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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Korolev/Dilma Rousseff: injustiçados que fizeram história









Por Fábio de Oliveira Ribeiro, extraído do blog de Nassif


Em 27 de junho de 1938, o regime infame de Stalin enviou para a Sibéria o engenheiro Sergei Pavlovich Korolev. Este seria apenas mais cidadão soviético expurgado e esquecido num remoto Gulag não fosse por um importante detalhe. Após sua libertação, Korolev comandou o bem sucedido programa espacial da URSS.



Sergei Pavlovich Korolev colocou o primeiro satélite em órbita. Em seguida, ele colocou a primeira cachorra em órbita e enviou e trouxe a Terra um casal de cachorros. O ponto mais alto da carreira de Korolev ocorreu quando ele enviou ao espaço e trouxe em segurança a Terra o cosmonauta Yuri Alekseyevich Gagarin. Entre outras coisas Korolev também enviou a primeira sonda à Lua e fotografou pela primeira vez a face escura da mesma. O grande engenheiro soviético morreu em 14 de janeiro de 1966 e somente depois da sua morte foi elevado à condição de herói da URSS.



Qual a razão para celebrar o 27/06/1938 e não os feitos de Korolev? Simples: a injustiça cometida contra ele não foi capaz de impedi-lo de fazer coisas grandiosas pelo seu país. Esta é uma lição importante que os perseguidores de todos os tempos em todos os lugares parecem sempre esquecer.



Como o engenheiro soviético, nossa presidenta também foi injustiçada por uma ditadura. Torturada, condenada à prisão e posteriormente anistiada, Dilma Rousseff também não teve sua carreira interrompida. Ela galgou vários postos até chegar à Explanada dos Ministérios e à presidência da República. Tudo indica que ela será reeleita. Se isto ocorrer, Dilma continuará a dar muitas alegrias ao povo brasileiro. Pois somente aqueles que sofreram as mais amargas injustiças são capazes dos maiores sacrifícios.



Korolev poderia muito bem se recusar a ajudar a ditadura que o confinou num Gulag, dando as costas ao programa espacial soviético quando foi convidado a chefiá-lo. Dilma Rousseff poderia ter seguido uma lucrativa carreira privada dentro ou fora do Brasil. As escolhas feitas por ambos, contudo, não parecem ter sido norteadas exclusivamente pelo lucro pessoal. Inteligência, abnegação, superação do passado, fé no futuro, dedicação e amor a pátria não são qualidades fáceis de encontrar. Em geral os seres humanos são arredios, vingativos e se apegam mais às injustiças que sofreram do que aos benefícios públicos que podem proporcionar.



Sergei Pavlovich Korolev e Dilma Rousseff passaram por experiências desagradáveis semelhantes e reagiram de maneira igualmente positiva. Quantos adversários da candidata do PT à reeleição podem dizer que fizeram o mesmo?



Os principais candidatos da oposição nasceram em berço de ouro e tiveram suas carreiras pavimentas com tijolinhos dourados pelos seus antepassados. Se eventualmente existe, o mérito pessoal deles nunca se igualará ao de Korolev/Dilma Rousseff. Eis a razão pela qual é risível a campanha destes pigmeus manufaturados pela mídia contra um colosso forjado durante a ditadura, testado e aprovado na tormenta.



Será uma tragédia de proporções históricas se o povo brasileiro não reeleger Dilma Rousseff. Isto equivaleria, por exemplo, à dispensa de Korolev do programa espacial soviético por causa das pequenas falhas que ocorreram antes dos fenomenais sucessos que o engenheiro proporcionou à URSS. Seguir com ele apesar das falhas foi correto e lucrativo. Seguir com Dilma também é.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Sobre a imprensa e a campanha contra Dilma




Por Heitor de Assis, no Luis Nassif


Mesmo o Nassif parece confundir a transbordante personalidade de Lula com algum aparelho institucional de comunicação. Dilma não é Lula, e Lula não é Dilma. Não foi o aparelho de comunicação do Presidente Lula, que ele não teve, que impôs sua presença no noticiário durante seus mandatos, ainda que a contragosto dos barões da comunicação. Foram sua inteligência, seu faro político e sua personalidade, atributos impossíveis de serem escondidos atrás de uma porta.

Quem tenta corroer a credibilidade do Governo, quem tenta esconder as ações do Governo, quem achincalha dia sim e dia também o país, são as mesmas mídias imprensa e televisiva, cevadas pela Ditadura de 1964, e continuaram existindo mesmo após a posse de Sarney, atravessaram a Constituinte incólumes e só encontraram alguma resistência após a renúncia de Collor. Itamar Franco foi tratado como se petista fôsse, até que os meios de comunicação e a imprensa achassem que o tinham destruído. Com a chegada de Fernando Henrique à Presidência, ficou aberto o caminho para o retrocesso do país, e eles.

Por outro lado, a carranca de FHC e seus comentários sobre os aposentados, por exemplo, tiveram um tratamento benevolente da mídia, quase folclórico, ao longo dos seus mandatos. Enquanto seu desastrado atrelamento e descarada submissão aos dogmas neoliberais, suas escolhas de assessores como José Serra e Armínio Fraga entre outros, todos êles artífices e porta-vozes variados - por aqui - do apocalipse que revelou-se ao mundo a partir de 2006 e explodiu em 2008, foram tratadas pelo baronato como grandes formuladores e gestores. A alienação do patrimônio público, a compra da reeleição, as sucessivas e incompetentes administrações do Banco Central em seus mandatos, foram mostradas a leitores e telespectadores do país inteiro como ações e atitudes na luta para salvar um país que eles mesmos estavam a destruir. E a mídia, vendo tudo o que ocorria como inevitável, mero acidente da natureza, que a nós apenas cabia suportar passivamente.

A prudência e a sabedoria do Presidente Lula o levaram a avaliar o quanto hostil era o ambiente em torno de si, o que lhe garantiu a condição de ser noticiado no início de seu mandato, quando pareceu domesticado. Mas a campanha para impedir sua reeleição começou tão feroz quanto a dos dias atuais. Mais uma vez, sua argúcia pessoal calou os adversários e abriu caminho para a reeleição. O sucesso do segundo mandato - a diminuição da pobreza, os investimentos na educação, a projeção do Brasil no exterior, os bons resultados da economia - abriram-lhe as portas para que escolhesse e fizesse sua sucessora.

O primeiro mandato de Dilma ocorre ao mais ou menos ao mesmo tempo em que Barack Obama inicia a reação norte-americana contra os Brics, usando o que chamam de softpower, a alternativa às espalhafatosas e caríssimas - política e economicamente - invasões militares para obter a deposição de governos hostis ao que consideram seus interesses econômicos e geopolíticos. Trata-se de insuflar os ânimos de cidadãos desavisados dos países alvos, quando em luta na defesa de seus desejos e necessidades não atendidos pelos governantes da vez, para em seguida infiltrar neste movimentos até então reivindicatórios, mercenários e baderneiros pagos para instalar o caos e desestabilizar o governo. Tais recursos foram usados pela primeira vez pelos sérvios - até onde eu sei - na luta pela dissolução da Iugoslávia. Aquela guerra, necessária para abrir caminho para as fôrças da OTAN aproximarem-se das fronteiras russas, está agora na Ucrânia, na Síria, na Venezuela e outros lugares, e talvez no Brasil.

O desconhecimento pela mídia da recente inauguração de um trecho da Ferrovia Norte-Sul, de 1400 km solenemente ignorado por todos os noticiários escritos e televisados é, ou poderá ser, a síntese do tratamento que Dilma recebe de seus inimigos. A omissão de muitos fatos, a invenção de outros tantos, o tratamento sempre desdenhoso, as mentiras e distorções dos fatos econômicos, são os meios disponíveis nesta nova etapa da luta contra o país, travada diuturnamento pelo imperialismo hegemônico e seus acólitos, que querem ser para todo o sempre, o que hoje são. Uns, no andar de cima desfilando suas desumanidades, os subservientes a comer migalhas no andar de baixo, e a grande maioria desamparada no subsolo.

A ascensão dos Brics e suas políticas não hegemônicas, inéditas no cenário internacional; da China como maior economia do mundo; o gás russo e o Pré-Sal brasileiro; o redescobrimento da Índia e da África do Sul, são as verdadeiras razões que levaram o que chamamos de elite brasileira ao papelão que ela fez no Itaquerão.

O papelão dos oportunistas Aécio Neves e Eduardo Campos, cuja chancela aos xingamentos dos VIPs presentes no estádio - convidados de empresas beneficiárias das rupturas institucionais em todos os países que são objeto de insaciável cobiça - revelam o caráter - tosco, chauvinista, burro e arcaico - de suas personalidades e o desapreço pelas mulheres e, previsível, pelo que acham que seja o resto.

A Presidenta Dilma Rousseff usou seu mandato para aprofundar as conquistas do governo Lula, continuar as gigantescas obras de infraestrutura iniciadas pelo antecessor, aperfeiçoou políticas sociais e criou outras, aparentemente ignorando a campanha midiática que nunca lhe deu trégua. Na minha opinião, se tivesse reagido antes, seu mandato teria sido reduzido a uma batalha contra o baronato. Se a Presidenta lançasse a campanha pela regulação da mídia em qualquer momento de seu mandato, no mínimo, teria lançada contra si, o que se viu no Itaquerão.

A campanha feroz da banca das finanças, da indústria, dos ruralistas, de políticos de todos os matizes que não enxergam um palmo adiante dos seus interesses de classe e pessoais, que ora expõe tais interesses sem qualquer escrúpulo, está com seus dias contados em boa medida. O horário eleitoral, a presença de Lula, as propostas indefensáveis dos opositores, a discussão da Lei dos Meios, do financiamento público de campanha e outros temas fundamentais para uma agenda progressista chegará às ruas. O resto, as urnas o farão.

A Casa Grande declarou guerra



Por Miguel do Rosário, no Cafezinho


O Brasil ganhou da Croácia e quase tudo deu certo na estreia da Copa. A um grupo de endinheirados truculentos coube o papel de nos fazer passar vexame.

Nenhum brasileiro foi tão lembrado ontem e hoje como Nelson Rodrigues. Os elementos de suas crônicas estavam todos lá: os vira-latas, os grã-finos, as vaias, o futebol, a vitória da seleção. A própria Dilma encarnou a heroína rodriguiana. Aliás, de repente nunca ficou tão claro como Dilma nos lembra um personagem de Nelson. Desajeitada, sem graça, trabalhadora, esforçada, ética. Sujeita a terríveis pressões políticas, morais, psicológicas. Nosso maior assombro é que Dilma possa sobreviver a tudo isso.

Nelson comentou, certa feita, uma experiência similar sofrida por Paulo Cézar Caju, ponta-esquerda da seleção, na Copa de 70:

Paulo Cézar sofreu uma experiência inédita: — uma vaia de noventa minutos. Isso corresponde a um linchamento. Só não entendo, até hoje, como ele conseguiu sobreviver. Nem se pense que foi ele o único. Mas não vamos amaldiçoar as vaias ao escrete. Elas o fizeram, elas o virilizaram. A jornada brasileira no México é uma vingança contra as vaias.

A mesma coisa valerá para Dilma. Se sobreviver a esta nova onda de hostilidades da classe média, ela poderá emergir fortalecida pelo sofrimento.

Nelson diria que os xingamentos “humanizaram” a presidente. Ela voltou a ser um igual, uma sofredora. O Brasil não amanheceu pensando na seleção. Amanheceu pensando em Dilma. Com raiva, com pena, com solidariedade, não importa o sentimento. Todos acordaram pensando nela.

Em junho de 1970, Nelson iniciava sua coluna diária assim: “Por que o Brasil não gosta do Brasil e por que nos falta um mínimo de autoestima? É a pergunta que me faço, sem lhe achar a resposta.”

Em seguida, Nelson analisa a Passeata dos Cem Mil, com uma crítica à esquerda. Uma crítica correta, sobretudo quando a lemos hoje:

Quem quiser entender as nossas elites e o seu fracasso encontrará nos Cem Mil um dado essencial. Não havia, ali, um único e escasso preto. E nem operário, nem favelado, e nem torcedor do Flamengo, e nem barnabé, e nem pé-rapado, nem cabeça de bagre. Eram os filhos da grande burguesia, os pais da grande burguesia, as mães da grande burguesia. Portanto, as elites.

Só que a “passeata dos 100 mil”, hoje, não se identifica mais com a esquerda. A classe média brasileira continua bipolar. Num dia, marcha com a família e pede o fim do governo. No outro, marcha com os intelectuais e pede o fim da ditadura.

Um dia acha o governo Dilma o melhor de todos os governos: uma mistura benigna da solidariedade do PT para com os mais pobres, somada à severidade em relação à imagem na mídia dos tucanos.

Sim, durante um bom tempo, os segmentos de maior renda deram ao governo Dilma a maior aprovação que talvez já tenham dado a uma administração.







Em abril de 2012, 70% das famílias com renda superior a 10 salários consideravam o governo Dilma “bom ou ótimo”; apenas 2% consideravam-no “ruim ou péssimo”. Hoje, 48% acham seu governo ruim e apenas 23% gostam dele.

Não vou falar hoje das notórias falhas de comunicação do governo Dilma. Mas vou trazer alguns dados interessantes que andei estudando nas últimas horas.

É interessante analisar, por exemplo, as licenças televisivas vendidas pela Fifa para a Copa.



Em quase todos os países europeus, com exceção da França, a Copa será exibida por canais públicos. Na Inglaterra, será, naturalmente, a BBC. Na Alemanha, o ARD. Na maioria dos outros, será o EBU, o canal público da União Europeia.

No caso da França, será o TF1, um canal que pertencia ao Estado até o final dos anos 80, quando foi privatizado, mas guarda ainda a sobriedade de um canal público.

Nos EUA, a licença foi vendida para a ABC, o maior canal aberto do país. Isso me despertou a curiosidade para saber como é a ABC, como ela se porta politicamente. Então descobri análises (aqui também) que mostram a ABC como um canal de perfil pró-democrata, o que, nos EUA de hoje significa estar alinhado à esquerda no espectro ideológico médio nacional. Agradou-me, sobretudo, o fato de uma instituição renomada como a Pew fazer pesquisas tão detalhadas sobre as empresas de mídia nos EUA, analisando o viés político e ideológico de cada uma. No Brasil, a mídia não é pesquisada, não é debatida, não é analisada, a não ser pela blogosfera “suja”. A mídia brasileira paira acima do bem e do mal.

Aliás, acabei descobrindo várias coisas interessantes sobre a mídia norte-americana, que podemos discutir depois, sobretudo a partir desta pesquisa Pew, bastante recente.

Rápida digressão.

Há uma outra pesquisa extremamente interessante da Pew, que vamos debater aqui em breve, que fala do forte aumento da polarização política nos EUA, com mais republicanos se dizendo de direita e mais democratas se dizendo de esquerda. Parece que é uma tendência global, e o Brasil pode estar também entrando nessa onda.

“Hoje, 92% dos republicanos estão à direita do democrata médio, e 94% dos democratas estão à esquerda do republicano médio”, diz a pesquisa.

Alguns gráficos:







Voltando ao Brasil e ao jogo de ontem, os xingamentos à presidenta corresponderam, de certa maneira, a uma vingança do “controle remoto”. A Globo é a única licenciada para exibir os jogos. Ela vendeu o direito à Band, mas a sua hegemonia na cobertura televisiva do evento é absoluta.

Dilma disse que, se não gostássemos de um canal, podíamos usar o controle remoto. E agora, que a Copa só pode ser vista praticamente num só canal, na Globo? Cadê o poder do controle remoto?

Durante 30 dias, a Globo terá um poder monstruoso sobre a sociedade brasileira. E ela não irá usá-lo com moderação, como já deixou bem claro. Há tempos que esta Copa se tornou a mais politizada da história. Muito mais até do que em 1970, na ditadura. Em 70, não havia eleições, a imprensa era controlada (ou auto-controlada) e a disputa simbólica não tinha tanta importância. As Copas recentes aconteceram em países distantes. Não era interesse da mídia mostrar seus problemas, apenas faturar o máximo com o evento.

À presidente, na minha opinião, cabe entender que o xingamento que recebeu não foi apenas à sua pessoa. Todos nós, que defendemos políticas sociais para os pobres, também fomos xingados. Sim, porque a Dilma que foi xingada não foi aquela que fez omeletes com Ana Maria Braga. A Dilma que foi xingada foi a Dilma que aumentou o bolsa família, que expandiu os investimentos em educação e que levou médicos a regiões e cidades que nunca viram um em séculos.

A Dilma que foi xingada foi a protagonista do processo mostrado no gráfico abaixo:


Observe que, em 1992, os 50% mais pobres detinham 13,11% da renda nacional; ao fim de 2002, sua participação diminuíra para 12,98%. Ao final de 2012, atingiu o recorde de 16,36%.

Aí houve uma crise de pânico da classe média, porque chegamos, talvez, ao limite onde o pobre não irá avançar sem tirar do rico. É o que já começou a acontecer. Quando a empregada doméstica começa a erguer a cabeça para responder ao patrão, e a exigir não apenas salário maior mas uma relação profissional mais igualitária, aí sim a classe média sente que o processo de mudança está afetando, diretamente, sua qualidade de vida. A classe média brasileira está apavorada diante da possibilidade de ter de arrumar a própria casa.

E os pobres que ascenderam à classe média talvez estejam absorvendo os mesmos valores. É o sentimento egoísta de querer trancar a porta depois de entrar na festa. Só que a festa não acabou. O Brasil ainda é um dos países mais desiguais do mundo. Ainda há muito pobre do lado de fora.

É importante entender: o que assistimos ontem no Itaquerão não foram vaias. Não foi sequer um xingamento. Aquilo foi uma declaração de guerra. A luta de classes voltou com muita força no Brasil, com todos os seus graves riscos à estabilidade social e política.

A democracia é um regime arriscado, até porque tem a vantagem de poder corrigir seus erros em seguida. Tocqueville observava que “a democracia não pode obter a verdade de outra forma que não pela experiência”. No caso dos Estados Unidos, diz ele, o grande privilégio de seu povo “não era ser mais esclarecido que outros, mas ter a faculdade de cometer erros que podiam ser corrigidos em seguida”.

O escritor nos lembra ainda que as nações não envelhecem da mesma maneira que os homens, pois “cada geração que nasce é como um povo novinho em folha que se oferece às lideranças políticas”.

Esse é o grande trunfo da oposição, e Lula tem repetido isso frequentemente. A sociedade mudou, porque há novas gerações de eleitores, que já não carregam, na memória da carne, as dores causadas pelos maus governos anteriores, dos governos apoiados por nossas mídias.

As eleições deste ano serão as mais classistas da nossa democracia. Dilma ganhará com os votos daqueles que ainda não entraram na festa, dos pobres que ganham até um salário mínimo, dos nordestinos, das populações das cidades pequenas, das franjas miseráveis das periferias urbanas.

Por isso é tão importante que haja um movimento efetivo para democratizar a mídia, para que os valores e os projetos interessados no destino da parte mais pobre da população não fiquem abafados pelos xingamentos da Casa Grande.

É importante que o governo entenda que democratizar a mídia não é um debate político, não é uma teoria acadêmica, não é uma polêmica desagradável, que “pega mal” na mídia. Não adianta a presidenta dizer que aceita discutir uma regulamentação “econômica” da midia, ou o PT incluir o tema na campanha.

A democratização da mídia, estamos avisando há tempos, é urgente. Não interessa se é ano de eleição. Aliás, justamente pelo fato de ser ano de eleição ela ganha uma urgência trágica, porque o ambiente midiático atual apenas favorece a Casa Grande, que ampliará seu poder, obterá vitórias políticas e tratará de afastar o tema da pauta. Teremos que esperar mais uma década para voltar a discuti-lo.

Os esquálidos, as grã-finas, os truculentos, os que se comprazem em pagar quase mil reais para xingar a presidenta, os que idolatram o “justiceiro” Joaquim Barbosa, estão armados até os dentes para defender seus interesses. Para eles, agora vale tudo. Dilma pode ter mais tempo de TV, mas a oposição terá a grande inteira de programação.

O governo, mais que nunca, dependerá da combatividade de seu exército liliputiano, de seu exército mambembe, machucado pelos bombardeios diários da imprensa conservadora, criminalizado, chamado de “guerrilha”, sujeito a todo tipo de devassas judiciais, atacado por hackers mercenários, ridicularizado quase diariamente pela grande mídia, que também tem narinas de cadáver. Um exército de garrinchas de perna torta, de cachaceiros, de cidadãos cujo único patrimônio é sua criatividade.

Numa de suas crônicas, Nelson lembra que a vitória de 62, proporcionada por Garrincha, permitiu “ao mais indigente dos brasileiros tecer a sua fantasia de onipotência”, e que “as multidões, sem que ninguém pedisse, e sem que ninguém lembrasse, as massas derrubaram os portões”.

O gráfico abaixo, feito a partir dos últimos números do Ibope para o provável segundo turno das eleições deste ano, nos dão uma ideia de que lado, ao menos por enquanto, estão as “massas”…





quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Caracas passa longe daqui



Clóvis Rossi na Folha

Pessimismo exacerbado leva a comparações absurdas entre o Brasil e a Argentina ou a Venezuela

Foi só tocar no surto de pessimismo exagerado que assola boa parte do empresariado tapuia (http://folha.com/no1394121) para que caísse uma catarata de e-mails com cenas explícitas de alarmismo ainda mais exagerado.

O que mais me surpreendeu foram reiteradas menções à possibilidade de que o Brasil se tornasse uma gigantesca Argentina ou, pior ainda, uma Venezuela.

Nada contra críticas à política econômica (ou a qualquer outra política). São muitas vezes justas e sempre necessárias. Mas crítica tem que ter algum parentesco com a razão, como o faz, por exemplo, Vinicius Torres Freire. Não pode ser feita com o fígado --e a comparação com Venezuela/Argentina é pura bílis ou, pior, terrorismo.

Como monitoro diariamente a conjuntura venezuelana e a argentina, achei, a princípio, que não seria necessário contestar a comparação. Depois, no entanto, veio a desagradável sensação de que terrorismo pode pegar entre os que não têm a obrigação de acompanhar os vizinhos.

Vamos, então, a uns poucos dados que desmontam a comparação.

1 - Inflação. Tanto a Venezuela (56%) como a Argentina (20 e poucos por cento) perderam o controle sobre ela. O Brasil perdeu só o centro da meta. Não é para festejar, mas tampouco é para entrar em pânico.

Pior, no caso argentino: as estatísticas foram desmoralizadas por instituições internacionais, a ponto de o FMI ter adotado o passo inédito de cobrar que elas fossem, digamos, normalizadas. No Brasil, até a revista "The Economist", que acha que a economia está moribunda, acredita nos dados oficiais.

No caso da Venezuela, exatamente pelo descontrole inflacionário (e pelo desabastecimento), o governo decidiu tabelar o lucro, delírio que não cabe no capitalismo. Isso sim é intervencionismo, não as medidas que o governo Dilma tem tomado.

2 - Câmbio - Nos dois países, vigoram um câmbio oficial e um paralelo, que é, na Argentina, quase o dobro do oficial, e, na Venezuela, umas dez vezes maior.

O Brasil já teve um duplo câmbio, mas faz tanto tempo que pouca gente ainda lembra. Não está no horizonte no Brasil uma distorção como essa, que sempre acaba mal, como aprendemos até que o Plano Real estabilizasse a economia.

Não vale nem a pena entrar a falar dos aspectos políticos e institucionais, tão diferentes são o chavismo, o kirchnerismo e o lulismo/dilmismo. Basta lembrar que os dois primeiros buscam permanentemente o confronto, como forma de afirmação, ao passo que o lulismo e o dilmismo buscam a acomodação (para o meu gosto, até excessiva).

A economia brasileira pode ou até tende, segundo os críticos razoáveis, à mediocridade, mas não ao dramatismo que acompanha a Venezuela, principalmente, e a Argentina.

Logo, quem espera que o pessimismo derrube a candidatura Dilma fique sabendo que, enquanto houver pleno emprego e aumento da renda, é uma esperança vã.

A menos que algum candidato descubra um sonho a oferecer às ruas que cobram mudanças, mas não se comoveram com as críticas dos oposicionistas.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Lula dispara no congresso do PT



Por Hylda Cavalcanti, na Rede Brasil Atual:


Apresentando-se como “comandado” do PT para a campanha de reeleição da presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem (12) que os frequentes ataques aos petistas, ao governo e à condução da economia ocorrem mais por um problema de classe social do que pelo erros que o partido tenha cometido nesses quase 11 anos no comando do país.

Falando para um grupo de 600 delegados na abertura do 5º Congresso Nacional do PT, em Brasília, Lula destacou os avanços do Brasil na última década, sobretudo nas áreas social e econômica, e disse que alguns grupos empresariais, políticos e midiáticos sentem-se "incomodados" por essas conquistas.

"O problema não é econômico, o problema é de pele, é de classe social", disse ele, ao lado de Dilma, do governador Agnelo Queiroz (DF), do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e vários ministros, deputados, senadores e outras autoridades.

“Se eu tivesse fracassado como imaginavam, diriam que era porque eu era um coitadinho de um operário, que não estava preparado. Fizeram um país para governar por mais de 20 anos e quem está governando há 12 anos somos nós. Um dia pegaram uma jovem de 20 anos, prenderam-na, torturaram-na, e depois a soltaram. Alguns anos depois essa jovem rebelde vira presidenta da República desse país. Isso não é uma coisa simples de compreender”, frisou.

Lula disse que o país “está dando certo naquilo que outros não conseguiram acertar” e fazendo, em pouco tempo, “o que pensavam fazer em muito”. O ex-presidente criticou os empresários que divulgam a tese segundo a qual investidores estrangeiros estariam preferindo outros países devido a supostos problemas na economia brasileira.

“Quero entender qual é o país que está melhor que o nosso Brasil. Alguns países estão bem porque começaram décadas antes de nós, mas nenhum país está bem como o nosso. Não há nenhum país que tenha registrado 4,8 milhões de empregos formais em três anos, que tenha mais responsabilidade fiscal do que nós”. frisou.

De acordo com Lula, o PT tem sido vítima das suas virtudes e dos seus defeitos. Ele foi bastante ovacionado quando comparou os ataques aos condenados na Ação Penal 470, conhecida por processo do mensalão, a episódios mais graves envolvendo figuras da oposição ligadas ao PSDB.

“Se forem comparados os erros do PT com os dos outros partidos, notamos uma desproporcionalidade na divulgação. Basta ver as notícias sobre o emprego do José Dirceu no hotel e da cocaína num helicóptero, que se percebe uma desproporcionalidade na divulgação dos dois assuntos”, afirmou.

Ele referia-se à apreensão de 450 quilos de pasta de cocaína num helicóptero pertencente ao deputado estadual mineiro Gustavo Perrella (SDD), filho do senador Zezé Perrella (PDT), ambos ligados ao presidenciável tucano Aécio Neves.

Responsabilidade

O ex-presidente destacou que a reeleição de Dilma terá o efeito de continuar as mudanças que estão sendo feitas pelo PT, mas para isso o partido precisa estar mais integrado com as bases e com a sociedade.

Lula lembrou que o fato de mais de 400 mil filiados terem comparecido ao chamado do PT para participar do Processo de Eleições Diretas (PED), no mês passado, é sinal de que muita coisa boa está acontecendo no Brasil. E reiterou aos novos dirigentes empossados que precisam percorrer o país no ano que vem. “Preparem-se para viajar conosco do Oiapoque ao Chuí e deixar o PT mais forte”, reiterou.

Num recado claro aos dirigentes, o ex-presidente pediu alerta e apoio para o próximo ano. “Não se iludam que cada coisa, quanto melhor fizermos, mais aumentará a ira da oposição contra nós. Tudo isso deixa as pessoas em dúvida sobre o que vai acontecer nesse país. Temos uma responsabilidade de reeleger a Dilma presidenta e para isso precisamos ter uma boa bancada de deputados federais, aumentar o número de senadores, eleger governadores e deputados estaduais”.

Sobre a intensificação das alianças, o ex-presidente ressaltou que o ideal seria escolher a chapa toda do PT, mas na política real isso não é possível, motivo pelo qual, é importante construir as alianças necessárias à governabilidade.

“Temos que trabalhar e construir alianças, pois não teremos uma eleição fácil. Não vamos esperar moleza: estas eleições precisam de dedicação e muito compromisso de nossa parte. Teremos que ir para a rua”, conclamou.

sábado, 31 de agosto de 2013

FHC pode olhar nos olhos do “Senhor X”?




“Olha, Fernando, quando você conversar comigo, por favor, nivele teus olhos aos meus” (quem foi o homem que acusava FHC de ser um príncipe esquivo e escorregadio?) “Rameira, ponha-se daqui para fora” (quem disse essa frase principesca, após um ataque de cólera dentro do Senado Federal?)



Por Rodrigo Vianna


                                             Quem conhece a história recente do Brasil (e também o passado ‘republicano’ de nossas elites – com Convênio de Taubaté, Encilhamento etc…) sabe bem que o tal “mensalão do PT” está longe de ter sido o “maior escândalo da história política brasileira”– como pretendem augustos, mervais e outros quetais do jornalismo elitista. Mas quem ainda tinha dúvidas ganha, agora,  mais uma chance para desfazê-las: o novo livro do jornalista Palmério Dória.

Se Amaury Ribeiro Jr (com “A Privataria Tucana“) já havia lançado luzes sobre a vertente serrista do tucanismo, Palmério agora vai ao centro do esquema: “O Príncipe da Privataria” (Geração Editorial) traça, em quase 400 páginas de texto saboroso, o perfil de um homem vaidoso, simpático, com fama de mulherengo, e que dirigiu o Brasil com o propósito declarado de “enterrar a Era Vargas”. Fazia parte do pacote tucanista vender estatais a preços ridículos e, se fosse preciso, mudar as regras do jogo democrático usando todos os artifícios possíveis. FHC foi o presidente que fez o Real? Não. Este foi Itamar Franco. Mas FHC foi o presidente que quebrou o Brasil, vendeu nosso patrimônio público e transformou o Congresso Nacional numa feira de mascates.

Esse é o ponto alto do livro: a feira da reeleição. Em 1997, o repórter Fernando Rodrigues produzira uma série de reportagens históricas publicadas pela “Folha de S. Paulo”: nelas, um certo “senhor X” apresentava gravações de reuniões em que deputados federais falavam abertamente sobre a venda de votos para aprovar a reeleição de Fernando Henrique no Congresso. O preço do voto: 200 mil reais.

O “senhor X” entregou as gravações ao Fernando Rodrigues, mas jamais mostrou o rosto. Palmério Dória agora mostra quem é o “senhor X”. Ele tem nome, sobrenome e 16 anos depois dos fatos aceitou dar entrevista de peito aberto. Narciso Mendes, 67 anos, é empresário no Acre, foi deputado Constituinte em 87/88, e na época da reeleição de FHC a mulher dele era deputada federal. Por isso, Narciso tinha acesso às reuniões em que se deu a tramóia.

Narciso Mendes recebeu o jornalista Palmério Dória, e relembrou toda a história – incluindo a forma como a base tucanista (no Congresso e na imprensa) conseguiu frear uma CPI para investigar a compra dos votos denunciada em 97:
“Nem Sérgio Motta queria CPI, nem FHC queria CPI, nem Luis Eduardo Magalhães queria CPI, ninguém queria porque sabiam que, estabelecida a CPI, o processo de impeachment ou no mínimo de anulação da emenda da reeleição teria vingado, pois seria comprovada a compra de votos“, disse Narciso a Palmério Dória.
O fim dessa história qual foi? CPI jamais foi instalada. O MPF jamais investigou nada.  Havia um relato escandaloso, com gravações e tudo: pelos menos seis deputados do Acre teriam vendido seus votos pela reeleição. A classe média indignada não moveu uma palha. Nada se fez…

Numa conversa recente entre Palmério Dória e alguns blogueiros sujos, um observador maldoso chegou a afirmar: “200 mil reais era o preço pelo voto acreano, imagine quanto não deve ter custado o voto de um deputado de São Paulo ou Minas para aprovar a reeleição?” Quanto? Quanto? Sergio Mota talvez pudesse esclarecer. Mas levou para o túmulo o segredo de polichinelo…

Nunca antes na história desse país, a não ser em ditadura, um presidente mudou as regras do jogo eleitoral de forma tão escandalosa. Um atentado contra a Democracia. Documentado. Como se sabe, FHC obteve o segundo mandato, quebrou o país, tentou vender todo o patrimônio público e – ao fim –  saiu do poder com o rabo entre as pernas. Nem Serra em 2002, nem Alckmin em 2006 tiveram coragem de defender o legado fernandista. Hoje, o ex-presidente tem coragem de sair por aí a dizer o que os tucanos devem ou não fazer na próxima eleição. Serra deve se remoer. Sabe bem quem é o ex-presidente que posa de príncipe de Higienópolis. Terminados os oito anos de FHC, o neoliberalismo estava em frangalhos na América Latina: Fujimori foi preso no Peru, Salinas exilado do México, Menem jogado no lixo da história argentina. FHC tinha virado um príncipe.  O livro de Palmério mostra que de príncipe ele tem muito pouco.

O livro também volta às privatizações, relembra a venda (ou doação?) da Vale, debruça-se sobre meandros e transações tenebrosas na telefonia…  Mas a obra não é uma coleção de fatos e notícias do octanato fernandista. Não. O jornalista costura a crônica política (e financeira) com o perfil privado do marido de Dona Ruth. Fofocas? Também não.

Por que o Brasil não ficou sabendo que FHC era apontado – já ao chegar ao poder – como o pai de um bebê gerado por  uma repórter da TV Globo em Brasília? Que favores FHC ficou devendo à família Marinho (e ao grupo seleto de políticos que lhe deu ‘cobertura’ na história do filho) quando a Globo aceitou “exilar” a tal repórter num posto sem importância em Lisboa (e depois na Espanha)?

Rameira, ponha-se daqui para fora”? Quem disse essa frase principesca, após um ataque de cólera dentro do Senado Federal?

Olha, Fernando, quando você conversar comigo, por favor, nivele teus olhos aos meus. Quem foi o homem que acusava FHC de ser um príncipe esquivo e escorregadio? 
Não são meros detalhes. Dezesseis anos depois de ter aparecido como “senhor X”, Narciso Mendes ressurge e confirma que a reeleição foi comprada. FHC pode “nivelar os olhos” e encarar Narciso de frente? Parece que não. E o Brasil, FHC pode encarar de frente? Leiam o livro do Palmério antes de dar a resposta definitiva.
Narciso recebe Palmério para a entrevista: além de informações, o Senhor X é dono de um impressionante alambique (à esquerda na foto)