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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Giannetti, o Fraga da Marina, promete “tarifaço”, corte na indústria e volta de imposto






Por Fernando Brito, no Tijolaço

Não é à toa que há empresários “repensando” a conveniência de uma “casamento” definitivo com Marina Silva.

Enquanto para os bancos ela promete um mar de rosas, inclusive com o fim do crédito direcionado para o financiamento imobiliário – e também o rural – como aponta Paulo Moreira Leite (cf. página 61 do texto: “reformularemos o mercado de crédito, de tal forma que, gradualmente, se eliminem os direcionamentos de crédito”), para a indústria a proposta de Eduardo Giannetti, seu guru na economia é que as atividades industriais passem por um - palavra dele – “desmame” do Estado.

Tradução: redução ou fim das desonerações tributárias e contração do crédito público, especialmente o do BNDES.

Ou uma tradução ainda melhor (ou pior): desemprego maior no setor que mais vem sofrendo com a crise.

Mas a entrevista de Giannetti, dada ao Valor, reproduzida e comentada pelo Nassif – é igual àquele anúncio de vendas na TV: “isso ainda não é tudo!”.

Ele promete um choque tarifário, sem muita maquiagem: “vale a pena fazer o que precisa ser feito rapidamente. Em relação a preços administrados, por exemplo, se não convencer de que o que tinha que ser feito foi feito, a expectativa do que falta fazer vai alimentar a expectativa de inflação futura, o que dificulta fazer as expectativas convergirem de novo para o centro da meta.”

E acena com a volta da CIDE no preço da gasolina, criada no Governo Fernando Henrique Cardoso e zerada por Dilma. É a mesma proposta feita pelos notórios tucanos Elena Landau e Adriano Pires aos usineiros, como forma de permitir que seus preços continuem a ser competitivos no etanol.

Claro que Giannetti não chega a assumir que isso será um aumento da carga tributária. Diz que outros impostos podem ser retirados, mas não diz quais.

O “guru” econômico de Marina investe contra tudo, menos contra o altar: nem uma palavra sobre o sistema bancário, o grande bezerro a mamar nas tetas do Estado.

Aliás, em matéria tributária, Giannetti deixa mesmo que o folclore de defender um “imposto sobre flatulência animal” – nos moldes da fracassada ideia da Nova Zelândia (leia aqui, na BBC) seja o seu lado heterodoxo.

No resto, a regra é clara: pasto para os bancos, chicote para a produção.

Porque será que fico me lembrando daquela turma de economia que grudou no Collor, louca para fazer o Brasil de “parquinho” de suas invenções?

domingo, 10 de agosto de 2014

O chão mole de Aécio Neves





Por Saul Leblon, no site Carta Maior:



À medida em que a campanha presidencial supera a fase alegre dos consensos, ancorada em sorrisos e manchetes de credibilidade equivalente, o bicho pega.

As pesquisas de intenção de voto exalam um cheiro de queimado e a fumaça ondula na direção do palanque conservador.

Exceto na hipótese de um novo escândalo inoculado pela mídia, a dúvida confidenciada em fileiras de bicudos e graúdos carrega nervosa pertinência.

De onde, afinal, Aécio e assemelhados vão extrair o fôlego que as pesquisas lhes sonegam, se meses e meses de exposição exclusiva e esfericamente favorável na mídia não foi capaz de lhes proporcionar o estirão previsto na preferência nacional?

A partir do dia 19, a propaganda eleitoral abre uma trinca nesse monólogo.

Faz mais.

Temas cruciais para o desenvolvimento brasileiro, como a redução da desigualdade, o futuro do salário mínimo, a desindustrialização, passam a exigir um posicionamento claro de quem pretende chegar competitivo às urnas de outubro.

Na boca de Aécio Neves eles queimam como batata quente.

A dificuldade de discorrer com clareza sobre esses itens revela dois flancos mortais em uma disputa presidencial.

De um lado, a fragilidade de um projeto que não pode se explicar honestamente ao eleitor, sob pena de evidenciar seu conteúdo antissocial .

De outro, o chão mole mais incomodo do palanque conservador: seu próprio candidato. Visto com entusiasmo como um biombo para o regresso dos heróis do mercado a Brasília, o tucano às vezes soa como um piano difícil de escutar e de carregar.

Enredado na teia da dissimulação Aécio Neves tem dificuldades evidentes com a consistência.

Expor como enxerga e de que modo pretende equacionar os grandes gargalos brasileiros é uma tarefa acima de suas possibilidades.

Sua incapacidade de discorrer mais que alguns segundos sobre um mesmo assunto, depois de esgotar o estoque de lugares comuns, começa a constranger as audiências mais receptivas.

Em encontro recente com industriais, promovido pela CNI, o desconforto na plateia era mais denso do que a enorme boa vontade com o jovial neto de Tancredo.

Mesmo lendo, ficou flagrante que debulha uma espiga adversa quando se trata de discorrer sobre o país, seus flancos e suas possibilidades.

Não é sua praia. Aécio é mais afeito à ligeireza do que ao manejo das grandes agendas nacionais.

Lula, que hoje tem o Brasil na palma da mão, faiscava em 2002 uma experiência de vida riquíssima, coisa que o mineiro tampouco possui. Da boca do metalúrgico emergia o arranque sofrido de milhões de personagens e sonhos de um Brasil quase ausente do repertório dominante.

Do esforço de Aécio se ouve uma versão empobrecida da narrativa gordurosa, monótona e burocrática dos editoriais conservadores.

Dilma não tem a vivência popular de Lula. Mas dispõe de uma densidade técnica e intelectual , ademais do domínio e da experiência no manejo da máquina do Estado, da economia e da infraestrutura nacional, que a singularizam de imediato aos olhos do observador isento.

Mas sofre uma restrição séria do ponto de vista dos donos do país:

‘Dilma? Esta não é para amadores. “Não adianta achar que ela vai querer te ajudar. Ela não ajuda ninguém. Você tem que fazer por onde convencê-la que seu projeto se encaixa nas prioridades do governo. Lula era mais sensível a argumentos como o risco de demissões e o esforço na construção de uma solução de consenso. Dilma só cede à racionalidade econômica e republicana”, reclamavam titãs do mercado no jornal Valor, na semana passada (01/08/2014)

Aécio é o próprio jogo. Mas o placar não anda com ele. O discurso linear, desprovido de ênfase, sucedido de improvisos jejunos, revelam cada vez mais a natureza fraudulenta do produto que a mídia vende como sinônimo de ‘mudança’.

A plutocracia não desistirá. As doações jorram.

Não espanta.

Assim ocorreu também na promoção de outro simulacro, em 1989, fruto da mesma determinação omnívora: ‘tudo , menos o PT’.

Nesta 5ª feira, Aécio foi levado pelo impoluto Paulinho ‘Boca’, da Força, para conhecer a classe operária, na zona norte de São Paulo.

O candidato aproveitou o pano de fundo e sapecou uma do estoque de bolso: ‘País vive hoje a maior crise de desindustrialização da sua história’.

Teve o azar de ser cobrado em seguida sobre um tema pedestre: sua política de reajuste para o salário mínimo.

A batata quente fumegou na boca.

‘Vou assumir o governo e, de posse de todas as informações que eu tiver, vou valorizar o trabalhador brasileiro’, arriscou franzindo o cenho como se suplicasse : ‘Emplacou?’ .

Quase na mesma hora, um de seus formuladores, o economista Monsueto Almeida, um centurião da guerra contra o gasto público, dizia à Reuters, por escrito: ‘Se for eleito, o governo Neves terá como objetivo acabar com o populismo monetário (...) e voltar a uma taxa livre de câmbio flutuante’.

O que exatamente significa adotar o câmbio livre num mundo imerso em um dilúvio de liquidez?

Depois de quase sete anos de colapso da ordem neoliberal, os fundos internacionais de investimento e de pensão tem 31% mais dinheiro do que o saldo anterior à crise; uma bolada equivalente a 75% do PIB mundial.

As opções de investimento em contrapartida evoluíram na direção inversa.

Há mais de um ano, o governo brasileiro intervém no câmbio.

É um pouco como enxugar gelo. Mas é indispensável para impedir que o ingresso de capitais especulativos (atraídos pelas maiores taxas de juros do planeta –concessão de Dilma ao mercado aecista) deprimam o valor do dólar.

Caso contrário, as importações matariam de vez a indústria local.

Aí vem o assessor de Aécio. E anuncia o programa do PSDB para a área cambial: a ‘livre flutuação da paridade’, um fermento à desindustrialização .

De novo, o candidato não consegue ou não pode falar sobre o que pretende com o Brasil.

Para um conservadorismo hesitante diante da fraqueza de seu pupilo resta a esperança de torna-lo um adereço ornamental.

‘Aécio delega’, retrucam muxoxos sob um piano que começa a pesar justamente na escalada de uma eleição que entra na etapa da conquista da credibilidade.

É fato: delegar, o mineiro delega. É uma questão de sobrevivência . O problema agora é esconder do eleitor os portadores dessa delegação.

Em caso de vitória, um coringa de estimação dos mercados assumiria as rédeas da economia com carta branca para agir, confidenciam bicudos do PSDB.

Armínio Fraga seria o presidente da república do dinheiro. Aécio o seu suporte legal.

O que Armínio fez ao assumir o BC, em março de 1999, que o credenciou aos olhos da plutocracia para ser esse Napoleão dos bastidores, a mão invisível dos mercados tropicais?

Vale recordar.

Fernando Henrique acabara de ser reeleito para um segundo mandato e decretara uma maxidesvalorização de 30%, em 19 de janeiro de 1999.

O Real fazia água.

Uma semana depois da máxi que esfarelou o engodo da moeda forte, a fuga de capitais havia reduzido as reservas brasileiras a US$ 30 bilhões, o equivalente às da Argentina hoje, denegrida como nação irresponsável pelo colunismo conservador e por fundos abutres.

As expectativas de inflação oscilavam de 20% a 50% ao ano –maior que a da Argentina.

A avalanche inflacionária, cambial e fiscal derrubaria dois presidentes do BC antes de Armínio chegar ao posto, em março.

O que fez então?

Sancionou as fronteiras delimitadas pelo dinheiro no campo de guerra.

A taxa de juro foi fixada em singelos 45% ao ano --hoje está em 11% e é, como de fato é, apontada como asfixiante.

Com Armínio, o BC adotou o regime de metas de inflação: a escalada dos juros tornou-se a resposta à indisciplina dos preços.

Mais que isso.

Armínio deu assim aos detentores da riqueza, que acabavam de perder a ilusória âncora da paridade cambial, um potente escudo de juros para defender o valor real de seu pecúlio.

Liberou o campo desse modo para a maxidesvalorização fazer o serviço que lhe cabia: escalpelar o poder de compra dos assalariados, sem aviltar a riqueza dos rentistas.

Foi assim que se consolidou a transferência da âncora do plano Real, do câmbio, para o juro.

De forma mais simples: Armínio foi o fiador do pacto histórico e carnal entre o PSDB e o rentismo.

E assim Armínio se consagrou como escudeiro do mercado.

O que se espera dele agora é que repita o desempenho se Aécio chegar ao Planalto.

Não necessariamente nessa ordem dos fatores. Mas com poderes até maiores que os da experiência anterior. Poderes de um presidente da república do dinheiro, repita-se.

Ao tarifaço no lombo dos assalariados, preconizado como o start do processo por formuladores tucanos, seguir-se-á uma robusta talagada de juros para salvaguardar –como antes-- os endinheirados do rebote da inflação.

Uma volta extra no torniquete fiscal —‘’um superávit de uns 3% do PIB”— daria à turma do mercado a certeza de que o Estado faria o arrocho necessário para pagar o serviço da dívida.

O dólar flutuante de que fala Monsueto daria o arremate à obra.

Dólar barato abertura ampla às importações = nocaute nas taxas de inflação.

É o que se promete nos salões elegantes onde a conversa é desabrida, quase eufórica.

A que preço sairia o pacote?

Ao preço, entre outros, de uma contração do parque manufatureiro, capaz de deixar saudade ‘na maior desindustrialização da história’ denunciada hoje por Aécio.

O saldo restante seria quitado na forma de desemprego e depreciação salarial, reduzindo de fato o demonizado ‘custo Brasil’.

Por isso Aécio não pode adiantar a sua fórmula de correção do salário mínimo, nem a da correção da tabela do Bolsa Família e outras miudezas sociais.

Restaria apenas uma incógnita colateral: quanto sobraria do país fora do ralo?
Deixados à própria sorte, como advogam os ‘matadores’ à la Armínio, os ‘ajustes de mercado’ empurram a economia para operar à beira do sumidouro.

Ou seja, em condições de baixa demanda efetiva e elevado nível de desemprego.

Sem prejuízo da carteira rentista.

A ração dos juros fica assegurada pela dinâmica de um endividamento público emparedado entre despesas fixas e receita fiscal corroída pela recessão.

O conjunto reúne os ingredientes típicos da receita que levou o mundo ao desastre neoliberal de 2008.

A saber: empobrecimento das famílias assalariadas, desigualdade crescente, decadência industrial, elevado desemprego e a cereja do bolo: déficit fiscal, de um lado, e derrocada dos serviços e investimentos públicos, de outro.

Maiores informações, consultar as contas nacionais da Espanha, Grécia, Portugal e assemelhados. Todos submetidos à mesma terapia acalentada aqui pela turma empenhada no desmonte da incipiente democracia social brasileira.

A ideia que desse necrológio possa brotar uma pujante base exportadora equivale a acreditar que a Faixa de Gaza hoje está mais apta a crescer e a prosperar do que antes dos 28 dias de bombardeios de Israel.

Esse é o angu de caroço temperado nos bastidores da candidatura tucana, que Aécio Neves protagoniza mas não consegue, nem pode, verbalizar de forma palatável

A campanha, porém, ingressa numa fase em que o tucano será instado, cada vez mais, a esclarecer suas propostas para o presente e o futuro brasileiro.

É a hora em que as batatas queimam na boca do conservadorismo.

Pior que isso.

A hora em que o próprio Aécio se torna uma delas.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Poços10: Arrocho quer censurar blog!


A Fel-lha (*), que tem mau hálito porque a bílis apodreceu, publicou ontem (24) que o candidato tucano – até o momento – Arrocho Neves perdeu a terceira tentativa de censurar a internet.

Como se sabe, o Departamento de Imprensa, Propaganda e Censura em Minas é propriedade de Andréa Neves, irmã do Arrocho.

Entre os alvos de Arrocho está o Poços10, que presta um relevante serviço à causa da liberdade de expressão e à sagrada arte do deboche.

Porém, homem público não sofre dano moral.

Eis aqui alguns exemplos do talento do Poços10:



















sexta-feira, 2 de maio de 2014

Rapazes do “FT”, leiam Charles Dickens. Nós somos populistas ou vocês são monstros?





Por Fernando Brito, Tijolaço


Leio que os “sabe-tudo” do Financial Times chamaram de ”passo populista” o aumento de 10% anunciado pela Presidente Dilma Rousseff aos beneficiários do Bolsa-Família.

É preciso traduzir para os que acreditam nos jornalistas econômicos o que isso significa.

R$ 7 reais a mais por mês para a grande maioria, que recebe o valor básico, hoje de R$ 70 mensais. Ou uma moeda de R$ 0,25 por dia, assim mesmo faltando dois dias para completar o mês.

Mesmo os maiores benefícios, que são dados – meu deus! – aos que não têm renda mas tem cinco filhos pequenos e mais dois jovens de 16/17 anos, vão receber 36 reais a mais num mês, pouco mais que um real por dia.

Em nome de cada um destes desvalidos, o Brasil não dá um, mas milhares de passos “juristas”. Por cabeça, paga mais de mil reais de juros por ano aos “homens bons” do capital, na forma de juros, sem que isso provoque críticas do mundo financeiro, exceto por ser ainda pouco.

Será que os “meninos” do Financial Times leram o grande Charles Dickens, um dos orgulhos da literatura inglesa?

Se não, trago um trechinho, para que lhes arda a consciência, daexcelente tradução de Machado de Assis.

Os membros do conselho da administração eram homens profundamente filósofos. Examinaram o asilo da mendicidade e descobriram repentinamente aquilo que os espíritos vulgares nunca chegaram a descobrir; isto é, que os pobres nadavam em prazernaquele estabelecimento. As classes pobres, no pensar daqueles senhores, tinham ali uma casa de recreio, uma taverna em que não se pagava nada, almoço, jantar, chá e ceia — em suma um verdadeiro paraíso de tijolos onde se gozava de tudo sem trabalhar. 

— Olé — disse o conselho consigo —, vamos pôr estas coisas em seus lugares; vamos acabar com isto.

Imediatamente estabeleceram como princípio que os pobres pudessem escolher (não se forçava ninguém) uma destas coisas: ou morrer de fome lentamente se ficassem no asilo, ou morrer de repente se saíssem para a rua. Para este fim contratou o conselho com a administração das águas uma quantidade ilimitada delas e com um mercador de trigo a remessa de um pouco de farinha de aveia em períodos determinados; concederam três pequenas rações de mingau por dia, uma cebola duas vezes por semana e a metade de um pão nos domingos.

(…)

A princípio foi um pouco dispendioso o tal sistema; era preciso pagar mais a empresa funerária e apertar a roupa dos pobres que emagreciam descomunalmente depois de uma semana ou duas de mingau; mas o número dos habitantes do asilo de mendicidade 
diminuiu muito e os administradores estavam no sétimo céu.

Os nossos “membros do conselho de administração”, como o pró-homem de Aécio Neves, Armínio Fraga, que acha que os salários estão muito altos, deveriam receber um livrinho do Dickens.

Talvez, para gastar menos, pudessem assistir á versão cinematográfica, de Roman Polanski, porque talvez achem meio “arcaico” ler romances.

Um ou outro, que seja, para doer em suas almas, se as têm, “medidas impopulares” que sugerem.

Quanto a nós, que lendo ou não lendo Dickens, não aceitamos ver seres humanos passando fome, temos de perder o medo de dizer-lhes o que são, os “anti-populistas” que conseguem ter a coragem de reclamar de uma moedinha a um miserável.

Dizer-lhes que são monstros.