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quinta-feira, 26 de março de 2015

Algumas reflexões acerca das manifestações antigoverno



Por Tadeu Porto, no Brasil Debate


Não quero desqualificar as manifestações que vêm ocorrendo contra o governo atual, principalmente tendo a atual presidente Dilma e o partido dos trabalhadores como alvo. A priori, o mais importante de tudo é que as pessoas podem ir às ruas – ou varandas – se manifestar livremente. Mas, como nada é absoluto, queria trazer alguns itens para reflexão.
Primeiro, focar a insatisfação num só partido não só é preguiça ideológica, mas, também, é não ter noção de como funciona o nosso sistema na teoria e muito menos na prática (federação, 3 (+1) poderes, lobby, mercado etc.).
Preguiça ideológica porque o ataque sistemático ao PT não tem fundamento nem coerência com as atitudes vistas: a maioria dos manifestantes se denomina apartidária, mas, na verdade, é capaz de assumir qualquer partido “só para tirar o PT do poder”.
É um claro desrespeito com a história e a ideologia de cada grupo político e dificulta ainda mais o entendimento de como nossa democracia funciona, dentro do nosso Estado de direito. Não é de se estranhar, por exemplo, que o processo eleitoral seja focado em ataques pessoais e não em propostas e ideias, uma vez que, sem a correta percepção dos pensamentos que estão em jogo, a disputa eleitoral se baseia em imagens superficiais dos candidatos.
Já a não compreensão verossímil do nosso sistema gera um fenômeno interessante, no mínimo: vivemos numa república federativa onde os cidadãos (pior, eleitores) pensam viver numa monarquia, i.e., pensam que ao Executivo cabem todos os deveres de Estado. Se a justiça não julga direito, foi porque o planalto não escolheu bem; se o Legislativo não cria leis adequadas, foi porque a coalização foi feita incorreta e o governo não controla “sua base”.
O grande problema desse pensamento é ignorar completamente que o equilíbrio entre os três poderes acontece, muitas vezes, por meio de um jogo perverso e sujo, em que o lobby, a chantagem e o suborno são as ferramentas mais utilizadas para a tão falada harmonia entre pares. Consequentemente, focar a insatisfação em um só segmento – no caso Executivo Federal – é o campo ideal para criar o bode expiatório ou o boi de piranha e isso atrapalha qualquer combate efetivo à sujeira impregnada em todas as relações políticas.
Segundo, combate à corrupção é um item válido de protestar. Todavia, sem uma proposta específica para tal, pode ser incorporada por qualquer ação, como, por exemplo, a volta da ditadura militar (com torturas e assassinatos) e demais propostas fascistas.
O linchamento moral de corruptos e corruptores hoje, que dá uma sensação boa de justiça, pode ser a perseguição política de amanhã, caso segmentos da democracia acumulem poderes demais e, principalmente, não sejam questionados por isso.
O mais surpreendente é que em termos de números e fatos, nunca se combateu a corrupção como é feito hoje. É de se estranhar, portanto, que o país que era conhecido pela alta impunidade, fique insatisfeito quando, justamente, esse estigma começa a ser fortemente confrontado.
Terceiro, a atuação da mídia não foi normal e isso não é sem motivo. A mídia hoje é um poder virtual e se beneficia muito disso: apesar de ter forte influência sobre a população, podendo formar opiniões e desconstruir pessoas, não tem a mesma cobrança de uma instituição política.
Portanto, ela pode assumir posturas descaradamente antiéticas (vide a capa da Veja/Abril nas vésperas das eleições) sem sofrer consequências de apelo popular, que frequentemente interferem muito nas investigações e julgamento de malfeitos (já escrevi sobre isso, aqui mesmo).
Saliento, assim, um mini estudo de caso para corroborar com esse argumento: todo mundo, da extrema direita à extrema esquerda, quer educação melhor. Agora, quantas vezes uma mídia – pode ser local – fez uma cobertura integral de movimentos de servidores da educação? Quantas greves já vimos e vivemos que foram completamente ignoradas pela imprensa? Se não souber a resposta, procure comparar o comportamento midiático na greve dos servidores de educação do Paraná e de São Paulo (esse ano) com a cobertura 24/7 das manifestações do dia 15 de março.
Agora, imaginem só: se todos querem (chuto aqui 99% do País) uma educação melhor, por que não se juntam nas ruas com professores por melhorias no ensino? Mais exemplos: professores de Contagem (MG) bloquearam uma estrada contra o fechamento de uma escola. “Cerca de 50 pessoas” o fizeram, sem cobertura ao vivo da mídia (agradeço aqui o cinegrafista amador que ajudou na notícia de 30 segundos da Globo), sem hino nacional ou camisas da CBF. Por que o interesse por isso é tão baixo?
Para finalizar e deixar claro: o texto é apenas uma reflexão, e de maneira nenhuma é uma repreensão pelo ocorrido. Manifestações são instrumentos primordiais da democracia, mesmo havendo discordância entre a população sobre o conteúdo, elas devem acontecer (dentro dos limites da lei, óbvio).
Bolsonaro e Paulinho da força (dois cânceres, na minha opinião) foram hostilizados no dia 15 de março, portanto se pode concluir que as ruas não foram tomadas apenas por boçais alienados, mas também por pessoas que querem avanços efetivos para o Brasil.
Só espero que os oportunistas não usem a insatisfação dessas pessoas, dispersa em pautas abstratas, para continuar atrasando o nosso País nas ações que a grande maioria da população quer. Afinal, quem tem a perder com a decadência de um sistema corrupto e injusto é justamente quem quer continuar os privilégios derivados da sujeira praticada desde sempre no País.
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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Dilma critica pessimismo


Em seminário do CDES, Dilma diz que o Brasil não quer voltar ao passado


Presidenta faz um paralelo entre os dez anos de atuação do Conselho e os avanços econômicos e sociais conquistados pelo país e diz que é apenas o começo.




Em sua primeira participação como chefe de Estado em um seminário internacional do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, a presidenta Dilma Rousseff traçou um panorama das conquistas obtidas pelo Brasil nos últimos dez anos, desde que o CDES foi criado, e exortou seus integrantes a darem continuidade à missão de debater propostas oriundas dos diversos setores da sociedade brasileira para o desenvolvimento do país. A presidenta afirmou também que o atual momento de reivindicações populares por mais avanços sociais indica que o os brasileiros não desejam um retorno ao passado, mas sim o aprofundamento de conquistas que somente foram possíveis a partir da mudança de paradigma do governo, que passou a encarar o combate à desigualdade como prioridade.

“Quando nós promovemos a ascensão social – e hoje estamos perto de eliminar a pobreza extrema - sabíamos que isso era só o começo para maiores exigências. Quando criamos um grande contingente de cidadãos com melhores condições de vida e com maior acesso à informação, vimos surgir um cidadão com novas vontades, anseios, desejos, exigências e demandas. Ninguém, neste último mês de várias manifestações, pediu a volta ao passado. Pediram, sim, o avanço para um futuro com mais direitos e mais democracia. Exigiram avanços, e tudo o que ocorreu floresceu justamente em meio a um processo de mudança que estamos fazendo no Brasil há uma década”, disse a presidenta.

Dilma lembrou que entre 2003 e 2013 “ocorreu a maior redução da desigualdade dos últimos 50 anos” no Brasil: “Foi nesta década que criamos um sistema de proteção social que vai nos permitir praticamente superar a extrema pobreza. Em um mundo que desemprega, criamos quase 20 milhões de empregos com carteira assinada. Onde os países se endividaram e o déficit público chegou a níveis extraordinários, nós construímos o controle da inflação”, enumerou.

Agora, segundo a presidenta, o Brasil quer mais: “Fizemos nestes dez anos o mais urgente e necessário para superar aquele nosso momento histórico, mas agora fomos cobrados a fazer mais. Queremos e devemos fazer mais. Democracia gera o desejo de mais democracia. Inclusão provoca cobranças por mais inclusão. Qualidade de vida desperta o anseio por mais qualidade de vida. Para nós, o fim da miséria e todos os outros avanços conquistados são só o começo. Todos nós queremos mais”, disse.

Dilma afirmou querer “incorporar empresários e trabalhadores cada vez mais nesse processo” e saudou o papel cumprido pelo CDES neste novo momento vivido pelo país na última década: “O CDES merece calorosos cumprimentos pelos dez anos de atividades. Tem sido um interlocutor muito importante do governo, seja por sua capacidade de análise e formulação, seja por sua representatividade. O diálogo travado no Conselho tem sido fundamental, e o Brasil hoje não pode prescindir de canais desse tipo, conectado como o Brasil real. Essa conexão é estratégica para que de fato possamos melhorar as questões de representatividade no Brasil. Este Conselho demonstrou nestes dez anos que, ao representar os segmentos mais diferentes colocou os interesses do país acima de interesses específicos”.

Ao assumir a luta contra a desigualdade como prioridade para o país, o CDES, disse a presidenta, ajudou a pavimentar o caminho hoje trilhado pelo governo: “O maior obstáculo ao desenvolvimento era a desigualdade. Ao colocar isso no centro de suas discussões, o CDES deu um passo à frente para que possamos reduzir a desigualdade entre regiões, entre homens e mulheres, entre negros e brancos, entre empresas de diferentes tamanhos, entre setores produtivos, ente cidadãos na base e no topo da pirâmide social. Avançamos muito no combate, mas o CDES nunca deixou de registrar que ainda há um longo caminho a percorrer para que o Brasil seja um país sustentável e justo. Esse processo de avanço não deve, não pode e não será interrompido. Ao contrário, está sendo mantido e ampliado. Estamos vencendo focando nos desafios que queremos superar”.

Críticas infundadas


Dilma criticou o que qualificou como críticas infundadas a atual situação do país: “Aproveito para repelir as posturas pessimistas contra a economia brasileira em um futuro próximo. Os dados desmentem esse pessimismo, hoje temos melhores condições do que tivemos em anos passados. Não estou dizendo que não temos que melhorar, mas temos a força necessária para superar os desafios”, disse. Ao falar das “parcerias e concessões que estão atraindo investidores”, a presidenta citou a 11ª rodada da ANP, que teve recorde de participação com 39 empresas de doze países, e da “expectativa positiva para outubro”, quando será realizada a rodada de leilão do pré-sal.

Dilma citou ainda os dois leilões de energia elétrica ocorridos em maio e junho e as novas regras aprovadas para os portos brasileiros: “O país precisa enfrentar seus custos e o desafio de transformar o ambiente de negócios. Haverá um anúncio público de 50 terminais de uso privativo, o que indica que esse processo será também bem-sucedido ao abrir a participação de investimentos privados de nosso país”, disse, antes de afirmar que novos investimentos serão feitos entre agosto e dezembro nas rodovias, ferrovias e aeroportos.

A presidenta garantiu aos conselheiros do CDES que a inflação está sob controle; “A inflação vem caindo de forma consistente nos últimos meses e temos certeza de que vamos fechar o ano com a inflação dentro da meta. A solvência do estado brasileiro está garantida. Podemos ter a certeza de que o Brasil tem uma situação de solvência e robustez fiscal. A dívida líquida é muito menor do que há dez anos e o déficit da previdência está em torno de 1% do PIB, um dos menores da década, assim como as despesas do governo. Os números reais mostram que é incorreto falar de descontrole da inflação ou das despesas do governo. É desrespeito aos dados ou a lógica, para dizer o mínimo. A exploração parcial dos fatos confunde a opinião pública e visa criar um ambiente de pessimismo. Trata-se de um barulho muito maior do que o fato. Temos problemas, sim, mas a situação é muito melhor do que no passado”.

Pactos

Dilma apresentou oficialmente ao CDES os cinco pontos do pacto que propôs à sociedade brasileira após as recentes manifestações: responsabilidade fiscal; reforma e planejamento urbano; educação; saúde e reforma política. Antes de serem apresentados ao CDES, os cinco pontos foram discutidos pela presidenta com lideranças do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal (STF) e dos movimentos sociais.

“A reunião do CDES tem uma pauta muito importante, que é discutir as ações necessárias para dar respostas à nova realidade brasileira, inclusive o ambiente político criado pelas manifestações de junho. Enfatizei que era necessário ouvir a voz das ruas, interpretar e perceber que tinham um norte bem diferente das manifestações que vemos no mundo. Aqui, é uma questão de mais direitos sociais, mais valores públicos, éticos e de maior representatividade. É meu dever traduzir essas demandas em ações práticas do governo. Não devemos nem podemos ficar indiferentes, mas ter a humildade de reconhecer que lutar por mais direitos é algo que só honra o nosso país”.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

As vitórias da direita radical



A direita e o PT fisiológico


Por Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político no blog O Cafezinho"


A direita radical obteve vitórias importantes com as turbulências. Ficam para os seminários acadêmicos os debates sobre a transformação do extraordinário movimento de solidariedade contra a brutalidade policial em palavras de ordem hostis à democracia. Cabe reconhecer que a direita se preparou e seqüestrou os cordéis íntimos das manifestações. Pequenos grupos treinados surgiram do nada, profissionais e disciplinados, com nomes benignos e endereços desconhecidos. Dispersos em contingentes reduzidos, sempre contando com jovens que se declaravam bem intencionados, pedindo paz e não violência, agrupavam-se em segmentos dispersos das passeatas, protegidos no anonimato pelos simpatizantes de boa fé.
Homens maduros, todos de camisa branca e gravatas sociais, incorporavam-se à marcha a distâncias regulares. Eram eles que ditavam a velocidade dos caminhantes, coordenando a ação dos grupos de direita, e que, a seus comandos, elevavam a gritaria e exibiam cartazes com bem boladas palavras de ordem. O destino era o local do confronto, primeiro, e, depois, destacamentos encaminhavam os incautos, os saqueadores e sociopatas de todas as inclinações, para vizinhanças propícias às devastações. Nenhum foi, até agora, apanhado. Preliminares de 2014.
Com sucesso, a direita radical vem trazendo a reboque todas as oposições institucionalizadas, o PSDB, o DEM e a unanimidade dos comentaristas das mídias tradicionais, obrigados, quiçá com prazer interior, a aplaudir palavras de ordem absolutamente descabeladas, declarações tatibitates, bem como a achar profundíssima a alegre ignorância dos que testemunhavam não saber exatamente o significado do refrão que cantavam: “o povo, unido, não precisa de partido”. Esta, a primeira vitória da direita radical neste pugilato. A oposição institucional vai cortar um dobrado para convencê-la de que não está obsoleta.
Tendo colaborado com seus tuites e emails para mais esta rodada de desmoralização da política, petistas fisiológicos em busca de empregos e bocas (suas mensagens têm sido identificadas a granel nas redes sociais) continuam colaborando para a segunda vitória da direita radical: a difusão da divergência entre os participantes da coalizão política e social que vem conduzindo com elevada taxa de acerto a acelerada inclusão social dos grupos vulneráveis, a reforma institucional das práticas econômicas e o aumento dos graus de liberdade no cenário internacional. Foi a conquista mais espetacular da ousadia direitista. Na atual conjuntura, as lideranças progressistas se enfraqueceram e não há consenso operacional sobre nenhuma das propostas com que o Executivo presume atender às vozes das ruas. Nem há como haver.
Quem garante que as alegadas vozes das ruas são representativas dos quase duzentos milhões de habitantes? Pesquisas sobre o que as pessoas consideram problemas nacionais são sempre variantes da seguinte lista: saúde, educação, segurança, lisura administrativa, eficiência do governo, emprego, salário, compromissos dos políticos. Independentemente do nível de qualidade ou atendimento real dos itens acima, excepcional ou lastimável, os resultados revelarão coquetéis variados dos mesmos ingredientes. No Brasil, no mundo e em qualquer tempo.
Por isso, medidas imediatas ficarão eternamente aquém do que as pessoas desejam. E quando as medidas são despropositadas, a emenda se sai pior do que o soneto. Por exemplo: que emergência nacional justifica a convocatória de pactos? Se não resultam de fadigas beligerantes, a idéia intimida mais do que alivia. A probabilidade de que falhem é bastante elevada, sobretudo porque, às escondidas das luzes da ribalta, bom número dos esperados executores dos pactos vai sabotá-los.
A direita radical, com a ajuda dos petistas fisiológicos, encaçapou mais esta. Só falta as centrais sindicais convocarem uma greve geral. Quer dizer, não falta, não, já estão anunciando. A direita radical, profissionalizada e para-militarizada, promete trazer sua colaboração se as centrais toparem uma marcha “pacífica até aqui”.