversos “de novo este assunto?” irritados, Aécio tomou essa iniciativa, sem sombra de dúvida, porque as pesquisas internas do tucanato revelaram o estrago que isso fez em sua campanha.
Não foi um ato de honestidade, de quem quer e pode sustentar as atitudes que tomou.
Fosse assim, não teria se evadido de dizer, antes, o que diz agora.
O fez por três fatores, todos sem qualquer dignidade.
O primeiro é que sabe que existem provas deste uso. Não se descarte, até, que tenha sofrido ameaças de que elas seriam reveladas.
O segundo é que só tomou esta atitude depois que as pesquisas eleitorais internas do PSDB mostraram que o estrago não apenas era grande como está se agravando à medida em que o conhecimento da situação se amplia.
O terceiro, mais grave e por isso capaz de continuar ceifando o seu prestígio e o respeito pessoal que possa ter, é o que se provou um homem moralmente covarde.
Precisou ser exposto diariamente às suas contradições e omissões – ou, pior ainda, ser ameaçado por alguém que tinha provas do uso do aeroporto – para confessar que fez, por diversas vezes, uso particular da pista que a ninguém mais servia.
Depois disso, quem acredita na já implausível afirmação de que a obra milionária se justificava pelo “grande pólo industrial” que é aquele município de menos de 30 mil habitantes? Ou que o negócio entre o Estado e o tio, que tinha os bens bloqueados, não foi bom pela família, até porque parte do depósito já foi levantado pela tia, num processo tumultuado de separação e com, inclusive, uma ação de interdição por um dos filhos?
Aécio abaixou o bico.
Diante da mentira que pregou, durante 11 dias, a todo o país e à imprensa, desqualificou-se moralmente para dizer qualquer coisa.
A confissão tardia e cínica não lhe perdoa, exatamente porque é tardia e cínica.
Ficou do tamanho que é: um herdeiro de oligarquias, que controla e uso o poder que o sobrenome foi lhe trazendo e que trata o exercício do poder com a mesma irresponsabilidade que lhe valeu a fama deplayboy mimado.
Resta saber o que não fazer com ele: se é melhor deixar que o fracasso recaia sobre sua inconsistência moral ou se tentarão uma muito improvável nova via para disputar as eleições.
Romeu Tuma Jr, como era previsível, foi ao Roda Viva, hoje o programa mais reacionário da televisão brasileira.
Se você quer aparecer no Roda Viva fale mal do PT. Suas chances imediatamente aparecerão.
Tuma Jr estava claramente desconfortável. Arfava, suava, vagava, se perdia em frases longas frequentemente sem nexo.
O peso excessivo do entrevistado e o calor deste verão contribuíram para dar um ar opressivo à entrevista.
Tuma Jr carrega um peso morto, seu “livro bomba”, aspas. Como era esperado por todo mundo, excetuada a direita mais petrificada, o livro não deu em nada.
Ontem, o que se viu foi o triunfo da esperança: a tentativa de salvar a obra de seu destino inevitável, o lixo.
O coveiro do livro foi, curiosamente, FHC. Coube a ele liquidar a maior “denúncia” de Tuma Jr: a de que Lula foi “informante” da polícia na ditadura.
Num programa de tevê, FHC descartou essa acusação enfaticamente – e com um certo desprezo pela natureza dela e de seu formulador.
É uma acusação, de fato, desprezível. Tuma Jr invoca seu pai morto para dizer que Lula era informante. Repito: a testemunha de Tuma Jr é um cadáver.
O livro só não foi inteiramente ignorado por causa do brutal esforço da Veja, a olavete da mídia brasileira, em fazer dele uma coisa séria.
Mas a Veja, se pôde muito na era Collor, hoje pode pouco, muito pouco. Mesmo dando um espaço descomunal para Tuma Jr, nada aconteceu.
A bomba não explodiu.
Explodiria, sim, no colo do autor, se a justiça brasileira funcionasse. Mas não funciona. Você processa alguém por calúnia e a ação vai terminar em mãos amigas.
O próprio Nunes, processado por Collor há algum tempo, foi inocentado depois de chamá-lo de “chefe de bando”.
Collor ponderou que o STF o tinha absolvido de todas acusações, razão pela qual ele está em liberdade e retomou sua carreira política. Mas a juíza que avaliou o caso achou que “chefe de bando” não era ofensa. Assim funciona a justiça brasileira.
Falei algumas vezes que a sorte de diretores da Petrobras caluniados por Paulo Francis foi poder processá-lo na justiça americana, uma vez que as acusações tinham sido feitas em Nova York, no programa Manhattan Connection.
FHC, então presidente, tentou convencer os executivas a desistir da ação, mas sem sucesso. Serra, ministro, também interveio, mas como FHC fracassou.
Como a justiça americana é diferente da brasileira, Paulo Francis se viu na iminência de pagar uma indenização brutal. Atormentado, morreu do coração.
Tuma Jr, no programa, se gabou de que ninguém citado em seu livro o processou. Claro. Estamos no Brasil. Você processa, se desgasta, é acusado de censor e, como no caso Collor X Nunes, não acontece nada.
Você ainda é perseguido, depois. Francis teria com certeza aumentado o volume de suas infâmias se o processo fosse no Brasil, absolutamente confiante na impunidade.
Tuma Jr, como Francis, não tem provas. Isso lhe foi cobrado ontem por alguns entrevistadores. Ele, pitorescamente, disse que tinha escrito um livro, e não montado um inquérito, o que o deixaria sem a obrigação de provar acusações.
Imagino-o dando esta explicação num tribunal americano, e faço uma pausa para rir.
Foi igualmente pitoresca a observação de Augusto Nunes a respeito das provas. Ele disse ter visto, e as definiu como “muito contundentes”.
Bem, quem acredita em Nunes acredita em tudo.
A coisa mais próxima de evidência dada por Tuma Jr foi uma foto na qual Lula, preso, aparece fumando num carro da polícia, há coisa de 30 anos.
A foto, de extraordinária banalidade, seria a prova de “privilégios” dados a Lula em troca de informações.
Tuma Jr fala no livro em “assassinato de reputações”. Mas o que ele fez foi exatamente uma tentativa de assassinar reputação. Só não foi bem sucedido porque, fora não ter credibilidade em dose mínima, cadáveres não são muito aceitos como testemunhas, principalmente quando invocados para apoiar uma acusação que, vivos, jamais fizeram.
Ainda no campo da comédia, foi engraçado ver a expectativa – simplesmente lunática – de irmãos de causa de Tuma Jr e Augusto Nunes.
No Twitter, Lobão e Claudio Tognolli (que escreveu o livro de Tuma Jr) publicaram vaticínios apocalípticos.
O Brasil jamais seria o mesmo depois do programa, segundo eles.
Eles estavam apostando na idiotice da sociedade. Mas já faz tempo que a pessoa que faz este tipo de aposta acaba perdendo – e fica, ela sim, no papel de idiota.
Desde o início, o processo do mensalão ofereceu um triste espetáculo de mentiras, traições, covardia. O julgamento no STF não foi diferente. Os ministros mais famosos por seu respeito ao garantismo e à letra da Constituição mancharam sua própria história ao capitularem à infame pressão de uma mídia notoriamente engajada politica e partidariamente.
Entretanto, a história registrará ao menos um exemplo de heroísmo. Um heroísmo prosaico, delicado, feminino, composto apenas de inteligência, amor, lealdade e desejo de justiça.
Falo da gentil e doce Andrea Haas, arquiteta e esposa de Henrique Pizzolato. Quando a história definitiva do julgamento for escrita, seu nome não poderá ser esquecido como aquela que lançou a pedrinha que ajudou a derrubar um dos homens mais poderosos do país, o atual presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.
A ironia é que diversos réus contrataram os escritórios de direito mais competentes da America Latina, incluindo Marcio Thomaz Bastos, um dos maiores criminalistas brasileiros, mas ao cabo foi Pizzolato, o réu mais frágil financeiramente (seus advogados, embora bons, trabalham praticamente de graça), quem teve a defensora mais combativa e mais astuta. Sua própria esposa.
Quando o mundo inteiro parecia desabar sobre a cabeça do casal, Andrea Haas começou a estudar o caso por conta própria. Sozinha, elaborou para seu marido a mais contundente defesa que um réu jamais sonhou ter. Quase todas as reportagens, documentos e raciocínios lógicos que hoje comprovam, definitivamente, a inocência de Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, e derrubam os pilares de toda a absurda trama criada pela Procuradoria Geral da República, nasceram da luta de uma mulher indignada pela condenação injusta do seu companheiro de toda uma vida, de um homem cujos anseios por justiça social, integridade e coragem, acompanhou e admirou desde a mocidade. (Leia a emocionante carta de Andrea a seu marido).
A última pedrinha com que este David de saias derrubou o Golias – esse estamento híbrido formado por mídia, oposição conservadora e figuras desqualificadas da procuradoria e STF – talvez tenha sido lançada esta semana, com a divulgação em larga escala de uma denúncia gravíssima. Na verdade, essa denúncia apenas completa (ou chega bem perto de completar) um quebra-cabeça, cujo desenho Andrea Haas já conhece há tempos.
A denúncia consta de recente artigo de Maria Inês Nassif. A jornalista do site Carta Maior denuncia, com base em documentos coletados e ordenados logicamente por Andrea, o então procurador geral da república, Antônio Fernando de Souza, e o relator do processo antes do mesmo se tornar a Ação Penal 470, Joaquim Barbosa: eles sabiam da inocência de Pizzolato e, portanto, da inconsistência da tese de acusação, bem antes da denúncia ser discutida e aceita pelo Supremo Tribunal Federal. Não apenas sabiam da existência desses documentos, como os esconderam deliberadamente.
Os leitores então me perguntam: e agora, Miguel? O que acontece? É possível anular Ação Penal 470? Dê sua opinião, por favor!
Diante de inépcia tão flagrante, acho que é possível, sim, anular a Ação Penal 470. E se não for, agora há elementos mais consistentes para se levar o caso a uma corte internacional.
É óbvio, no entanto, que não será fácil. Como no caso Dreyfus, na França, as pessoas e entidades envolvidas na acusação enredaram-se tão profundamente nessa teia de mentiras que será difícil encontrar uma saída “honrosa”. Nada melhor do que um divertido ditado popular para definir a situação em que se encontra o STF: um mato sem cachorro.
Quem será o cachorro a tirar o STF da enrascada em que se meteu, ao se submeter covardemente ao clima de linchamento criado pela mídia?
Como explicar à nação que o tipo de prevaricação cometido pelo Procurador, por Joaquim Barbosa e por alguns outros ministros foi bem pior do que os crimes eventualmente cometidos pelos réus? Muito pior, porque se houve crime (e não posso saber se os réus são inocentes em tudo), com certeza não foi aquele da tese da acusação, enquanto o procurador e Joaquim Barbosa pactuaram com um golpe branco. Os quarenta réus acusados pela denúncia da Procuradoria foram escolhidos da forma mais odiosamente arbitrária e tendenciosa entre os 126 relacionados na CPMI dos Correios. A trama foi discutida e escrita primeiro; depois foram colhendo somente os réus, testemunhas e documentos que podiam corroborá-la. Até mesmo a dona lógica foi posta de lado quando se interpunha no caminho da acusação.
Agora temos provas de que, antes da aceitação da denúncia pelo plenário do STF, o procurador geral da república e Joaquim Barbosa conheciam o Laudo 2828 e outros documentos que inocentavam Pizzolato (e, repito, derrubavam toda a Ação Penal 470), e não só os esconderam dos demais juízes e advogados de defesa, como ainda mentiram descaradamente sobre seu conteúdo.
Vamos focar um pouco na questão das datas, porque elas são fundamentais para se visualizar o grau de sordidez da procuradoria e do ministro Joaquim Barbosa.
O Laudo 2828 é fruto de uma investigação da Polícia Federal junto ao BB e à Visanet, feita a pedido da própria Procuradoria e deferido por Joaquim Barbosa, ao final de 2005. A PGR, no entanto, estranhamente, não aguarda a conclusão do laudo, que acontece em dezembro do mesmo ano, para apresentar a denúncia, em março de 2006. O laudo foi mantido em segredo, inclusive dos próprios ministros do STF (à exceção de Barbosa), antes e durante a aceitação da denúncia, que ocorreu em agosto de 2007. Só foi anexado à Ação Penal em novembro de 2007, meses depois do STF aceitar (com a faca no pescoço, conforme disse Lewandowski) uma denúncia inepta, e dois dias depois da publicação do seu acórdão. Os ministros, quando julgaram a validez da denúncia, não tiveram acesso a um dos documentos mais esclarecedores da Ação Penal.
Hoje temos à nossa disposição documentos contendo datas e carimbos que comprovam a postura desonesta da PGR e de Barbosa, e há uma novidade. Há apenas algumas semanas, ficamos sabendo que os mesmos atores (PGR e Barbosa) usaram de um artifício maquiavélico para esconder os documentos que “atrapalhavam” a sustentação da tese do mensalão, entre eles o laudo 2828. Não só isso. Tudo aquilo que negaram aos réus petistas, concederam aos “tucanos”. E nem falo dos tucanos do mensalão mineiro, e sim dos servidores do BB, nomeados na gestão FHC, arrolados nas mesmas acusações que se imputaram a Pizzolato, réus num inquérito em separado conduzido na 12ª Vara de Brasília: desmembramento (não entraram na Ação Penal 470), julgamento em primeira instância, e direito a uma investigação sigilosa, sem exposição pública.
Quando se descobriu a existência desse inquérito, soube-se também de outra investigação em andamento no STF, de número 2474, para a qual desde o início foram encaminhados documentos, entre eles o Laudo 2828, que poderiam criar um estorvo para a Ação Penal 470. O diálogo entre o PGR e Barbosa (registrado nos autos), tentando explicar porque documentos e réus, referentes aos mesmos crimes que se imputavam a réus da Ação Penal 470, deveriam figurar em inquéritos em separado, entrará para a história como exemplo “supremo” de cinismo judiciário.
Diz Barbosa, em resposta ao pedido do PGR para “desmembrar” o inquérito envolvendo não-petistas e documentos incômodos, no dia 10 de outubro de 2006:
“(…) defiro o pedido para que os (novos) documentos sejam autuados em separado, como (novo) inquérito. …Por razões de ordem prática, (para não) gerar confusão…”
Não gerar confusão… Ou seja, não atrapalhar os planos de dar consistência a uma tese caduca desde a origem, e acusar inocentes.
Outros réus do BB, arrolados na mesma acusação que Pizzolato, ficaram a salvo do linchamento público promovido pela mídia. E os documentos que poderiam trazer obstáculos à condenação dos réus da Ação Penal 470 foram guardados sob o tapete de inquéritos secretos.
Em termos de cinismo e inépcia, contudo, nada pode superar a própria denúncia de Antônio Fernando de Souza, encaminhada ao STF, e aceita pela maioria dos ministros. O PGR afirma que “Pizzolato em atuação orquestrada, desviou vultosas quantias do Fundo de Investimento Visanet, constituído com recursos do Banco do Brasil” e apresenta como principal prova documental uma auditoria feita pelo Banco do Brasil.
A acusação é do tipo barbosiano: contém tantos erros numa só frase que mereceria se tornar um editorial do Globo.
O nome do Fundo não é Fundo de Investimento Visanet. Fundo de Investimento supõe um cabedal com sócios-proprietários. O nome verdadeiro é Fundo de Incentivo Visanet, e os documentos comprovam que pertence exclusivamente à empresa Visanet. A auditoria mencionada cobre o período de 2001 a 2005. Pizzolato foi nomeado apenas em fevereiro de 2003; o petista é também culpabilizado, portanto, por um período (2001 e 2002) no qual sequer trabalhava na diretoria de marketing. Não há nenhuma prova de “ação orquestrada”. Pizzolato não tinha nenhum poder de ingerência sobre os recursos em questão. O cargo de diretor de marketing, na hierarquia do Banco do Brasil, era secundário; e os que tinham alguma influência sobre a gestão do fundo Visanet, que era dinheiro privado, eram outros servidores, não Pizzolato, conforme atesta o laudo 2828, pedido pelo próprio procurador e deferido por Joaquim Barbosa.
Quando encaminha o Laudo 2828 ao STF, já depois que a denúncia havia sido aceita, o procurador mente deslavadamente:
“Em que pese seu teor ser de leitura obrigatória…, alguns trechos do Laudo 2828/2006 merecem destaque, pois confirmam a imputação feita na denúncia de que Pizzolato e Gushiken beneficiaram a empresa de Marcos Valério.”
Mentira. O Laudo 2828 sequer menciona o nome de Pizzolato ou Gushiken.
Como se não bastasse, hoje sabemos que Barbosa, durante o julgamento, cometeu um erro crasso sobre a data da morte de um dos réus. Mais uma prova de sua incompetência e desonestidade. Em sua ânsia de impor a pena mais severa possível a José Dirceu, uma ansiedade indigna de um juiz, Barbosa informou ao plenário que José Martinez, então presidente do PTB, ainda estava vivo em dezembro de 2003; ele havia falecido em setembro. A informação foi aceita e usada para que as penas impostas a Dirceu fossem mais pesadas, visto que, em dezembro de 2003, a legislação brasileira, por orientação de Lula, se tornara mais severa contra a corrupção. E olha que o ministro Marco Aurélio Mello observou, enfaticamente, que a data era importante justamente por causa disso.
Curioso notar que nenhum meio de comunicação, apesar das centenas de repórteres e especialistas diuturnamente analisando e acompanhando o julgamento, que acontecia ao vivo na TV Justiça, identificou o vexame de Barbosa.
Agora, mais que nunca, cresce a convicção de que a população brasileira foi mais uma vez vítima. Promoveu-se, em canais de tv que são concessão pública e que recebem bilhões de reais de publicidade pública, uma mentira ao povo, de que o julgamento seria uma vitória “histórica” contra a corrupção. Foi o contrário. Testemunhamos o maior fiasco da história do STF, uma capitulação vergonhosa ao poder da mídia, ao conservadorismo e a todos os setores derrotados pelo sufrágio popular. O processo conhecido por mensalão foi a oportunidade para se obter uma revanche à vitória eleitoral de Lula em 2002, e para isso arrolaram-se todos os truques, todas as mentiras, todas as armas ainda à disposição do conservadorismo.
Derrotar essa mentira, ou este “mentirão”, conforme bem denominou a corajosa jornalista Hildegard Angel, é uma tarefa coletiva de todos os que lutam por justiça. A corrupção tem de ser combatida duramente, e temos que aprimorar constantemente nossos hábitos políticos, mas jamais conseguiremos isso condenando inocentes e chancelando farsas.
Ao esculachar pela enésima vez o Congresso e os partidos, Joaquim Barbosa garantiu sessões de aplauso em saguões de aeroporto, no metrô de Ipanema e nos shows da Marisa Monte, além, é claro, de uma notinha entusiástica no Ancelmo Gois:
“Já se disse que alguns ministros do STF estão com a matraca solta e falam além da conta. Já se disse que Joaquim Barbosa fala sempre a coisa certa na hora errada. Mas, neste caso, o presidente do Supremo tem razão. Um sistema partidário com dezenas de partidos, quase todos inodoros, insípidos, assexuados, sem ideias ou ideologia, é ou não é de mentirinha? Cartas para a Redação.”
Só que não existe isso de opinião acadêmica. Barbosa é presidente do STF, e não um Homer Simpson resmungando na frente da televisão.
De qualquer forma, a pergunta que se deve fazer é a seguinte: Barbosa está certo quando afirma que os partidos no Brasil não tem base programática e ideológica, e que “nós não nos identificamos” com eles?
A afirmação de Barbosa, na íntegra é a seguinte:
“Nós temos partidos de mentirinha. Nós não nos identificamos com os partidos que nos representam no Congresso, a não ser em casos excepcionais. Eu diria que o grosso dos brasileiros não vê consistência ideológica e programática em nenhum dos partidos. E nem pouco seus partidos e os seus líderes partidários têm interesse em ter consistência programática ou ideológica. Querem o poder pelo poder.”
No jantar com o professor Wanderley Guiherme em que acertamos os últimos detalhes de sua coluna, conversamos um pouco sobre o assunto, e ele nos lembrou que essa “consistência ideológica e programática” que Barbosa não vê nos partidos brasileiros não existe em nenhuma democracia do mundo. Numa democracia moderna, os partidos têm ideias meio parecidas (investimentos em infra-estrutura, em educação, programas sociais, etc) sendo às vezes difícil distinguir um do outro quando se atém apenas ao papel. O eleitor, quando vota no partido, julga-o não por suas promessas ou programas, e sim por sua prática no poder. A relação entre eleitor e partido numa democracia é de compromisso político. Se entendo que o partido vai trabalhar em prol dos interesses da minha classe, eu voto nele.
Quanto à identificação, Barbosa externou outra falácia. O eleitor brasileiro se identifica sim com os partidos, tanto que vota seguidamente numa legenda quando é de seu agrado.
O que não tem consistência, portanto, são os pensamentos de Barbosa, presos aos mais rasteiros clichês da antipolítica. Por outro lado, não devemos nos enganar quanto ao efeito multiplicador de suas palavras. Barbosa produziu um factóide, tanto é que estamos aqui discutindo sua fala. No Congresso, no Senado, na mídia, as atenções se voltaram novamente para o presidente do Supremo.
Barbosa não apenas fez política, o que é terminantemente proibido aos juízes; ele pôs mais um tijolo no muro de preconceito que a imprensa constrói diariamente entre a sociedade e as instituições.
Para cúmulo da falta de noção, Barbosa foi mais longe e defendeu o voto distrital, a única bandeira permanente da revista Veja, por causa do golpe mortal que isso poderia causar à representação sindical. Os trabalhadores ligados a um sindicato não moram no mesmo “distrito”, portanto o voto distrital é uma artimanha conservadora para afundar a única plataforma que a classe trabalhadora possui para eleger seus representantes e fazer frente ao poder do grande capital.
É triste constatar isso, mas Barbosa se tornou um representante do mais baixo conservadorismo político. Não importa se ele votou no Lula, se foi indicado por Lula, temos que julgá-lo por suas ações. A nomeação de Barbosa é resultado da inexperiência do PT, o que nos leva a concluir que a ideia de que Lula é muito esperto, etc, é falsa. Se Lula fosse esperto mesmo, e digo na acepção positiva da palavra, astuto, ele não indicaria tucanos para chefiar a Procuradoria Geral da República nem escolheria ministros do Supremo com tanta leviandade. No caso dos ministros, a imprudência deve ser partilhada com a atual presidente Dilma Rousseff.
O problema do PT não é o aparelhamento, e sim a falta de aparelhamento. Num processo democrático, votamos para que o grupo vencedor ocupe efetivamente o Estado. É assim que acontece em todas as democracias do mundo. No caso da Procuradoria da República, então, é preciso tomar muito cuidado porque o Ministério Público brasileiro, pese a sua imensa importância no combate à corrupção e às mazelas administrativas, tornou-se uma instância politicamente mal resolvida. O MP é o quê: é um outro tipo de Judiciário? Pertence ao Executivo (como de fato é)? É uma polícia à parte de todas as outras instituições?
Então voltamos à frase de Barbosa, sobre o “Executivo dominar o Legislativo”. Além do tom partidário da frase, já que essa interpretação interessa à oposição, é outra confusão típica de quem não dispõe de sensibilidade para entender a democracia. O povo tende a eleger um Executivo e um Legislativo afinados programaticamente. É assim que funciona. O Executivo não “domina” o Legislativo: ambos estão interligados por acordos partidários e políticos. Ambos formam um único ser entendido como a soberania popular.