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terça-feira, 28 de abril de 2015

O ódio em nosso tempo

Ao andar pelos caminhos da vida* parei de lutar contra o tempo**. É chegada a maturidade. Hora de recolhimento, do aguardo. De esperar a hora do repasto à partilhar a dor, o amor, o conhecimento, a bebida e a comida. É hora de pensar e pesar meus valores. Do que vivi, aprendi? Do que sofri, conheci?

Refletir.

Rebuscar a memória. Lá no recôndito da consciência estão minhas sensações de pertencimento. E não são poucas. Ali estão conhecimentos de uma infância livre e partilhada em Queimadas em que os banhos de rio, as cabanas, caçadas, as estórias contadas em vozes sussurradas forjaram o pré-adolescente para lutar contra a prisão do Internato nos Maristas de Senhor do Bonfim e contra uma liberdade podada, pelo menos a liberdade política, na Bahia antiga, hoje Salvador.

Refletir.

Mais uma vez. Valeu a caminhada? Estou apaziguado com meu longo aprendizado, ou, no meio do caminho ganhei espinhos tão profundos que suas dores e uma enorme soma de dúvidas estão dissimuladas? Ou, como cantou Erasmo Carlos "estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim"?

Refletir.

Não há um fim à vista. A vida não é uma estrada reta e finita e o limiar da velhice é apenas o início de uma nova jornada. Somos o poder do conhecimento pelo variado e valioso saber acumulados aos longo dos anos. Devemos, portanto, transmitir prudência e ensinar o poder da reflexão que alcançamos no limiar da velhice? E os jovens guerreiros do saber adotam a reflexão como ponto de partida para suas buscas? Ou perseguem o inatingível e terminam numa encruzilhada trocando, com o demônio, seu longo aprendizado por um sucesso imediato?

Refletir.

Ou somos nós a encruzilhada? O que transmitimos, ensinamos e refletimos? Representam esses jovens que hoje saem às ruas com o ódio estampado em rostos juvenis a essência do nosso conhecimento? E o diálogo enlouquecido produzido na WEB é fruto do nosso pertencimento?

Refletir.

E nessa caminhada encarniçada em busca do nada por que muitos no limiar da velhice se agarram ao ódio, ao preconceito? Como foi forjada esta geração antiga que esqueceu que a bandeira política, ou se querem, a luta ideológica se dá no campo das ideias e não no matar, no esgoelar o outro lado? O que aconteceu aos jovens e velhos do meu País? Não tem mais fim essa estrada? Caminhamos para o ódio entre irmãos?

Refletir.

Não posso mais, mesmo no limiar da minha velhice, ter o direito da escolha? Ser PT, PCdoB me transforma e me transporta para os "guetos de Varsóvia"? Aonde foi parar a humanização do pertencimento?  Quem é dono do bem? Quem é dono do mal? Estamos caminhando em direção a uma encruzilhada em que a escolha, por falta de opção, será o contrato com o Demônio na busca de um sucesso que poderá se transformar numa noite de escuridão de 20 ou 30 anos? Não custa refletirmos.


*Cora Coralina

A Procura

Andei pelos caminhos da vida.
Caminhei pelas ruas do destino-
procurando meu signo.

Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.

Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.

Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou que
ela tinha se mudado sem deixar novo endereço.

Procurei a morada da Fortaleza
Ela me fez entrar:

deu-me veste nova, perfumou meus cabelos...
fez-me beber de vinho.

Acertei o meu caminho.


**Viviana Mosé


Pensador 


Quem tem olhos pra ver o tempo
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina
Sem raiva nem rancor.
O tempo riscou meu rosto com calma
Eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença).
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
A vida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
A vida anda passando.
Acho que a vida anda.
A vida anda em mim.
Acho que há vida em mim.
A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
E por falar em sexo
Quem anda me comendo é o tempo
Na verdade faz tempo
Mas eu escondia
Porque ele me pegava à força
E por trás.
Um dia resolvi encará-lo de frente
E disse: Tempo,
Se você tem que me comer
Que seja com o meu consentimento
E me olhando nos olhos
Acho que ganhei o tempo
De lá pra cá
Ele tem sido bom comigo
Dizem que ando até remoçando.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

"O tempo passou e me formei em solidão"...



COLUNA DO SERTANEJO

(Coletânea de artigos próprios, de Jornais, Revistas, Publicações, livros etc.)

Ano 01 – Salvador, 18 de outubro de 2013.

“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”.

Gabriel Garcia Marques

Por William Brasil

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente no final da tarde ou à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de surpresa mesmo. E os donos da casa recebiam alegres os visitantes. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um. Olha sua madrinha aqui, filho! Tome a sua benção.

madrinha aqui, filho! Tome a sua benção.

E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia. Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos sentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando e admirando a bela casa. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro, casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

As visitas eram singelas e acolhedoras. Era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha, geralmente uma das filhas, e dizia: Gente vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se, em última análise, de um evento gastronômico. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite, tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança. Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida.

Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos à porta. Olhávamos, olhávamos até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa. Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...

Que saudade do compadre e da comadre!