Mostrando postagens com marcador Natal Riacho da Onça Crianças Papai Noel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Natal Riacho da Onça Crianças Papai Noel. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

João e o Natal Mágico




Este simples Auto de Natal foi escrito por mim para ser lido (e o foi) na festa de Natal promovida pela Equipe do Programa de Saúde da Família do Distrito de Riacho da Onça destinado, em especial, para as crianças que participaram em peso dos festejos.




Anoitecia naquela véspera de Natal e João, um garotinho de apenas onze anos, vagava pelos arredores de sua pequena casa. Buscava um sonho acalentado durante os últimos dias e noites de que seu pedido a Papai Noel seria realizado. Não pensava nele. Ficaria feliz se o Bom Velhinho lembrasse de sua mãe enferma e de seus outros três irmãos menores. Presentes, perguntava-se olhando o céu estrelado daquela noite escura de véspera de Natal. Sim, pensava ele, mas a boca se enchia de saliva se os presentes para toda a família fossem um bolo de milho ou de aipim; um pão recheado com manteiga, uma xícara quente de café ou chocolate.
Não lembrava o último dia que os quatro fizeram uma refeição que saciasse a fome. A seca que desde agosto grassava naquele sertão quente e pedregoso espantara não apenas as culturas de subsistência que o pai plantava nos meses de março e maio e que, se o inverno viesse, teria mesa farta para alimentar a família. Nem o inverno veio e o Pai, desesperado por não ter como botar comida na mesa, pegara um desses ônibus chamados “corujão”, por só rodar à noite, e partira para São Paulo em busca de melhores dias. Deixou sua vida num barranco da BR-116, nas terras das Minas Gerais e a mulher e três filhos no meio do nada desse nosso sertão, à própria sorte.
Cansado, com os pés a doer, recostou-se num pé de Braúna para descansar e botar os pensamentos em ordem. Tirou a surrada e velha sandália japonesa e massageou os pés. Da camisa rota e suja fez travesseiro.
Acordou passeando de mãos dadas com os irmãos, bem vestidos e de barriga cheia, com a mãe à frente olhando vitrines nas ruas do comércio de Queimadas. Ninguém os expulsava como ocorrera dias atrás quando pediam esmola nas esquinas da cidade ou um pão que fosse para saciar a fome dos irmãos e da mãe, nas padarias. Pelo contrário. Os vendedores corriam atrás deles para empurrar-lhes roupas, sapatos e brinquedos. Ria com o que via, se deliciava com as guloseimas que todos se empanturravam naquele passeio glorioso.

Como era bom e belo o Natal. E o Papai Noel, então. Que coisa linda aquele Bom Velhinho com um saco de brinquedos às costas a distribuir aos garotos pobres e ricos. Sim, porque Papai Noel não fazia distinção das crianças pobres e ricas. Todas tinham direito ao seu presente. Bastava para isso que tivessem se comportado bem durante o ano. E ele disso tinha certeza.
Além da escola, ajudara o Pai na lida com o trabalho, na limpa do milho e do feijão de corda que teimaram em secar e morrerem por falta d´água. Mas não por culpa sua, mas do Bom Deus que não mandou a chuva. De repente, à sua frente e dos irmãos e mãe eis que surge o Bom Velhinho com seu sorriso inconfundível: Rô, Rô, Rô, segurando o saco de presentes com a mão esquerda e com a mão direita badalando seu sino como a chamar as crianças pobres e ricas para receberem seus presentes.
E o sino a gemer, balão, balandão, balão balandão; balão, balandão. Os irmãos assustados, mas alegres por finalmente conhecerem aquela figura de barba e cabelos brancos abraçaram-se a João beijando-lhes o rosto com aquele caldo de guloseimas a escorrer por sua face. Levou a mão ao rosto para limpar e, sem querer, segurou algo mole e carrasquento e acordou com o Béé béé, béé do único bem que a família possuía que era a cabra Malhada a lamber-lhe o suor daquele início de noite quente, como a procurar sal.
Lá estava ele recostado na Braúna, mas cansado e com mais fome do que quando ali se recostara. O chocalho da cabra balançando de um lado para outro na sua correria desenfreada causado pela dor do puxão na língua, repetia o refrão Balão, Balandão, Balão, Balandão naquela paragem erma e silenciosa. Gemia o sino e João alegre pelo sonho ficou feliz a rezar e a perguntar a Papai Noel:

vê se você tem
a felicidade para você me dar
Eu pensei que todo mundo

Fosse filho de Papai Noel

E assim felicidade

Eu pensei que fosse uma

Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi

Mas o meu Papai Noel não vem

Com certeza já morreuOu então felicidade

É brinquedo que não tem

Entrou em casa, beijou os irmãos que já dormiam e perguntou a mãe se queria alguma coisa. Silêncio: a mãe também dormia. Procurou seu canto e pediu à Mãe Nossa Senhora que lhe desse mais uma vez a graça de sonhar o mesmo sonho. O sonho da Felicidade. Sonolento pelo cansaço e pela fome, os olhos logo se fecharam. Mas, antes de pegar no sono, abriu os olhos assustado: parecia vir de um canto da sala um brilho intenso, como se o céu do seu sertão de repente tivesse descido em sua casa.
Uma sombra assomou a porta de seu quarto, mas não conseguiu distinguir o que ou quem era tal a intensidade da luz que jorrava pelo telhado, pelas portas e janelas do casebre. De repente sentiu uma paz interior, uma calma infinita, uma bondade imensa. Abriu um sorriso e no seu canto dormiu acalentado por anjos que desciam do céu.
Ainda nem bem amanhecera o dia de Natal e acordou com gritos de alegria dos irmãos e de graças de sua mãe. Assomou à porta da sala e lá estava uma Árvore de Natal mais linda do que as que vira em seu sonho e recheada de brinquedos. A pequena mesa de sua humilde casa repleta de todo o tipo de comida muito mais do que sua fome pedira nos últimos tempos. Chamou a mãe e os irmãos e de mãos dadas renderam graças ao Nosso Senhor Jesus cristo, porque ali, na sua humilde, mas abençoada, casa, eles renasceram no Amor a Cristo.


Boas Festas a todos os cristãos, pobres ou ricos
E um Feliz e Próspero Ano Novo. E que Deus nos ilumine a todos como Jesus o fez na casa de João. E não procurem a Felicidade. Ela está dentro de nossos corações.